Blog do Juarez

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Um novo olhar sobre o 13 de maio

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Se você é brasileiro e já era adulto na virada para o século XXI, de certo fez vários trabalhos e cartazes escolares sobre o 13 de maio, talvez teatrinhos ou mesmo tenha participado de festividades e solenidades alusivas à abolição da escravidão no Brasil ocorrida no 13 de maio de 1.888 .

Alguns notaram, outros não, que nos últimos anos isso tem mudado e bastante. O 13 de maio perdeu força enquanto data comemorativa vinculada à população negra. Sendo paulatinamente evidenciado em seu lugar o 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, homenageando Zumbi do Palmares. No entanto o 13 não foi simplesmente desvalorizado ou descartado pelos movimentos de negritude e pelo poder público, ele foi resignificado e passou a ter outras funções que não a comemoração da abolição (mal contada e mal feita).

Através de diversas leis fomentadas pelos movimentos de negritude, a data ganhou novas motivações e intenções, mas basicamente aproveitando uma tradição da Umbanda, religião de matriz africana que vincula o 13 de maio aos pretos velhos, espíritos iluminados de antigos escravos que se manifestam e trabalham pelo bem promovendo aconselhamentos e curas, transformou o 13 em dia das religiões de matrizes africanas, mas não apenas, a denúncia do racismo e exigência de reparações também.

Abaixo alguns exemplos:

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Enfim, apesar das diversas oficializações como datas “comemorativas”, na verdade o espaço foi políticamente marcado como de visibilização e reflexão/conscientização e não mais como uma ode à “bondade da princesa” e “marco definitivo da igualdade”, aliás no Amazonas a abolição ocorreu 4 anos antes do 13 de maio, no 10 de julho de 1884, ou seja, era um processo nacional irreversível e produto de uma luta com muitos atores, incluindo os próprios negros.

Para mim a data também guarda significado especial, foi nela em 1.988, o centenário da abolição, que fiz a minha estréia oficial como ativista da causa negra, sendo orador oficial na sessão especial da Câmara Municipal de Pindamonhangaba, já naquela primeira fala pública, desviei a esperada homenagem à princesa e ode à “igualdade” nascida há então 100 anos, para um crítico e ácido discurso crítico que foi inclusive à sistemática tentativa de eliminação dos negros via guerra do Paraguai…, teve gente embasbacada com as denúncias de que o 13 era quando muito um começo mas não um fim,  e até lágrimas…, ano que vem, ainda estando no planeta, serão 30 anos de luta.

 


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DNA como “definidor” de origem, questionamentos

Tenho altas reservas quanto a questão dos testes de DNA como “definidor” de origem, por vários motivos:

1º Porque o teste é de matrilinhagem, ou seja, indica marcadores de origem da ancestral mais antiga (milhares de anos atrás).

2º Isso desconsidera as migrações em África, as contribuições genéticas paternas, a miscigenação interafricana, ou seja, o fato de ter a ancestral mais antiga com marcadores equivalentes a uma determinada população, não indica que aquela população se encontrava originalmente naquele território ou que não tenha tido miscigenação com outros grupos, muito menos, que ao serem traficados para a diáspora os ancestrais majoritariamente estivessem ainda naquele grupo.

3º Desconsidera que já na diáspora a miscigenação entre africanos e entre descendentes continuou, ou seja, pouquíssimo provável encontrar um descendente de africanos na diáspora, que não tenha de fato múltiplas origens étnicas (isso só pela parte africana, sem contar a europeia e indígena).

Ou seja, é ilusão achar que o teste genético te remete “à sua origem”, na verdade te remete a uma das muitas origens, mas não todas e muito menos serve para te “excluir” destas; ainda vejo como mais relevante o contexto histórico geográfico dos grandes grupos desembarcados em determinadas regiões X a relação familiar com essas regiões.

Em suma, se fosse para um afrobrasileiro ter direito a reivindicar uma segunda nacionalidade africana, deveria ficar em aberto para escolher entre os diversos países de onde se traficaram escravizados, lembrando que nem todos provinham da mesma região em que foram embarcados, mas pelos grupos étnicos que chegaram dá para saber aonde se encontram atualmente em África.

Eu por exemplo sou de família mineira, afromineiros são predominantemente de origem Bantu (de Angola ou de Moçambique), fiz “o teste do visual” in loco, quando morei em Moçambique, sou tão visivelmente Bantu que fui “perdido” no aeroporto na chegada, por me acharem moçambicano e terem me ignorado, ninguém me notava estrangeiro até eu abrir a boca, até a polícia local me abordava como a qualquer um pedindo documento de identificação na língua local, ficavam espantados quando descobriam que eu era brasileiro… .

Detalhe, os africanos sabem muito bem reconhecer grupos étnicos diferentes dos seus próprios, ou seja, um nigeriano “não se passa” por moçambicano, nem um senegalês é visualizado como angolano.

Ver matéria que deu origem à reflexão:

Versão cinematográfica da série de TV e do projeto de mesmo nome, o documentário “Brasil: DNA África” mostra um passo fundamental na recuperação…
www1.folha.uol.com.br


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Diretório dos índios do Marquês de Pombal : ou quando se acirrou a diferença social entre nativodescendentes e afrodescendentes no norte do Brasil.

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O presente texto tem como objetivo esclarecer de forma sucinta e simples, conceitos básicos e históricos relativos ao entrelaçamento da população indígena e da de origem prevalentemente indígena desetinizada e/ou miscigenada (referenciada popularmente como parda de origem indígena ou “cabocla”), com a população afrodescendente (descendente de africanos  independente de fenótipo característico ou miscigenado) sob o manto comum de população “negra”  no norte do Brasil, bem como, das tentativas de desentrelaçamento, identificar a origem das trajetórias de diferenciação dos lugares sociais e condições de mobilidade social particulares de cada um dos grupos a partir de lei real  datada de 7 de Junho de 1755, tratando de ordenamento de relações estatais e sociais nas “Povoações dos Índios do Pará, e Maranhão” (regiões administrativas coloniais que à época concentravam os territórios de outros atuais estados da região norte como o Amazonas e do nordeste como o Piauí e Ceará).

Para notação mais clara, passo a utilizar o termo nativodescendente para designar genericamente tanto indígenas quanto descendentes miscigenados ou sem etnia autodefinida e somente indígenas quando o contexto indicar o sentido corrente do termo, cabe lembrar também que o termo NEGRO, passou a ser utilizado por introdução dos espanhóis a partir do século XVI com o sentido de escravo/escravizado, sendo aplicado a todos em tal situação (tanto para africanos quanto para indígenas americanos).

Por economia textual  e para conscisão, remeto as informações referentes ao Marquês de Pombal e sua relação com a administração do estado português e sua então colônia brasileira e a questão indígena  para hipertexto (texto externo).

O início da questão

De conhecimento amplo é o fato que durante a colonização do Brasil, os primeiros escravizados para fins de mão de obra, foram os nativos brasileiros (ou simplesmente índios) cuja abolição oficial da escravidão veio em três episódios, em 1o de abril de 1680 (através de lei real, na realidade inócua), em  7  de junho de 1755 (a já citada lei tratando do Pará e Maranhão) e finalmente, em 1758 a medida foi estendida por alvará para o então Estado do Brasil, até então era comum os indígenas escravizados serem referenciados por “Negros da Terra” ou simplesmente Negros, referência também utilizada entre o próprios escravizados.

A utilização de mão de obra africana escravizada na América começou por volta de 1550 (segundo alguns historiadores por volta de 1570 no Brasil), ou seja, por mais de 180 anos, foram “Negros” tanto os africanos  e descendentes quanto os indígenas e descendentes escravizados no Brasil ( obviamente com natural miscigenação entre os dois grupos…), portanto, apesar de ser corrente a interpretação de que Negros seriam os descendentes dos africanos escravizados, há bom espaço conceitual e histórico para “encaixar” na população negra (ou simplesmente descendente de escravizados) a descendência dos ” Negros da terra” , ou seja, a população parda de origem indígena (os populares “Caboclos”), do ponto de vista sociológico, e apesar dos fatores de diferenciação na mobilidade social que serão explanados adiante, os indicadores sociais e vicissitudes da maioria dessa população não difere razoavelmente da maioria da população afrodescendente, sendo inclusive para fins afirmativos não desagregada da população negra.

A encruzilhada

Se até meados do séc. XVIII  Negros africanos (juntamente com os “crioulos”, negros aqui nascidos) e Negros da Terra, seguiam uma trajetória social relativamente comum, seguidos a certa distância pelos Índios que resistiam à escravização e maiores contatos com a sociedade envolvente (sendo por tal paulatinamente exterminados), em tal ponto se dividiram em três direções distintas, os afros seguiram escravizados e desprovidos de cidadania, os indígenas assimiláveis às regras “civilizatórias” impostas pela coroa e os antigos negros da terra ganharam cidadania e foram incorporados com respeitos à sociedade envolvente, enquanto os indígenas resistentes à assimilação, passaram a ser vistos como completamente inúteis aos interesses da sociedade branca, além de “entraves” à expansão das fronteiras de colonização e exploração de recursos naturais, portanto alvos naturais de extermínio e expropriação (situação que apesar da atual proteção do estado, permanece atualíssima).

Neste ponto é interessante e esclarecedor a leitura do seguinte trecho da Lei real de 1755 (com a linguagem e grafia originais da época)  que mudou a situação de indígenas assimiláveis e descendentes perante a sociedade :

“10  – Entre os lastimosos principios, e perniciosos abusos, de que tem resultado nos Indios o abatimento ponderado,  he sem duvida hum delles a injusta, e escandalosa introducçaõ  de lhes chamarem NEGROS ;  querendo talvez com a infamia, e vileza deste nome,  persuadir – lhes,  que a natureza os tinha destinado para escravos dos Brancos, como regularmente se imagina a respeito dos Pretos da Costa de Africa.  E p orque, além de ser prejudicialissimo á civilidade dos mesmos Indios este abominavel abûso,  seria indecoroso ás Reáes Leys de Sua Magestade  chamar NEGROS a huns homens,  que o mesmo Senhor foi servido nobilitar,  e declarar por isentos de toda, e qual quer infamia,  habilitando- os para todo o emprego honorificoNaõ consentiraõ os Directores daqui por diante,  que pessoa alguma chame  NEGROS aos Indios,  nem que elles mesmos usem entre si deste nome  como até agora praticavaõ;  para que comprehendendo elles,  que lhes naõ compete a vileza do mesmo nome,  possaõ conceber aquellas nobres idéas,  que naturalmente infundem nos homens a estimaçaõ, e a honra.  ”  (Apud ALMEIDA , 1997)

Os desdobramentos

Pela leitura do trecho anterior, não fica difícil imaginar os desdobramentos de tal ato,  a saber : a instalação de generalizada mentalidade de “superioridade” do índio e de seus descendentes “caboclos” em relação aos negros (naquele momento passados a ser considerados apenas os afros), o reforço da estigmatização do negro e da “necessidade” de rejeitar por todos os meios tal “pecha”, uma maior aceitação e mobilidade social do nativodescendente, o surgimento da tradição popular de invisibilização  e negação da presença negra na região,  a geração de um grande intervalo temporal e diferença de condições iniciais da trajetória de nativosdescendentes e afrodescendentes enquanto livres cidadãos (com óbvias consequências no rankeamento social atual de ambos aos grupos).

Hoje a população autodeclarada preta e parda na região diretamente atingida pelo ato pombalino de 1755 é a seguinte :

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FONTE: IBGE CENSO 2010

Interessante observar que no Ranking (RK) nacional os 3 estados com maior população autodeclarada parda estão na região, assim como os dois de maior população indígena, apenas Maranhão e Piauí aparecem entre os 4 com maior população autodeclarada preta e Pará (tido como uma das grandes portas de entrada e fixação de escravos na região) ocupa a a 11ª posição e o Amazonas (em cujo o estado a presença negra sempre foi tradicionalmente negada e invisibilizada) ocupa a antepenúltima posição nacional em pretos autodeclarados, interessante observar que apesar de reconhecida “naturalmente” como terra  “predominantemente indígena ” ocupando a segunda posição no ranking nacional relativo a tal população, possui em termos percentuais empate estatístico com o percentual de autodeclarados pretos (estes como já dito, tradicionalmente invisibilizados e negados na composição étnico-racial do estado).

 A se seguir porém  o critério do IBGE (utilizado desde 1872 no primeiro censo brasileiro) que agrega pretos e pardos na população negra, Amazonas e Pará seriam os dois estados de maior proporção populacional negra… coisa que faria total sentido se baseado no conceito apresentado de população negra como descendente de escravizados e não apenas afrodescendente, o que gera porém uma grave imprecisão de origem e  pertença da população regional.

De fato e perceptível empiricamente, constata-se que a grande maioria dessa população (mas não toda ela) autodeclarada parda possui traços indígenas e não africanos, ao mesmo tempo que seguindo o preconizado na lei do diretório pombalino, introjetada e repassada de geração em geração, rejeitam a associação estigmatizada com “Negro” ou como parte da população negra, e não podendo se colocar como indígenas (esses etinizados) nem como brancos, reconhecem a origem indígena (a marca, presente no fenótipo) mas em geral reforçam, valorizam e reivindicam uma identidade “cabocla” não necessariamente acoplada  exclusivamente ao fenótipo mas principalmente uma cultura caldeada e característica da região amazônica.

A solução para tal impasse a nosso ver,  e sem ferir os princípios que norteiam a moderna pesquisa de populações e políticas públicas, surgiria com a reformulação das categorias censitárias para as de ancestralidade geográfica (nativodescendentes [etinizado/ desetinizado] , eurodescendentes, afrodescendentes e asiaticodescendentes), emprestando assim maior precisão à  pesquisa censitária e todos os desdobramentos.

A conclusão

Diante do exposto ficam aclaradas algumas situações características à região norte do Brasil no tocante a temática e que sem maiores complementos também pode ser estendida ao restante do país, a trajetória dos nativodescendentes assimilados, após o ato pombalino foi bastante facilitada e estabeleceu as condições para que hoje os mesmos estejam bem distribuídos ao longo de toda a pirâmide social (nacional e regional), coisa que ainda não ocorre com a população afrodescendente, majoritariamente concentrada na base da pirâmide e iniciando deslocamento massivo para o centro.

Referências

ALMEIDA, Rita Heloísa de. O Diretório dos Índios: Um Projeto de “Civilização” no Brasil do
Século XVIII. Brasília , UnB, 1997.

Brasil Escola . Reformas Pombalinas


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A melhor lição de Avatar (Em defesa das religiões brasileiras de matriz africana)

21/07/2010
A melhor lição de Avatar

Em defesa das religiões brasileiras de matriz africana

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JEAN WYLLYS

O mundo representado em Avatar – filme de James Cameron – não está tão além de nossa imaginação como alguns afirmam. Existem povos e pessoas que mantêm, com a natureza, relação semelhante à do povo Na’vi (os humanóides habitantes do planeta Pandora). Os indígenas e os adeptos do candomblé são alguns desses povos e pessoas. Por ignorância ou falta de repertório cultural, a grande maioria dos milhões de brasileiros que têm ido ao cinema assistirem ao filme não consegue fazer tal comparação. Por isso mesmo, é importante que ela seja feita aqui e agora e que seja explorada ao máximo por professores dos ensinos fundamental e médio, sobretudo neste momento delicado em que terreiros de candomblé de Salvador vêm sendo atacados por criminosos e/ou “demonizados” por cristãos fundamentalistas e por uma mídia igualmente ignorante (aliás, em Avatar, o povo Na’vi é também atacado e vítima de preconceitos e tem seu “terreiro” destruído por armas e ferramentas).

Para os adeptos do candomblé, a natureza é viva e, dela, fazemos parte; a ela, estamos conectados profundamente. Identificar os orixás (ou inquices ou voduns ou, como quer o sincretismo religioso, santos) de uma pessoa é reconhecer as forças da natureza às quais ela está conectada; os elementos da natureza e da vida cotidiana que constituem seu axé, a força sagrada da vida. Exu são os caminhos e o movimento, o sangue e sêmen; Iemanjá são os mares, calmos ou bravios; Iansã são os ventos fortes e os raios, mas, também a brisa leve; Ogum é a guerra e é a paz; Omolu é a doença e a cura; Oxum é a água doce e a fertilidade; Oxóssi são as matas; e por aí vai…

Desespero semelhante ao do povo Na’vi diante da derrubada grande árvore pode ser visto em terreiros cuja gameleira de fundação morre ou tomba. A ialorixá ou babalorixá e seus filhos choram a morte da árvore que representa o tempo, o tempo do próprio terreiro. A cena em que uma na’vi ensina o avatar a sacrificar o animal que servirá de alimento de forma “limpa”, quase indolor, representa bem a maneira como animais são sacrificados em rituais do candomblé. Ao contrário do que os ignorantes e preconceituosos propagam, não há crueldade em nenhum dos sacrifícios rituais do candomblé realizados com animais. A razão do ritual é alimentar a família do terreiro, inclusive os pais e as mães ancestrais que estão na origem de tudo, os orixás. E o povo de terreiro, assim como o Na’vi, sabe agradecer à natureza pelo alimento que lhe matem vivo; ao contrário daqueles hipócritas que, embora condenem o candomblé pelo sacrifício ritual, consomem diariamente quilos de carne animal sem se perguntar sobre os métodos utilizados para o abate de bois, carneiros, bodes, aves e peixes; certamente não deve haver qualquer cuidado.

E já que o assunto é sacrifício ritual, que fique claro de uma vez por todas que nunca houve e não há em nenhuma das chamadas “religiões de matriz africana” ritual envolvendo sacrifício de vida humana, seja qual for sua faixa etária. Portanto, a imprensa tem a obrigação de não associar o estarrecedor episódio das agulhas enfiadas no menino ao candomblé ou a qualquer outra religião de matriz africana. Os rituais do candomblé não têm nada a ver com aquele crime ou com qualquer outro! Os rituais são apenas meio de reverenciar a natureza e de solicitar sua ajuda, assim como o é aquele ritual Na’vi para devolver a vida à pesquisadora interpretada por Sigourney Weaver. O candomblé não sacrifica vida humana, principalmente a vida de um erê. E ainda que a acusada de enfiar as agulhas na criança afirme ser “mãe-de-santo”, não se pode condenar o candomblé como um todo, pois, quando um médico ou um pastor ou um padre comete crimes a imprensa não condena toda medicina nem todo cristianismo.

Os modos de vida do povo Na’vi não são, portanto, frutos da imaginação criativa de James Cameron. O diretor certamente se inspirou em tratados antropológicos sobre povos que têm a natureza como algo sagrado; como uma “Grande mãe”; e, entre esses povos, estão os nossos indígenas e o povo de terreiro. Assim, aos que poluem, desmatam, profanam terreiros ou demonizam os orixás, eu deixo a melhor lição de Avatar: o que natureza deseja sempre é manter seu equilíbrio, mesmo que, para tanto, ceife algumas vidas; a gente fala, mas, a última palavra é dela!

Jean Wyllys é foi eleito Deputado Federal pelo PSOL no estado do Rio de Janeiro.

Fonte: http://redeafrobrasileira.com.br/profiles/blogs/a-melhor-licao-de-avatar-em


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Deu no CBN Manaus…

Assim como muita gente, é meu costume ouvir diariamente todas manhãs  o programa  noticioso  de rádio capitaneado pelo Ronaldo Tiradentes  e  Marcos Santos, sempre ao estilo característico e bem-humorado da dupla.

Hoje porém, duas notícias (e comentários) me chamaram a atenção…, e como de praxe não poderia deixar de dar meu pitaco e recadinho aqui pelo blog (já que nesses tempos de comunicação bidirecional, os caros radialistas eventualmente também “acompanham” ou visitam as mídias dos ouvintes 🙂 ).

A primeira notícia tratou do assasinato em assalto de um policial civil que fazia “bico” como segurança de transporte de valores (aproveitamos para nos solidarizar com a família e colegas pela fatalidade) ;  na matéria o repórter ao perguntar para o irmão da vítima sobre as visitas ao velório e o apoio que a família estava recebendo das autoridades etc…, inquiriu se “os Direitos Humanos” tinha aparecido ou se manifestado…; obvia e compreensivelmente dado o contexto , recebeu entre as informações o velho discurso anti-DH e que “se fosse um bandido” etc…  .

Não sei se foi ingenuidade ou “marronzismo” do repórter, mas só para esclarecer:  DIREITOS HUMANOS, não é Polícia, não é  Ministério Público, não é Judiciário, não é Corregedoria/ouvidoria,  não é Defensoria pública,  não é Defesa Civil,  Conselho Tutelar,  muito menos  SERVIÇO SOCIAL …;  não faz parte de suas atribuições (mesmo quando instância instalada em estrutura pública, como um Conselho Estadual) se manifestar ou “apoiar” familiares ou vítimas de todo e qualquer crime comum… (muito menos  “apoiar bandido” como costumam dizer) ;  a ação dos ativistas e orgãos dos Direitos Humanos  é de fiscalização  e mediação no cumprimento do previsto  na DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS,  é esperada ou exigida nos casos em que :

a) Agentes do estado exorbitam ou se abstem de seus poderes ou deveres e descumprem o previsto na Declaração Universal dos Direitos Humanos (e  nos limites legais de sua atuação) .

b) A ação criminosa ocorre por motivações relacionadas diretamente a questões de Direitos Humanos (Intolerâncias diversas como a religiosa, xenofobia, racismo, sexismo, homofobia, perseguição política e/ou ideológica, etc  )

c) Há necessidade de mediação de conflitos em que se apresente riscos à vida e dignidade humana.

Seria portanto compreensível a manifestação/atuação “dos Direitos Humanos”  em rebeliões carcerárias, crimes contra minorias e ativistas sociais, ações contra a vida e dignidade humana praticados por agentes do estado em desconformidade com a previsão legal,  fiscalização de condições de encarceramento,  mediação de conflitos agrários, acompanhamento/apoio  à  refugiados  e coisas do gênero;  para outras situações (como no caso  do assasinato do policial em crime praticados por bandidos comuns) a intervenção esperada é a das instâncias citadas anteriormente (que em geral também podem (ou devem) ser acionadas nos casos de violações aos Direitos Humanos), o direito à vida faz parte dos Direitos Humanos,  porém bandido não respeita isso…  e justamente por isso é que são bandidos…; coisa que não deve ocorrer com quem em tese tem  consciência e obrigação de defender a lei e a vida (seja de quem for).

Quanto a segunda notícia se tratava da vitória da Miss Angola no concurso Miss Universo; nos comentários os nossos caros radialistas  com seu humor azeitado, aproveitaram para levantar a questão da dúvida com relação ao termo a utilizar para a referência “etnico-racial”  da bela africana;  se  era negra, afrodescendente ou africana ? ;  pois bem,  a diferença de termos existe não por modismo ou hipocrisia…, para esclarecer vai aqui a dica:

1- O termo Negro(a) passou a ser utilizado pelos portugueses (copiando os espanhóis, que não tem a palavra preto) a partir da conquista do “novo mundo”  com o sentido de ESCRAVO,  era aplicada tanto aos africanos quanto ao indígenas escravizados (no Brasil colônia os índios eram chamados NEGROS DA TERRA);  mais tarde o termo passou a definir  apenas os africanos escravizados e seus descendentes desde então,  se aplica corretamente apenas à diáspora,  não aos africanos (que em maioria são apenas pretos (que é cor da pele) , não negros (origem escrava)) .

2- O termo AFRODESCENDENTE foi adotado na redação oficial da ONU, a partir de 2003 para substituir a palavra NEGRO, traz como vantagens a eliminação do equívoco recorrente de utilizar preto e negro como sinônimos; eliminar a questão da  confusão por matiz de pele (é aplicável a negros de cor preta  e  aos miscigenados), retira o antigo e equivocado viés  biológico de “raça”  (branco, negro, amarelo e vermelho) substituindo-0 pela ancestralidade geográfica .

As pessoas com padrão fenótipico africano “padrão” e nascidas na África, são corretamente referenciadas por  pretas ou simplesmente africanas (obs. os angolanos em especial e ao contrário dos outros africanos preferem ser referidos por negro, ao invés de preto,  assim como os brasileiros) .

Para finalizar…, “pelamordedeus” Ronaldo, quando for para falar sobre questão negra, etc,  por favor !   esqueça tudo que o Agnaldo Timóteo disser .. dali só sai bobagem… :-).


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Os "chifres" do Sr. Presidente e a poligamia

 

Zuma e esposa


Presidente Zuma e suas esposas, a primeira da esquerda para direita é Nompumelelo Ntuli

Mais do que a abertura da copa do mundo de futebol 2010, na África do Sul, as atenções por lá e agora por aqui, tem sido direcionadas para  a notícia do adultério praticado com um dos seguranças presidenciais por uma das primeiras-damas do país (Nompumelelo Ntuli, a segunda das 3 atuais esposas do Presidente sul-africano Jacob Zuma de 67 anos), que inclusive teria engravidado do guarda-costas Phinda Thomo (que se suicidou após a história toda vir a tona).

Zuma que é do grupo étnico (tribo) Zulu, é um ferrenho defensor dos costumes tradicionais dos Zulus, entre eles a poligamia;  casou 5 vezes e tem cerca de 20 filhos reconhecidos; divorciou-se de uma das esposas  e ficou viúvo de outra (que se suicidou após 24 anos de casamento) ; além das 3 atuais esposas Zuma tem também uma “noiva” com quem tem anunciado pretensão de casamento para breve.

Antes de qualquer coisa acho justo lembrar que “chifre” é uma coisa extremamente democrática, atinge poderosos, pobres, poligamos, monogâmicos, pretos, brancos, asiáticos, indígenas, gente de todos os credos,, heterosexuais, homosexuais, jovens, velhos, bonitos, feios  e até quem não é casado…,  portanto nada de querer fazer a automática ligação de poligamia ou  de amantismo com “bem merecidos chifres”… , como dizem os norte-americanos “Shit happens…”

Ao invés de apenas repercutir  o caso ou  fazer comentário sobre a situação específica, achei que seria uma ótima oportunidade para falar sobre uma questão cultural não apenas africana, mas histórica e mundial, que é a poligamia (e que sempre achei um assunto muito interessante…).

A poligamia, que é a composição familiar tipicamente patriarcal a partir do casamento de um homem com várias mulheres, é coisa natural e antiga, remonta à  mais longíqua antiguidade e está (ou esteve) presente na base de todos os povos e culturas do mundo.

Quando se fala em poligamia, a primeira imagem que vem à mente, são os misteriosos e vigiados haréns de mandatários árabes, mas na realidade essa prática de muitas esposas e concubinas reais ocorreu em muitos outros povos, aliás não apenas reis e outros poderosos praticavam a “poligamia oficial” , pessoas “comuns” também, mas é certo que para tal, a condição básica sempre foi a capacidade provedora suficiente do homem, ou seja, se poderia ter a quantidade de mulheres e filhos que se aguentasse sustentar… .

Na natureza (entre os mamíferos)  a  “familia poligama” é o padrão na maioria das espécies, o chamado macho-alfa é o lider do grupo, sendo o único sexualmente ativo naquele grupo familiar, os que quiserem constituir familia própria tem que desafiar  e vencer em luta  o macho-alfa do próprio grupo ou   de outro, tomando então todas as fêmeas  para si  (The Winner takes All…), o interessante é que as fêmeas não brigam entre si por “exclusividade”  e também não aceitam sexualmente  outros machos que não o macho-alfa.

Só para lembrar aos que entendem a poligamia como sinônimo de atraso ou que por motivos “religiosos” e culturais a recriminam, temos nas bases da religiosidade e da cultura ocidental vários exemplos de lideranças e referências  morais” que eram  poligamas :

Na Bíblia: praticamente todos os patriarcas eram polígamos; O Rei Davi  era um reconhecido mulherengo e seu filho Salomão (o rei-sábio) tinha mais de 700 esposas e mais 300 concubinas…, isso é fato, embora muitos tentem justificar através de muitas outras citações que tal comportamento não era “bem visto” por Deus e deveria ser “convenientemente” substituido pela monogamia.

No oriente: Gregos, Romanos, Hindús, Babilónios, Persas, Árabes, Chineses, Nipônicos e muitos outros povos praticaram históricamente a poligamia,  coisa ainda muito comum em alguns países mesmo não havendo poligamia oficializada, a China por exemplo com todo o controle estatal exercido e apesar de ter proibido a poligamia no inicio do período comunista, ainda hoje se vê as voltas com casos de poligamia não oficializada mas de fato… .

Na europa pré-cristã:  até por volta do primeiro milênio da era cristã (séc. X) era comum a poligamia, que  somente a muito custo deixou de ser aberta e oficializada pelos estados recentemente convertidos ao cristianismo.

O islamismo:   segunda religião mais professada no mundo (21%) e  que hoje não se restringe apenas ao povos árabes e descendentes, mas está espalhada por todo o mundo  (segundo as autoridades islâmicas só no Brasil,  há mais de  1 milhão de adeptos), admite a poligamia com até 4 esposas.

Cristãos : entre os mesmos a poligamia institucionalizada ou  de fato também  já foi muito praticada, inclusive houve papas casados (o último papa casado foi Adriano 2º (867 – 872).) que mantinham concubinas ; mesmo sem casamento a prática de relacionamentos “estáveis e duradouros” com várias mulheres  persistiu algum tempo, por exemplo o Papa Alexandre 6º (Rodrigo Bórgia – 1.492 – 1.503),  tinha 6 filhos…  ;  nos EUA entre os conhecidos Mórmons (Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias) a prática da poligamia foi natural por mais de 100 anos tendo sido abolida oficialmente em 1890,  porém ainda hoje grupos dissidentes como a Igreja Fundamentalista de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, possui na região de UTAH e redondezas,  cerca de 40.000 membros que se recusam a abandonar a prática (não oficializada obviamente).

Em várias outras partes do mundo e da história, a poligamia se fez e faz presente, na África muitas etnias mantém a tradição, na Suazilândia (última monarquia absolutista do mundo, país encravado dentro da África do Sul e fronteiriço com Moçambique) o Rei tem mais de 30 esposas (e todo ano há um festival para escolher mais uma…); nos antigos reinos da região havia desde há muito tempo a figura do “assistente real”, que nada mais era que um “ricardão oficial” que “fazia a manutenção” das esposas que o Rei já não visitava mais com frequência, o detalhe é que uma vez atendida pelo assistente, nunca mais a esposa voltava ao leito real, mas continuava esposa… .

É importante frisar que ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, a poligamia tem regras rígidas que exigem responsabilidade do homem e tem servido para evitar que mulheres e crianças fiquem desprovidas de direitos e dignidade familiar, no ocidente hipocrita o que se pratica é o AMANTISMO…, que é nada mais nada menos, que o relacionamento de um homem com várias mulheres onde apenas uma é  esposa, por vezes constituindo famílias paralelas, mas de forma dissimulada e infâme, mantendo mulheres e filhos ilegítimos na clandestinidade; a lei brasileira por exemplo ampara o filho ilegítimo que tem a paternidade reconhecida legalmente (de forma voluntária ou compulsória), mas não reconhece qualquer direito à concubina de homem já legalmente casado.

Para finalizar deixo uma recomendação para uma leitura envolvente sobre o tema, um dos meus livros favoritos,  o romance  da escritora moçambicana Paulina Chiziane : Niketche, uma história de poligamia (tem na livraria Saraiva e dá para comprar pela Internet), é um livro daqueles imperdíveis que além de desvendar várias facetas do comportamento humano nos faz viajar conhecendo detalhes de outras culturas. ver a resenha em : http://www.irohin.org.br/imp/n10/36.htm


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Quem é de Axé diz que é !

Essa é a campanha que está sendo lançada hoje pelo CEN-Coletivo de Entidades Negras liderando várias outras entidades de negritude e religiosidade de matriz africana de todo o país, em parceria com a SEPPIR-Secretaria Especial de Políticas de Promoção de Igualdade Racial da Presidência da República e outros orgãos governamentais.

A ideia é conscientizar os adeptos das religiões de matriz africana a se declararem de acordo com a sua prática no Censo de 2010, já que é comum a declaração como "católicos" ou a não declaração, fruto de secular processo de estigmatização da religiosidade de matriz africana.

Com isso pretende-se um efeito AFIRMATIVO na auto-estima dos praticantes, na relação da sociedade em geral com as religiões dessa matriz e uma visibilidade censitária passível de utilização por exemplo em políticas públicas.

Vide: Coletivo de Entidades Negras: Lançamento da Campanha Quem é de Axé diz que é!

Me antecipando estou fazendo minha autodeclaração por aqui 🙂

Religião ? : CANDOMBLECISTA  (nação KETO) !

Por falar nisso, ontem a casa de Axé que frequento ganhou novo endereço, saiu do bairro da praça 14 onde esteve por mais de 3 décadas e se instalou na zona leste da cidade próximo à avenida grande circular, por sinal muito bem instalada (faltando alguns detalhes, mas já "operacional")  em um grande espaço, especialmente projetada e com um belíssimo visual (obra de artistas parintinenses) , Parabéns aos Pais  Jean de Xangô e Rodrigo e a todos os filhos da casa que trabalharam muito para tornar o sonho em realidade .

Detalhes da pré-inauguração da novas instalações.

Coincidência ??? : Eu e (coincidência 1) agrupados representação dos meus dois Orixás (raridade 1: ambos femininos) Oxum (Ajutó) e Yansã ( cabeça), acima está Xangô, Orixá da Justiça…(coincidência 2, trabalho na Justiça…) e que na mitologia Yorubá é justamente marido das duas…,(coincidência 3) portanto estão sempre juntos… (coincidência 4), causando uma  "proteção tripla" e em família…(raridade 2) :-), por acaso os 3 são os Orixás mais "sexys"  do panteão yorubá,  e  consequentemente os filhos de qualquer um dos três, são  por natureza pessoas sexys e "irresistíveis", mas sendo "filho da família toda" (raridade 3)  ai é covardia… 🙂 🙂

Pois é…, QUEM É DE AXÉ DIZ QUE É !