Blog do Juarez

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CAXIAS E O MEDO BRANCO.

No 25 de agosto, Dia do Soldado, homenagem à data de nascimento do patrono do Exército, uma reflexão um pouco “diferente”.

Caxias se notabilizou por ter “pacificado” (termo militar para a neutralização pela força/violenta) várias revoltas populares, muitas com base e alta participação negra, além de grande comandante da Guerra do Paraguai. Em tese a “manu militari” serve ao poder constituído de um Estado, garantindo seus interesses e suas políticas de defesa (eventualmente de conquista) e manutenção da ordem, é portanto essencialmente patriótica, apesar disso não significar sempre algo “moral, ético e humanitário”, pelo contrário, ainda mais visto à distância no tempo. Pouco lembrado é o episódio vil de traição e massacre dos Lanceiros Negros da revolução farroupilha urdida entre o General rebelde David Canabarro e o então Barão de Caxias, conforme explica Daniel Isaia:

“Em novembro de 1844, conforme combinado entre os dois líderes militares, Canabarro ordenou à tropa de Lanceiros Negros para que fosse desarmada até o cerro de Porongos e lá montasse acampamento. A Caxias, coube ordenar às tropas imperiais para que também se deslocassem até o local para combater os farroupilhas que lá estivessem. Eis um trecho da carta enviada pelo Barão de Caxias ao comandante imperial Francisco Pedro de Abreu, líder das tropas que atacariam os Lanceiros Negros:

‘Poupe o sangue brasileiro o quanto puder, particularmente da gente branca da Província ou dos índios, pois bem se sabe que essa pobre gente ainda pode ser útil no futuro.’

Desarmados e pegos de surpresa às 2h da madrugada, os negros farroupilhas foram dizimados pelos soldados imperiais. O massacre resultou na morte de centenas de lanceiros (as versões variam entre 170 e 800 mortos). Os poucos que sobreviveram foram enviados ao Rio de Janeiro para serem reintroduzidos à vida de escravidão e trabalhos forçados.”

Mais adiante Caxias comandou a campanha do Paraguai, aonde boa parte da população negra foi dizimada nas linhas de frente. No entanto, antes de abandonar o comando, assumido pelo genro do Imperador, o Conde D’Eu, Caxias “reconhece” o valor dos combatentes negros e o temor que finda a guerra os valentes e experimentados soldados negros sobreviventes fizessem tal qual no caso do Haití a tomada do poder e eliminação da população branca. Conforme trecho extraído de texto do Frei David da EDUCAFRO:

” A guerra do Paraguai (1864-1870) foi um dos instrumentos usados pelo poder para reduzir a população negra do Brasil. Foi difundido que todos os negros que fossem lutar na guerra, ao retornarem, receberiam a liberdade e os já livres receberiam terra. Além do mais, quando chegava a convocação para o filho do fazendeiro, ele o escondia e, em seu lugar, enviava de 5 a 10 negros.
Durante a guerra, o Exército brasileiro colocou o nosso povo negro na frente de combate e foi grande o número dos mortos. Para se ter uma idéia, a população negra do Brasil era de 2 milhões 500 mil pessoas (45% do total da população brasileira). Depois da guerra, diminuiu para 1 milhão 500 mil pessoas (15% do total da população brasileira).
Os poucos negros que sobraram, eram os que sabiam manejar as armas do Exército. Duque de Caxias escreve para o imperador demonstrando temor sobre o fato:

‘[..] à sombra dessa guerra, nada pode livrar-nos de que aquela imensa escravatura do Brasil dê o grito de sua divina e humanamente legítima liberdade, e tenha lugar uma guerra interna como no Haiti, de negros contra brancos, que sempre tem ameaçado o Brasil e desaparece dele a escassíssima e diminuta parte branca que há!’. “

OBS. HÁ ERRO INDUZIDO NOS NÚMEROS APRESENTADOS NESSE TEXTO CITADO DO FREI DAVID, NOTA EXPLICATIVA AO FINAL.

Para o bem da pátria e sorte da “diminuta parte branca” de então, os heróis negros não eram vingativos e traiçoeiros e nem agiram coordenada e intencionalmente para eliminar os que estavam no caminho da sua liberdade e interesses.

Portanto, nesse Dia do Soldado, nossa homenagem à todos brasileiros(as) que já vestiram um uniforme e com suor, sangue, lágrimas e espírito cívico defenderam ou se prepararam ou preparam para defender a pátria, a segurança e dignidade da população não apenas brasileira como a de países amigos, mas muito especialmente à todos os soldados negros que muitas vezes receberam históricamente ingrata paga pelo sacrifício, dedicação e honra.

* NOTA

Estranhei os números e pesquisando encontrei o motivador do erro… . Por isso que digo que é importante dominar e utilizar corretamente as CATEGORIAS e ter uma leitura mais ampla para tentar evitar as ciladas. Entendo que o erro no texto do Frei David, não se trata de desonestidade poderia ser cometido por qualquer outro mais desatento. Vejam o print anexo de texto em livro do Dagoberto Fonseca fazendo um apud no Chiavenato.. 😉

São vários erros de AMBOS, que levaram a posteriores replicações equivocadas. Ao usar negro como sinônimo de preto, se interpreta errado, já que negro não é opção censitária, mas a soma dos autodeclarados pretos e pardos (e isso desde 1872). O “povo”, especialmente a imprensa, fica insistindo no uso equivocado de ” negros e pardos”, isso quando não apela para termos que nunca foram usados demograficamente como “mulatos” .

Outro erro é ler automaticamente negro como escravo no pré-abolição, a população negra (ou seja, preta e parda) a partir da 2a metade do XIX já era majoritariamente nascida livre ou liberta… .

O Chiavenato induziu ao erro ao ver a população escrava antes da guerra do Paraguai e depois, e imaginar que a diferença de 1 milhão a menos era exclusivamente efeito da guerra… . Parcialmente sim, mas na verdade o que ocorreu foi uma grande mudança geral de status de escravizado para liberto… . O tal “milhão de negros” (na verdade escravizados) não “desaparecereu”, a maioria apenas deixou de ser escrava, muito embora um número nada desprezível tenha de fato sido dizimada na guerra.

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Serviço militar prioritário para jovens de baixa renda: minha opinião

Manchete recortada de “O Dia”

Antes de entrar na polêmica acho interessante registrar o meu “lugar de fala” pois creio que ajudará o leitor a compreender meu posicionamento e argumentos.

Sou negro, meu pai foi um adolescente pobre que percorreu toda a carreira de praça no exército a partir do alistamento como recruta até a graduação de subtenente, eu mesmo me alistei e servi ao exército por 4 anos, mas notei que ao contrário do meu pai eu não avançaria muito naquele contexto, durante aquele período também entrei na faculdade e quase ao final pedi baixa e fui para a aeronáutica como estagiário.

As forças armadas historicamente sempre foram uma possibilidade e estratégia muito utilizada de mobilidade social (as vezes a principal ou única) de pobres e principalmente de negros pobres. Portanto, entendo que a ideia de usá-las para oportunizar jovens pobres é de antemão válida, porém com ressalvas… .

A primeira delas é que tal uso seria incompatível com um serviço militar obrigatório, o serviço todo deveria passar a ser voluntário em tempos de paz, profissionalizante e profissionalizado.

A segunda é que como antigamente fosse possível a estabilização aos 10 anos de serviço para qualquer praça, para tal o número de novos alistamentos seria limitado pelo tamanho dos quadros do núcleo base e dos estabilizados.

A terceira é que a passagem pelo serviço voluntário nas forças armadas poderia ser alternativa voluntária ao “encarceramento sócio-educativo” e também deveria render pontuação para provas de títulos em concursos públicos e acesso universitário, além de ser requisito obrigatório para o acesso aos quadros das polícias (mesmo que venha a haver desmilitarização das PMs).

Sei que muita gente tem “bronca” ou antipatia pelo militarismo, mas ele é necessário e inescapável à qualquer estado, nem que seja como força de defesa e guarda nacional ( o que é diferente das chamadas forças de linha ou expedicionárias).

Para além disso as forças armadas ajudam fortemente na formação de cidadãos mais comprometidos, ordeiros e resilientes, não tenho dúvidas que é bem melhor ter soldados da nação que soldados do tráfico ou jovens vulnerabilizados para tudo que isso possa significar.

Finalizando, não quer dizer que eu apoie o projeto como ele está, mas acredito que o serviço militar é um bom caminho para problemas que rondam e envolvem a juventude.


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O “pardo de schrödinger” e a falácia metaracista.

O presente texto visa desconstruir mais uma das típicas argumentações metaracistas, para tal é preciso antes apreender alguns conceitos importantes para o entendimento pleno da questão.

O primeiro ponto, Schrödinger, foi um físico teórico austríaco muito vinculado à física quântica, prêmio Nobel de Física em 1933. Um de seus experimentos mais famosos é conhecido por “O gato de Schrödinger”, no qual basicamente tenta verificar o quanto uma situação é verdadeira ou não a partir de análises da realidade a partir de pontos de vista diversos, ou seja, algo um tanto subjetivo.

Pois bem, a partir disso algum metaracista ( logo adiante vamos trabalhar o conceito) resolveu fazer uma paródia tratando da visualização e atribuição da população e indivíduos de cor parda, que seriam ora tratados e incorporados à população negra, ora descartados ao sabor de “conveniências” dos movimentos e ativistas negros, chamando a paródia de “O pardo de Schrödinger” .

Metaracismo é conceito colocado por Joel Kovel e também tratado por outros intelectuais como Zizek, que trabalham o tema do racismo. Basicamente metaracismo é uma forma moderna de racismo aonde não se assume intenção supremacista, direta e claramente racista, pelo contrário, se diz “antiracista” ao mesmo tempo que trabalha no combate ao verdadeiro antiracismo, desse modo, cinicamente busca manter as desigualdades sociais de origem racial, mesmo considerando não haver de fato diversas raças entre a humanidade, ou seja é o racismo que prescinde da ideia de raça biológica mas atinge igualmente os mesmos grupos tradicional e socialmente expostos à subordinação e tenta manter o status quo.

Dai a afirmação de que a argumentação utilizando “Pardo de Schrödinger” tem finalidade metaracista, pois ataca não apenas a definição de população negra enquanto bloco formado por pretos e pardos, mas as críticas dos movimentos negros, seus ativistas e aliados e o critério utilizado nas políticas públicas de correção das desigualdades raciais.

A questão do pardo enquanto negro, tem base histórica, tanto no período da escravidão, a exemplo do censo de 1872 (o primeiro oficial de todo o país) que utilizava em geral o termo pardo para os negros livres e libertos (independente de cor/miscigenação) e o termo preto para os ainda cativos, quanto no pós-abolição, aonde o estado brasileiro sempre definiu como pessoas negras os membros da população negra, oficialmente formada pelos autodeclarados pretos e pardos, igualmente aos movimentos negros e a academia.

Se há dúvidas e divergências em situações pontuais de “fronteira extrema” é devido à subjetividade das visões dos envolvidos, não uma intencional e “matreira” utilização dos conceitos identitários pelos ativistas e movimentos. Matreiros são os argumentos dos metaracistas para sempre se colocarem contra toda e qualquer ação afirmativa de recorte racial e mesmo as denúncias do racismo cotidiano e estrutural.


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Endogamia é majoritária no Brasil

endogamia-brasil

Desmistificando a ideia de que o Brasil é um país miscigenado (ao invés de multirracial e miscigenado) e que tende a ficar cada vez mais miscigenado e correndo o risco de “desaparecimento” de qualquer um de seus grupos étnico-raciais por conta da miscigenação (aliás malogrando a teoria defendida pelos racistas científicos na década de 20 do século passado, de que por meio das sucessivas miscigenações o elemento negro desapareceria visualmente do país antes da virada do século, se tornando o país de aparência branca).

Observem no gráfico acima, que homens pretos unidos com pretas são 50,3% e com pardas outros 22,9%, ou seja, 73,3 % dos pretos estão com mulheres Negras (pretas ou pardas), apenas 25,5% estão com brancas, no caso dos pardos é semelhante, ao final permanecem em 74,9% unidos a negras (pretas e pardas) e similarmente 24,4% com brancas,  quando visualizados os brancos não é muito diferente, 73,7% são endogâmicos mas 26,6 (até um pouquinho mais que os negros)  não o são…, porém mesmo ai percebe-se uma proporção equilibrada de coisa de 2/3 de endogâmicos tanto em brancos quanto negros (lembrando novamente Negros=pretos+pardos).

Já os indígenas por incrível que pareça são um pouco menos endogâmicos que brancos e negros, conseguem manter 68,1 % de endogamia,  porém a “supresa maior” está com os “amarelos”, ou melhor, com os asiáticos (que o senso comum imaginava serem os mais endogâmicos, mas é justamente ao contrário) que mantém-se apenas 38,8% endogâmicos e proporcionalmente só não se unem a negras mais que os próprios homens negros, no quesito “desencalhe” para as negras em geral são bem mais promissores que brancos e de indígenas.

Conclusão, destruídos vários argumentos falaciosos de uma vez só, a saber :

1- O de que “negros preferem as brancas”

2- Que brancos “não casam com negras”

3- Que asiático-brasileiros são extremamente endogâmicos

4- Que índios pela etnicidade tendem a se “preservar” mais com a endogamia.

Ah ! e obviamente que nenhum, absolutamente nenhum outro homem se une mais à mulher preta que o próprio homem preto, portanto cobrem a “solução” da “solidão da mulher negra” também dos outros grupos masculinos e das próprias mulheres que apostam na fórmula “endogamia ou celibato”, as estatísticas comprovam que é possível ser feliz  no amor para além da cor… .

Tem mais um detalhe… esses dados são de Uniões estáveis/CASAMENTOS…,  é preciso visualizar que não reflete necessariamente todos tipos de relacionamentos…

Não deixem de seguir o link para  matéria jornalística sobre o assunto:

http://exame2.com.br/mobile/brasil/noticias/brasileiros-preferem-casar-dentro-da-propria-etnia


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De volta ao velho “Homens negros só querem brancas e a Solidão da mulher negra”

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Vira e mexe me vejo envolvido na discussão fratricida “Homens negros só querem brancas e a Solidão da mulher negra” promovida em especial pelas ativistas negras vilanizando os homens negros. Não ignoro que há uma questão envolvendo relacionamentos interraciais e que isso pode e deve ser motivo de estudo e reflexão, mas não faço “história única”, não ignoro que há de fato muitas mulheres negras em “celibato”,  só acho que a coisa invariavelmente é direcionada para que a análise não contemple TODA a questão… .

Por exemplo, se falamos de livros sobre o tema, indico um que trata da mulher negra e homem branco… mas é como se eu não o tivesse feito, só se quer discutir o que atende a visão que satisfaz a  ideia do homem negro como “vilão”…, demonstro que mulheres negras até se organizam na busca de relacionamentos com brancos, mas o assunto é solenemente ignorado e torna-se a questionar negros com brancas…, coloco que os relacionamentos negro/branca não são uma busca de mão única, as brancas buscam os negros enquanto as negras sabotam relacionamentos com negros e buscam brancos, mas novamente se evade da questão.

Torna-se então ao pressuposto que o homem negro “só quer branca”, é quando chamo a atenção para o contexto histórico de séculos de rapinagem sexual de brancos contra negras e índias (coisa que aliás permanece acontecendo), mas qual o que ?,  só vamos ouvir  um absurdo “desde sempre os homens negros deixaram a negra na solidão e ficaram com as brancas…”, e tome exemplo de pagodeiros, jogadores de futebol, celebridades… .

Ai aparece uma pesquisadora que fez um trabalho com quase dois mil casais envolvendo pessoas negras e 600 desses casais eram formados por negros/negras (mas isso não interessa, abstrai-se…) foca-se apenas nos casais inter-raciais (todos de negros com brancas) Êpa! mas não tem negras com brancos ????, esqueça-se!, fiquemos só nos negros com brancas… .

Ninguém pergunta por que é que o número de miscigenados no Brasil é enorme e secular…, nem se questiona que o acesso de homens negros à mulheres brancas é historicamente muito recente…, não se leva em consideração que oficialmente o percentual de pessoas PRETAS no Brasil é de 8% (dividido entre homens e mulheres). Alguém já se perguntou por qual motivo um universo de 4% de homens pretos  e 20% de homens pardos deveria se limitar  a encontrar parceiras nos 4% de mulheres pretas e 20% de pardas quando a estas somam-se quase outros 25% de “brancas” ???? (Opa ! desculpem o esquecimento da questão de gênero e que nem sempre homens estão buscando mulheres e vice-versa… ;)) em estatística simples sem considerar “ideologias” etc…,  qual é a probabilidade de um preto se relacionar com uma branca ou uma negra ?, aonde está a maior e a menor “oferta” ???.

Tudo isso são questões que simplesmente não se discute nem considera…, o que importa é a “solidão da mulher negra” e culpar exclusivamente o homem negro por isso…, ninguém sequer cogita que o Brasil não é Angola que tem 95% de Pretos, 2% de miscigenados e o restante de não-negros… e que o relacionamento inter-racial é inescapável e “natural” em uma conjuntura como a brasileira….,  porém nada disso importa. Só importa culpar os homens negros pela solidão da mulher negra… .

Eu acho que se é para discutir a questão, que seja feito de forma séria, com TODAS as variáveis que cientificamente deveriam entrar nessa “Equação social”…, não apenas com mágoas e ressentimentos e uma vontade de apontar apenas um “culpado” (que ironicamente também faz parte do rol de vítimas do processo secular de racismo) por um problema que tem tantos envolvidos igualmente responsáveis.

Com tantos problemas que a população negra tem que ainda superar e tantas demandas, há quem prefira ficar fazendo “fogo-amigo”, ai é que se perde tempo e a coisa não anda, esse comportamento belicoso não leva à nada… ou pior, nos atrasa imensamente.


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De volta ao “cotista branco” do Itamaraty.

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Mathias Abramovic, Médico e candidato cotista ao curso de Diplomata do Itamaraty

O caso já foi polêmica em 2013  e retorna com a nova candidatura de Abramovic (no final do texto tem link detalhando o caso), sei também que meu posicionamento não bate com o de muitos ativistas do Movimento Negro, talvez mesmo da virtual totalidade dos colegas do MN, mesmo assim não posso deixar de apresentar o meu entendimento.

Em políticas afirmativas está prevista e é consagrada a autodeclaração…, quando entendemos e acolhemos que Negro (ou afrodescendente na terminologia consagrada pela redação oficial da ONU) é diferente de Preto (fenótipo característico da maioria dos povos africanos e descendentes sem óbvia miscigenação), temos que tecnicamente é Negro todo aquele que descende integral ou parcialmente de africanos escravizados e traficados para o novo mundo…, no Brasil, para fins censitários desde 1872 e de políticas públicas mais recentemente, são oficialmente parte da população negra (portanto negros), todos que se autodeclaram pretos e pardos .

Normalmente essa origem africana/negra é “denunciada ” pelo fenótipo, mas nem sempre…, o brasileiro tende a ter um conceito muito “elástico” de “pessoa branca”, o que faz com que  muitos afrodescendentes “de fronteira” (miscigenados muito claros) sejam vistos e se vejam como “brancos” (quando na realidade são apenas “claros”), são os chamados “brancos sociais”, mas mesmo entre esses, há os que conhecendo suas origens, ao contrário de as negar, as afirmam (até porque com isso são pouco ou nada estigmatizados, já que no Brasil o preconceito é fundamentalmente de “marca” não de origem, vide ORACY NOGUEIRA ) .

Partindo do princípio que as ações afirmativas de cunho “racial” são motivadas não apenas pelo racismo deflagrado pelo fenótipo ostentado e diretamente direcionado ao indivíduo, se apresentam também e principalmente pelas condições familiares histórica e socialmente prejudicadas enquanto descendentes de escravizados (fato que altera o coeficiente de mobilidade social e competitividade em disputas universais), temos então que, menos pelo tom de pele (e a afrodescendência admite muitos), mas principalmente pela condição comprovada de afrodescendente e herdeiro natural tanto do processo de prejuízo histórico-familiar da população negra, quanto do direito de reparação, que um candidato é habilitado a pleitear as AAs de recorte “racial”… .

Lógico que em não havendo a “marca”, muito menos os problemas decorrentes dela, seria de bom senso e consciência ética, que não se apelasse para uma ação que visa não apenas oportunizar os candidatos inequívocos e óbvios do recorte, mas também modificar a “coloração perceptível” em determinada situação afirmável, porém,  o Direito socorre a todos os afrodescendentes de fato (e tornamos a lembrar que “claro” é diferente de “branco”)  e que assim se autodeclarem.

Entenda o caso aqui: http://noticias.r7.com/brasil/medico-branco-se-declara-cotista-para-prova-do-itamaraty-24072015


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A desigualdade desenhada

graf_rendimento_por_corDurante um bom tempo utilizei em discussões temáticas a versão 2005 desse gráfico, eis que finalmente encontro o upgrade, ainda não saiu o 2015 (referente a 2014) mas esse aqui já mostra que se houve algumas melhorias,  o X da questão (ironizando o formato do gráfico) permanece inalterado.

graf-renda-cor-2013

É óbvia a constatação que raça/classe  traz  uma correlação direta  e inversamente proporcional na distribuição de renda brasileira, o que por inferência deixa claro que o coeficiente de mobilidade social é largamente influenciada pela variável raça/cor, em outras palavras, quanto mais escuro maiores as chances de ser e permanecer pobre e quanto mais claro, maiores as chances de atingir as classes mais altas, a propalada “igualdade” brasileira entre negros e brancos só ocorre no meio da pirâmide social e envolve apenas  10%  da população brasileira, nos outros 90%  a cor faz diferença significativa na mobilidade social.

Entre 2005 e  2013, a participação percentual de negros na ponta mais pobre da pirâmide reduziu-se em 1 ponto percentual  a de brancos idem, isso quer dizer que as políticas sociais universalistas atingiram igualmente ambos porém com um efeito na redução da desigualdade de 10 pontos percentuais para 8,3 pontos (o que não muda de forma geral a disparidade, o coeficiente de representatividade negra na pobreza extrema é 8 vezes maior); por outro lado na ponta oposta, a representatividade branca  se manteve inalterada, a novidade foi  a subida de 0,8 pontos percentuais de negros nas classes mais abastadas (o que também não elimina a diferença abissal de 11,1 pontos percentuais na riqueza) o detalhe  que não é novidade é que na pobreza a diferença é menor mas mesmo assim enorme,  e que a resistência estrutural para o negro aumenta na medida que se avança socialmente, ou seja, a velha máxima de que o preconceito, discriminação e a desigualdade são meramente “sociais”, se mostra completamente falaciosa e rola ladeira abaixo… .

Um país verdadeiramente igualitário em termos raciais, aonde raça/cor não fosse variável social relevante, não teria um X na distribuição de renda, mas sim linhas retas paralelas… (lembrando que estamos tratando de brancos e negros, mas seria idêntico para outros grupos minoritários), abaixo uma projeção do gráfico da igualdade (racial):

graf-renda-cor-ideal

E se você ficou “chocad@” ou “revoltad@” com o aumento proporcional de brancos na primeira metade da escala (mais pobres) e redução na segunda metade (mais rica  e tudo em absoluta igualdade com a proporcionalidade negra), parabéns ! você acabou de descobrir o quão é desconfortável para um negro ser maioria no ruim e minoria no bom na atual situação, além do fato que a desigualdade nunca ou pouco te incomodou, mas a igualdade real  que retira privilégios e vantagens não lhe é assim tão “natural”…, para um marxista a  questão da “classe” não estaria eliminada (apesar da grande redução da concentração) mas ai sim passaria a ser meramente questão de classe (se equalizadas também outras variáveis sociais como gênero…) .