Blog do Juarez

Um espaço SELF-MEDIA


Deixe um comentário

Mapa interativo da distribuição racial no Brasil (em especial em Manaus-AM)

Muito interessante, trabalho  de mapa dinâmico realizado por PATA Análise e visualização de dados e baseado nos dados do censo 2010, para cada habitante um ponto colorido  baseado na cor informada e alocado em um mapa sobre o endereço informado; não existe apartheid oficial… na maior parte da cidade está “tudo junto e misturado”, porém há também espaços praticamente “circunscritos”,  abaixo uma intervenção que fiz no mapa para Manaus.

De certa forma, esse trabalho ajuda a desmontar a noção de senso comum de que não há negros no Amazonas / Manaus e pelo contrário, demonstra a sua presença (minoritária mas existente) por toda a cidade, áreas de maior concentração e também de baixa concentração, importante observar que foram destacados na intervenção os bolsões de autodeclarados pretos, porém oficialmente é considerada população negra a soma dos autodeclarados pretos e pardos…, a seguir sem ressalvas essa premissa, Manaus seria mais de 72% negra… e o mapa mostra isso claramente.

 Porém sabemos que a grande maioria dos pardos na amazônia é de origem indígena, mas não apenas, outra parte é de origem afro ou de ambas, portanto, pode- se estimar por comparação e extrapolação que se divididas a categoria pardo generalizada em “pardos de origem indígena”  e “pardos de origem africana”, esses últimos alcançariam na população do Amazonas algo em torno de 20% do total, que somados aos mais de 4% de pretos autodeclarados, implicaria em uma população afrodescendente de cerca de 1/4 do total,  ainda minoritária, porém nada desprezível em termos estatísticos e demográficos, para se ter ideia é  estatisticamente o mesmo de população autodeclarada branca e metade da indígena e de origem indígena somadas.

Mapa da cor em Manaus

Mapa da cor em Manaus

A título de informação os dados do Censo 2010- IBGE

 

Censo 2010 norte

No mapa interativo o efeito é bem mais interessante,  o pulo do gato é o zoom, experimente ver a distribuição pelas regiões e bairros de sua cidade…

Clique na imagem abaixo para ir ao mapa interativo.

Mapa racial do Brasil

Mapa racial do Brasil

 

Anúncios


Deixe um comentário

Endogamia é majoritária no Brasil

endogamia-brasil

Desmistificando a ideia de que o Brasil é um país miscigenado (ao invés de multirracial e miscigenado) e que tende a ficar cada vez mais miscigenado e correndo o risco de “desaparecimento” de qualquer um de seus grupos étnico-raciais por conta da miscigenação (aliás malogrando a teoria defendida pelos racistas científicos na década de 20 do século passado, de que por meio das sucessivas miscigenações o elemento negro desapareceria visualmente do país antes da virada do século, se tornando o país de aparência branca).

Observem no gráfico acima, que homens pretos unidos com pretas são 50,3% e com pardas outros 22,9%, ou seja, 73,3 % dos pretos estão com mulheres Negras (pretas ou pardas), apenas 25,5% estão com brancas, no caso dos pardos é semelhante, ao final permanecem em 74,9% unidos a negras (pretas e pardas) e similarmente 24,4% com brancas,  quando visualizados os brancos não é muito diferente, 73,7% são endogâmicos mas 26,6 (até um pouquinho mais que os negros)  não o são…, porém mesmo ai percebe-se uma proporção equilibrada de coisa de 2/3 de endogâmicos tanto em brancos quanto negros (lembrando novamente Negros=pretos+pardos).

Já os indígenas por incrível que pareça são um pouco menos endogâmicos que brancos e negros, conseguem manter 68,1 % de endogamia,  porém a “supresa maior” está com os “amarelos”, ou melhor, com os asiáticos (que o senso comum imaginava serem os mais endogâmicos, mas é justamente ao contrário) que mantém-se apenas 38,8% endogâmicos e proporcionalmente só não se unem a negras mais que os próprios homens negros, no quesito “desencalhe” para as negras em geral são bem mais promissores que brancos e de indígenas.

Conclusão, destruídos vários argumentos falaciosos de uma vez só, a saber :

1- O de que “negros preferem as brancas”

2- Que brancos “não casam com negras”

3- Que asiático-brasileiros são extremamente endogâmicos

4- Que índios pela etnicidade tendem a se “preservar” mais com a endogamia.

Ah ! e obviamente que nenhum, absolutamente nenhum outro homem se une mais à mulher preta que o próprio homem preto, portanto cobrem a “solução” da “solidão da mulher negra” também dos outros grupos masculinos e das próprias mulheres que apostam na fórmula “endogamia ou celibato”, as estatísticas comprovam que é possível ser feliz  no amor para além da cor… .

Tem mais um detalhe… esses dados são de Uniões estáveis/CASAMENTOS…,  é preciso visualizar que não reflete necessariamente todos tipos de relacionamentos…

Não deixem de seguir o link para  matéria jornalística sobre o assunto:

http://exame2.com.br/mobile/brasil/noticias/brasileiros-preferem-casar-dentro-da-propria-etnia


1 comentário

RETROCESSO NA UFAM (II): Problemas conceituais e equívocos de operacionalização de cotas nas seleções para Pós-Graduação

Diversidade-na-pós-proibida

Em  postagem anterior , fizemos uma análise sobre a alegação de ilegalidade aventada como motivo para o cancelamento das cotas raciais que vinham sendo aplicadas em alguns cursos da UFAM-Universidade Federal do Amazonas, agora  analisaremos problemas conceituais e  equívocos de operacionalização de cotas nas seleções para Pós-Graduação ocorridos ao nosso ver.

 Antes de mais nada e sem querer me valer de falácia ao estilo Argumentum ad verecundiam (apelo de autoridade),  acho importante que ao ser manifestada uma opinião, quem a recebe saiba “de onde está falando” quem a emite, não para que a mesma seja tomada automaticamente como “verdade” ou mentira, mas principalmente para tentar evitar que o inescapável discurso de desqualificação vindo de quem sem maior  ou igual “background” temático e apresentação de evidências, se coloca sem maiores pudores em condições de “igualdade” ou mesmo “superioridade”  no debate, e em geral estes sim apelando para o já citado apelo de autoridade ( e autoridade que nem sempre é conexa com o que se discute).

Posto isso, digo que me sinto muito a vontade para emitir opiniões na questão e apontar problemas que percebo, e  isso vem dos mais de 10 anos de discussão praticamente ininterrupta sobre a questão de cotas,  balizada por leituras, escritas, participação em mesas redondas, programas de rádio, TV , matérias da imprensa escrita, e coordenando por seis  anos uma comunidade virtual de abrangência nacional com mais de 3 mil membros(COTAS SIM !) com debates diários sobre o tema e relacionados, também acompanhei in loco as audiências públicas promovidas pelo STF com participações das maiores autoridades no assunto e que balizaram o entendimento (favorável) do Relator, Ministro Ricardo Lewandowski,  sendo assim, me posiciono e com a ideia de estimular o debate e principalmente providências que resultem em efetividade para as políticas de Ações Afirmativas (AA) na nossa UFAM e em especial na pós, que carece de um regramento sistematizado e comum; comentários e críticas são bem-vindos, mas peço o favor de que sejam de nível, não pretendemos ficar a  discutir  Ad Eternum argumentos primários e equivocados como os que envolvem as palavras “capacidade”, “mérito” ou “inconstitucional”, tudo isso já foi alvo de extensas discussões em N canais por uma década… e o STF já “bateu o martelo”, não tem retorno, tratemos pois de passar então as questões de aplicação efetiva.

Vou dividir em três partes a exposição:  PRECONCEITOS & CONCEITOS , OPERACIONALIZAÇÃO PROBLEMÁTICA  e   SUGESTÕES .

PRECONCEITOS & CONCEITOS

Como disse, a ideia não é discutir a validade ou viabilidade de cotas, isso já foi muito feito e é “assunto superado” (pelo menos deveria ser, mas não é o que a situação apresenta),  vamos encontrar até hoje pessoas contra Ações Afirmativas (em especial cotas raciais), dispostas não apenas a criticar sua validade como a embarreirar onde e da forma possível sua execução; obviamente apesar de não assumirem isso (e por vezes nem enxergarem que assim agem), são motivações  classistas, elitistas  e  notadamente racistas que estão por trás de tal resistência, a forma de agir excludentemente foi atualizada (aliás nem tanto, no Brasil isso não é  exatamente nenhuma novidade), o META-RACISMO (racismo cínico disfarçado em “combate ao ‘racismo as avessas’ e defesa da igualdade formal”, tem como objetivo simples manter o Status Quo excludente, em geral por meios dissimulados e argumentação falaciosa), após o reconhecimento da constitucionalidade das cotas pelo STF (isso com repercussão geral, ou seja, é em principio aplicável em todas as questões e espaços institucionais públicos em que se apresente a necessidade de instituí-las), tal resistência evita o debate direto e conceitual , se manifesta através do protelamento de implantação por meio de “entraves burocráticos” ou “dificuldades de entendimento”/ “regulamentação”, e é exatamente o que estamos assistindo agora, leviano seria apontar nomes (até por que não faço a mínima ideia de quem poderia realmente estar por trás disso…), além disso, a forma como a prática meta-racista atua é a de um “fantasma”, ninguém consegue “provar” sua existência mas alumas pessoas  “enxergam direitinho” ou sentem a sua “presença”, a diferença é que se não é possível identificar  tão claramente a ação meta-racista e seus autores,  seus efeitos nefastos são extremamente materiais…

A ideia que muita gente tem de um cotista, é a de uma pessoa que acessou uma vaga sem passar por um processo seletivo, ou que passando pelo mesmo, o teve com conteúdo diferenciado e facilitado ou simplesmente que “não passou” dentro dos padrões “normais” e está lá por “benemerência estatal”  e ” imposição”…, nada mais equivocado.

  • Todo cotista passa por um processo seletivo
  • O conteúdo das provas NÃO É NEM DEVE SER DIFERENCIADO, muito menos as folhas respostas que possibilitem a IDENTIFICAÇÃO COMO COTISTA.
  • A   nota de corte NÃO PRECISA NEM DEVE SER DIFERENCIADA, i.e  se a reprovação se dá por exemplo com a nota inferior a 50% das questões na disputa universal é o mesmo para o cotista… A COTA ATUA NA CLASSIFICAÇÃO FINAL, ou seja, todo cotista foi APROVADO mas não necessariamente seria CLASSIFICADO dentro das vagas disponíveis sem a reserva.
  • Na Pós-graduação o “gargalo” tradicional é em geral a última etapa que normalmente é a ENTREVISTA,  é nela que a SUBJETIVIDADE, os preconceitos ou noções arbitrárias e não necessariamente reais  de “mérito” se colocam especialmente, portanto essa deveria ser a ÚNICA ETAPA NÃO ELIMINATÓRIA  para os candidatos dentro do perfil cotista.
  • O cotista concorre tanto pelas vagas universais quanto pelas vagas reservadas, eventualmente poderá ser classificado dentro do número de vagas universais, caso isso não ocorra só então será classificado dentro da listagem de vagas reservadas, se nem assim se encaixar estará definitivamente fora,  caso não haja cotistas aprovados em número suficiente para preencher todas as vagas reservadas, as remanescentes retornam para os próximos classificados da concorrência universal.

As cotas na pós-graduação são tão ou mais necessárias que na graduação pois a lógica excludente atua mais fortemente quanto mais se avança em direção ao topo da pirâmide social (e isso inclui  a qualificação acadêmica), segundo dados de pouco mais de 10 anos atrás, tínhamos no Brasil cerca de  DOIS MIL mestres e doutores negros, aparentemente isso poderia ser interpretado como “prova” de que não há restrição do acesso de negros aos programas, mas a discrepância fica muito clara quando verificamos que no mesmo período o número de mestres e doutores no Brasil era de TREZENTOS MIL… ,   ou seja, uma representatividade menor que 1%, quando a representatividade populacional negra é de 50%, mesmo que se estivesse cometendo o comum equívoco de trocar a terminologia preto por negro (preto é o indivíduo com características físicas tipicamente africanas, aparentemente sem miscigenação (cerca de 8% da população de acordo como o censo 2010), enquanto negro é todo indivíduo da POPULAÇÃO NEGRA que é oficialmente formada pelos autodeclarados pretos mais os pardos,sendo os pardos cerca de  42% de acordo com o censo 201o ), mesmo assim, haveria ainda enorme subrepresentação…  8% para 1% é boa diferença.   Encontramos a base de tais questionamentos no artigo do Professor Henrique Cunha Jr. de 2003, A Formação dos Pesquisadores Negros .

Ainda de acordo com Cunha Junior (2003) encontramos aqui a compreensão da importância da diversidade na pesquisa acadêmica No estágio atual do capitalismo, a pesquisa científica e os grupos de pesquisadores constituem um grupo privilegiado de exercício do poder, quer pela ação direta na participação nos órgãos de decisão do Estado, quer pela ação indireta através da difusão dos conhecimentos que justificam as ações dos poderes públicos. Os grupos sociais cujos membros não fazem pesquisa ficam alijados dessas instâncias de poder. A ausência de pesquisadores negros tem reflexo nas decisões dos círculos de poder. “

Índios e Negros, aqui cabe frisar que há diferenças não apenas situacionais e culturais entre os dois grupos, mas inclusive na forma como são “percebidos” e atingidos pelo preconceito e discriminação, enquanto os primeiros gozam de uma certa “simpatia” e valorização na sociedade em geral e nos meios acadêmicos (em especial no âmbito das Ciências Sociais e no contexto amazônico), os negros e “seus assuntos” não recebem o mesmo nível de aceitação e interesse; isso é em geral ainda persistente, tal constatação pode ser auferida não apenas empiricamente como por meio de referências  até  bem distanciadas cronologicamente da atual situação, vide: “Em artigo recente sobre a presença negra na Amazônia de meados do XIX, Luís Balkar Pinheiro aponta para as limitações de abordagem encontradas na produção historiográfica e conclui que um de seus principais desdobramentos é o fato de que “o ocultamento da presença negra na Amazônia continua efetivo, mantendo incólume uma das mais graves distorções na escrita da história da região.” (SAMPAIO, 1999, s/p) , olhando para o contexto nacional, onde por exemplo o DEM- Partido Democratas, ao entrar com a famosa e já julgada ADPF 186 (contras as cotas raciais na UnB), se percebe na inicial que o ataque não é diretamente e contra as cotas indígenas mas contra as para negros,  vide parte da argumentação utilizada:   f) cotas para negros nas universidades geram a consciência estatal de raça, promovem a ofensa arbitrária ao princípio da igualdade, gerando discriminação reversa em relação aos brancos pobres, além de favorecerem a classe média negra” (fls. 26-29).

Na sociedade como um todo, é visível também essa menor resistência com relação aos indígenas vide Pesquisa do DataSenado sobre educação revela que a instituição de cotas em universidades públicas é aprovada pela maioria das pessoas. A reserva de vagas nos vestibulares foi apoiada para diversos públicos: 66% manifestaram-se a favor das cotas para negros; 73% favoráveis às cotas para indígenas; 78% apoiaram cotas para estudantes que cursaram a rede pública; 83% defenderam cotas para estudantes de baixa renda e 85% aprovaram cotas reservadas para pessoas com deficiência.”

Voltando à UFAM, verificamos que desde 2008 existem cotas para indígenas na Pós-Graduação, inicialmente no PPGSCA (Sociedade e Cultura na Amazônia), desde 2011 no PPGAS (Antropologia) indígenas tem se beneficiado de cotas, somente em 2013 para a turma de 2014 são introduzidas no edital do PPGH (História) cotas para indígenas e também pretos e pardos…,  só depois desse ponto, “por coincidência” e não se sabe provocado exatamente por que ou por quem,  aparecem pareceres jurídicos contrários e são canceladas todas as cotas para a oferta seguinte… (turma 2015), em um exercício de mera especulação, pode-se imaginar que só assim o foi pois não haveria “condições justificáveis” de mantendo a prática já “tradicionalmente” corrente com relação aos indígenas, contestar e excluir  apenas a inclusão de pretos e pardos… .

A ideia de respeito à diversidade étnico-racial e o combate ao preconceito e discriminação deve perpassar igualmente todos os recortes historicamente prejudicados, mas as evidências demonstram que isso ainda não foi alcançado, precisamos portanto trabalhar para reverter as invisibilizações e naturalizações construídas como forma de excluir “o outro” .

OPERACIONALIZAÇÃO PROBLEMÁTICA

No atual ponto  observamos a condução dada à operacionalização da seleção 2013 para 2014, não faço referência ao processo do PPGSCA por não te-lo vivenciado e desconhecer em que termos foi feito, posso descrever os processos do PPGH e do PPGAS, os quais vivenciei.

As diferenças começam nos editais, enquanto o PPGH cita nominalmente  indígenas, pretos e pardos, já o PPGAS , possui cotas para servidores da UFAM,  fala apenas e vagamente em “Políticas afirmativas” e em “candidatos que se auto-declararem” (sem especificar se declararem como “o quê” ), ainda solicitando “obrigatoriamente uma declaração de reconhecimento de sua comunidade ou organização representativa”.

Essas disposições e exigências do PPGAS, em tese não vedam completamente a inscrição de negros  (e posso dizer pois tive a inscrição homologada), mas em “leitura” mais atenta está fortemente direcionada apenas para indígenas por :

a) Não chamar a atenção para a possibilidade de pretos e pardos se inscreverem.

b) Exigir  “declaração de reconhecimento”, sendo que isso é  apenas plena e de forma comum aplicável a indígenas, coisa que não ocorre com negros, pelo menos não a maioria, já que não há “associações representativas” ou “comunidades”  negras que façam “reconhecimento de pertença étnica ou comunitária” (o que seria possível talvez e exclusivamente para quilombolas, mas não usualmente  para negros “urbanos”), o reconhecimento “possível” para negros seria o de atuação como membros de organizações (nem sempre formalizadas) do movimento negro e por meio de outras evidências públicas e gerais do pertencimento étnico-racial (o que é raríssimo), assim procedi e acabei como único negro homologado, mas penso ter sido uma “surpresa” no processo, a formatação dada não era em nada favorável para esse  “tipo de público”.

editais-ppg-2014-ufam

Superada a primeira barreira (inscrição e homologação), vem a segunda,  A PROVA DE CONHECIMENTOS, a do PPGH não tinha quaisquer diferenças, candidatos cotistas e não cotistas fizeram a mesma prova e sem nada que indicasse a condição de cotistas na folha de respostas, a nota de corte foi a mesma para todos;  já no PPGAS as folhas de resposta eram “diferenciadas”, ou melhor,  identificadas com um código que possibilitava discernir cotistas dos demais candidatos, isso é perigoso pois pode gerar “correção diferenciada” (ou seja, favorecer ou prejudicar os candidatos cotistas, a partir da visão subjetiva do examinador), coincidência ou não praticamente todos os “cotistas” tiraram notas “medíocres” e seriam eliminados nessa fase, não fosse o fato da prova NÃO SER ELIMINATÓRIA PARA OS COTISTAS, o que contraria abertamente o espírito e práticas comuns nas seleções com cotas, pois em tese permite que um candidato sem condições mínimas, porém com um projeto bem escrito (não necessariamente por ele próprio) e que conte com empatia da banca de entrevista, logre êxito.

A próxima fase, ANÁLISE DO PROJETO,  transcorreu de forma comum no PPGH, os candidatos aprovados na prova de conhecimentos (e somente esses), tiveram seus projetos avaliados e as notas publicadas antes da próxima e última fase a ENTREVISTA,  já no PPGAS todos os candidatos cotistas (cuja quase totalidade já havia sido “reprovada” na prova) avançaram para a etapa de ENTREVISTA (antes que a nota do projeto tivesse sido dada), ao final  foram publicadas simultaneamente as notas do projeto e da entrevista (ou seja uma etapa UNIFICADA, conforme cita o edital “– 3ª Etapa – Análise de histórico escolar, curriculum vitae, projeto de pesquisa e entrevista; ” ) sendo ai finalmente eliminados a maioria dos candidatos cotistas “excedentes” (eu incluso), nessa fase outra situação inusitada foi a banca composta por  quatro professores (quando o comum seriam  três), seguindo os candidatos finalmente aprovados para a prova de proficiência em língua estrangeira (interna do PPGAS, mas não eliminatória, enquanto no PPGH não constituiu fase de seleção, devendo os aprovados comprovar a proficiência por meio de testes externos ao programa).

Em suma, enquanto o processo do PPGH seguiu práticas comuns de seleção com cotas (aliás no processo nem ficou muito evidente que estavam a ser utilizadas, eu por exemplo me inscrevi como cotista, mas devidos as notas acabei classificado dentro do número previsto para a concorrência universal (19º/24 ) em tese as vagas da cota seriam as 6 últimas das 29 disponibilizadas, a impressão que se tem é que todos os candidatos cotistas acabaram por  estar naturalmente na ordem de classificação universal, ou seja, na prática não tiveram “reclassificação” sobre não cotistas, sendo portanto a cota não utilizada na prática,  de qualquer forma a diversidade na turma 2014 do PPGH é invejável, talvez pela presença relativamente comum de pardos, pretos e indígenas na graduação em História da própria UFAM (o que por N motivos facilitaria a certo modo sua seleção na pós), talvez por uma tendência “não elitista”  da área o que se refletiria em maior “permeabilidade” na Pós-Graduação (inclusive para não oriundos da própria instituição), já o PPGAS  adotou práticas equivocadas que não favoreceram de fato as AA, pelo menos não com a abrangência esperada, o que em uma área não tradicionalmente tão diversa com relação a origem étnico-racial dos estudantes, não modifica sobremaneira o Status Quo.

De qualquer forma, apenas três programas ( entre os diversos existentes na UFAM) tiveram pelo menos a preocupação de tentar estimular alguma diversidade étnico-racial por meio de Ações Afirmativas, o que indica que  a maioria dos outros ou não visualiza a inexistência de tal diversidade no seu âmbito, ou visualiza a inexistência  mas não enxerga a necessidade de AA, portanto, é necessário que se conscientize e efetive práticas afirmativas também nesses outros programas.

Ações Afirmativas não são apenas  cotas, outras providências podem ser tomadas no sentido de fomentar a inclusão e permanência de minorias (no sentido de recortes tradicional e socialmente desfavorecidos), é preciso portanto conhecer os princípios que as movem e como aplicar corretamente cada um de seus instrumentos, vou dar um exemplo:  outro dia discutindo o assunto cotas com uma pessoa conhecida ouvi ” Se for assim, teria que ter cotas para NORDESTINOS, pois são ‘mais sofridos’ que  a maioria ‘dos negros’ “, vamos ver as incoerências no discurso :

a) As cotas não são implementadas em função de “sofrimento”, mas de falta de representatividade.

b) A categoria “nordestinos” é muito ampla, pode-se estar falando de habitantes do nordeste, gente nascida no nordeste mas residente em outras regiões, habitantes de regiões prósperas dentro da própria região ou de regiões menos favorecidas, de gênero, “raça/cor” e status sociais variados;  enfim em “nordestino” cabem muitas situações completamente diversas e nem todas necessitam de afirmação.

c) Toda ação afirmativa é direcionada a grupos em desvantagem histórica e persistente em contexto amplo ou regional, admitido “nordestino” como alvo de AA, qual seria esse “o nordestino” , o das capitais ?, dos interiores ? , os ricos ?, os pobres ?, os que moram fora da região ? , os brancos ? , os negros ?, os indígenas ? , em qual área seria feita a AA ? , abastecimento de água ?, alimentação ?, infraestrutura? , empregos?, moradia ?, educação ? .

d) Imaginando Educação Superior, deveriam ser então instituídas “cotas para nordestinos” (Sic) em todas universidades do país ? , qual o percentual de nordestinos nas universidades do nordeste ? (há subrepresentação ?), qual a relação representatividade populacional/ ocupação universitária nas demais regiões ? , qual o perfil sócio-econômico de “nordestinos” dentro  e fora das universidades ?

Fica claro que “nordestinos” enquanto categoria alvo de AA, só faria sentido em se falando de nordestinos no nordeste e em situação de desvantagem/vulnerabilidade social, ou seja, a AA deveria ter cunho REGIONAL e SOCIAL, no caso de  Educação Superior, não seria o caso de instituir cotas em universidades Brasil afora, mas LEVAR UNIVERSIDADES AO NORDESTE e fora dos eixos tradicionais de desenvolvimento…

Fico preocupado quando ouço gente falando que “cota não é  vista como AA”, assim como fico preocupado por outro lado, quando ouço falar em “cota para ribeirinho ou quilombola” ; sem um conhecimento mais aprofundado do que vem a ser AA e sua aplicabilidade, a tendência é o surgimento de “aberrações afirmativas”.

SUGESTÕES

  • A resolução CONSEPE  023/2014 de 28/08/14, toma algumas boas medidas para uma seleção mais justa, como na questão da definição de banca com três professores e as regras de participação, permitindo entrevista apenas se for gravada (o ideal seria que não fosse eliminatória, mas classificatória),  contraditório e ampla defesa em todas as fases do processo , e a eliminação de análise de currículo e proficiência em fases eliminatórias…, algumas das situações  que  ela visa corrigir foram justamente alvo de críticas feitas no tópico anterior…, a  mesma poderia ser  revista e ampliada a fim de tornar de modo geral a seleção mais justa e inclusiva.
  • O assunto das AA deve ser alvo de discussão com participação representativa do corpo docente e discente, e o mais breve possível a fim de que uma vez definidas regras gerais, se possa restabelecer as cotas na pós para as seleções em 2015,  sendo que as mesmas deveriam ser estendidas para todos os programas.
  • Melhor adequação da representatividade de indígenas e negros (pretos + pardos), pelo censo de 2010 o Amazonas possui 4,8% de população indígena,  4,3% de pretos e 68,1% de pardos (lembrando que para todos efeitos população negra é a soma dos autodeclarados pretos e pardos…), não faz o menor sentido afirmativo justo, um curso reservar hipoteticamente  20% de suas vagas exclusivamente para indígenas quando a representatividade populacional indígena é 4 vezes menor… e “deixar de fora” representação proporcional de 73% da população…, como é difícil e impreciso dividir poucas  vagas  exatamente de acordo com a representatividade populacional, até poderia-se deixar todas as vagas da reserva de maneira unificada para indígenas, pretos e pardos (sem distinção dentro do grupo reservado), o que não se pode é apenas fazer afirmação exclusivamente indígena na academia, a pesquisa  só tem a ganhar com uma “diversidade mais diversa”.


2 Comentários

Diretório dos índios do Marquês de Pombal : ou quando se acirrou a diferença social entre nativodescendentes e afrodescendentes no norte do Brasil.

negro-indiointrodução

O presente texto tem como objetivo esclarecer de forma sucinta e simples, conceitos básicos e históricos relativos ao entrelaçamento da população indígena e da de origem prevalentemente indígena desetinizada e/ou miscigenada (referenciada popularmente como parda de origem indígena ou “cabocla”), com a população afrodescendente (descendente de africanos  independente de fenótipo característico ou miscigenado) sob o manto comum de população “negra”  no norte do Brasil, bem como, das tentativas de desentrelaçamento, identificar a origem das trajetórias de diferenciação dos lugares sociais e condições de mobilidade social particulares de cada um dos grupos a partir de lei real  datada de 7 de Junho de 1755, tratando de ordenamento de relações estatais e sociais nas “Povoações dos Índios do Pará, e Maranhão” (regiões administrativas coloniais que à época concentravam os territórios de outros atuais estados da região norte como o Amazonas e do nordeste como o Piauí e Ceará).

Para notação mais clara, passo a utilizar o termo nativodescendente para designar genericamente tanto indígenas quanto descendentes miscigenados ou sem etnia autodefinida e somente indígenas quando o contexto indicar o sentido corrente do termo, cabe lembrar também que o termo NEGRO, passou a ser utilizado por introdução dos espanhóis a partir do século XVI com o sentido de escravo/escravizado, sendo aplicado a todos em tal situação (tanto para africanos quanto para indígenas americanos).

Por economia textual  e para conscisão, remeto as informações referentes ao Marquês de Pombal e sua relação com a administração do estado português e sua então colônia brasileira e a questão indígena  para hipertexto (texto externo).

O início da questão

De conhecimento amplo é o fato que durante a colonização do Brasil, os primeiros escravizados para fins de mão de obra, foram os nativos brasileiros (ou simplesmente índios) cuja abolição oficial da escravidão veio em três episódios, em 1o de abril de 1680 (através de lei real, na realidade inócua), em  7  de junho de 1755 (a já citada lei tratando do Pará e Maranhão) e finalmente, em 1758 a medida foi estendida por alvará para o então Estado do Brasil, até então era comum os indígenas escravizados serem referenciados por “Negros da Terra” ou simplesmente Negros, referência também utilizada entre o próprios escravizados.

A utilização de mão de obra africana escravizada na América começou por volta de 1550 (segundo alguns historiadores por volta de 1570 no Brasil), ou seja, por mais de 180 anos, foram “Negros” tanto os africanos  e descendentes quanto os indígenas e descendentes escravizados no Brasil ( obviamente com natural miscigenação entre os dois grupos…), portanto, apesar de ser corrente a interpretação de que Negros seriam os descendentes dos africanos escravizados, há bom espaço conceitual e histórico para “encaixar” na população negra (ou simplesmente descendente de escravizados) a descendência dos ” Negros da terra” , ou seja, a população parda de origem indígena (os populares “Caboclos”), do ponto de vista sociológico, e apesar dos fatores de diferenciação na mobilidade social que serão explanados adiante, os indicadores sociais e vicissitudes da maioria dessa população não difere razoavelmente da maioria da população afrodescendente, sendo inclusive para fins afirmativos não desagregada da população negra.

A encruzilhada

Se até meados do séc. XVIII  Negros africanos (juntamente com os “crioulos”, negros aqui nascidos) e Negros da Terra, seguiam uma trajetória social relativamente comum, seguidos a certa distância pelos Índios que resistiam à escravização e maiores contatos com a sociedade envolvente (sendo por tal paulatinamente exterminados), em tal ponto se dividiram em três direções distintas, os afros seguiram escravizados e desprovidos de cidadania, os indígenas assimiláveis às regras “civilizatórias” impostas pela coroa e os antigos negros da terra ganharam cidadania e foram incorporados com respeitos à sociedade envolvente, enquanto os indígenas resistentes à assimilação, passaram a ser vistos como completamente inúteis aos interesses da sociedade branca, além de “entraves” à expansão das fronteiras de colonização e exploração de recursos naturais, portanto alvos naturais de extermínio e expropriação (situação que apesar da atual proteção do estado, permanece atualíssima).

Neste ponto é interessante e esclarecedor a leitura do seguinte trecho da Lei real de 1755 (com a linguagem e grafia originais da época)  que mudou a situação de indígenas assimiláveis e descendentes perante a sociedade :

“10  – Entre os lastimosos principios, e perniciosos abusos, de que tem resultado nos Indios o abatimento ponderado,  he sem duvida hum delles a injusta, e escandalosa introducçaõ  de lhes chamarem NEGROS ;  querendo talvez com a infamia, e vileza deste nome,  persuadir – lhes,  que a natureza os tinha destinado para escravos dos Brancos, como regularmente se imagina a respeito dos Pretos da Costa de Africa.  E p orque, além de ser prejudicialissimo á civilidade dos mesmos Indios este abominavel abûso,  seria indecoroso ás Reáes Leys de Sua Magestade  chamar NEGROS a huns homens,  que o mesmo Senhor foi servido nobilitar,  e declarar por isentos de toda, e qual quer infamia,  habilitando- os para todo o emprego honorificoNaõ consentiraõ os Directores daqui por diante,  que pessoa alguma chame  NEGROS aos Indios,  nem que elles mesmos usem entre si deste nome  como até agora praticavaõ;  para que comprehendendo elles,  que lhes naõ compete a vileza do mesmo nome,  possaõ conceber aquellas nobres idéas,  que naturalmente infundem nos homens a estimaçaõ, e a honra.  ”  (Apud ALMEIDA , 1997)

Os desdobramentos

Pela leitura do trecho anterior, não fica difícil imaginar os desdobramentos de tal ato,  a saber : a instalação de generalizada mentalidade de “superioridade” do índio e de seus descendentes “caboclos” em relação aos negros (naquele momento passados a ser considerados apenas os afros), o reforço da estigmatização do negro e da “necessidade” de rejeitar por todos os meios tal “pecha”, uma maior aceitação e mobilidade social do nativodescendente, o surgimento da tradição popular de invisibilização  e negação da presença negra na região,  a geração de um grande intervalo temporal e diferença de condições iniciais da trajetória de nativosdescendentes e afrodescendentes enquanto livres cidadãos (com óbvias consequências no rankeamento social atual de ambos aos grupos).

Hoje a população autodeclarada preta e parda na região diretamente atingida pelo ato pombalino de 1755 é a seguinte :

pop-cor-CENSO-IBGE-2012-norte-UF

FONTE: IBGE CENSO 2010

Interessante observar que no Ranking (RK) nacional os 3 estados com maior população autodeclarada parda estão na região, assim como os dois de maior população indígena, apenas Maranhão e Piauí aparecem entre os 4 com maior população autodeclarada preta e Pará (tido como uma das grandes portas de entrada e fixação de escravos na região) ocupa a a 11ª posição e o Amazonas (em cujo o estado a presença negra sempre foi tradicionalmente negada e invisibilizada) ocupa a antepenúltima posição nacional em pretos autodeclarados, interessante observar que apesar de reconhecida “naturalmente” como terra  “predominantemente indígena ” ocupando a segunda posição no ranking nacional relativo a tal população, possui em termos percentuais empate estatístico com o percentual de autodeclarados pretos (estes como já dito, tradicionalmente invisibilizados e negados na composição étnico-racial do estado).

 A se seguir porém  o critério do IBGE (utilizado desde 1872 no primeiro censo brasileiro) que agrega pretos e pardos na população negra, Amazonas e Pará seriam os dois estados de maior proporção populacional negra… coisa que faria total sentido se baseado no conceito apresentado de população negra como descendente de escravizados e não apenas afrodescendente, o que gera porém uma grave imprecisão de origem e  pertença da população regional.

De fato e perceptível empiricamente, constata-se que a grande maioria dessa população (mas não toda ela) autodeclarada parda possui traços indígenas e não africanos, ao mesmo tempo que seguindo o preconizado na lei do diretório pombalino, introjetada e repassada de geração em geração, rejeitam a associação estigmatizada com “Negro” ou como parte da população negra, e não podendo se colocar como indígenas (esses etinizados) nem como brancos, reconhecem a origem indígena (a marca, presente no fenótipo) mas em geral reforçam, valorizam e reivindicam uma identidade “cabocla” não necessariamente acoplada  exclusivamente ao fenótipo mas principalmente uma cultura caldeada e característica da região amazônica.

A solução para tal impasse a nosso ver,  e sem ferir os princípios que norteiam a moderna pesquisa de populações e políticas públicas, surgiria com a reformulação das categorias censitárias para as de ancestralidade geográfica (nativodescendentes [etinizado/ desetinizado] , eurodescendentes, afrodescendentes e asiaticodescendentes), emprestando assim maior precisão à  pesquisa censitária e todos os desdobramentos.

A conclusão

Diante do exposto ficam aclaradas algumas situações características à região norte do Brasil no tocante a temática e que sem maiores complementos também pode ser estendida ao restante do país, a trajetória dos nativodescendentes assimilados, após o ato pombalino foi bastante facilitada e estabeleceu as condições para que hoje os mesmos estejam bem distribuídos ao longo de toda a pirâmide social (nacional e regional), coisa que ainda não ocorre com a população afrodescendente, majoritariamente concentrada na base da pirâmide e iniciando deslocamento massivo para o centro.

Referências

ALMEIDA, Rita Heloísa de. O Diretório dos Índios: Um Projeto de “Civilização” no Brasil do
Século XVIII. Brasília , UnB, 1997.

Brasil Escola . Reformas Pombalinas


5 Comentários

UFAM inova e lança cotas raciais em Mestrados.

vitória-cotasPelo menos dois dos programas de pós-graduação da UFAM – Universidade Federal do Amazonas  (História e Antropologia Social), lançaram editais que contemplam ações afirmativas para pretos, pardos e indígenas, seguindo uma tendência que já vinha sendo adotada há tempos  nas graduações de algumas universidades federais (mesmo antes de se tornar lei apenas no caso da graduação, com a decisão do STF e a aprovação e sanção de Projetos que ficaram em discussão por quase uma década).

O pioneirismo se deve a serem programas de áreas altamente envolvidas com o estudo das temática étnico-raciais, incluindo ai as desigualdades em todas as esferas da sociedade, na realidade a cota para indígenas já existia em um dos cursos, a novidade foi a inclusão de pretos e pardos;  no Mestrado em História há apenas a solicitação de autodeclaração e de interesse em concorrer pela Ação Afirmativa no formulário de inscrição,  já no curso da Antropologia há ainda a exigência de uma declaração de comunidade ou entidade representativa (a intenção parece ser mais  que fazer “reconhecimento” da pertença do candidato,  obter um reconhecimento do compromisso e reconhecimento social do grupo que representa, e que provavelmente se refletirá no retorno em pesquisas que favoreçam e emponderem  a diversidade) .

A pós-graduação stricto sensu, tem sido tradicionalmente para os afrodescendentes um gargalo ainda pior que o acesso à graduação, convém nesse sentido ler o excelente artigo de CUNHA JUNIOR sobre isso ,  portanto essa iniciativa é muito importante e significativa em se tratando do mês da consciência negra…

Abaixo trechos dos editais :

AA-na-pos-UFAM2AA-na-pos-UFAM1AA-na-pos-UFAM3PS. as inscrições de História se encerraram hoje 04/11 e a de Antropologia amanhã cedo.


3 Comentários

Enfim a vitória “final” das cotas, Pres. Dilma sanciona lei da reserva em universidades públicas.

Em cerimônia fechada à imprensa e com a presença dos Ministros da áreas envolvidas, a Pres. Dilma Sanciona a lei de cotas universitárias. Foto: Roberto Stuckert Filho / PR

Para a tristeza das elites reacionárias do país (boa parte das classes média alta  e  alta, e diga-se quase que virtualmente brancas…) cacifadas por donos de cursinhos pre-vestibulares, escolas particulares, revistas, jornais / TVs e políticos de “partidos anti-povão” que tentaram de todas as formas manter as vantagens de acesso e a tradicional hegemonia nas universidades públicas, agora é lei e regra oficial, só disporão livremente de metade das vagas da rede de ensino federal, a outra metade será ocupada por estudantes vindos obrigatoriamente da escola pública e com subcotas para estudantes de baixa renda e também para pretos, pardos e indígenas.

O Judiciário confirmou a constitucionalidade através do STF, o legislativo criou e aprovou a lei e ontem finalmente o executivo a sancionou, com o apoio da maioria do povo…, um verdadeiro pacto republicano em que entre outras coisas o ESTADO BRASILEIRO reafirma e efetiva  a desejável vocação para nação democrática, mais justa e solidária (conforme exposto no artigo 3º da Constituição Federal).

Depois de muitas idas e vindas e uma enorme polêmica, as cotas sociais e sócio-raciais se tornam uma política pública de inclusão abrangente e oficial.

Um dia para entrar para a História do país !

(Em tempo !,  em matéria curtíssima e discretíssima o Blog do Planalto deu a notícia, mas enfatizou apenas a cota social, sem qualquer menção as subcotas raciais…)

Mais detalhes: http://educacao.uol.com.br/noticias/2012/08/29/dilma-sanciona-lei-que-cria-cotas-em-universidades-federais.htm


1 comentário

Movimentos Negros ou Movimentos Pretos ? : a abrangência X a radicalização

“Degradê” Afrobrasileiro

Antes de iniciar o desenvolvimento do tema em si, é preciso que o leitor tenha consigo alguns conceitos :

1- O termo negro não é sinônimo de preto (pelo menos não quando tratamos da temática étnico-racial),  negro foi o termo utilizado para designar os escravos (inclusive em inglês e da mesma forma que grafamos) no “novo mundo”  a partir do séc. XVI.   Inicialmente era aplicado tanto a indígenas escravizados (negros da terra) quanto aos africanos traficados, passando depois a definir apenas os africanos escravizados e seus descendentes.  Não sendo portanto termo definidor de cor, mas sim de origem,  tal termo também foi associado à  já ultrapassada ideia de diversas raças entre humanos.

2- Do ponto de vista sociológico/antropológico foi e é observado que praticamente em todas as culturas mundiais sempre se aplicou o conceito da hipodescendência, ou seja, os elementos produzidos pela  miscigenação étnica ou “racial” sempre foram automaticamente alocados no grupo de ascendência menos privilegiada socialmente. No caso particular de brancos e negros, os miscigenados (principalmente os óbvios) sempre foram considerados negros (mesmo que alguns insistissem em uma “providencial coluna do meio” que na prática pouca ou nenhuma diferença representou) e como tal compartilham as mazelas do racismo e  indicadores sociais muito próximos entre si e igualmente distantes  da população branca. Portanto, de acordo com tais premissas e também oficialmente através do IBGE, entende-se como POPULAÇÃO NEGRA (descendentes de escravizados africanos)   todos que se auto-declaram como pretos e pardos. Então negro é todo aquele que faz parte da população negra, e não apenas os que parecem africanos (os pretos). Mais recentemente a ONU passou a adotar em sua redação oficial o termo AFRODESCENDENTE  em substituição a NEGRO. O termo retira a carga “racializante” e elimina as confusões entre cor e origem bem como contempla a situação da alta miscigenação na  diáspora africana.

Isso posto e compreendido, permite avançarmos no tema central, os movimentos de resistência e combate ao racismo e as desigualdades sociais e econômicas advindas do processo sócio-histórico baseado no mesmo.

Grupos negros de resistência e ação contra a escravidão e vilipêndio das coisas da cultura trazida pelos diversos povos africanos escravizados e traficados para cá sempre existiram (vide a história dos mocambos e quilombos, dos capoeiras, da religiosidade de matriz africana).  Mais tarde viriam a se juntar (pelo menos parcialmente) a esses insurgentes  naturais, outros grupos majoritariamente não-negros como os abolicionistas. Houve também uma movimentação dos chamados “homens de cor” (em geral miscigenados livres e libertos bem posicionados socialmente) contra o preconceito e a discriminação contra eles ( no entanto sem maiores preocupações com relação aos ainda escravizados…).  O aparecimento do que entendemos hoje por “movimentos negros” começou a se dar após a abolição,  com paradigmas e demandas que foram evoluindo ao longo do tempo .

Iniciou-se com a “guarda negra” que era uma organização paramilitar criada entre a abolição e o final do império para “defender” a Princesa Isabel “a redentora”  e a monarquia, em uma situação um tanto quanto paradoxal…  . Na sequência começaram a surgir os “clubes negros”, cujo paradigma era mais sócio-recreativo, bem como a imprensa negra. Nos anos 30 do séc. XX na esteira dos movimentos influenciados pelas ideologias totalitaristas surgia a FNB – Frente Negra Brasileira, cujo paradigma era baseado na  auto-disciplina, emponderamento,  melhora do conceito do negro na sociedade e participação política (foi proscrita por Vargas em 1937). Na década de 30 também surgia uma movimentação acadêmica (praticamente toda branca) em torno de estudos afrobrasileiros e o início da organização política dos afro-religiosos.

Nos anos 40 ocorreram experiências como o TEN – Teatro Experimental do Negro, criado por Abdias do Nascimento, ou ainda o I Congresso do Negro Brasileiro em 1949/1950. Nos anos 60 e 70 em plena ditadura militar (obviamente com a repressão as atividades políticas não interessantes ao regime)  o que se tinha era um movimento estético, musical e de agrupamento social muito forte influenciado sobretudo pelos movimentos norte-americanos de afirmação. É apenas em 1978 com o início da abertura que surgiram os primeiros movimentos negros  “modernos” .

A partir do centenário da abolição em 1988 houve uma grande disseminação de grupos de “Consciência Negra”, bem como iniciou-se uma forte integração entre as diversas vertentes de resistência e negritude (Cultural, Política & Conscientização e Afro-religiosa).

Movimentos negros,  a abrangência

É portanto a partir desse contexto e premissas, que temos os atuais movimentos negros. Que são grupos de estudo, conscientização e atuação prática, podendo ser entidades formalizadas ou grupos informais. Além disso há os ativistas independentes (também conhecido por “negros em movimento”) que apesar de partilharem a causa e as premissas, não estão vinculados a uma entidade formalizada ou grupo.

Mais recentemente, na esteira da INTERNET, surgiram os ativistas e os grupos virtuais.  A noção da abrangência dos movimentos negros fica mais nítida quando ampliamos o conceito para movimentos de negritude. Isso inclui as vertentes de resistência negra que normalmente não se colocam como “movimento negro”  mas dentro de suas especificidades lutam pela preservação e valorização de elementos da cultura negra e se aliam em mão dupla, sobrepondo e sendo sobrepostos por integrantes dos movimentos negros .

Conscientização & Política                Cultura                      Religiosidade

  • Consciência negra                   Capoeira                  Matriz africana
  • Mulheres negras                      Folclore                    Negritude Cristã  ecumênica
  • Acadêmica                                 Blocos afro              Pastorais de negritude
  • Quilombola                                Hip-Hop                   Movimento negro evangélico
  • Imprensa negra                        Samba
  • Movimentos partidários

Em praticamente todos esses grupos  há o entendimento generalizado que o objetivo principal da causa é a justa integração do negro na sociedade (sócio-econômica, estética e cultural). O foco é o combate às discriminações e a desigualdade motivada por racismo e intolerância.  Entende-se por negro o amplo espectro afrodescendente exposto no início. Via de regra a integração e as alianças com brancos são bem-vindas e se crê  que o racismo e a intolerância são um problema de toda a sociedade e não apenas dos negros.  Sendo assim,  tais grupos (a exeção de parcelas dos movimentos de mulheres que defendem a “endogamia compulsória”, de alguns blocos afros que até coerentemente exigem visível afrodescendência dos integrantes e de alguns   grupos de RAP “de raiz” que tem uma crítica mais ácida), são  menos utópicos, menos radicais e mais pragmáticos.

Nesse sentido, há a  consciência generalizada de que formamos um país multi-racial e multi-cultural.  Em que pese o contexto histórico negativo, a alta miscigenação física e cultural é uma realidade (embora não tenha alterado significativamente os indicadores sociais da população negra, nem a discriminação). Miscigenação essa que hoje ocorre naturalmente, sendo vistas como inviáveis ou desnecessárias, as movimentações massivas no sentindo contrário (repudiada obviamente a apologia à miscigenação como “meta” e ferramenta de branqueamento nacional, ou  o uso meta-racista dado pelos neo-democratas-raciais).

Temas como endogamia (relacionamento exclusivo dentro do mesmo grupo “racial”) são vistos pelos ativistas de movimentos negros como DIREITO, não OBRIGAÇÃO. O afrocentrismo (foco extremado na África antiga como principal contribuidora para a civilização mundial), panafricanismo (a necessidade ou visão de uma natural fraternidade mundial entre os africanos e entre africanos e afrodescendentes), enfrentamentos vigorosos (ao estilo dos “panteras negras”) apesar de considerados, não são assumidos como de “vital importância”  ou prioritários para a causa negra brasileira. O que se busca é basicamente a integração social justa em todos os aspectos  e sem radicalismos.

Movimentos pretos, e a radicalização 

Apesar de geralmente não se identificarem como “movimentos pretos”  e seus   adeptos por vezes estarem “dentro” de movimentos autointitulados negros, os termos preto/preta  são muito recorrentes no discurso dos que apesar de também partilharem da causa geral, que é o combate ao racismo,  o fazem a partir de uma  visão muito menos abrangente e de forma particularmente radicalizada .

Os adeptos de “movimento preto” tem o fenótipo padrão africano como delimitador e a base de suas ideologias e atuações,  reforçam a confusão entre os conceitos de negro e preto, em geral atribuindo a condição de negro apenas aos pretos, abominam a miscigenação (tanto a passada quanto a presente e futura). O tratamento dispensado aos companheiros de luta é “irmão/irmã”, em seus discursos, elementos como a endogamia como obrigação, “família preta”,  “nenhum branco é amigo”,  “povo preto”. Afrocentrismo extremado e panafricanismo se ligam  à  admiração por lideranças internacionais  mais radicais como Malcolm X,  os ” Black Panthers” , Marcus Garvey… . Para os mais ligados ao Reggae Roots, linkado à filosofia/religião Rastafári, são sempre lembrados  o Imperador Hailé Selassié  e Bob Marley (e é interessante destacar mais um paradoxo,  já que Bob Marley era filho de um marinheiro inglês branco e gostava de dizer que “não era preto nem branco”).

Outro ponto recorrente é a aspiração por um “Partido negro” (ou melhor…, preto). Várias foram as tentativas frustradas em se criar um partido assim. Das recentes,a mais notória  é a do PPPomar – Partido Popular Poder Para a Maioria (2001),  iniciativa do Rapper MV Bill  e de Celso Atahyde, que com o amadurecimento, flexibilizaram o discurso, retirando o foco direto da “questão preta” e redirecionando de forma mais abrangente e prática para a questão das favelas e “guetos” negros criando a CUFA-Central Única das Favelas, alcançando espaço na mídia e reconhecimento público.

Nos “movimentos pretos”, há também quem mova campanhas contra a utilização do termo negro (pela sua origem depreciativa) e a favor da sua substituição pelo termo preto (aplicável pelo menos no contexto brasileiro à menos de 10% da população…). “Tiro no pé”, pois desconsidera assim a vantagem estratégica do agrupamento político enquanto negros ou para usar termo mais recente e apropriado, afrodescendentes, formando maioria estatística da população, coisa de 52%.

Do ponto de vista religioso, para tais coletivos “pretos” é visto como preferível a adoção de vias minoritárias extremas e não raro autosegregantes, a partir de paradigmas afrocentristas que remetem as origens hebraicas (Rastafári, Igreja preta, etc…) ou mesmo pela conversão à fé islâmica (opção afirmativa popular entre os afroamericanos na época de Malcolm X e de seus admiradores). Por diversos motivos, a opção pela religiosidade de matriz africana como o Candomblé ou a Umbanda não é em geral considerada interessante, um deles é por não serem vistas como politizantes, aguerridas/revolucionárias, além da questão do sincretismo da umbanda e da grande adesão de pessoas “brancas” (incluindo muitos sacerdotes) .

Nesse contexto, a endogamia, o discurso anti-miscigenação, o de “emponderamento preto” nos moldes mais radicais, o protagonismo exclusivo do “povo preto” na luta (com a declaração de desconfiança generalizada e a não visualização/aceitação de brancos ou miscigenados como aliados de valor), auto-determinação e auto-representação, bem como, o “amor afrocentado”, e a luta contra a “apropriação cultural”  se tornam “bandeiras” prioritárias para os que  enxergam a questão por tal viés.

Ainda na questão da endogamia (inclusive econômica), muitos se apoiam nas práticas norte-americanas como exemplos “desejáveis”, mas esquecem de contextualizar a questão,  a história afroamericana  tem muitas diferenças da afrobrasileira…, lá a miscigenação não foi usada como instrumento de colonização e portanto pouco ocorreu.  O racismo violento e declarado também a estigmatizou para os dois lados. Outro fato é que eles tiveram emancipação e não abolição pura e simples como no Brasil, o que fez com que a evolução sócio-econômica tomasse outro rumo. Finalmente, por lá tiveram por muito tempo um regime oficial de segregação, com o pretenso  “separated but equal” (separados mais iguais), faculdades , igrejas, empresas, bairros “nobres”, etc… completamente negros, lá existem desde o séc. XIX.

Tudo isso resultou em uma endogamia inicialmente forçada e a criação de uma cultura e condições que conduziram a uma “naturalização”  do comportamento,  mesmo assim, não impediu que após o  fim da segregação oficial e o inicio da convivência “igualitária”  entre negros e brancos em todas as camadas sociais, alguma miscigenação e fim de nichos econômicos ocorresse, afinal ela é normal em sociedades multi-raciais (principalmente quando não há restrições oficiais ou sócio-econômicas).

Por tal não é possível simplesmente desejar transpor essa situação e cultura endogâmica norte-americana para o Brasil, há que se relativizar e entender que  as diferenças são plenamente justificáveis.

Não totalmente mas com grande influência no discurso de boa parte das integrantes dos movimentos de mulheres negras (e das “independentes”), surge a questão da endogamia e  “família preta” como bandeira de luta.

É importante frisar que essa demanda e questionamento das ativistas dos movimentos de mulheres negras, é vista como legítima pela maioria dos ativistas dos movimentos negros, se entendida como coisa a ser fomentada e realizável de forma  natural  ou  mesmo como “opção política”  para os que assim desejarem e tiverem as condições favoráveis,  deixa de sê-lo quando colocada como “obrigação” ou “imposição”  que se não seguida ou não absolutamente apoiada, “transforma” os divergentes em “inimigos” , “vendidos”, “não-irmãos” e uma série de outros adjetivos nada positivos.

As reclamações sobre a “solidão” da mulher negra (em especial a preta), a “vilanização” dos homens negros não-exclusivamente-endogâmicos (em especial os ativistas), são via de regra emocionalmente carregadas, baseadas majoritariamente em experiências e mágoas  pessoais ou de observação “empírica” em seu campo de visão limitado, raramente admitindo visões mais amplas, sistematizadas ou relativizadas de toda a questão .

Tais posicionamentos tem causado grandes polêmicas e “fogo amigo” entre as ativistas de pensamento mais radical ( apoiadas pelos alinhados ao “movimento preto”) e  os homens ativistas dos movimentos negros,  que em geral  discordantes da ideia de “endogamia compulsória” .

Conforme o lógico e esperado, o discurso radicalizado e nada diplomático, além de não sensibilizar quem poderia ser conscientizado, provoca reações contrárias, que de maneira geral são extremamente desinteressantes para a causa negra, dando margem para acusações por parte dos “brancos” , principalmente dos  meta-racistas e ne0-democratas-raciais com alto apoio da mídia reacionária,  de “racismo ao contrário”,segregacionismo,”fascismo”, desequilíbrio, “complexo”, etc.  Isso tudo fechando portas de oportunização e diálogo, além das desgastantes escaramuças entre “negros” e  “pretos” que fatalmente acabam descambando para os ataques pessoais entre os defensores das correntes antagônicas.

Principalmente o novo ativista deve pesar bem, quais são os seus objetivos e qual linha vai  majoritariamente adotar, a fim de se tornar produtivo em sua missão de conscientização e busca de resultados efetivos para a verdadeira emancipação da população afrobrasileira,  parcimônia  e equilíbrio podem ser o grande diferencial.