Blog do Juarez

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INTOLERÂNCIA RELIGIOSA (de novo)

Hoje no jornal A Crítica saiu notícia sobre uma intolerância religiosa praticada por um padre na zona leste de Manaus, contra 4 integrantes das religiões de matrizes africanas que foram até a igreja pedir uma benção, ato que pessoalmente acho anacrônico, mas faz parte da tradição de iniciação.

Ocorre que a Igreja católica há muito não tem relação de discriminação com as religiões de matrizes africanas, pelo contrário, o respeito e acolhimento mútuo tem sido cada vez maior (até porque a esmagadora maioria dos adeptos das matrizes africanas são batizados e passaram por quase todos sacramentos da igreja católica) na há ou não deveria haver “antagonismo insuperável” entre católicos e afroreligiosos.

No entanto ainda temos sacerdotes e principalmente fiéis que ignoram isso e como de costume as caixas de comentários nos enchem de vergonha pela ignorância e intolerância registradas. Vejam e entendam, os tempos mudaram:


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TOBY NÃO ! KUNTA KINTÊ!!!

Um dos problemas do neoativismo negro é a ideia romantizada e irreal de que somos africanos ou afrakanos como preferem alguns. A verdade é que nós diaspóricos produto do tráfico negreiro transatlântico temos raiz, mas africanos não somos, e essa é uma das primeiras coisas que descobrimos ao ter a oportunidade de viver um tempo por lá (principalmente os obviamente miscigenados que aqui se chamam de pretos e lá destoam na paisagem, já que a miscigenação por lá comparada com as diaspóricas foi mínima)… .

A história e os séculos nos transformaram em “outra coisa”, por mais que pelas regras do racismo estrutural até sejamos vistos como estrangeiros em nossa própria terra, pelo que paradoxalmente tanto racistas quanto “afrocentristas” ou “panafricanistas desse lado do Atlântico” concordam e lutam.

É até compreensível a busca por uma identidade que tenta reafirmar essa ligação ancestral por meio do viés cultural, estético etc, mas tem gente que exagera… . Os que tem religiosidade de matrizes africanas, tem o seu nome afro interno, que as vezes também tem uso social que remete à tradições do continente africano, outros adotam apelidos ou nomes fakes que nada tem à ver com a sua real origem ( étnicamente falando, em termos familiares ou mesmo de regiões africanas ancestrais) mas lhes proporcionam um sentimento de insurgência anticolonialista e pertencimento afro, até aí tudo bem.

A grande questão é quando a utopia vai além do razoável, e quando digo razoável é entender que gostando ou não, tanto nós quanto muitas gerações da nossa ancestralidade fomos formados nesse caldo de cultura cheio de expropriações e apropriações do novo mundo. Eu até admirava no épico filme “Raízes” baseado no livro de Alex Hailey, quando o escravizado Kunta Kintê obstinadamente tentava preservar o próprio nome e identidade, não aceitando o “Toby” do colonizador, mas ele era um verdadeiro africano recém retirado de sua cultura, o que é bem diferente de alguém que não tem um africano na família a provavelmente pelo menos 7 gerações, das quais a esmagadora maioria mal tem referência das 3 anteriores a si mesmo… .

Somos afro-brasileiros com tudo que isso significa, nada vai mudar isso, nem um nome africano arbitrário num pedaço de papel…, precisamos é de respeito e justa integração social, identidade até faz parte, mas não é a única nem mais útil demanda.


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Ifá, filosofia, tecnologia ou religião ?

Essa é uma discussão recorrente e não é exclusiva de uma ou outra tradição (a africana ou a afrocubana) e chega à reflexão acadêmica de estudiosos das matrizes africanas, com posição favorável à autodefinição como “filosofia assistida por tecnologia ancestral de comunicação cósmica”. Enquanto iniciado em primeira mão, portanto caminhante no aprendizado básico sobre Ifá, mas principalmente como acadêmico, não limito a visão a tal, acato, mas vejo possibilidade outra.

Em história por exemplo, trabalhamos com a categoria das fontes e a do próprio pesquisador, que não escreve para o passado, mas sim para o presente, onde estão seus questionamentos e leitores, e quiças o futuro. Sendo assim, não necessariamente o fato de no passado uma categoria ter nome ou conceito um pouco diferente do que se identifica olhando a partir de hoje, obriga a trabalhar somente com a categoria e terminologia das fontes, ou seja daquela época. O trabalho se dá com a categoria da época ao nível das fontes, mas a análise e reflexão pode e deve abrigar categoria hoje disponível e melhor para a compreensão problemática.

Muito embora Ifá possa ser tudo que se coloca no enunciado, a depender do nível em que se está envolvido ou comprometido com ele, vamos ao “popular”.

Se uma pessoa hoje vê algo em que há presença de:

Divindade(s)
Crença/culto
Noção de sagrado
Sacerdócio
Seguidores
Mística
Congregação/Irmandade

Ela identifica como o quê ??? RELIGIÃO, pura e simplesmente. Em primeiro momento não faz diferença se o foco maior é no culto ao divino, nas formas cósmicas do divino, na filosofia aplicada à vida ou nos detalhes teológicos ou tecnológicos.

Se no meio yorubá original não se entendia culto e vivências com exatamente o mesmo conceito eurocentrico de religião, hoje, no caldeamento cultural em que vivemos, é muito difícil deslocar Ifá de uma categorização não apenas de tradição, mas de “tradição religiosa”.

Ifá não tem “mestres” como em uma mera filosofia, tampouco meros “operadores” de tecnologia oracular, e sim sacerdotes…, e esses últimos só existem em religiões, portanto… 🤷🏿‍♂️


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Sobre o IFÁ

Texto de Juarez Awofakan Oshe Di, iniciado em Ifá, vertente afrocubana

As religiões de matrizes africanas são várias e fortes nas Américas central, sul e no Caribe. Foram introduzidas pelos africanos de várias partes do continente, trazidos pelo tráfico negreiro por quase 4 séculos e mantidas por seus descendentes, com as naturais e inescapáveis adaptações ao contexto afrodiaspórico. Em todas elas é basilar a necessidade de consulta a oráculos não apenas para os interesses particulares de praticantes e clientes, mas para a própria estruturação e práticas religiosas.

É através dos oráculos que se dá a maior parte da comunicação entre o “mundo de cá” (o ayé, o mundo físico e a vida) e o “mundo de lá” (Orum, o mundo espiritual) e é através deles, os oráculos, que se pode alcançar a comunicação com as divindades, o que é diferente da comunicação com espíritos.

Na cultura Yorubá, grande grupo étnico predominante na região da atual Nigéria e vizinhanças, do qual boa parte dos traficados para a escravidão no novo mundo provinha, os cultos a Orixá tem como o grande sábio e conhecedor do destino o Orixá Orunmila.

Orunmila é testemunha quando antes de virmos ao Ayé (nascer) nos ajoelhamos junto a Olódùmarè para escolher nosso destino, objetivos e com quais odús (também dito oduns) chegaremos à terra, coisas que esquecemos entre a conversa com Olódùmarè e o nascimento, e cuja consciência do conteúdo só pode ser resgatada via a iniciação em Ifá.

Importante esclarecer que o conceito de destino em Ifá não é de coisa absoluta, inalterável, mas sim potencialidades e linhas mestras que podem sofrer alterações em função do livre arbítrio e da influência de outros atores da vida. Não dá portanto para escapar da verdadeira data da partida desse mundo, mas dá para não ser levado antes da hora e para cumprir o destino da vida de forma mais proveitosa, corrigindo os desvios, buscando os melhores caminhos e evitando os percalços e armadilhas que se colocam, reduzindo a atuação da divindade Elenini, cujo objetivo é fiscalizar nosso caráter e merecimentos justamente ao fazer-nos cair nesses desvios e recebendo por isso as famosas “peias”.

Orunmila é portanto não apenas o conhecedor do destino e detentor dos conhecimentos para que o cumpramos bem. Orunmila é também quem interage com os demais Orixás e ancestrais que atuam em nossas vidas e possibilita a comunicação entre eles e nós através do Ifá. O culto à ele, o acesso pleno e privilegiado à essa comunicação oracular, seus segredos, métodos para alcança-la e tomar as medidas cabíveis via cerimônias, obras e condutas indicadas é o chamado IFÁ.

Apesar de no meio de religiões de matrizes africanas, muita gente utilizar o termo Ifá genericamente para se referir aos subsistemas oraculares para práticas divinatórias de raizes iorubanas, ou seja, os métodos de consulta aos Orixás, na verdade Ifá é muitíssimo mais que isso. Ifá é o culto especializado e sistematizado à Orunmila, aos 4 Orixás guerreiros que também se recebe na iniciação para assentar em casa (Eleguá, Ogum, Oxóssi e Ozun, representado pelo galinho, não confundir com Oxum) e é o detentor do sistema oracular mais complexo e preciso.

Os cultos “Lesse Orixá”, caso de alguns cultos africanos ainda praticados por lá, do candomblé no Brasil e do “Lucumi-Osha” cubano (que foi espraiado para outros paises latino-americanos, caribenhos e mesmo aos EUA e Europa), utilizam subsistemas menos complexos do Ifá, como os dilogún, a exemplo do jogo de búzios.

O Ifá apesar de também ser culto a Orixá, como já dito, é o culto que se dedica especialmente ao Orixá Orunmila, ao conhecimento e manutenção dos destinos, diferente dos cultos lesse Orixá, cujo principal objetivo é cuidar dos filhos de Orixá e de suas relações com eles, como a “feitura de santo”, os toques para Orixá, ebós, e o transe.

No Ifá pode eventualmente haver toques de tambor, mas não é cotidiano, não há nem “se trabalha transe”, portanto Babalawos não se ocupam de “feitura de santo”, isso fica para os Oriatés e para Babalorixás e Yalorixás do Lesse.

Ifá, é um caminho muito propício para os que querem cultuar Orixás, ter o axé em suas vidas mas que “não dão santo”, apesar de não haver impedimento para iniciar os que dão, exceto no caso dos Babalawos, que não podem ser pessoas de incorporação ou transe.

Apenas os sacerdotes de Ifá, os Babalawos, conhecem e são autorizados a utilizar todo o sistema de oráculos de Ifá e seus subsistemas mais complexos, através do opon-ifá (um “tabuleiro” especial, junto com outros elementos acessórios) o opele-ifá (um “rosário” de plaquetas côncavas/convexas e um lado claro e outro escuro) e com ikins (os caroços do dendezeiro). Tudo isso combinado com um grande “corpus” literário de patakins (historietas, parábolas) versos, ditados, signos, rezas, saudações, cânticos e procedimentos litúrgicos.

Os Babalawos na tradição afrocubana, não podem jogar búzios, isso é feito pelos sacerdotes e sacerdotisas dos cultos “lesse orixá”, ou iniciados em ifá que não sejam Babalawos, após um rito de consagração ao serviço do oráculo.

Segundo o respeitado site do “Proyecto Orunmila” que reúne o melhor da literatura temática do sistema religioso afrocubano de base yorubá, o ifá-santeria-osha, alguns outros subsistemas oraculares de Ifá como o biange (bianwé) e o aditoto, também podem eventualmente ser manipulados pelos omoifás, aqueles iniciados e iniciadas na primeira mão em Orunmila-ifá, os chamados de Apetebis (as mulheres) e de Awofakans (os homens), assim como por “santeros” que tenham igualmente recebido em iniciação os Orixás guerreiros. Porém isso depende das orientações internas de cada rama de Ifá, algumas permitem, outras não.

O ifá inicialmente introduzindo no Brasil por meio de Babalawos que vieram entre os escravizados, não foi sistematizado e constituido literariamente.

Por um processo peculiar de “matriarcalização” dos cultos afro no país, em meados do século XX acabou por praticamente desaparecer junto com os últimos Babalawos do que teria sido uma “tradição brasileira”, deixando apenas algumas referências utilizadas nos sistemas oraculares manejados por Yalorixás e Babalorixás, destacadamente o jogo de búzios.

Desde meados dos anos 90, o culto de Ifá está sendo reintroduzido no país a partir dos aportes primeiro dos afrocubanos e mais recentemente dos nigerianos. Apesar da base teológica ser comum à toda cultura yorubá, tanto na Nigéria, quanto na preservada em Cuba ou no cultos brasileiros de matrizes africanas, obviamente existem diferenças e evoluções distintas, o que causa divergências e certo “distanciamento” principalme entre “africanos” e “cubanos”.

Particularmente vejo a tradição afrocubana como muito mais próxima da realidade brasileira por ser igualmente diaspórica, e foi essa que escolhi como caminho em Ifá.


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SOBRE O ABATE RELIGIOSO E A REAFIRMAÇÃO PELO STF

Não poderia ser outra a decisão frente ao direito claramente colocado na constituição, no estatuto da igualdade racial e a partir do conhecimento mais aprofundado e não preconceituoso sobre os cultos afros e suas premissas.

Tem um filme muito bom que fala dessa “culpa cristã” e da intenção de uma religiosidade afro “vegana”, tolerável aos olhos e sentidos eurocentrados, o que contraria os fundamentos essenciais das tradições e que não podem dispensar o sacrifício, o sangue, que nada tem a ver com tortura ou maus-tratos aos animais.

O interessante é que até os não veganos, que pouco se importam com a forma como vivem e são abatidos os bichos que vão parar em suas mesas, entram nessa de querer acabar com o abate religioso, mas nem pensam sobre o abate que lhes alimenta no dia a dia… .

Nessa se lascaram… AŚE 7 X 0 Hipocrisia & Eurocentrismo . ✊🏿


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Participação no Jornal AM TV – Matéria Preconceito

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Clique na imagem para ver o vídeo da matéria.

Participação  em mais uma entrevista sobre um tema para o qual sempre me referenciam… Preconceito & Racismo .

Essa foi curtinha,  na verdade uma “levantada de bola” para a matéria  principal tratada por um consultor jurídico ( vídeo aqui ); voltando ao comentário sobre a nossa entrevista específica…, como em  toda entrevista desse tipo (tempo bem reduzido) se faz  edição e cortes para a fala “caber” no tempo, o que implica em um resultado inteligível, mas sem boa parte das informações que julgamos pertinentes para a questão, as vezes uma informação complementar que passamos  em off  (com câmeras e microfones desligados) é mal-entendida ou é passada de uma forma que acaba não refletindo, ou refletindo com imprecisão o que se  disse, e “na  pressa”  também deixamos as vezes de explicar melhor certos conceitos e ai acabamos  também deixando espaço para a imprecisão interpretativa ou  mesmo a “deturpação” do que foi dito.

Um exemplo nessa entrevista é que em off eu disse que de acordo com o Censo 2010, a população do Amazonas tem 4,3% de autodeclarados PRETOS, número próximo ao de indígenas (4,8%) o que representa em números absolutos cerca de 120 mil pessoas (e demonstra a impropriedade em dizer que o estado “é indígena”  ao mesmo tempo em que se nega ou ignora a presença e relevância da população de origem afro) ,  na reportagem a locução em “background”  fala em 120 mil NEGROS… , (confusão comum para quem não tem bom domínio da temática), ocorre que PRETO não é sinônimo de NEGRO…, o IBGE trabalha com as categorias BRANCO, PRETO, PARDO, AMARELO e INDÍGENA, sendo que POPULAÇÃO NEGRA é a soma dos autodeclarados PRETOS e PARDOS… ou seja, a proporção populacional de NEGROS é muito maior do que ao se vislumbrar apenas os PRETOS (os de aparência “padrão africana” não miscigenada)  e isso gera uma incoerência estatística e colabora com o processo de invisibilização negra, e mesmo sendo a maioria dos pardos do estado (68% da população) de origem indígena, não quer dizer que boa parte desse percentual  não se trate de pardos de origem afro (por extrapolação, etc… estima-se que 20% da população amazonense seja parda de origem afro), somados pretos e pardos de origem afro, teríamos coisa de 25% de população negra no Amazonas (estatisticamente empatada com a população autodeclarada branca…) .

Outro ponto é a “manchete”, na realidade o que foi passado pelo Jefferson (que aparece na primeira parte da entrevista falando sobre LGBT) é que o estado ocupa primeiro lugar no ranking de crimes motivados por homofobia no norte do pais…, do jeito que ficou, da a ideia errada de que é o PRECONCEITO contra LGBTs e Negros (tudo junto e misturado) que ocupa a “primeira posição” em um ranking nacional, o que de certo não reflete a realidade… .

Mas isso são detalhes e “faz parte”, no geral ficou bom e cumpre o objetivo .


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Invisibilização negra, uma questão de desconhecimento ou ideológica ?

silencio

 

Juarez C. da Silva Jr.

Não é raro ouvirmos no estado a repetição da sentença “não há negros no Amazonas !” (e obviamente replicado com relação a capital Manaus), vindo democraticamente tanto de pessoas simples e pouco instruídas quanto de figuras públicas de projeção nacional e instrução esmerada…, até mesmo em publicações oficiais essa negação ocorre (mesmo que não tão  direta e explicitamente)

O texto citado abaixo fez parte de um dos sites governamentais locais (hoje não mais disponibilizado em nenhum deles, porém ainda pode ser encontrado facilmente na web pois foi  largamente reproduzido em trabalhos escolares sem citação de fonte e sites outros disponibilizados na web) :

“Contribuição Étnica

Uma cidade marcada pelos traços culturais, políticos e econômicos herdados dos portugueses, espanhóis e franceses. Manaus cresceu assim, marcada pelos ciclos de exploração predatória do capitalismo de arribação. Mas, voltando um pouco na história do estado, não se pode esquecer a importância dos ameríndios no quesito contribuição étnica. Foram eles que iniciaram a ocupação humana na Amazônia, e seus descendentes caboclos desenvolveram-se em contato íntimo com o meio ambiente, adaptando-se às peculiaridades regionais e oportunidades oferecidas pela floresta.”

Percebe-se que não há  uma palavra sequer a respeito da presença ou influência negra na cultura, etc; ou seja, uma invisibilização por omissão .

O que piora quando uma publicação oficial (figura abaixo) traz equívocos grosseiros, demonstrando o real desconhecimento da temática étnico-racial (vide a definição de “amarelos” na figura abaixo), ou reproduz imprecisões e falácias preconceituosas como no destaque em amarelo, já não mais omitindo completamente, mas com clara intenção de minimizar e reforçar tal invisibilização da presença negra na cidade e no estado.

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Projeto Mapeamento Econômico do Comércio da Cidade de Manaus, 2009,  pag 12, no seguinte link oficial:

fonte : http://www.seplan.am.gov.br/arquivos/download/arqeditor/projetos_mapeamentos_economicos.pdf

A publicação ignora a diferença conceitual e estatística entre “preto” e ” negro”, desconsidera os registros históricos que dão conta da presença local de africanos e descendentes escravizados,  a  longa campanha abolicionista no estado ( 16 anos, e concluída em 1884 com a Abolição da escravidão no Amazonas, quatro anos antes da lei áurea) , dos  trabalhadores “africanos livres” em Manaus, dos primeiros “barbadianos” (trabalhadores negros falantes de inglês, contratados para as grandes obras do período áureo da borracha), dos migrantes do Pará e Maranhão…, e tudo isso ainda no século XIX, portanto muito antes  e com muito maior relevância do que o alegado. A confusão se dá pela utilização do ano de 1907 (quando se amplia a presença barbadiana na região amazônica em função da retomada da construção da Estrada de ferro Madeira-Mamoré em Rondônia, bem como, de diversos outros empreendimentos ingleses em Belém e Manaus, mas nem isso elimina a sua presença prévia)  a exemplo da seguinte citação:

Entre 1890 e 1925, a Amazônia recebeu número considerável de imigrantes da colônia inglesa de Barbados no Caribe. Na sua grande maioria vieram como mão de obra especializada para trabalhar nas companhias inglesas responsáveis pelos serviços públicos no Pará. “Negros em quase sua totalidade, os barbadianos foram identificados na cidade como negros estrangeiros” 19. A vida social desses imigrantes era organizada em torno da Igreja Anglicana, transformando-a num centro de preservação sua identidade.”   (FIGUEIREDO, 2004).

A ideia central do discurso negacionista parece ser reforçar a  premissa de que a presença negra não ocorre no Amazonas de forma histórica e em período de formação do que é considerado “a base  do “povo amazonense”, muito menos com relevância…,  o que remeteria a população negra que ” insiste em não desaparecer”  a  um status de “alienígena”,  extemporânea,  raras exceções e “incidentais”, com a intenção de “preservar isolado” da composição étnico-racial local o elemento negro, “indesejável” enquanto permeador e formador de uma  sociedade que se deseja ver “europeizada” ou no máximo (já que não é possível negar dada a óbvia prevalência visual geral) caldeada com o indígena (vide também “Diretório dos índios do Marquês de Pombal: ou quando se acirrou a diferença social entre nativodescendentes e afrodescendentes no norte do Brasil.“)
Tal discurso excludente,  aparece como dito no início,  de forma generalizada e por exemplo na fala de diversos intelectuais e  lideranças políticas:
“Como parlamentar amazonense, o que tenho a observar é que nós temos uma identidade cabocla no Amazonas. É escassa a população negra naquele estado. A predominância é absolutamente do elemento indígena com o elemento europeu [..] Para mim, Zumbi é um herói, mas um herói muito mais próximo de mim é o índio Ajuricaba, que resistiu até a morte contra Portugal, liderando com enorme maestria uma verdadeira guerrilha contra o colonizador português. Então são valores que não podem ser esquecidos.” (Arthur Virgílio Neto, Agência Senado, 2009)  
Ou do Ex-Reitor da Universidade do Amazonas  Lourenço Braga que em entrevista à Agencia Brasil  afirmou :
“A universidade não enfrentou a questão dos negros porque eles se constituem uma minoria bastante pequena na região. A minoria mais significativa na região é de índios”. (Lourenço Braga, Agência Brasil, 2004)
Vale ressaltar  que à  época  e  segundo o Censo do IBGE de 2000, a população do Amazonas (2.817.252 habitantes) era  formada por 4,02% (113.391) de índios, 3,1% de pretos (87.334), 66,89% de pardos ( lembrando que oficialmente, pelos critérios do IBGE , políticas públicas, academia e Movimento Negro, a soma os autodeclarados pardos e pretos compõem a chamada população negra)  e 24,19% de brancos; ou seja, está óbvio que o reitor desconhecia o fato ou preferiu ignorar e seguir de acordo com a ideologia de invisibilização corrente, já que uma diferença de um ponto percentual (dentro da margem de tolerância para o chamado empate estatístico) em termos técnicos não teria o condão de “justificar” cotas indígenas e “não enfrentar” cotas para negros devido a”não significância” do segmento, e novamente lembrando que falamos apenas de pretos, a se considerar o conceito estatístico de negro (pretos + pardos) a coisa atingiria  simplesmente 70% da população…  .
 A CONTRA-INVISIBILIZAÇÃO

Mais recentemente, próximo da virada do século, se intensificou no meio acadêmico e em consonância com o que já se vinha há um bom tempo sendo demandado pelo movimento negro, um movimento no sentido de reverter tal invisibilização;  Luis Pinheiro Balkar  e Patricia Maria Melo Sampaio (respectivamente meu Professor e Orientadora  no Mestrado)  já denunciavam tal invisibilização histórica:

Em artigo recente sobre a presença negra na Amazônia de meados do XIX, Luís Balkar Pinheiro aponta para as limitações de abordagem encontradas na produção historiográfica e conclui que um de seus principais desdobramentos é o fato de que “o ocultamento da presença negra na Amazônia continua efetivo, mantendo incólume uma das mais graves distorções na escrita da história da região.” (SAMPAIO, 1999, s/p)

Novamente citando Patrícia Sampaio em importante e mais recente (2011) obra por ela organizada, “O FIM DO SILÊNCIO: presença negra na Amazônia”, verifica-se a relevância de todos os trabalhos no sentido de eliminar esse persistente silêncio.

[..] tema tido como fundamental nos mais diferentes campos acadêmicos: economia, sociologia, antropologia, direito, além da história, obviamente. Contudo em se tratando de Amazônia e, mais particularmente, do Amazonas, estamos diante de um tema muito pouco frequentado pelos estudiosos. Um silêncio persistente que insiste em apagar memórias, histórias e trajetórias de populações muito diversificadas que fizeram desta região seu espaço de luta e sobrevivência. Esta é uma dívida de muitas gerações que ainda reclama sua paga. (SAMPAIO, 2011, p8 )

De fato, uma nova geração de pesquisadores amazonenses em sua maioria influenciados ou seus orientandos, como Ygor Olinto Cavalcante, Provino Neto, Tenner Inauhiny entre tantos outros, formados e em formação, tem dado significativa contribuição para reverter essa invisibilização.

Corroborado pelos esforços dos militantes dos movimentos de negritude, que recentemente tem alcançado os programas de pós-graduação, como Ednailda dos Santos,  Arlete Anchieta, Gláucio da Gama,  Socorro Lima , além de outros já mais antigos como o Dr. KK Bonates,  trazendo aos poucos a  justa reversão do quadro.

Para finalizar, cabe lembrar um dos últimos fatos com relação a essa invisibilidade negra no Amazonas, muitas pessoas afirmam sem maiores constrangimentos, que a população negra na cidade de Manaus só “aparece”  ou “cresce grandemente” a partir da chegada dos imigrantes haitianos, refugiados do grande terremoto de 2010, quando em grandes levas chegavam a Manaus, lotando as instalações da igreja São Geraldo, na avenida Constantino Nery, ou circulando a pé aos pares ou grupos atrás de empregos com as indefectíveis pastas com documentos e curriculuns, ocorre que no período de 2010 a 2014 entraram no Brasil, cerca de 34 mil haitianos, desses 20%  (6.800) direto de port-au-prince  para o sudeste do Brasil, 75% entraram pelas fronteiras do norte (Tabatinga-AM ou Brasileia-AC), pelas facilidades para entrar e seguir por terra a maioria entra por Brasileia-AC, até  meados de 2013 mais de 10 mil haviam passado por lá, o sendo a rota preferida o número triplicou desde 2010 , o que deixaria como saldo máximo para a entrada  por Tabatinga – Manaus de cerca de 17 mil ao longo de quatro anos, sabe-se que hoje, embora estejam em 286 cidades brasileiras, 75% dos haitianos estão concentrados em São Paulo, em torno de 10% em Manaus (ou seja 3.400)  e 7% – cerca de 3 mil – em Minas Gerais.

De acordo com o relatório do IBGE de 2007, em 2000, a Região Norte possuía uma população de 12,9 milhões de habitantes, dos quais 3,6 milhões se classificaram como brancos (28,0%), 641 mil como pretos (5,0%), 29 mil como amarelos (0,2%), 8,3 milhões como pardos (64,0%) e 213 mil indígenas (1,7%). (lembrando que nem estamos entrando na questão dos “pardos” que na região norte tem a especificidade de não ser majoritariamente de origem africana, mas indígena)

A questão é, como é que notaram os talvez 17 mil haitianos que passaram por Manaus e os 3.400 que ficaram por aqui, mas não perceberam os 87.334 pretos brasileiros, que já estavam por  aqui pelo Amazonas de acordo com o Censo de 2000, ou os 143.888  de acordo com o censo de 201o… ????;  por outro lado ninguém tem dúvidas em colocar o Amazonas como “estado indígena” pelos 168.624 indígenas apurados no mesmo censo (uma diferença   + + 0,7% pontos percentuais em relação a de pretos), mas insistem sistematicamente na negação da presença negra ou na sua “alienigezação”, mas (BLUMER, 1939) explica bem isso :

Os quatro tipos de sentimentos sempre presentes no preconceito racial: 

  1.  um sentimento de superioridade;
  2.  um sentimento de que a raça um sentimento de que a raça subordinada  é intrinsecamente diferente e alienígena;
  3.  um sentimento de monopólio sobre um sentimento de monopólio sobre certas vantagens e privilégios
  4.  medo ou suspeita de que a raça medo ou suspeita de que a raça subordinada deseja partilhar partilhar as prerrogativas da raça dominante.

Pelo resultado das ações práticas, se explica e pode-se identificar os verdadeiros sentimentos que motivam a histórica invisibilização negra no Amazonas.

 

 

Mestrando em História Social do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Amazonas (PPGH-UFAM) turma de 2014 e cursista da disciplina Metodologia das Ciências Sociais no Mestrado em Sociologia do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal do Amazonas (PPGS-UFAM).

 

REFERÊNCIAS

AFROAMAZONAS. Desenvolvida pelo Movimento Afrodescendente do Amazonas, 2006, Informações gerais sobre a Instituição e referencial teórico sobre negritude . disponível em: < http://movimentoafro.amazonida.com >. Acesso em 18. ago. 2014.

BLUMER, H. 1939 “The nature of racial prejudice”, Social Process in Hawaii, v. 11-20. 1965 “Industrialization and race relations”, in HUNTER, G., Industrialization and Race Relations, Westport, Greenwood.

FIGUEREDO. Aldrin. Belém dos Imigrantes: História e Memória. Belém- Pará.  Museu de Arte de Belém , 2004.

GARCIA, Etelvina. Manaus, Referências da História, disponível em : < http://www.manaus.am.gov.br/manaus/referenciasdahistoria/sumario>. acesso em 29. out. 2013.

HAITIANOS BRASIL. Desenvolvida SERVIÇO VOLUNTÁRIO PRÓ HAITI e jesuítas do Brasil em Manaus/Amazonas. , 2013, Informações gerais sobre a Instituição e serviços relacionados. disponível em: < http://haitianosbrasil.blogspot.com.br/ >. Acesso em 18. ago. 2014.

IBGE. Censo Demográfico 2010. Disponível em: http://www.ibge.gov.br. Acesso em: 18. ago. 2014.

LIMA, Maria Rosane. Ingleses Pretos, Barbadianos Negros, Brasileiros Morenos? Identidades e Memórias (Belém, Século XX e XXI). Dissertação de mestrado, UFPA. 2004

MONTEIRO, Mário Ypiranga. O folclore afro-negro no Amazonas.

Caderno do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, Manaus, 1987

REIS, Arthur. História do Amazonas, Belo Horizonte: Itatiaia, 1989

SAMPAIO, P. M. O fim do silencio: Presença negra na Amazônia. Belém: Açaí: CNPq, 2011.

SILVA JUNIOR, J. C. A presença negra no Amazonas, 2006. disponível em< http://movimentoafro.amazonida.com/presenca_negra_no_amazonas.htm>. acesso: 18. ago. 2014.


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Juiz Federal afirma em sentença que Candomblé e Umbanda não são religiões

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Coisa que não costumo fazer é comentar magistratura muito menos decisões judiciais, mas dado a gravidade do caso, não poderia deixar de primeiro registrar e divulgar a situação aqui no meu espaço de reflexões compartilhadas com alguns leitores costumeiros ou eventuais, e segundo indicar a leitura do primoroso recurso feito pelo MPF- Ministério Público Federal.

A 17ª Vara Federal do Rio de Janeiro negou pedido de antecipação de tutela ao MPF  em Ação Civil Pública que visava a retirada de vídeos do YouTube, com a alegação de que promoveriam intolerância e discriminação religiosa contra a Umbanda e o Candomblé. Na decisão, de 24 de abril deste ano, o juiz Eugênio Rosa de Araujo afirmou que os cultos não são religiões, conforme trechos da decisão destacados abaixo:

“Ambas manifestações de religiosidade não contêm os traços necessários de uma religião a saber, um texto base (corão, bíblia etc) ausência de estrutura hierárquica e ausência de um Deus a ser venerado” 

“As manifestações religiosas afro-brasileiras não se constituem em religiões, muito menos os vídeos contidos no Google refletem um sistema de crença – são de mau gosto, mas são manifestações de livre expressão de opinião.”

Não vou comentar diretamente a questão, mas recomendo fortemente a leitura do primoroso recurso do MPF ao TRF-2 (Tribunal Regional Federal da 2ª Região). (atenção está em .PDF) .


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Diretório dos índios do Marquês de Pombal : ou quando se acirrou a diferença social entre nativodescendentes e afrodescendentes no norte do Brasil.

negro-indio

introdução

O presente texto tem como objetivo esclarecer de forma sucinta e simples, conceitos básicos e históricos relativos ao entrelaçamento da população indígena e da de origem prevalentemente indígena desetinizada e/ou miscigenada (referenciada popularmente como parda de origem indígena ou “cabocla”), com a população afrodescendente (descendente de africanos independente de fenótipo característico ou miscigenado) sob o manto comum de população “negra” no norte do Brasil.

Além, das tentativas de desentrelaçamento, identificar a origem das trajetórias de diferenciação dos lugares sociais e condições de mobilidade social particulares de cada um dos grupos a partir de lei real datada de 7 de Junho de 1755, tratando de ordenamento de relações estatais e sociais nas “Povoações dos Índios do Pará, e Maranhão” (regiões administrativas coloniais que à época concentravam os territórios de outros atuais estados da região norte como o Amazonas e do nordeste como o Piauí e Ceará), na época uma segunda colônia portuguesa nas Américas que não fazia parte do Brasil.

Para notação mais clara, passo a utilizar o termo nativodescendente para designar genericamente tanto indígenas quanto descendentes miscigenados ou sem etnia autodefinida e somente indígenas quando o contexto indicar o sentido corrente do termo.

Cabe lembrar também que o termo NEGRO, passou a ser utilizado por introdução dos espanhóis a partir do século XVI com o sentido de escravo/escravizado, sendo aplicado a todos em tal situação (tanto para africanos quanto para indígenas americanos).

Por economia textual e para conscisão, remeto as informações referentes ao Marquês de Pombal e sua relação com a administração do estado português e sua então colônia brasileira e a questão indígena para hipertexto (texto externo).

O início da questão

De conhecimento amplo é o fato que durante a colonização do Brasil e da segunda colônia portuguesa, o atual norte brasileiro, os primeiros escravizados para fins de mão de obra, foram os nativos brasileiros (ou simplesmente índios) cuja abolição oficial da escravidão veio em três episódios:

1) em 1o de abril de 1680 (através de lei real, na realidade inócua)

2) em 7 de junho de 1755 (a já citada lei tratando do Pará e Maranhão)

3) finalmente, em 1758 a medida foi estendida por alvará para o então Estado do Brasil .

Até então era comum os indígenas escravizados serem referenciados por “Negros da Terra” ou simplesmente Negros, referência também utilizada entre o próprios escravizados.

A utilização de mão de obra africana escravizada na América começou por volta de 1550 (segundo alguns historiadores por volta de 1570 no Brasil), ou seja, por mais de 180 anos, foram “Negros” tanto os africanos e descendentes quanto os indígenas e descendentes escravizados no Brasil ( obviamente com natural miscigenação entre os dois grupos…).

Portanto, apesar de ser corrente a interpretação de que Negros seriam os descendentes dos africanos escravizados, há bom espaço conceitual e histórico para “encaixar” na população negra (ou simplesmente descendente de escravizados) a descendência dos ” Negros da terra” , ou seja, a população parda de origem indígena (os populares “Caboclos”).

Do ponto de vista sociológico, e apesar dos fatores de diferenciação na mobilidade social que serão explanados adiante, os indicadores sociais e vicissitudes da maioria dessa população não difere razoavelmente da maioria da população afrodescendente, sendo inclusive para fins afirmativos não desagregada da população negra.

A encruzilhada

Se até meados do séc. XVIII Negros africanos (juntamente com os “crioulos”, negros aqui nascidos) e Negros da Terra, seguiam uma trajetória social relativamente comum, seguidos a certa distância pelos Índios que resistiam à escravização e maiores contatos com a sociedade envolvente (sendo por tal paulatinamente exterminados).

Em tal ponto se dividiram em três direções distintas, os afros seguiram escravizados e desprovidos de cidadania, os indígenas assimiláveis às regras “civilizatórias” impostas pela coroa e os antigos negros da terra ganharam cidadania e foram incorporados com respeitos à sociedade envolvente, enquanto os indígenas resistentes à assimilação, passaram a ser vistos como completamente inúteis aos interesses da sociedade branca, além de “entraves” à expansão das fronteiras de colonização e exploração de recursos naturais, portanto alvos naturais de extermínio e expropriação (situação que apesar da atual proteção do estado, permanece atualíssima).

Neste ponto é interessante e esclarecedor a leitura do seguinte trecho da Lei real de 1755 (com a linguagem e grafia originais da época) que mudou a situação de indígenas assimiláveis e descendentes perante a sociedade :

“10 – Entre os lastimosos principios, e perniciosos abusos, de que tem resultado nos Indios o abatimento ponderado, he sem duvida hum delles a injusta, e escandalosa introducçaõ de lhes chamarem NEGROS ; querendo talvez com a infamia, e vileza deste nome, persuadir – lhes, que a natureza os tinha destinado para escravos dos Brancos, como regularmente se imagina a respeito dos Pretos da Costa de Africa. E p orque, além de ser prejudicialissimo á civilidade dos mesmos Indios este abominavel abûso, seria indecoroso ás Reáes Leys de Sua Magestade chamar NEGROS a huns homens, que o mesmo Senhor foi servido nobilitar, e declarar por isentos de toda, e qual quer infamia, habilitando- os para todo o emprego honorifico: Naõ consentiraõ os Directores daqui por diante, que pessoa alguma chame NEGROS aos Indios, nem que elles mesmos usem entre si deste nome como até agora praticavaõ; para que comprehendendo elles, que lhes naõ compete a vileza do mesmo nome, possaõ conceber aquellas nobres idéas, que naturalmente infundem nos homens a estimaçaõ, e a honra. ” (Apud ALMEIDA , 1997)

Os desdobramentos

Pela leitura do trecho anterior, não fica difícil imaginar os desdobramentos de tal ato, a saber :

a) A instalação de generalizada mentalidade de “superioridade” do índio e de seus descendentes “caboclos” em relação aos negros (naquele momento passados a ser considerados apenas os afros)

b) O reforço da estigmatização do negro e da “necessidade” de rejeitar por todos os meios tal “pecha”, uma maior aceitação e mobilidade social do nativodescendente

c) O surgimento da tradição popular de invisibilização e negação da presença negra na região

d) A geração de um grande intervalo temporal e diferença de condições iniciais da trajetória de nativosdescendentes e afrodescendentes enquanto livres cidadãos (com óbvias consequências no rankeamento social atual de ambos aos grupos).

Hoje a população autodeclarada preta e parda na região diretamente atingida pelo ato pombalino de 1755 é a seguinte :

pop-cor-CENSO-IBGE-2012-norte-UF

FONTE: IBGE CENSO 2010

Interessante observar que no Ranking (RK) nacional os 3 estados com maior população autodeclarada parda estão na região, assim como os dois de maior população indígena, apenas Maranhão e Piauí aparecem entre os 4 com maior população autodeclarada preta e Pará (tido como uma das grandes portas de entrada e fixação de escravos na região) ocupa a a 11ª posição e o Amazonas (em cujo o estado a presença negra sempre foi tradicionalmente negada e invisibilizada) ocupa a antepenúltima posição nacional em pretos autodeclarados.

Interessante observar que apesar de reconhecida “naturalmente” como terra “predominantemente indígena ” ocupando a segunda posição no ranking nacional relativo a tal população, possui em termos percentuais empate estatístico com o percentual de autodeclarados pretos (estes como já dito, tradicionalmente invisibilizados e negados na composição étnico-racial do estado).

A se seguir porém o critério do IBGE (utilizado desde 1872 no primeiro censo brasileiro) que agrega pretos e pardos na população negra, Amazonas e Pará seriam os dois estados de maior proporção populacional negra… coisa que faria total sentido se baseado no conceito apresentado de população negra como descendente de escravizados e não apenas afrodescendente, o que gera porém uma grave imprecisão de origem e pertença da população regional.

De fato e perceptível empiricamente, constata-se que a grande maioria dessa população (mas não toda ela) autodeclarada parda possui traços indígenas e não africanos.

Ao mesmo tempo que seguindo o preconizado na lei do diretório pombalino, introjetada e repassada de geração em geração, rejeitam a associação estigmatizada com “Negro” ou como parte da população negra, e não podendo se colocar como indígenas (esses etinizados) nem como brancos, reconhecem a origem indígena (a marca, presente no fenótipo) mas em geral reforçam, valorizam e reivindicam uma identidade “cabocla” não necessariamente acoplada exclusivamente ao fenótipo mas principalmente uma cultura caldeada e característica da região amazônica.

A solução para tal impasse a nosso ver, e sem ferir os princípios que norteiam a moderna pesquisa de populações e políticas públicas, surgiria com a reformulação das categorias censitárias para as de ancestralidade geográfica (nativodescendentes [etinizado/ desetinizado] , eurodescendentes, afrodescendentes e asiaticodescendentes), emprestando assim maior precisão à pesquisa censitária e todos os desdobramentos.

A conclusão

Diante do exposto ficam aclaradas algumas situações características à região norte do Brasil no tocante a temática e que sem maiores complementos também pode ser estendida ao restante do país.

A trajetória dos nativodescendentes assimilados, após o ato pombalino foi bastante facilitada e estabeleceu as condições para que hoje os mesmos estejam bem distribuídos ao longo de toda a pirâmide social (nacional e regional), coisa que ainda não ocorre com a população afrodescendente, majoritariamente concentrada na base da pirâmide e iniciando deslocamento massivo para o centro.

Referências

ALMEIDA, Rita Heloísa de. O Diretório dos Índios: Um Projeto de “Civilização” no Brasil do
Século XVIII. Brasília , UnB, 1997.

Brasil Escola . Reformas Pombalinas