Blog do Juarez

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Capitães do Mato tinham patente…

Em uma descoberta da minha emérita orientadora sobre patentes militares no Pará colonial, onde o foco era uma de “Alferes dos Índios”, notei na fonte exibida também uma outra de “Capitão do Mato”. Não sou muito fã de Colônia e Império, embora tenha até pesquisado sobre militares negros nos ditos períodos, nunca me ocorreu porém que “Capitão do Mato” fosse um “posto” de fato e obtido por patente, imaginava ser só uma referência de ofício e um tratamento popular dado aos caçadores de escravizados fugidos. Com a atenção chamada fui pesquisar e de fato, no Brasil colonial os capitães do mato tinham patentes, emitidas pelos governadores das capitanias ou mesmo pelo Rei. Outros pontos interessantes são que, diferente do senso comum, o capitão do mato não necessariamente era um “profissional liberal” que trabalhava sozinho, como sugere o famoso quadro de Rugendas ou como vemos nas novelas de época da TV. Na verdade existiram milícias chamadas “Corpos de homens do mato”, aonde não apenas atuavam em grupos organizados, como havia uma hierarquia ao estilo militar, com Soldados do mato, Cabos do Mato, Capitães do Mato, Sargentos-mor do Mato e Capitães-mor do Mato.
Por mais que a gente estude, sempre “come mosca” em algum sub-assunto e todo dia a gente aprende… ☺️, então bora compartilhar.


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DRA. ODILIA LAVIGNE, UMA MULHER PARA SER LEMBRADA

Registrando e deixando aqui link para texto de 2010, produzido por Maria Luiza Heine e publicado no seu Blog “Ilheus com amor”, sobre a primeira mulher negra formada médica no Brasil, em 1912, a baiana Odília Teixeira Lavigne, filha do médico negro baiano José Pereira Teixeira. Siga o link.

https://wp.me/pkOAV-e4


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“De um historiador para outro”, ou jornalistas que escrevem história popular.

Com o jornalista/escritor de história Eduardo “Peninha” Bueno, em Florianópolis.

Aproveitando a data histórica do 7 de setembro e os já tradicionais “chororôs” de historiadores acadêmicos contra jornalistas históricos, vou dar meu pitaco.

Eu acho que independente de ser jornalista ou não, o desconhecimento de História é que é problema. Por outro lado, não creio que apenas historiadores acadêmicos tenham “lugar de fala” sobre questões históricas , tem muita gente que gosta de História, pesquisa independentemente e tem muita moral para dar pitaco, aliás, as vezes com muito mais propriedade e sucesso.

O povo até gosta de História, mas na perspectiva popular os acadêmicos são “de dar sono”, não tem estilo, não se valem de truques literários, não tratam de passar a ideia principal fluidamente, se travam nos detalhes e nas “citações a cada linha”. Por tal, não é raro que historiadores acadêmicos (parece redundante mas de fato não é) reclamem que livro histórico de jornalista e outros os deixa ricos e famosos porque vendem muito mais que o de historiadores… . Pela lógica não é difícil imaginar o porque da vantagem né ? 🤷🏿‍♂️ .

Cabe observar que jornalistas históricos ou outros escritores sobre História, exercem ofícios distintos do historiador, embora muitos não entendam assim, os primeiros não estão limitados pelo mesmo compromisso com paradigmas, rigores e métodos que o ofício de historiador exige. Com isso podem criar uma narrativa menos densa, mais fluida e agradável ao grande público, com o consequente guindamento à categoria de “best-sellers” e autores “pop”.

Enquanto historiadores desejamos atingir o povão, mas ficamos em geral “travados” pela episteme e mesmo certa arrogância acadêmica…, logo, nossa produção, é nato-científica, voltada essencialmente para a própria academia e não literatura no sentido estrito da narrativa recreativa. Mesmo quando abrandada para o formato livro ou produzida já com intenção popular, não tem condições de competir nas prateleiras e no gosto popular com o tipo de narrativa realizada com o “estilo pop” dos best-sellers.

Eu particularmente gosto de Jornalismo histórico, desde que conte as histórias com bom nível de honestidade e base… a exemplo do Eduardo “Peninha” Bueno… . Ontem tive a oportunidade de assistir uma palestra dele em Florianópolis, gente… simplesmente sensacional 🤷🏿‍♂️ não à toa ele sempre lembra:

” ‘Istoriador’ com I maiúsculo era minha piada preferencial sobre mim mesmo, só que ela acabou. E me apresentei assim em uma palestra em Parati e, ao terminar, o Eric Hobsbawm falou: ‘A piada é boa, mas você não vai mais poder usá-la porque o autógrafo que vou te dar é um rito de passagem’. E escreveu: ‘De um historiador para outro’. Eu também não me acho historiador, mas não é o que diz o Hobsbawm” (Eduardo Bueno)….🤷🏿‍♂️


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Resolvido! localizados os “Monteiro Lopes” nordestinos, árvore genealógica chegará à sexta geração adulta.

Prezados! Uma notícia para quem acompanhou ou soube da minha apresentação na ANPUH-Recife “Família Monteiro Lopes: 150 anos”, na qual solicitei que quem tivesse interesse, seguisse buscando pelas 4a e 5a gerações nordestinas (já que trabalhei prioritariamente as 5 gerações no ramo amazônico).

Acaso do destino os descendentes de João Clodoado (irmão mais velho do famoso Dep. Manoel da Motta Monteiro Lopes, personagem da minha dissertação) ME ENCONTRARAM 🤭 por conta de uma publicação sobre o ML em minha coluna na Agência de notícias Amazônia Real… .

Eles se estabeleceram na Bahia e Paraíba, e tem inclusive um que se mudou aqui para Manaus, formando o segundo ramo amazônico da família. Igual o restante da família seguem proeminentes… a exemplo de Julieta Carteado Monteiro Lopes…da 4a geração… filha de Manoel da Motta Monteiro Lopes SOBRINHO, médico que se estabeleceu em Ilhéus. (Gente! que família negra, cada um dá uma dissertação…🤭)

Veja a biografia de Julieta Carteado Monteiro Lopes, a mulher que dá nome à maior biblioteca de Feira de Santana-BA: https://feirenses.com/julieta-carteado/

Árvore genealógica a atualizar:


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Monteiro Lopes, a real história da iguaria paraense

Trata-se de um biscoito muito apreciado e presente na memória afetiva dos paraenses, principalmente os da capital, Belém, pois, é presença certa nas festas familiares e vem marcando várias gerações, existe em duas versões.

Porém a origem da iguaria e o seu nome vinham sendo alvo de controvérsias. Como pesquisador trabalhei 150 anos da história da família Monteiro Lopes e acabei topando com a verdadeira história do biscoito.

Há uma versão “romântica a la Romeu e Julieta” onipresente na web que fala que o biscoito surgiu no século XIX, a partir da união dos filhos de famílias rivais (uma negra e outra portuguesa) que possuiam padarias no ver-o-peso e produziam biscoitos distintos, ao casarem, juntaram os nomes das famílias e as receitas formando então o biscoito e nomeando-o Monteiro Lopes.

Isso porém é falso, não há qualquer registro, ao menos ainda não foi encontrado, da existência do biscoito de fins do séc. 19 até meados do séc. 20, e as pessoas que referem a versão não são memorialistas nem de fato publicaram sobre, é portanto um caso típico de “lenda urbana”.

Há uma segunda versão, menos popular, de que o doce e o nome seriam uma homenagem ao falecido Desembargador Agnano Monteiro Lopes, belenense negro nascido em 1910, que foi presidente do Tribunal de Justiça do Pará entre fins dos anos 60 e meados dos 70. A “homenagem” seria pelo fato do mesmo ser visto como “preto por fora e branco por dentro”, uma referência que durante muito tempo se pretendeu elogiosa à pessoas negras extraordinárias, mas na verdade de grande carga racista, o famoso termo “preto de alma branca”.

Essa versão é meia verdade, sim, o nome tem a ver com o Desembargador Monteiro Lopes, mas não pelo motivo aludido. A história real é outra e parece óbvio ter inspirado a primeira versão “romântica”.

Muito jovem Agnano se formou em Direito, aos 20, foi em seguida nomeado Juiz substituto no interior, depois fez concurso para Promotor, trabalhou em Breves, interior do Pará. Lá, o negro Agnano conheceu Laura, então uma adolescente, branca, de família portuguesa e se apaixonaram. A família da jovem, por preconceito e desgosto a expulsou de casa, sendo que a mãe de Agnano, D. Júlia a amparou. Quando do casamento, uma doceira amiga de D. Júlia, inspirada na história do jovem casal de apaixonados criou o doce preto e branco e o batizou com o nome que os jovens compartilhariam ao se casar em 1931, ou seja o o sobrenome de Agnano, Monteiro Lopes. Foram 56 anos de casamento, com 4 filhos.

Essa história foi levantada por mim, combinando pesquisa em fontes bibliográficas, webbgrafia e por meio de entrevista com a filha do Desembargador Agnano, Vera Lúcia Monteiro Lopes Leite. Foi apresentada em evento científico-acadêmico de História e publicada como capítulo de livro resultante dos anais do evento.


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Voto negro no Brasil

Escala proporcional de tempo – Maria Vitória di Bonesso

O assunto aqui é rápido. Fizeram uma ilustração para dar uma dimensão da história e avanços legais dos negros no Brasil, logo apareceu um monte de gente (especialmente branca) reclamando que o gráfico estava errado e que “nunca houve” lei que impedisse o voto dos negros, principalmente após a abolição e o início da República.

Entendam que o racismo no Brasil sempre foi eficiente e nem sempre aberto… quando se fala em voto negro em 34, se está falando do voto realmente livre e generalizado. Muito embora desde a Constituição de 1824 em tese homens livres fossem iguais , a coisa não era bem assim:

1- Escravos não votavam, todos eram negros…

2- Ex-escravos, ou seja, os libertos não tinham direito ao pleno voto, só ao voto primário, nem podiam ser votados.

3- Os negros nascidos livres podiam em tese votar e serem votados, mas o voto censitário colocava uma barreira de renda que eliminava praticamente todos eles.

4- Com o fim da escravidão e o início da República enfim todos pareciam em tese livres e eleitores, mas o voto ainda era proibido aos menores, aos soldados, as mulheres e aos analfabetos (cuja esmagadora maioria era negra) em 1890 o Brasil tinha coisa de 12,2 milhões de habitantes maiores de 5 anos, pouco mais de 9 milhões eram pretos e pardos, os analfabetos coisa de 10 milhões (82%), fácil concluir que entre os pouco mais de 2 milhões de alfabetizados poucos eram negros… . Em 1940 o Brasil tinha 23,7 milhões de habitantes, os analfabetos eram coisa de 13,2 milhões (61%), enquanto negros eram 14,7 milhões (62%) da população. Percebe-se que mesmo após 1934 a população negra supera em pouco mais de um ponto percentual a analfabeta e não eleitora, não quer dizer que não houvessem negros alfabetizados e eleitores e não-negros analfabetos e não eleitores, mas que sob o critério do analfabetismo praticamente se excluia eleitoralmente quase toda a população negra. Assim é a desigualação racial no Brasil, o motivo é sempre “outro” que não o racial, mas os alvejados…

(Dados do IBGE)

5- Isso permaneceu durante toda república velha até os anos 30, quando as mulheres ganham o direito ao voto, mas os analfabetos não… . Até então havia também outro dispositivo que dificultava a participação política negra, a necessidade que os políticos eleitos fossem “confirmados” pelas casas legislativas, isso excluiu vários candidatos negros vencedores de assumirem mandatos, na prática “anulando” os votos de seus eleitores óbvia e majoritariamente negros… . Foram embarreirados nomes como Eduardo Ribeiro, eleito Senador pelo Amazonas em 1897 e Manoel da Motta Monteiro Lopes, eleito e não confirmado duas vezes seguidas, só logrando tomar posse como Deputado Federal pelo então Distrito Federal em 1909, após mover uma campanha nacional e internacional pelo seu reconhecimento. Monteiro Lopes foi objeto da minha dissertação de mestrado.

Depois da CF de 1934 o voto se “universaliza”, apesar de ainda excluir os analfabetos cuja maioria era negra, já não se restringia e “anulava” a posteriori a vontade do negros com status de eleitor.

É importante ao se discutir e principalmente antes de negar a histórica obstaculização negra brasileira e “corrigir” as manifestações de pesquisadores e ativistas, entender de onde vem seus argumentos e critérios, simplesmente dizer que “nunca houve lei” ou “impedimento explícito” é desconhecer e menosprezar a realidade.

P.S Sei que alguns vão reclamar que o título remete à uma análise não apenas histórica da evolução do direito de voto, mas à uma análise de como se deu e dá a construção e alcance do voto negro. Tudo bem, é possível, mas em outra ocasião… .


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Manaus, 24 de outubro é aniversário ou não ?

Imagem timeline primórdios de Manaus (Fonte: http://vivamanaus.com/historia/)

Todo ano no “aniversário” da cidade lá vem polêmica, igual a da “UFAM centenária”. Especialmente entre os historiadores.

Como sou um historiador neófito e não convencional, dada a minha formação multidisciplinar e holística, vejo as coisas de forma um pouco diferente.

Entendo que só a técnica histórica não dá conta de definir a idade de um lugar, é preciso considerar outros pontos como as noções de lugar vindas da geografia por exemplo. O grande geógrafo Milton Santos dedica um tópico todo à essa discussão chamado “A idade de um lugar” (pag. 56-59) no livro “A natureza do espaço”, basicamente ele nos diz que a idade de um lugar não tem como critério válido único, a sua data de fundação de acordo com o levantado pela técnica histórica convencional, o lugar, pode ser definido inclusive pela sua história natural e pelas diversas técnicas utilizadas nos processos de ocupação humana como a produção, comunicação, controle, política, sociabilidade e subjetividade.

Isso fica claro na passagem “É o lugar que atribui às técnicas o princípio de realidade histórica, relativizando o seu uso, integrando-as num conjunto de vida, retirando-as de sua abstração empírica e lhes atribuindo efetividade histórica”.

A polêmica se dá porque vários eventos se misturam, a idade é contada à partir da suposta instalação da fortificação portuguesa em 1669 (349 anos atrás)e da interação com as ocupações indígenas no seu entorno, mas há quem defenda com fontes que na realidade essa não é a idade da fortificação, mas de um marco deixado na passagem de uma tropa de resgate 20 anos antes. Nesse ínterim o “Lugar da Barra” foi inclusive sede da capitania de S. José do Rio Negro (1791), a condição de vila só é reconhecida em 1832 (186 anos atrás) com o nome de Vila de Manaós, já a data de aniversário utilizada hoje é a da elevação da então Vila ao status de cidade, trocando de nome para cidade da Barra do Rio Negro em 1848 (170 anos atrás), a cidade volta a assumir o mesmo nome (Com alteração no acento) da antiga vila e passa se chamar Manáos em 1856 (162 anos atrás), alterada para a grafia atual Manaus em 1937 (vide “Manaós, Manáos e Manaus: Como se escreveu o nome da cidade ao longo do tempo“)

Não fui à fontes primárias para saber se de fato a data de 24 de outubro de 1848 reflete a elevação ao status de cidade, mas acho difícil ter resistido tanto tempo ao arrepio de historiadores com acesso à elas. Isso porém realmente não é o que importa, mas sim o costume (vide Hobsbawm, “A Invenção da tradição”). Não sei qual data era a referência de “idade do lugar” antes de 1848, mas é razoável entender que a data comemorativa do lugar ( pelo menos nos últimos 170 ) anos se tornou um costume, e não será modificada tão facilmente, assim como a noção popular de que a cidade e o lugar são a mesma coisa… .

Numa perspectiva meramente tempo/política, a técnica histórica tradicional faz um monte de “caixinhas” para a história da cidade, já em uma perspectiva menos ortodoxa e mais interdisciplinar, o história do lugar que hoje chamamos Manaus é um continuum e cujos registros remontam a 349 anos.

Portanto, mesmo que a data de fundação “real” do nosso lugar não seja de fato 24 de outubro, assim como o natal não seria 25 de dezembro, PARABÉNS Manaus dos meus amores e das minha paixões!