Blog do Juarez

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Entendendo finalmente a diferença de preto para negro.

Não é a primeira vez que escrevo sobre isso, mas dadas as circunstâncias veio a calhar fazer um novo texto com exemplos mais significativos e práticos.

Primeiro é importante deixar claro que estamos falando dos usos no contexto das relações raciais.

Os termos preto e negro tem sentidos distintos, o primeiro é cor, tem a ver com a aparência característica de um africano aparentemente não miscigenado, já o segundo se referia antigamente a uma situação de escravização, hoje apenas de origem africana de qualquer forma perceptível no fenótipo, produto do tráfico negreiro.

Os mais antigos diziam “Preto é cor, Negro é raça”, na verdade ORIGEM, já que diferentes raças não é uma realidade biológica entre humanos, hoje sabe-se apenas uma construção social.

Para entender melhor conclua a leitura dos tópicos.

ESCRAVIDÃO NEGRA

Do princípio… a escravidão negra é assim chamada por conta dos espanhóis no XVI, que introduziram a palavra negro com sentido de escravizado, influenciando portugueses e ingleses, que passaram a usar exatamente da mesma forma. Na verdade foram eles, os espanhóis, os introdutores e durante bom tempo, os principais operadores do tráfico transatlântico, chamado por isso de tráfico negreiro, logo, a escravidão negra é inescapavelmente a fomentada e da qual se beneficiaram as metrópoles européias e colônias. A servidão tradicional em África e a mercantilista árabe em África, pre-existentes não são a “escravidão negra”, assim como a praticada entre os indígenas das américas também não, muito embora a escravização dos indígenas pelos europeus e descendentes também os tenha colocado na condição de “Negros da terra”, igualmente não é chamada de “escravidão negra”. Por isso que se encontra na bibliografia o termo “escravidão negra africana”, parece redundante, mas é, justamente para não confundir com os outros tipos de servidão e escravização em África… .

NEGRO

Como visto, o termo negro estava ligado inicialmente à condição de escravizado e não um sinônimo perfeito para preto, ou para africano. Os índios, os primeiros escravizados pelos europeus nas Américas, também eram tratados por “negros”, mais especificamente “negros da terra”, e não eram pretos, muito menos africanos (que no Brasil colonial eram então chamados “negros da guiné”).

Por tal é, que em países de língua espanhola, é comum ainda hoje se chamar ou apelidar indígenas e seus descendentes de “negro(a)”, caso da famosa e falecida cantora argentina Mercedes Sosa.

Pode-se perguntar, -“Então por que não é assim no Brasil também?”. Simples, porque foi proibido, quando da abolição da escravidão indígena em 1755 na segunda colônia portuguesa nas Américas, o Estado do Pará e Maranhão (que abrangia toda a região da atual Amazônia brasileira e parte do nordeste), abolição depois estendida para o então Estado do Brasil (que anexou a outra colônia do norte após a independência), veja o texto do ato:

“Diretório que se deve observar nas Povoações dos Índios do Pará, e Maranhão, enquanto Sua Majestade não mandar o contrário

1 Sendo Sua Majestade servido pelo Alvará com força de Lei de 7 de Junho de 1755, abolir a administração Temporal, que os Regulares exercitavam nos Índios das Aldeias deste Estado; mandando-as governar pelos seus respectivos Principais[..]
10 Entre os lastimosos princípios, e perniciosos abusos, de que tem resultado nos Índios o abatimento ponderado, é sem dúvida um deles a injusta, e escandalosa introdução de lhes chamarem Negros; querendo talvez com a infâmia, e vileza deste nome, persuadir-lhes, que a natureza os tinha destinado para escravos dos Brancos, como regularmente se imagina a respeito dos Pretos da Costa da África. E porque, além de ser prejudicialíssimo à civilidade dos mesmos Índios este abominável abuso, seria indecoroso às Reais Leis de Sua Majestade chamar Negros a uns homens, que o mesmo Senhor foi servido nobilitar, e declarar por isentos de toda, e qualquer infâmia, habilitando-os para todo o emprego honorífico: Não consentirão os Diretores daqui por diante, que pessoa alguma chame Negros aos Índios, nem que eles mesmos usem entre si deste nome como até agora praticavam; para que compreendendo eles, que lhes não compete a vileza do mesmo nome, possam conceber aquelas nobres idéias, que naturalmente infundem nos homens a estimação, e a honra. ”

Prova inconteste que além da alta carga estigmatizante do termo negro, deixa clara a vinculação entre o negro e a escravização, da qual os indígenas estavam sendo liberados, mas os africanos e descendentes não…, continuaram sendo negros por mais de 130 anos.

NEGRO EM INGLÊS

Como dito, os espanhóis introduziram o sentido de “Negro” enquanto escravizado, termo que foi adotado pela língua inglesa, nos EUA, a palavra escrita da mesma forma e falada como “Nigro” foi correntemente utilizada para os escravizados africanos e descendentes desde o século XVI até os anos 60 do XX, como demonstra o dicionário OXFORD em inglês:

Como se pode visualizar, apesar de haver uma palavra própria para a cor, em inglês, “black”, o que vigorou foi Negro em seu sentido de escravizado/descendente. Em português essa distinção de uso é menos percebida pois as vezes se utiliza negro como sinônimo de preto, mas no geral o termo negro não é utilizado para cor das coisas, mas como adjetivo e em geral negativo, não falamos por exemplo “carro negro”, “cortina negra”, “óculos negro”, “caneta negra”, “camisa negra”, “pulseira negra”, “bola negra” por outro lado… “alma negra”, “magia negra”, “livro negro”, “viúva negra”, “nuvens negras”, “negra sorte”, “peste negra”, “denegrir” (enegrecer, sujar) são expressões bem comuns, mas todas em tom negativo… não à toa Negro foi um sinônimo atribuido a escravizados .

O CENSO

O termo negro não aparece nas opções do Censo pois apesar do quesito ser “Cor/raça” e haver certa sobreposição a maioria das opções trata da cor da pele

As opções são branca, preta, parda, amarela e indígena. Não há “cor negra”.

REGISTRO CIVIL

Anteriormente a Constituição de 1988, a cor era quesito obrigatório nas certidões de nascimento e alguns outros registros civis e deveria seguir o padrão censitário. Não havia ou deveria haver registro com cor “negra” já que não é opção censitária desde 1872, mas sim “preta” quando fosse o caso. Hoje alterada a lei retornou a possibilidade de registro da cor.

REGISTRO MILITAR

A cor da cútis é dado comum na documentação militar, por exemplo, no meu certificado de reservista (de 1987), está lá a minha cor, PRETA e não negra…

LEGISLAÇÃO

Negro é quem faz parte da população negra, o Estatuto da Igualdade Racial, que norteia toda questão jurídica relacionada, define quem faz parte da População Negra, ou seja, os autodeclarados pretos e pardos.

AFRODESCENDENTE

Claro fica que afrodescendente é sinônimo de Negro e o substitui, igualmente, fica claro que assim como Negro, é aplicável apenas aos diaspóricos não aos africanos, que apesar der terem COR preta NÃO SÃO NEGROS ou mais atualizadamente afrodescendentes.

CONCLUSÃO

Hoje o termo negro foi resignificado e apropriado pelo movimento negro, serve como um aglutinador da população afrodescendente, tem um sentido político, que não é alcançado pelo termo preto, aplicável realmente a coisa de 10% da população, enquanto negro atinge cerca de 54% dos brasileiros.

No Brasil todo preto é negro, mas nem todo negro é necessariamente preto…


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Mais uma bola fora neoativista: o colorismo dando “tiro no pé” da causa negra.

A manchete estampada na figura abaixo explica do que falo nesta postagem muito sucintamente.

Indo direto ao ponto, mais uma vez o neoativismo “negro” fazendo das suas, negro está aspeado pois esses neoativistas apesar de serem vistos e citados como negros e do movimento negro, não entendem nem representam o pensamento médio e nem se atém à premissas basilares do movimento negro tradicional.

Vou poupar tempo de escrita e ao invés de explicar aqui o que penso sobre o colorismo desatinado desses neoativistas deixo o link para um texto meu de 7 anos atrás, e que hoje me parece super atual…

MOVIMENTOS NEGROS OU MOVIMENTO PRETOS: A ABRANGÊNCIA X A RADICALIZAÇÃO

A escolha de Fabiana Cozza foi submetida à família e mais, aprovada pela própria Dona Ivone em vida, dada a proximidade das duas, conforme declarado pelo neto de D. Ivone, ai chega meia dúzia de “cromopatrulhadores” e “entendem” que nada importa além do matiz exato de pele… .

Pois é, não temos que nos calar contra as besteiras e DESSERVIÇO à causa que essa turminha radical vira e mexe produz. Não dá para “passar o pano” só porque são negros e negras que em tese estão do mesmo lado da luta, podem estar mas estão equivocados, e diz o ditado: “Quem não ajuda, não atrapalhe” … .


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O chato da História é que ela insiste em se repetir…

A FALSA MODELO NEGRA PUBLICADA NA REVISTA NUMERÓ (Foto: Reprodução)

A FALSA MODELO NEGRA PUBLICADA NA REVISTA NUMERÓ (Foto: Reprodução)

A frase do título encerra uma verdade praticamente absoluta, vira e mexe, passado muito tempo (as vezes séculos ou milênios) alguém tem a “brilhante” idéia de ressucitar alguma prática ou ação nociva que deveria ter ficado para sempre no passado .

Uma matéria da revista Marie Claire expõe mais um desses “revivals”, em que uma modelo branca é pintada de escuro, para representar um conceito de belo que remete à África, a revista francesa citada na matéria (não é a própria Marie Claire) responsável pelas fotos, após uma onda de protestos pediu “desculpas” públicas pelo fato,  e obviamente o fato está gerando boa polêmica, com gente se manifestando contra o fato gerador da situação e minimizando o pedido de desculpas e outras achando que o fato gerador “não tem nada de mais”, que a revista “não tem do que se desculpar” e que os reclamantes estão vendo “pêlo em ovo” .

Ocorre que para entender a polêmica é preciso visualizar algumas coisas:

1- Houve um tempo em que personagens negras eram interpretadas por pessoas brancas e pintadas de preto, pois era inconcebível que um negro de verdade fizesse sucesso como protagonista com seu talento e recebesse por ele…, exemplos clássicos foram o comediante americano Al Jolson e seu legendário filme “The Jazz Singer”  e o ator brasileiro Sergio Cardoso que interpretou o personagem principal da novela “a cabana do Pai Thomás” (papel que deveria ter naturalmente sido dado ao ator negro Milton Gonçalves, mas não o foi por imposição da agência de publicidade Colgate-Palmolive, uma das subsidiárias norte-americanas que patrocinavam a produção de tramas nacionais nos anos 60)

Personagens negros de Al Jolson e Sergio Cardoso respectivamente

Personagens negros de Al Jolson e Sergio Cardoso respectivamente

2- O padrão estético dominante no mundo da moda e na sociedade é eurocêntrico…, o idealizador pode ter desejado passar uma ideia de beleza africana, sem contudo abrir mão de valores estéticos europeus como um nariz afilado, um lábio fino, ou uma magreza idealizada (que não condiz com o valor estético africano em geral, que favorece mulheres “robustas”); o eurocentrismo, que enfatiza como positivo quase que exclusivamente os valores culturais e estéticos europeus (ou seja brancos) é a base do racismo.

Alguns “inocentes” acostumados a não ver racismo em nada e achar “paranóia” de quem reclama de algo relacionado, enxergam a coisa como uma “homenagem” à beleza negra, ou mesmo um manifesto “artístico” mostrando que somos na realidade diferenciados apenas por um tom de pele, enquanto outros, já escolados  com as artimanhas do racismo (que não termina, mas assume formas cada vez mais sutís e veladas) enxergam a coisa simplesmente como uma “puxada de tapete” racista, já que poderia estar se beneficiando do trabalho que “vende” uma imagem de beleza negra, uma modelo negra de verdade ao invés de uma modelo branca pintada… .

Enfim, na realidade, nada de novo no front…

Link para a matéria da revista:

http://revistamarieclaire.globo.com/Moda/noticia/2013/02/revista-francesa-se-desculpa-por-colocar-falsa-modelo-negra.html


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O Papa “pediu para sair”, e agora ?

papaveis 2013

Cardeais “papaveis” 2013 , Arinze, Scherer,Turkson, Aviz

O inusitado anúncio feito pelo Papa Bento XVI de que deixará o pontificado ainda em vida (nos últimos 6 séculos isso nunca aconteceu), abre algumas questões interessantes, mas vou aproveitar para tocar apenas em uma delas, que é do seu provável sucessor.

O “Eixo Papal” pode se deslocar da Europa e trazer grandes novidades, como um Papa  “yankee”,  latino-americano, brasileiro ou africano (e preto) .

Na pequena lista dos 10+ “papáveis”,  temos os Cardeais brasileiros João Braz de Aviz  (65 anos e Chefe do Departamento do Vaticano para congregações religiosas) e Odilo Pedro Scherer, (63 anos e Arcebispo de São Paulo, aliás um dos únicos 5 cardeais que usam Twitter… ), mas chamo atenção para o ganense Peter Turkson (64 anos ) que é o principal candidato africano. Chefe do escritório de justiça e paz do Vaticano, é o porta-voz da consciência social da Igreja e que segundo comentários que pululam pela web seria “o favorito” do atual Papa; apesar de não estar cotado entre os 10+ tem também grandes chances o  cardeal nigeriano Francis Arinze (80 anos e prefeito Emérito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos), Arinze     esteve forte na última disputa e perdeu para Bento XVI, contra ele pesa o fator idade, mas é o favorito nas casas de apostas mundo afora… .

O Vaticano já teve três papas africanos em seus primórdios

Todos da chamada Provincia Romana em África (atual Tunísia e Líbia) os registros porém não dão conta de serem pretos, provavelmente tinham o  tipo característico majoritário da região, algo arabeizado.

Se eleitos Turkson ou Arinze,  teríamos o primeiro Papa preto (ou como o senso comum diria, negro), não confundir com a expressão ” Papa Negro”  atribuída tradicionalmente ao líder da ordem Jesuíta (que tal como o Papa é eleito em um “colégio” de autoridades e também tem caráter vitalício, o “negro” vem da cor do manto que o líder jesuíta utiliza).

De qualquer forma, se eleitos quaisquer dos Cardeais não-europeus, teríamos uma quebra da tradição e pelos perfis também novidades na condução da igreja católica que não se pode ignorar tem muita influência em questões da vida “profana” cotidiana de boa parte da humanidade, além das relações com outros grupos religiosos e também no jogo de poder mundial.

Só para não perder o costume dos últimos tempos… :-), as profecias de Nostradamus diziam que o último Papa seria um negro… e olha só o que eu encontrei em um artigo com a interpretação das centúrias e sua contextualização : http://profeciasoapiceem2036.blogspot.com.br/2010/12/nostradamus-o-penultimo-e-ultimo-papa.html .  Será ???? :-).


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A dispensa do “defeito de cor” ou a origem do “negro de alma branca

“Em nós, até a cor é um defeito. Um imperdoável mal de nascença, o estigma de um crime.”

(Luiz Gama, sec. XIX)

Uma das grandes dificuldades para a popularização e maior abrangência do conhecimento sobre relações raciais no Brasil, é além da enorme extensão do tema, a falta de referências mais simplificadas e diretas sobre aspectos da temática.

Na maioria dos casos, tais aspectos estão dispersos e embutidos em dissertações e teses de doutorado, livros densos; ou nas melhores das hipóteses em artigos também muito elaborados e longos, situações que “espantam” grande parte dos interessados apenas pela verificação do volume e do formato científico… , afinal ler muito não é uma característica dos mais jovens e dos mais “populares”; dai a minha intenção de em menos de uma página, passar as informações básicas sobre o exposto no título e referências para quem quiser se aprofundar no assunto.

Durante muito tempo, se ouviu vindo de pessoas brancas, de forma “popularizada e natural” a expressão “Negro de alma branca” utilizada por aqueles como um “elogio” aplicável à pessoas que sendo negras, assimilavam o discurso e comportamento “desejáveis” aos padrões hegemônicos em uma sociedade mascaradamente racista e “racialmente” estratificada.

Uma das primeiras referências registradas encontramos em Ronald Raminelli ao comentar sobre crônica do seiscentista Frei Manuel Calado, em relação ao herói negro da guerra contra os holandeses em Pernambuco, Henrique Dias.

Calado recorreu às cores para apresentar suas qualidades, contrastando o branco com o negro. Embora o valente militar fosse preto, eram brancos o seu comportamento, a lealdade e a disposição para lutar. As palavras do frei pretendem louvar os feitos do forro, não obstante destaquem a brancura de suas obras e esforços. Em O Valeroso Lucideno (1648), o herói era “negro na cor, porém branco nas obras, e no esforço”. Depois de instaurada aguerra pela liberdade divina, o cronista voltou a recorrer ao simbolismo das cores: “enfim deitado de parte o ter os couros pretos, a muitos brancos tem levado mui assinaladas vantagens”. O trecho talvez indique que os hábitos brancos eram sinônimos de hábitos nobres, qualidades não encontradas entre os negros, comumente vinculados à cor preta e ao cativeiro. Para o cronista da restauração pernambucana, mal comparando, Henrique Dias seria então “um preto de alma nobre ou de alma branca”. (grifo nosso) [1]

Conjecturas postas por Raminelli na sequência do texto citado ampliam tal entendimento, apesar de não se colocarem enquanto conclusivas.

Os “Negros de alma branca” eram também por vezes referidos como “bons crioulos”, dos EUA nos chegou também a expressão análoga “Pai Tomás”, em referência ao conhecido personagem literário de “A cabana do pai Tomás”, subserviente e não questionador… .

No Brasil, tal concepção foi praticada efetivamente e até oficializada na época da colônia e mesmo já no império, pois o negro (preto ou miscigenado) que tivesse alcançado por qualquer caminho o status de livre e condições acadêmicas suficientes para assumir postos de proeminência social ( em especial no clero), deveria peticionar e assinar um documento chamado “DISPENSA DO DEFEITO DE COR” .

Em tal ele “pedia” oficialmente que não se levasse em consideração sua cor e origem pois era totalmente assimilado aos valores civilizatórios eurocêntricos, aos “bons costumes”, aplicado aos estudos e ao trabalho (em contraposição à imagem preconceituosa sobre e “lugar-social” esperado do “negro comum”) ; ou seja, apesar de negro declarava oficialmente ter ‘alma de branco’.

Isso era racista ?, obviamente, porém uma imposição do estado e da própria igreja, uma violência psicológica a que eram submetidos tais negros durante toda uma vida, violência tamanha a ponto de para introjetarem a suposta “alma branca” (terem adoecimentos psicológicos) e estabelecerem negações e repulsas identitárias ao se sujeitarem a tamanha humilhação… ( além de outras subserviências abjetas aos interesses do sistema).

É interessante visualizar os termos em que se colocavam a súplica da dispensa do “defeito de cor” no caso do clero e na sequência, algumas situações fáticas ocorridas quando isso já era inconstitucional.

Aos dez dias do mês de junho de 1791, o então habilitando José Maurício Nunes Garcia dava entrada, na Câmara Eclesiástica do Bispado do Rio de Janeiro, em uma petição na qual pedia para “ser dispensado da cor” de modo a poder prosseguir no seu processo de ordenação sacerdotal. Alegava para tal que havia recebido dos pais boa educação, que desde a infância apresentava vocação para o estado sacerdotal e para realizar tal intento aplicara-se aos estudos de Gramática, de Retórica, de Filosofia Moral e Racional e à Arte da Música. Afirmava ter vivido com regularidade nos seus costumes, sendo temente a Deus e obediente às leis. Finalizava a petição, dizendo-se merecedor da graça por não estar incurso em qualquer irregularidade a não ser a “do defeito da cor”.[..]A necessidade da dispensa do “defeito de cor” justificava-se, portanto, pela ascendência do habilitando, que foi designado como mulato por algumas testemunhas que depuseram em seu processo de habilitação às ordens sacerdotais.Aos dezesseis de junho do dito ano, o provisor do Bispado, o Muito Reverendo Doutor Francisco Gomes Villasboas, despachava favoravelmente ao pedido. Alegou que não via contra o suplicante nenhuma outra irregularidade senão a do “defeito da cor”, que o mesmo havia provado morigerança, vocação e aplicação aos estudos. [2]

Trata-se o habilitando, do então futuro e já citado Padre José Maurício Nunes Garcia, Mestre-Capela (músico, regente e compositor sacro) da Capela Real do Rio de Janeiro, no período em que a corte portuguesa transferiu-se para o Brasil, No mesmo sentido em alguns casos no serviço público e forças armadas, exigia-se declaração semelhante.

Outro exemplo posterior em narração sobre a entrada para o Seminário de Mariana-MG do padre Francisco de Paula Victor no ano de 1849, já se verifica a utilização do conceito e do termo de forma muito próxima da que hoje conhecemos, e importante lembrar que o caso se dá pelo menos 25 anos depois da Constituição de 1824, quando em tese já não se poderia utilizar a cor de um homem livre como fator discriminatório.

Ao saberem os colegas seminaristas que o negro era como eles, um estudante e candidato ao sacerdócio, ficaram atônitos, A sua admissão no Seminário causou desagrado aos estudantes orgulhosos, que se sentiram deprimidos por terem que conviver ao lado de um negro. E comentavam uns com os outros: Como é possível ser um padre,um ministro de Deus,um negro tão feio, um tipo tão hediondo? Foi necessária a intervenção do bispo de Mariana, D. Viçoso, para acalmar os ânimos dos exaltados seminaristas, dizendo a eles que aquele negro possuía alma alvíssima. (grifo nosso) [3]

Fica patente a ideia que a “Alma alvíssima” ou “Alma branca” era tida como um “elogio” e “abonador” à uma pessoa negra. Não obstante o conceito encerrar um alto teor racista (perceptível hoje e aparentemente nada na época). Também se pode inferir que tal consideração já não dependia de uma solicitação formal da dispensa do “defeito de cor”, bastava apenas que a visualização do nível de assimilação e a contemplação de expectativas sobre o indivíduo se apresentassem de forma clara para o “elogiador”.

O “Negro de alma branca” ainda existe, ele é produto e mais uma vítima (patética) do racismo secular em nossa sociedade, se hoje não mais oficialmente e por exigência explícita das esferas de poder, mas pelo racismo “velado” (e nem sempre tão velado) arraigado principalmente nos altos estratos da sociedade (virtualmente brancos).

O racismo pressiona uma fuga desesperada de estigmas e “exige” de maneira informal e silenciosa, que em troca de muito boa (e excepcional) mobilidade social e aceitação, a pessoa negra não veja nada, não “enxergue” racismo em nada e que abdique de sua estética (alisando/cortando o cabelo, usando roupas “padrão”). Igual de seus valores não eurocêntricos (negando a religiosidade afro e outros aspectos culturais de clara origem afro), do discurso questionador (ao falar em racismo ou defender ações afirmativas).

Exige ainda e principalmente que reafirme (por atos e omissões) sua lealdade e subserviência ao sistema opressor secular, agindo por vezes como verdadeiros “neo-capitães-do mato” contra os interesses do restante da população negra e nunca ultrapassando os “limites” a ela impostos (ou logo serão chamados de insolentes, ambiciosos ou ineptos para tais alturas), exigências que são atendidas por muitos e muitas que não conseguem vislumbrar progresso fora desse esquema.

A adoção voluntária da “alma branca” como paradigma de vida e fator de mobilidade, ajuda a explicar alguns posicionamentos e características de negros do passado e do presente; inescapável a dedução de que a impossibilidade real e plena de “ser branco”, tendo “marca” negra, gerou no passado, assim como pode gerar hoje, conflitos psicológicos, angústias, bizarrices comportamentais, ou mesmo adoecimentos, para um aprofundamento na questão sugiro a leitura de “Negros de almas brancas ?” de Petrônio José Domingues [4].

Referências para aprofundamento:

Literatura : Um defeito de cor , romance da escritora Ana Maria Gonçalves : vide entrevista http://www.record.com.br/autor_entrevista.asp?id_autor=12&id_entrevista=28

Teses , Dissertações e Artigos Científicos:

[1] RAMINELLI, Ronald. Impedimentos da cor: mulatos no Brasil e em Portugal c. 1640-1750. Varia hist., Belo Horizonte , v. 28, n. 48, Dec. 2012 . pp 700-701. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-87752012000200011&lng=en&nrm=iso>.

[2] OLIVEIRA, Anderson José Machado de. Suplicando a “dispensa do defeito da cor”: clero secular e estratégias de mobilidade social no Bispado do Rio de Janeiro – século XVIII . Encontro de História ANPUH-RJ. 2008. Disponível em: <http://encontro2008.rj.anpuh.org/resources/content/anais/1212773302_ARQUIVO_Texto-AndersondeOliveira-Anpuh-RJ-2008.pdf>

OLIVEIRA, Anderson José Machado de. Dispensa da Cor e Clero Nativo: poder eclesiástico e sociedade católica na América Portuguesa (1671-1822). In: IV Encontro Internacional de História Colonial, 2014, Belém. Anais do IV Encontro Internacional de História Colonial. Belém: Editora Açaí, 2012. v. 3. p. 15-28. Disponível em <http://www.ufpa.br/pphist/documentos/Vol.%203%20-%20Dimens%C3%B5es%20do%20catolicismo%20portugu%C3%AAs.pdf>

[3] ASSOCIAÇÃO ESPÍRITA DE ESTUDOS EVANGÉLICOS FRANCISCO DE PAULA VICTOR (Limeira). Biografia – Francisco de Paula Victor. Disponível em: <http://paulavictor.com.br/franciscodepaulavictor.htm>.

[4] DOMINGUES, Petrônio José .Negros de almas brancas? A ideologia do branqueamento no interior da comunidade negra em São Paulo, 1915-1930. Estudos afro-asiáticos., Rio de Janeiro , v. 24, n. 3, 2002 . Disponível em <www.scielo.br/pdf/eaa/v24n3/a06v24n3>.

A RECUSA DA “RAÇA”: ANTI-RACISMO E CIDADANIA NO BRASIL DOS ANOS 1830* Celia Maria Marinho de Azevedo em : http://www.scielo.br/pdf/ha/v11n24/a13v1124.pdf

Matérias em Revistas :

REVISTA RAÇA BRASIL, Maçons: ontem e hoje por Flávio Carrança http://racabrasil.uol.com.br/cultura-gente/151/artigo208161-1.asp

Poesia :

O EMPAREDADO, Cruz e Souza (poeta negro catarinense do séc. XIX) em : http://www.fflch.usp.br/sociologia/asag/o%20emparedado%20-%20Cruz%20e%20Souza.pdf


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De novo… “preto para ter um carro assim, só se for roubado”

Eu bem que tento desviar um pouco do assunto, falar de amenidades… , mas não tem jeito, todo dia tem um assunto revoltante na imprensa , comentado por alguém ou mesmo com a gente…, e depois falam que negro (principalmente o militante)  é “paranóico” ,  “complexado” , etc…

Deu no Diário de Mogi :

Aposentada é vítima de Racismo

HUMILHAÇÃO Sandra foi vítima de injúria racial feita por professora

Alexandre Barreira

A aposentada Sandra Aparecida dos Santos, de 58 anos, alega ter sido vítima de injúria racial, na tarde de segunda-feira, na Rua Presidente Rodrigues Alves, no Centro de Mogi das Cruzes. De acordo com Boletim de Ocorrência (B.O.) registrado no 1º Distrito Policial, a acusada de proferir as ofensas contra a funcionária pública aposentada, que é negra, é a professora Iracema Cristina Nakano, de 53 anos.

A discussão teria ocorrido nas imediações do Mercado Municipal. De acordo com Sandra, Iracema teria alegado que o carro da aposentada, um VW Fox prata, placas DKC-1142/Mogi, era seu e que havia sido furtado há quatro meses. No entanto, mesmo com as negativas de Sandra, Iracema teria insistido que o carro era dela e dito que “preto para ter um carro assim, só se for roubado”. Esta frase foi ouvida pelo marido de Sandra, o policial Carlos Roberto Madeira Pereira, e a testemunha M.D.E..

“Senti-me humilhada. Nunca imaginei que chegaria aos 58 anos de idade e passaria por isso”, desabafou Sandra, que trabalhou por 33 anos no Hospital Luzia de Pinho Melo. Ela contou que o ex-marido da professora e a tia dela é que pediram desculpas pelo fato.

A aposentada ainda descreveu que a professora abriu seu carro, olhou o interior do veículo e teria continuado a afirmar que o mesmo era o dela, que havia sido furtado e está em nome da tia, Helena Cardoso Siqueira. “Mesmo com todas as evidências contrárias, ela continuou insistindo em algo que não tinha qualquer razão. Além disso, foi totalmente irresponsável com os comentários racistas que fez. Ficamos surpresos de ela ter feito isso sendo uma professora, que deve educar e ensinar as coisas certas”, destacou Pereira, que pretende processá-la por danos morais.

A reportagem de O Diário entrou em contato com a professora, mas não teve êxito. A ocorrência foi registrada pelo delegado Orli de Morais e sua equipe formada pelos policiais Ivone, Laudemiro e Arlindo. Ele entendeu que houve crime de injúria racial e determinou a prisão da professora, que pagou fiança de R$ 545,00 e responderá em liberdade. A pena para o crime é de até 3 anos de prisão.

Alguém “comeu mosca” nesse episódio…,  a figura da injúria racial é aplicada quando uma ofensa é direcionada única e diretamente à pessoa e traz junto uma referência ao sujeito ou adjetivação de conotação racial,  ex. “sua negra, morta de fome”, esse não foi o caso…, a declaração “preto para ter um carro assim, só se for roubado”, é generalizante e direcionada a todo um grupo humano, sendo assim não é injúria, é racismo mesmo e não deveria ser afiançavel, a penalização também é muito maior;  espero que o Ministério Público na hora da denúncia ou o magistrado que a acolher façam a devida recapitulação…, é impressionante o que a polícia faz para não indiciar alguém por racismo… ( e olha que o marido da Sra. é policial), por outro lado o jogador Marcelinho Paraibano por tentar ou beijar a força (ato inconteste muito repudiável)  a irmã de um DELEGADO no meio de uma festa cheia de gente, não teve “refresco”… foi indiciado por ESTUPRO… (ele que depois se vire para provar que não fez , o que não fez);  essa “dificuldade policial generalizada” em tratar casos de racismo tem que ser eliminada.

Ah! e só para não “ficar solta”  a história vai aqui um “flash back” de um caso ainda mais estarrecedor de uns dois anos atrás :  Homem negro espancado no Carrefour acusado de tentar roubar o próprio carro  , é … e ainda tem “cara-de-pau”  escrevendo livrecos dizendo que “não somos racistas”, imagine se “fossemos”…


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Deu no CBN Manaus…

Assim como muita gente, é meu costume ouvir diariamente todas manhãs  o programa  noticioso  de rádio capitaneado pelo Ronaldo Tiradentes  e  Marcos Santos, sempre ao estilo característico e bem-humorado da dupla.

Hoje porém, duas notícias (e comentários) me chamaram a atenção…, e como de praxe não poderia deixar de dar meu pitaco e recadinho aqui pelo blog (já que nesses tempos de comunicação bidirecional, os caros radialistas eventualmente também “acompanham” ou visitam as mídias dos ouvintes 🙂 ).

A primeira notícia tratou do assasinato em assalto de um policial civil que fazia “bico” como segurança de transporte de valores (aproveitamos para nos solidarizar com a família e colegas pela fatalidade) ;  na matéria o repórter ao perguntar para o irmão da vítima sobre as visitas ao velório e o apoio que a família estava recebendo das autoridades etc…, inquiriu se “os Direitos Humanos” tinha aparecido ou se manifestado…; obvia e compreensivelmente dado o contexto , recebeu entre as informações o velho discurso anti-DH e que “se fosse um bandido” etc…  .

Não sei se foi ingenuidade ou “marronzismo” do repórter, mas só para esclarecer:  DIREITOS HUMANOS, não é Polícia, não é  Ministério Público, não é Judiciário, não é Corregedoria/ouvidoria,  não é Defensoria pública,  não é Defesa Civil,  Conselho Tutelar,  muito menos  SERVIÇO SOCIAL …;  não faz parte de suas atribuições (mesmo quando instância instalada em estrutura pública, como um Conselho Estadual) se manifestar ou “apoiar” familiares ou vítimas de todo e qualquer crime comum… (muito menos  “apoiar bandido” como costumam dizer) ;  a ação dos ativistas e orgãos dos Direitos Humanos  é de fiscalização  e mediação no cumprimento do previsto  na DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS,  é esperada ou exigida nos casos em que :

a) Agentes do estado exorbitam ou se abstem de seus poderes ou deveres e descumprem o previsto na Declaração Universal dos Direitos Humanos (e  nos limites legais de sua atuação) .

b) A ação criminosa ocorre por motivações relacionadas diretamente a questões de Direitos Humanos (Intolerâncias diversas como a religiosa, xenofobia, racismo, sexismo, homofobia, perseguição política e/ou ideológica, etc  )

c) Há necessidade de mediação de conflitos em que se apresente riscos à vida e dignidade humana.

Seria portanto compreensível a manifestação/atuação “dos Direitos Humanos”  em rebeliões carcerárias, crimes contra minorias e ativistas sociais, ações contra a vida e dignidade humana praticados por agentes do estado em desconformidade com a previsão legal,  fiscalização de condições de encarceramento,  mediação de conflitos agrários, acompanhamento/apoio  à  refugiados  e coisas do gênero;  para outras situações (como no caso  do assasinato do policial em crime praticados por bandidos comuns) a intervenção esperada é a das instâncias citadas anteriormente (que em geral também podem (ou devem) ser acionadas nos casos de violações aos Direitos Humanos), o direito à vida faz parte dos Direitos Humanos,  porém bandido não respeita isso…  e justamente por isso é que são bandidos…; coisa que não deve ocorrer com quem em tese tem  consciência e obrigação de defender a lei e a vida (seja de quem for).

Quanto a segunda notícia se tratava da vitória da Miss Angola no concurso Miss Universo; nos comentários os nossos caros radialistas  com seu humor azeitado, aproveitaram para levantar a questão da dúvida com relação ao termo a utilizar para a referência “etnico-racial”  da bela africana;  se  era negra, afrodescendente ou africana ? ;  pois bem,  a diferença de termos existe não por modismo ou hipocrisia…, para esclarecer vai aqui a dica:

1- O termo Negro(a) passou a ser utilizado pelos portugueses (copiando os espanhóis, que não tem a palavra preto) a partir da conquista do “novo mundo”  com o sentido de ESCRAVO,  era aplicada tanto aos africanos quanto ao indígenas escravizados (no Brasil colônia os índios eram chamados NEGROS DA TERRA);  mais tarde o termo passou a definir  apenas os africanos escravizados e seus descendentes desde então,  se aplica corretamente apenas à diáspora,  não aos africanos (que em maioria são apenas pretos (que é cor da pele) , não negros (origem escrava)) .

2- O termo AFRODESCENDENTE foi adotado na redação oficial da ONU, a partir de 2003 para substituir a palavra NEGRO, traz como vantagens a eliminação do equívoco recorrente de utilizar preto e negro como sinônimos; eliminar a questão da  confusão por matiz de pele (é aplicável a negros de cor preta  e  aos miscigenados), retira o antigo e equivocado viés  biológico de “raça”  (branco, negro, amarelo e vermelho) substituindo-0 pela ancestralidade geográfica .

As pessoas com padrão fenótipico africano “padrão” e nascidas na África, são corretamente referenciadas por  pretas ou simplesmente africanas (obs. os angolanos em especial e ao contrário dos outros africanos preferem ser referidos por negro, ao invés de preto,  assim como os brasileiros) .

Para finalizar…, “pelamordedeus” Ronaldo, quando for para falar sobre questão negra, etc,  por favor !   esqueça tudo que o Agnaldo Timóteo disser .. dali só sai bobagem… :-).