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O meu movimento negro sou eu, ou, de novo a Glória Maria ?

Glória Maria em entrevista a Pedro Bial

Hoje a “bolha negra” da web tupiniquim amanheceu com mais uma “treta” relacionada a prestigiada repórter e apresentadora da poderosa rede Globo. Desta vez, uma fala em entrevista ao “Conversa com o Bial” em que mais uma vez questionada sobre “movimento negro” deu resposta que não agradou muito aos ativistas, militantes e simpatizantes de tais movimentos.

Não vou falar especificamente dessa entrevista, mas vou usar um trecho de outra entrevista, escrita, que saiu hoje . Nela temos “Costuma dizer que a televisão é um acidente de percurso. Mas não se arrepende de nada, tampouco de não ter levantado bandeiras em nome do movimento negro, embora já tenha sido cobrada por isso. ‘O meu movimento negro sou eu. Basta olhar para mim, sempre brigando, sempre correndo atrás’, diz. ‘Eu sou, literalmente, a ovelha negra do jornalismo.’ Glória Maria fala com a autoridade de quem teve de enfrentar o racismo em diversos momentos de sua carreira.”

Glória Maria em uma “vibe Luis XIV”, monarca francês famoso pela frase “O Estado sou eu”, uma “egotrip”, faz a sua própria ao dizer “O meu movimento negro sou eu”. Não é a primeira vez que “desdenha” ou critica os movimentos e ativistas, pelo menos no que diz respeito a ela própria.

Com meus 32 anos de ativismo negro, sei perfeitamente que ninguém, em nenhum recorte social, é “obrigado” a ser ativista ou militante pela causa, por simplesmente pertencer a um recorte. Aliás, ativistas são sempre pequena parte de cada recorte, os que lutam não apenas pelos próprios interesses, mas principalmente pelos da maioria inconsciente ou apática.

Eu mesmo não concordo com muitas coisas que vem de alguns ditos “militantes” ou “ativistas” equivocados, “lacrador@s”, principalmente os que costumo chamar de neoativistas. O que apesar de ter uma questão geracional, não limita os equivocados a uma ou outra geração, os há em todas.

O problema das recorrentes falas de Glória Maria é que, sendo ela quem é, ao “personalizar” a sua luta e desdenhar as demandas coletivizadas pelos movimentos, reforça a ideia metarracista de que “o que vale é apenas o ‘mérito pessoal’ “, que “cada um que lute” abrindo por si e apenas para si um caminho em meio a estrutura racista. O que no mínimo revela insensibilidade, inconsciência e egoísmo, além de efetivamente “dar munição” aos metarracistas que combatem as mudanças coletivizadas no Status Quo.

Já li que ela, Glória Maria, recorreu à Justiça por ter sido discriminada, será que foi o “movimento negro ela mesma” que lutou e conseguiu emplacar o racismo e a injúria racial como crime ?

Novamente repito, nem Pelé, nem Glória Maria, nem outra pessoa negra que tenha excepcionalmente rompido barreiras na estrutura racista, é “obrigada” a “levantar bandeiras”, mas deveria pelo menos ter o cuidado de não servir de “token” para o discurso da “democracia racial” e para o metarracismo, prejudicando a luta dos demais, que não ficam satisfeitos em ser bem sucedidas exceções… .

Que Glória Maria se recupere bem de todos os percalços pelos quais passou recentemente, e que siga sua trajetória de sucesso, mas que fique registrado que ela é da turma do “Me, Myself and I”… . Se não é um “Sérgio Camargo”, que é uma completa vergonha para a negritude brasileira, ao servir ativa e descaradamente ao metarracismo brazuca, também seu lugar na história não é ao lado dos que lutaram para além do próprio umbigo… .


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Oito motivos para eu não ser um panafricanista garveista

Já começo reforçando que esses são MEUS motivos PARA NÃO O SER e como nada na vida é absoluto, obviamente também teria motivos outros caso quisesse se-lo… só que na minha percepção os motivos abaixo pesam mais e por si só inviabilizam uma opção de “pareamento” com o garveismo.

Vou chamar essa selfie de “Sou afro sim, africano não…”

Isso não quer dizer que não prezo a minha ancestralidade africana e que não reconheço uma “linha” que nos une enquanto afrodiaspóricos e aos africanos, mas o faço de forma bem consciente de que sou afrobrasileiro (até porque ao contrário de todos “panafricanistas garveistas” que cruzo pela web, eu vivi em África…) e sei bem que meu lugar é aqui, não sou africano, apesar das raízes me fazerem um afro.

Marcus Garvey, foi um líder negro, nascido na Jamaica e criador do mais mobilizador e conhecido movimento panafricanista, a Associação Universal para o Progresso Negro ou AUPN mais conhecida pela sigla em inglês UNIA de Universal Negro Improvement Association. Não vou nem deixar link para sua biografia, há várias, basta pesquisar na web, a maioria absolutamente laudatória, deixando de lado fatos importantes para uma avaliação mais integral e realista sobre Garvey e sua ideologia, portanto, aqui vou tratar do que a maioria dos “idolatradores” de Garvey e defensores acríticos do panafricanismo, desconhece.

1- Ao contrário de outras importantes referências do conceito de negritude, do afrocentrismo e panafricanismo, Garvey não era africano, mas sim um afrodiaspórico, que nunca esteve na África (e não vou discutir os motivos), portanto, como a maioria dos que não tiveram essa experiência, mantinha uma ideia romântica e ilusória sobre “África como verdadeiro lar de todos os negros do mundo” e que a origem continental ancestral remota e a pele preta seriam os principais elementos de “irmandade” entre diaspóricos e africanos. Coisa que qualquer diaspórico que tenha vivido minimamente em África sabe ser falso, lá o que manda é a etnicidade, quando muito a nacionalidade, a cor da pele não faz ninguém “irmão” automaticamente, pelo contrário, mínimas diferenças cromáticas, não percebidas entre os diaspóricos, te “tiram da turma” de cara, isso sem falar a questão cultural. Se 100 Km são suficientes para ter uma mudança de concentração étnica, língua e costumes, a noção de “estrangeiro” é muitíssimo mais exacerbada, já que a noção de povo / nação é muito mais restrita. Em suma, qualquer “retornado” e tanto faz se no tempo de Garvey ou hoje, sempre seria um estrangeiro, visto como qualquer outro estrangeiro um potencial “recolonizador”, com tudo que a palavra possa significar, além de passivo de xenofobia.

2- Acrescento aos motivos acima, as grandes diferenças entre os próprios afrodiaspóricos, que ao contrário dos africanos, não são etnizados, mas sim “racializados.. Ou seja, o que nos une na diáspora é primeiramente a cor da pele, mesmo que de distintíssimos matizes, pois ela indica uma história ancestral dividida, nem tanto pela origem em África, mas a partir do tráfico negreiro, do cativeiro, das tradições e traços culturais trazidos, mantidos e adaptados, mas principalmente dos surgidos em cada contexto afrodiaspórico, além das vicissitudes do pós-cativeiro. Somos portanto NEGROS e não apenas PRETOS como o são os africanos. Isso significa que a cultura negra e a identidade negra, apesar de tributária de várias identidades étnicas africanas, são coisas que só a nós afrodiaspóricos competem e se atribuem. O entendimento de NEGRO como sinônimo de PRETO é um equívoco, que aliás os próprios africanos fazem sempre questão de nos lembrar. Mesmo que a União Africana tenha acenado com um simbólico (e na prática inútil) reconhecimento da diáspora africana como 6a região da África. Enquanto isso a ONU (por fomento da delegação brasileira à Conferência de Durban em 2001) sabiamente em sua redação oficial resolve esse conceito assim:

Ou seja, “africano” é uma coisa, “afrodescendente” é outra… . A tão citada “6a região da África” na prática não torna ninguém africano, pois africano é uma identidade continental, de quem nasceu na África ou possui cidadania de um de seus países…, tente obter um passaporte ou ao menos um visto facilitado para visitar qualquer país africano baseado nesse “reconhecimento”, se conseguir por favor me avise… .

Ainda nesse quesito, quero lembrar a inteligente crítica e analogia feita no filme “Pantera Negra” em que vimos um amargurado afrodiaspórico Kill Monger, após reivindicar “seu reino por direito” em África e se transformar em um tirano, morrer, combatido pelos wakandianos. Isso não antes de fazer seu discurso NEGRO, e reconhecer que na verdade “os seus” eram os que atravessaram ou ficaram pelo meio do Atlântico no tráfico negreiro. Os seus eram na verdade, os que compartilharam as agruras afrodiaspóricas, não aqueles que ficaram em Wakanda (uma África tão mítica, quanto a imaginada pelos afrodiaspóricos) e viam nele um estranho, mais um “estrangeiro colonizador” e não lhe reconheciam como “legítimo”, mesmo historicamente sendo um verdadeiro herdeiro.

3- Garvey era um NEOCOLONIALISTA, pretendia RECOLONIZAR a África, criando uma ELITE baseada nos “retornados” e nos valores já eurocentrados destes, não nos dos verdadeiros africanos. Ou seja, ele não pretendia reintegrar os negros à África e suas culturas, pretendia fazer o mesmo que os colonizadores brancos pretendiam. Basta ver uma divisão proposta e os títulos NOBILIÁRQUICOS EUROCENTRADOS que pretendia IMPOR em África, vide:

Em 1920, a Unia realizou a I Internacional Convention of Negroes of the World (Primeira Convenção Internacional dos Negros do Mundo), reunindo delegados dos Estados Unidos, de Cuba, Barbados, Jamaica, Costa Rica, Honduras, Panamá, Equador, Venezuela, Guianas, Etiópia, Austrália, em síntese, congregando delegados oriundos dos diversos países com representação. Os desfiles espetacularizados promovidos pelas delegações durante o evento – momentos nos quais se entoavam hinos, ostentavam slogans e ovacionavam Marcus Garvey – indicavam a pujança da Unia e sua capilaridade. Ao final do conclave, foi tomada uma série de deliberações, como a promulgação da Declaração Universal dos Direitos dos Negros, que trazia um programa de 54 pontos; a instituição de uma nobreza negra, com alguns membros da Unia sendo agraciados com os títulos de Cavaleiros do Nilo, Cavaleiros da Ordem de Serviços Relevantes da Etiópia, Duques do Níger e de Uganda, entre outros; e a aclamação de Garvey como Presidente Provisório da República Africana, uma espécie de governo em exílio. (DOMINGUES, 2017)

ou ainda conforme

Garvey reclamou que a África fosse reservada aos africanos e que se organizasse o regresso a África dos negros de outros continentes. Tratar-se-ia de uma verdadeira expedição colonial, porque em terras africanas os negros vindos do outro lado do Atlântico constituiriam inevitavelmente uma elite, detentora de capacidades técnicas e administrativas com as quais os autóctones não saberiam competir, e transformar-se-iam em exploradores da mão-de-obra nativa. Esses imigrantes negros, proclamou Garvey, iriam “ajudar a civilizar as tribos africanas atrasadas”, e se tal houvesse sucedido ter-se-ia reeditado em grande escala uma experiência anterior – a da Libéria, onde, como visto anteriormente, escravos emancipados tinham-se convertido numa classe dominante tão feroz que condenou ao trabalho forçado a população autóctone, a quem foi inclusivamente negado o direito de representação política. (PASSAPALAVRA, 2010)

Stokely Carmichael, um garveista famoso nos anos 60 ia na mesma linha ao afirmar:

A África não precisaria de estar dependente de técnicos estrangeiros para a reparação e a manutenção do mais moderno equipamento importado. Os técnicos africanos existem, eles estão na América. […] A nossa terra é em África, não na América. O nosso objectivo principal deve ser a África. (PASSAPALAVRA, 2010)

Olhando para esta fotografia abaixo, o quão “africano” se percebe em Garvey e seus seguidores imediatos ? O que se vê, ao contrário do mitificado “liberte-se da escravidão mental” é uma colonização eurocêntrica que beira ao patético…, ao menos para quem não se entendia como “outra coisa” diferente do africano, forjado em uma cultura caldeada.

Agora, abaixo, o Imperador da Etiópia, Haile Selassie, um verdadeiro membro de realeza africana…, ele até podia por questões protocolares e afirmação ante as realezas e governos ocidentais utilizar uniformes militares e outras vestimentas no mesmo estilo, mas não dispensava o tradicional africano não eurocentrado…, já viu alguma foto em que Garvey minimamente remetesse a um “africano” e não um colonizado/colonizador?, não? nem eu…

4- Luther King já dizia “negros são humanos, não super-humanos”, Garvey assim como qualquer um estava sujeito a equívocos, desvios de caráter e mesmo incompetência, logo, a sua “honorabilização” pode ser questionada a partir de muitos argumentos históricos. Uma falácia muito comum ocorre ao falar da Black Star Lines e de sua sucessora a Black Cross. A verdade é que ambas FALIRAM por má gestão, por possuir navios “bichados” . Garvey não foi “impedido” pelo governo norte-americano de navegar para a África com seus navios levando pretos norte-americanos, primeiro ele não foi autorizado por países africanos já livres como a Libéria e outros, depois a frota era reduzida e sofreu vários problemas que poderiam se tornar tragédias marítimas e por fim, como em toda falência, etc… os bens foram indisponibilizados. Garvey foi condenado e preso por fraude… e depois deportado. Nem nego que pode e provavelmente tenha “havido dedo” dos serviços de inteligência dos EUA, mas isso muda pouco as coisas, vide:

Se as articulações políticas de Garvey iam bem, mesmo em face dessa atmosfera de vigilância e suspeição, seus negócios iam mal. Os navios comprados começaram a apresentar problemas em suas viagens, “devido à necessidade de reparos técnicos e à má administração da empresa”. Logo a Black Star Line Inc. estava operando no vermelho. Mas, paradoxalmente, Garvey decidiu comprar mais um navio. Para arrecadar fundos, enviou “prospectos pelo correio, divulgando a venda de novas ações da empresa”. Esta iniciativa custou a ele e aos executivos da Black Star Line um “processo judicial pelo uso fraudulento dos correios e a consequente falência de sua empresa”. O processo, iniciado em 1923, foi acompanhado por diversos setores da opinião pública.
No ano seguinte, Garvey sofreria outro revés em seu projeto racial. Na IV Convenção Internacional dos Negros do Mundo, a Unia definiu o programa de colonização da África pelos negros dispersos pela diáspora, programa, aliás, que já vinha sendo esboçado desde a primeira Convenção. A princípio, o governo da Libéria acenou favoravelmente ao plano de colonização de afro-americanos, e a Unia até investiu na criação da Black Cross Navigation and Trading Company – mais um projeto de estabelecimento de linha de navegação a vapor entre os Estados Unidos e o continente africano, cuja intenção era garantir o transporte dos negros para Monróvia. (DOMINGUES, 2017)

5- Garvey NÃO FOI ACATADO nem pelos países livres africanos, vide:
O certo é que em junho de 1924 os governantes liberianos se opuseram terminantemente às atividades da UNIA no seu país, declarando que não autorizariam o estabelecimento de quaisquer colonos enviados pela associação. Como observou um biógrafo de Garvey, “na prática o movimento do regresso a África ficou liquidado quando a República da Libéria se recusou a apoiar o programa de colonização”. Entretanto, outros africanos haviam denunciado a pretensão de Garvey a apresentar-se como presidente provisório da África e houve também nigerianos e senegaleses a pronunciar-se contra a colonização do seu continente pelos negros norte-americanos. Com igual insucesso se deparou a delegação enviada pela UNIA à Abissínia no final da década de 1920, não se mostrando os governantes deste país interessados em qualquer afluxo maciço de negros americanos.(PASSAPALAVRA, 2010)

6- Garvey não era tão querido e respeitado entre outros panafricanistas e lideranças negras contemporâneas W.E.B Du Bois, chamou Garvey de “o inimigo mais perigoso da raça negra na América e no mundo” em uma edição de maio de 1924 de “A crise”.

7- Garvey ao fim e ao cabo tinha posições compatíveis com os racistas, acreditava em “pureza racial” e que “o lugar dos negros era na África “ e chegou a manter contatos com a KKK (Klux Klux Klan) vide:

Eu acredito numa raça negra pura, tal como todos os brancos que se prezam acreditam numa raça branca tanto quanto possível pura.

ou

a UNIA inseriu-se numa arraigada tradição de defesa da hegemonia branca nos Estados Unidos. Quando o presidente Harding, em outubro de 1921, declarou no Alabama que era contrário à mestiçagem e favorável à segregação, Garvey enviou-lhe um telegrama de felicitações, e a UNIA não teve vergonha de apoiar uma proposta de lei apresentada por um senador da direita racista, que propunha o repatriamento para África de todos os negros norte-americanos. Embora por razões opostas, observou Garvey, os objetivos de ambos eram convergentes .

Ou ainda

Vários historiadores têm comparado, com acerto, o movimento lançado por Garvey ao sionismo criado por Theodor Herzl, já que ambos se aliaram aos políticos racistas como forma de promover a migração, num caso dos negros para África, no outro dos judeus para a Palestina. [..] E assim se explica que Garvey tivesse beneficiado da aprovação do Ku Klux Klan e de outras organizações racistas brancas, cujos representantes foram frequentemente convidados a discursar nos comícios da UNIA.

Por fim

“A Sociedade Americana Branca, os Clubes Anglo-Saxônicos e o Ku Klux Klan gozam de todo o meu apoio na sua luta por uma raça pura”, afirmou Garvey sem quaisquer rodeios, “no mesmo momento em que nós estamos a lutar por uma raça negra pura” (PASSAPALAVRA, 2010)

8- Garvey era assumidamente um FASCISTA, disse sem rodeios 3 anos antes de morrer:
Nós fomos os primeiros fascistas. Disciplinamos homens, mulheres e crianças e preparamo-los para a libertação da África. As massas negras viram que só neste nacionalismo extremo podiam depositar as suas esperanças e apoiaram-no de imediato. Mussolini copiou de mim o fascismo, mas os reacionários negros sabotaram-no (PASSAPALAVRA, 2010)

Portanto car@ “irmã@” que “idolatra” Garvey e acha que é “africano” só por causa das ideias dele e de outros seus seguidores, bem como por nunca ter morado em África (como eu tive a oportunidade), eis ai os meus motivos REFERENCIADOS para não me somar à você e muit@s outros.

Se você curte e concorda com um neocolonizador, mal sucedido, admirador de racistas e fascista assumido (que inclusive reclamava ter sido copiado por Mussolini), problema seu…, mas agora não pode alegar que desconhece e não é admirador de um utópico, delirante e ainda bem, mal sucedido fascismo negro, EU TÔ FORA… .

Referências

DOMINGUES, PETRÔNIO. O “MOISÉS DOS PRETOS”: MARCUS GARVEY NO BRASIL. Novos estud. CEBRAP, São Paulo , v. 36, n. 3, p. 129-150, Nov. 2017 . Disponível em < http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-33002017000300129&lng=en&nrm=iso&tlng=pt > . accesso em 13 Fev. 2020.

PASSAPALAVRA. De volta à África (3): “Nós fomos os primeiros fascistas”. 2010. Site anticapitalista independente.Disponível em: <https://passapalavra.info/2010/07/26128/ >. Acesso em: 14 fev. 2020.


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Racismo na antiguidade sim..

Capa do livro “A invenção do racismo na antiguidade clássica “

No campo da História tem muita gente que entende “racismo” como uma categoria aplicável somente a situações ocorridas após a chamada instalação do racismo científico do séc. XIX, sendo anacrônica a aplicação para o anterior.

Sobre anacronismo prefiro me basear em ensinamento de D’Assunção Barros, É importante já antecipar que frentemente encontramos palavras de hoje (e que não existiam em outra época) e que funcionam perfeitamente bem para descrever uma situação em um passado histórico. Ou seja, o uso de uma palavra de hoje para analisar o passado não produz necessariamente anacronismo. Pode produzir, mas pode também não produzir. , parte de texto apontado pelo link acima e no qual se afirma que o historiador pode trabalhar com duas categorias, as utilizadas nas fontes (usadas em citaçoes literais e referências ao primário) e as que utiliza ao fazer a análise, ou seja, ao fazer observações próprias pode usar categorias presentes para o fenômeno ou referência, para o melhor entendimento por seus leitores. O que não se pode fazer é levar à boca de personagens do passado termos/conceitos de hoje.

Quanto ao racismo científico, começo discordando até pelo marco, penso que a ideia “científica” de raça (o racialismo) e o racismo (a ideia de superioridades e inferioridades atávicas entre elas) começa ainda no XVIII com o Carolus Linnaeus estabelecendo a classificação Homo Sapiens e dividindo-a em subespécies (raças), com a respectiva “descrição moral” de cada uma delas.

Por outro lado, o racismo (essencialmente falando) desde a antiguidade clássica, mesmo que se tenha o cuidado de usar eventualmente termo de especificação como “proto-racismo”, é reconhecível e reconhecido por alguns autores a partir de argumentos robustos. Por exemplo, para quem acha que a cultura védica, base do hinduísmo é pura “paz e amor” e “elevação”, deveria dar uma lida em texto do Carlos Moore sobre o Rig-Veda, racismo é pouco… .

O resultado do ódio de Indra aos “Anashas” e a dominação ariana deu nisso:

Os Dalits, pretos de cabelo “liso” ou encaracolado, os “párias” “intocáveis” , o que restou dos dravídicos odiados por Indra.

Não tem muito para onde correr…, o que vemos hoje é consequência e reprodução da mesma estrutura discriminatória vista na longa duração. Difícil trabalhar com racismo sem um perspectiva “braudeliana” . Em qual categoria presente você encaixaria para tecer análise, os trechos védicos expostos acima e a realidade atual ? 🤷🏿‍♂️


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DRA. ODILIA LAVIGNE, UMA MULHER PARA SER LEMBRADA

Registrando e deixando aqui link para texto de 2010, produzido por Maria Luiza Heine e publicado no seu Blog “Ilheus com amor”, sobre a primeira mulher negra formada médica no Brasil, em 1912, a baiana Odília Teixeira Lavigne, filha do médico negro baiano José Pereira Teixeira. Siga o link.

https://wp.me/pkOAV-e4


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A dor por um Machado não branco

Machado de Assis, o grande escritor brasileiro era um afrodescendente. Mesmo sendo um fato já notório, constante da sua biografia, ainda há gente “lutando” por um Machado de Assis branco, inconformada com a representação mais realista que se anda fazendo dele.

Essa “briga” por um Machado branco só se pode mirar sob título de uma reação que visa prorrogar a ideologia de branqueamento e embranquecimento não apenas de grandes vultos da história brasilera, mas também da própria população… como se pode depreender deste trecho de texto meu de 2006…

Portanto essa posição é hoje indefensável, primeiro porque é de amplo conhecimento dos historiadores e estudiosos da temática étnico racial, a tradicional prática do “retrato americano”, técnica de pintura que visava “branquear” cor e traços de não brancos de fins do XIX. Segundo porque há fotos originais em que é perceptível que a tez de Machado não era branca. Terceiro porque há registros escritos sobre sua condição de “mulato”, bem como com sua descrição física, a exemplo:

“Mulato, ele foi de fato, um grego da melhor época. Eu não teria chamado Machado de Assis de mulato e penso que nada lhe doeria mais do que essa síntese. (…) O Machado para mim era um branco e creio que por tal se tornava; quando houvesse sangue estranho isso nada alterava a sua perfeita caracterização caucásica. Eu pelo menos só via nele o grego” (Joaquim Nabuco, em carta a José Veríssimo, após a morte de Machado de Assis).

O texto é claro e não dá margens para outra interpretação, ao iniciar com “Mulato, ele era de fato, um grego”, o que Nabuco está colocando é uma realidade (Mulato) contra a perspectiva moral que tinha de Machadot (equivale ao “classico negro de alma branca) . Em outro trecho diz “PARA MIM era branco e creio que por tal SE TORNAVA”, ou seja, novamente admite uma contradição entre o físico e a percepção que tinha do “lugar social” de Machado. Ao dizer “EU PELO MENOS, só via nele o grego” novamente reforça ser uma visão pessoal, que pela simples colocação deixa claro não ser a única possível nem unânime…

Ou ainda

Em 30 de setembro de 1933, o escritor Humberto de Campos, ao escrever um artigo para o ” Diário de Notícias”, traçou o seguinte perfil do colega Machado de Assis, a maior glória da literatura nacional de todos os tempos:
“Era miúdo de figura, mulato de sangue, escuro de pele, e usava uma barba curta e de tonalidade confusa, que dava ares de antigo escravo brasileiro, filho do senhor e criado na casa de boa família. Era gago de boca, límpido de espírito e manso de coração. E tornara-se pelo estudo e pelo trabalho o mais belo nome, e a glória pura e mais legítima, das letras nacionais”.

(

Uma foto pouco conhecida, publicada na revista argentina “Caras y Caretas” de 1908 mostra um Machado de traços notadamente afrodescendentes.

Igualmente, foto sem retoques e de conhecimento público desde 1957, não deixa dúvidas sobre a tez escura de Machado…

Portanto, não há nada de “fantasioso” em devolver à representação de Machado uma mais realista aparência.


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Antirracismo e lugar de fala

A reflexão que divido aqui é sobre antirracismo, mas com as devidas vênias tem princípios que podem ser aplicados de forma comum aos outros recortes de ativismo social.

O primeiro ponto é que todo ativismo tem vários temas relacionados à sua causa e problemática, porém, em geral tem um tema principal no qual estão encampados boa parte dos subtemas mais relevantes. Por motivos óbvios a agência e discussões do principal tema e seus subtemas de cada recorte social são hegemonicamamente conduzidos pelos respectivos movimentos e ativistas. Hegemonia no entanto não significa, nem deve significar exclusividade, ou “autorização de absoluto sequestro temático”.

E ai entra o “lugar de fala”, que parte entende como todo o “espaço natural” de atuação ativista de determinado movimento social, bem como o de “vivências” que permitiriam um discurso “privilegiado” e “autorizado” ao qual “o outro” não teria “direito” por falta de pertença e vivência. Para outros, o lugar de fala nada mais é que uma “posição discursiva” elaborada a partir não apenas das próprias vivências, mas também de conhecimentos adquiridos formal ou informalmente sobre o tema, ou ao contrário por suas ausências. Sendo assim o “lugar de fala” seria um hierarquizador da fala, um fator de menor ou maior legitimidade, credibilidade ou autoridade atribuida à quem se expressa sobre determinada questão.

De um modo ou de outro, o lugar de fala NÃO É um autorizador ou “desautorizador” de manifestação.

Então voltando ao antiracismo e já finalizando, o tema racismo tem vários subtemas e todos suportam diversos “lugares de fala”, ou seja, pontos de vista, quer internos ao movimento negro, que hegemonicamente estuda, debate e agencia o combate ao racismo, quer externos, afinal um problema social é problema de toda sociedade e por toda ela deve ser debatido e resolvido. Isso não retira protagonismo, pautamento e lugar privilegiado de fala da hegemonia, não ofende nem desmobiliza , o mesmo princípio serve para TODOS os outros movimentos.

O uso de “lugar de fala” como cerceador de manifestação dentro da razoabilidade e do diverso aceitável é antidemocrático e fascista, tiro no pé das causas mesmo.


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Voto negro no Brasil

Escala proporcional de tempo – Maria Vitória di Bonesso

O assunto aqui é rápido. Fizeram uma ilustração para dar uma dimensão da história e avanços legais dos negros no Brasil, logo apareceu um monte de gente (especialmente branca) reclamando que o gráfico estava errado e que “nunca houve” lei que impedisse o voto dos negros, principalmente após a abolição e o início da República.

Entendam que o racismo no Brasil sempre foi eficiente e nem sempre aberto… quando se fala em voto negro em 34, se está falando do voto realmente livre e generalizado. Muito embora desde a Constituição de 1824 em tese homens livres fossem iguais , a coisa não era bem assim:

1- Escravos não votavam, todos eram negros…

2- Ex-escravos, ou seja, os libertos não tinham direito ao pleno voto, só ao voto primário, nem podiam ser votados.

3- Os negros nascidos livres podiam em tese votar e serem votados, mas o voto censitário colocava uma barreira de renda que eliminava praticamente todos eles.

4- Com o fim da escravidão e o início da República enfim todos pareciam em tese livres e eleitores, mas o voto ainda era proibido aos menores, aos soldados, as mulheres e aos analfabetos (cuja esmagadora maioria era negra) em 1890 o Brasil tinha coisa de 12,2 milhões de habitantes maiores de 5 anos, pouco mais de 9 milhões eram pretos e pardos, os analfabetos coisa de 10 milhões (82%), fácil concluir que entre os pouco mais de 2 milhões de alfabetizados poucos eram negros… . Em 1940 o Brasil tinha 23,7 milhões de habitantes, os analfabetos eram coisa de 13,2 milhões (61%), enquanto negros eram 14,7 milhões (62%) da população. Percebe-se que mesmo após 1934 a população negra supera em pouco mais de um ponto percentual a analfabeta e não eleitora, não quer dizer que não houvessem negros alfabetizados e eleitores e não-negros analfabetos e não eleitores, mas que sob o critério do analfabetismo praticamente se excluia eleitoralmente quase toda a população negra. Assim é a desigualação racial no Brasil, o motivo é sempre “outro” que não o racial, mas os alvejados…

(Dados do IBGE)

5- Isso permaneceu durante toda república velha até os anos 30, quando as mulheres ganham o direito ao voto, mas os analfabetos não… . Até então havia também outro dispositivo que dificultava a participação política negra, a necessidade que os políticos eleitos fossem “confirmados” pelas casas legislativas, isso excluiu vários candidatos negros vencedores de assumirem mandatos, na prática “anulando” os votos de seus eleitores óbvia e majoritariamente negros… . Foram embarreirados nomes como Eduardo Ribeiro, eleito Senador pelo Amazonas em 1897 e Manoel da Motta Monteiro Lopes, eleito e não confirmado duas vezes seguidas, só logrando tomar posse como Deputado Federal pelo então Distrito Federal em 1909, após mover uma campanha nacional e internacional pelo seu reconhecimento. Monteiro Lopes foi objeto da minha dissertação de mestrado.

Depois da CF de 1934 o voto se “universaliza”, apesar de ainda excluir os analfabetos cuja maioria era negra, já não se restringia e “anulava” a posteriori a vontade do negros com status de eleitor.

É importante ao se discutir e principalmente antes de negar a histórica obstaculização negra brasileira e “corrigir” as manifestações de pesquisadores e ativistas, entender de onde vem seus argumentos e critérios, simplesmente dizer que “nunca houve lei” ou “impedimento explícito” é desconhecer e menosprezar a realidade.

P.S Sei que alguns vão reclamar que o título remete à uma análise não apenas histórica da evolução do direito de voto, mas à uma análise de como se deu e dá a construção e alcance do voto negro. Tudo bem, é possível, mas em outra ocasião… .


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SOBRE RACISMO E RACIALISMO

Por anos debatendo a questão das Ações Afirmativas (AA), sobretudo as cotas universitárias com recorte racial, me deparei muito com gente classificando de “racialistas” os que defendiam o recorte racial nas AA.

Ainda hoje vejo o uso de “racialista” como se fosse um racista com “sinal invertido”, nada mais errôneo e injusto. O racialismo é a crença em diversas raças humanas no sentido BIOLÓGICO, instituído por Carolus Linnaeus no XVIII ao criar a classificação homo sapiens e dividi-la em subespécies relacionadas à cor de pele e características fenotipicas prevalentes nas populações de cada continente. No mesmo ato Linnaeus também cria o racismo “científico” ao atribuir características atávicas (determinantes e hereditárias) à cada um dos grupos “raciais”, reservando apenas para os brancos as positivas e para os demais negativas.

Hoje o entendimento de “raça” ou “racial” só é admitido em sentido de construção social a ser superada com relação às desigualdades e determinismos preconceituosos e discriminatórios. Isso não quer dizer no entanto que se pretenda uma homogeneização étnico/cultural e a desconsideração das peculiaridades históricas, culturais e sociais dos diversos grupos.

Portanto, admitir tais peculiaridades e diferenças sociais construídas por milênios e séculos recortados de experiências culturais e sociais coletivas diferenciadas, e principalmente os prejuízos e necessidade da correção das desigualdades decorrentes, não é racialismo, muito menos “racismo as avessas” .

Os entendimentos partidos de dentro de um grupo tradicionalmente prejudicado, sobre sua realidade social, condições efetivas, valores civilizatórios, igualmente a sua memória coletiva e percepções não podem ser desconsiderados na sua totalidade, tampouco cerceado o direito ao ressentimento e as demandas por respeito, autodeterminação e “propriedade” de seus bens culturais.

Se existe uma CULTURA NEGRA, produto do contato e do amálgama secular das culturas africanas traficadas junto com os escravizados e as nativas e européias, isso não quer dizer que deixa de ser peculiarmente negra e diferentemente vivenciada a partir de diferentes origens e perspectivas.

Não há problema algum em qualquer pessoa de qualquer cor ou origem se imiscuir na cultura negra e vivencia-la, mas é importante que entenda que antes de mais nada ela é um bem cultural ao qual se adere, do qual se pode apropriar mas não deturpar, muito menos expropriar o negro, “retirando” dele o direito de controlar primariamente os seus bens culturais ou de se manifestar sobre eles a partir da própria perspectiva.

Quando uma pessoa negra (e não apenas que assim se assuma por realidade e pertença remota ou não, mas que principalmente assim seja vista socialmente e assim se relacione com a sociedade) se insurge contra apropriações indébitas ou questiona a forma de participação não negra na cultura negra, ela não está sendo racialista muito menos racista, ela está apenas chamando a atenção para a diferença de viver a cultura negra sendo efetiva e socialmente negro e não sendo… .

Não precisa ser negro para ser capoeirista ou de religião de matriz africana, mas é preciso conhecer as motivações históricas, reconhecer a essência, as premissas cosmogônicas, filosóficas e principalmente aceitar as regras da tradição e ter alteridade e empatia com quem tem a cultura como herança natural e coletiva… .

É o que não entendem o que dizia o Mestre Pastinha, e dizem hoje muitos praticantes e ativistas negros da cultura negra em suas perspectivas negras.


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CAXIAS E O MEDO BRANCO.

No 25 de agosto, Dia do Soldado, homenagem à data de nascimento do patrono do Exército, uma reflexão um pouco “diferente”.

Caxias se notabilizou por ter “pacificado” (termo militar para a neutralização pela força/violenta) várias revoltas populares, muitas com base e alta participação negra, além de grande comandante da Guerra do Paraguai. Em tese a “manu militari” serve ao poder constituído de um Estado, garantindo seus interesses e suas políticas de defesa (eventualmente de conquista) e manutenção da ordem, é portanto essencialmente patriótica, apesar disso não significar sempre algo “moral, ético e humanitário”, pelo contrário, ainda mais visto à distância no tempo. Pouco lembrado é o episódio vil de traição e massacre dos Lanceiros Negros da revolução farroupilha urdida entre o General rebelde David Canabarro e o então Barão de Caxias, conforme explica Daniel Isaia:

“Em novembro de 1844, conforme combinado entre os dois líderes militares, Canabarro ordenou à tropa de Lanceiros Negros para que fosse desarmada até o cerro de Porongos e lá montasse acampamento. A Caxias, coube ordenar às tropas imperiais para que também se deslocassem até o local para combater os farroupilhas que lá estivessem. Eis um trecho da carta enviada pelo Barão de Caxias ao comandante imperial Francisco Pedro de Abreu, líder das tropas que atacariam os Lanceiros Negros:

‘Poupe o sangue brasileiro o quanto puder, particularmente da gente branca da Província ou dos índios, pois bem se sabe que essa pobre gente ainda pode ser útil no futuro.’

Desarmados e pegos de surpresa às 2h da madrugada, os negros farroupilhas foram dizimados pelos soldados imperiais. O massacre resultou na morte de centenas de lanceiros (as versões variam entre 170 e 800 mortos). Os poucos que sobreviveram foram enviados ao Rio de Janeiro para serem reintroduzidos à vida de escravidão e trabalhos forçados.”

Mais adiante Caxias comandou a campanha do Paraguai, aonde boa parte da população negra foi dizimada nas linhas de frente. No entanto, antes de abandonar o comando, assumido pelo genro do Imperador, o Conde D’Eu, Caxias “reconhece” o valor dos combatentes negros e o temor que finda a guerra os valentes e experimentados soldados negros sobreviventes fizessem tal qual no caso do Haití a tomada do poder e eliminação da população branca. Conforme trecho extraído de texto do Frei David da EDUCAFRO:

” A guerra do Paraguai (1864-1870) foi um dos instrumentos usados pelo poder para reduzir a população negra do Brasil. Foi difundido que todos os negros que fossem lutar na guerra, ao retornarem, receberiam a liberdade e os já livres receberiam terra. Além do mais, quando chegava a convocação para o filho do fazendeiro, ele o escondia e, em seu lugar, enviava de 5 a 10 negros.
Durante a guerra, o Exército brasileiro colocou o nosso povo negro na frente de combate e foi grande o número dos mortos. Para se ter uma idéia, a população negra do Brasil era de 2 milhões 500 mil pessoas (45% do total da população brasileira). Depois da guerra, diminuiu para 1 milhão 500 mil pessoas (15% do total da população brasileira).
Os poucos negros que sobraram, eram os que sabiam manejar as armas do Exército. Duque de Caxias escreve para o imperador demonstrando temor sobre o fato:

‘[..] à sombra dessa guerra, nada pode livrar-nos de que aquela imensa escravatura do Brasil dê o grito de sua divina e humanamente legítima liberdade, e tenha lugar uma guerra interna como no Haiti, de negros contra brancos, que sempre tem ameaçado o Brasil e desaparece dele a escassíssima e diminuta parte branca que há!’. ”

OBS. HÁ ERRO INDUZIDO NOS NÚMEROS APRESENTADOS NESSE TEXTO CITADO DO FREI DAVID, NOTA EXPLICATIVA AO FINAL.

Para o bem da pátria e sorte da “diminuta parte branca” de então, os heróis negros não eram vingativos e traiçoeiros e nem agiram coordenada e intencionalmente para eliminar os que estavam no caminho da sua liberdade e interesses.

Portanto, nesse Dia do Soldado, nossa homenagem à todos brasileiros(as) que já vestiram um uniforme e com suor, sangue, lágrimas e espírito cívico defenderam ou se prepararam ou preparam para defender a pátria, a segurança e dignidade da população não apenas brasileira como a de países amigos, mas muito especialmente à todos os soldados negros que muitas vezes receberam históricamente ingrata paga pelo sacrifício, dedicação e honra.

* NOTA

Estranhei os números e pesquisando encontrei o motivador do erro… . Por isso que digo que é importante dominar e utilizar corretamente as CATEGORIAS e ter uma leitura mais ampla para tentar evitar as ciladas. Entendo que o erro no texto do Frei David, não se trata de desonestidade poderia ser cometido por qualquer outro mais desatento. Vejam o print anexo de texto em livro do Dagoberto Fonseca fazendo um apud no Chiavenato.. 😉

São vários erros de AMBOS, que levaram a posteriores replicações equivocadas. Ao usar negro como sinônimo de preto, se interpreta errado, já que negro não é opção censitária, mas a soma dos autodeclarados pretos e pardos (e isso desde 1872). O “povo”, especialmente a imprensa, fica insistindo no uso equivocado de ” negros e pardos”, isso quando não apela para termos que nunca foram usados demograficamente como “mulatos” .

Outro erro é ler automaticamente negro como escravo no pré-abolição, a população negra (ou seja, preta e parda) a partir da 2a metade do XIX já era majoritariamente nascida livre ou liberta… .

O Chiavenato induziu ao erro ao ver a população escrava antes da guerra do Paraguai e depois, e imaginar que a diferença de 1 milhão a menos era exclusivamente efeito da guerra… . Parcialmente sim, mas na verdade o que ocorreu foi uma grande mudança geral de status de escravizado para liberto… . O tal “milhão de negros” (na verdade escravizados) não “desaparecereu”, a maioria apenas deixou de ser escrava, muito embora um número nada desprezível tenha de fato sido dizimada na guerra.


4 Comentários

Entendendo finalmente a diferença de preto para negro.

Não é a primeira vez que escrevo sobre isso, mas dadas as circunstâncias veio a calhar fazer um novo texto com exemplos mais significativos e práticos.

Primeiro é importante deixar claro que estamos falando dos usos no contexto das relações raciais.

Os termos preto e negro tem sentidos distintos, o primeiro é cor, tem a ver com a aparência característica de um africano aparentemente não miscigenado, já o segundo se referia antigamente a uma situação de escravização, hoje apenas de origem africana de qualquer forma perceptível no fenótipo, produto do tráfico negreiro.

Os mais antigos diziam “Preto é cor, Negro é raça”, na verdade ORIGEM, já que diferentes raças não é uma realidade biológica entre humanos, hoje sabe-se apenas uma construção social.

Para entender melhor conclua a leitura dos tópicos.

ESCRAVIDÃO NEGRA

Do princípio… a escravidão negra é assim chamada por conta dos espanhóis no XVI, que introduziram a palavra negro com sentido de escravizado, influenciando portugueses e ingleses, que passaram a usar exatamente da mesma forma. Na verdade foram eles, os espanhóis, os introdutores e durante bom tempo, os principais operadores do tráfico transatlântico, chamado por isso de tráfico negreiro, logo, a escravidão negra é inescapavelmente a fomentada e da qual se beneficiaram as metrópoles européias e colônias. A servidão tradicional em África e a mercantilista árabe em África, pre-existentes não são a “escravidão negra”, assim como a praticada entre os indígenas das américas também não, muito embora a escravização dos indígenas pelos europeus e descendentes também os tenha colocado na condição de “Negros da terra”, igualmente não é chamada de “escravidão negra”. Por isso que se encontra na bibliografia o termo “escravidão negra africana”, parece redundante, mas é, justamente para não confundir com os outros tipos de servidão e escravização em África… .

NEGRO

Como visto, o termo negro estava ligado inicialmente à condição de escravizado e não um sinônimo perfeito para preto, ou para africano. Os índios, os primeiros escravizados pelos europeus nas Américas, também eram tratados por “negros”, mais especificamente “negros da terra”, e não eram pretos, muito menos africanos (que no Brasil colonial eram então chamados “negros da guiné”).

Por tal é, que em países de língua espanhola, é comum ainda hoje se chamar ou apelidar indígenas e seus descendentes de “negro(a)”, caso da famosa e falecida cantora argentina Mercedes Sosa.

Pode-se perguntar, -“Então por que não é assim no Brasil também?”. Simples, porque foi proibido, quando da abolição da escravidão indígena em 1755 na segunda colônia portuguesa nas Américas, o Estado do Pará e Maranhão (que abrangia toda a região da atual Amazônia brasileira e parte do nordeste), abolição depois estendida para o então Estado do Brasil (que anexou a outra colônia do norte após a independência), veja o texto do ato:

“Diretório que se deve observar nas Povoações dos Índios do Pará, e Maranhão, enquanto Sua Majestade não mandar o contrário

1 Sendo Sua Majestade servido pelo Alvará com força de Lei de 7 de Junho de 1755, abolir a administração Temporal, que os Regulares exercitavam nos Índios das Aldeias deste Estado; mandando-as governar pelos seus respectivos Principais[..]
10 Entre os lastimosos princípios, e perniciosos abusos, de que tem resultado nos Índios o abatimento ponderado, é sem dúvida um deles a injusta, e escandalosa introdução de lhes chamarem Negros; querendo talvez com a infâmia, e vileza deste nome, persuadir-lhes, que a natureza os tinha destinado para escravos dos Brancos, como regularmente se imagina a respeito dos Pretos da Costa da África. E porque, além de ser prejudicialíssimo à civilidade dos mesmos Índios este abominável abuso, seria indecoroso às Reais Leis de Sua Majestade chamar Negros a uns homens, que o mesmo Senhor foi servido nobilitar, e declarar por isentos de toda, e qualquer infâmia, habilitando-os para todo o emprego honorífico: Não consentirão os Diretores daqui por diante, que pessoa alguma chame Negros aos Índios, nem que eles mesmos usem entre si deste nome como até agora praticavam; para que compreendendo eles, que lhes não compete a vileza do mesmo nome, possam conceber aquelas nobres idéias, que naturalmente infundem nos homens a estimação, e a honra. ”

Prova inconteste que além da alta carga estigmatizante do termo negro, deixa clara a vinculação entre o negro e a escravização, da qual os indígenas estavam sendo liberados, mas os africanos e descendentes não…, continuaram sendo negros por mais de 130 anos.

NEGRO EM INGLÊS

Como dito, os espanhóis introduziram o sentido de “Negro” enquanto escravizado, termo que foi adotado pela língua inglesa, nos EUA, a palavra escrita da mesma forma e falada como “Nigro” foi correntemente utilizada para os escravizados africanos e descendentes desde o século XVI até os anos 60 do XX, como demonstra o dicionário OXFORD em inglês:

Como se pode visualizar, apesar de haver uma palavra própria para a cor, em inglês, “black”, o que vigorou foi Negro em seu sentido de escravizado/descendente. Em português essa distinção de uso é menos percebida pois as vezes se utiliza negro como sinônimo de preto, mas no geral o termo negro não é utilizado para cor das coisas, mas como adjetivo e em geral negativo, não falamos por exemplo “carro negro”, “cortina negra”, “óculos negro”, “caneta negra”, “camisa negra”, “pulseira negra”, “bola negra” por outro lado… “alma negra”, “magia negra”, “livro negro”, “viúva negra”, “nuvens negras”, “negra sorte”, “peste negra”, “denegrir” (enegrecer, sujar) são expressões bem comuns, mas todas em tom negativo… não à toa Negro foi um sinônimo atribuido a escravizados .

O CENSO

O termo negro não aparece nas opções do Censo pois apesar do quesito ser “Cor/raça” e haver certa sobreposição a maioria das opções trata da cor da pele

As opções são branca, preta, parda, amarela e indígena. Não há “cor negra”.

REGISTRO CIVIL

Anteriormente a Constituição de 1988, a cor era quesito obrigatório nas certidões de nascimento e alguns outros registros civis e deveria seguir o padrão censitário. Não havia ou deveria haver registro com cor “negra” já que não é opção censitária desde 1872, mas sim “preta” quando fosse o caso. Hoje alterada a lei retornou a possibilidade de registro da cor.

REGISTRO MILITAR

A cor da cútis é dado comum na documentação militar, por exemplo, no meu certificado de reservista (de 1987), está lá a minha cor, PRETA e não negra…

LEGISLAÇÃO

Negro é quem faz parte da população negra, o Estatuto da Igualdade Racial, que norteia toda questão jurídica relacionada, define quem faz parte da População Negra, ou seja, os autodeclarados pretos e pardos.

AFRODESCENDENTE

Claro fica que afrodescendente é sinônimo de Negro e o substitui, igualmente, fica claro que assim como Negro, é aplicável apenas aos diaspóricos não aos africanos, que apesar der terem COR preta NÃO SÃO NEGROS ou mais atualizadamente afrodescendentes.

CONCLUSÃO

Hoje o termo negro foi resignificado e apropriado pelo movimento negro, serve como um aglutinador da população afrodescendente, tem um sentido político, que não é alcançado pelo termo preto, aplicável realmente a coisa de 10% da população, enquanto negro atinge cerca de 54% dos brasileiros.

No Brasil todo preto é negro, mas nem todo negro é necessariamente preto…