Blog do Juarez

Um espaço SELF-MEDIA


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COMO SURGE UM FACTÓIDE HISTÓRICO-IDENTITÁRIO

😒

1-Alguém vai à uma exposição em um espaço afro (provavelmente no Chile) e vê um quadro com uma mulher negra amamentando um negro adulto e preso por grilhões. Não se sabe se alguém ali “explica” o quadro como uma prática comum dos tempos da escravidão, ou a própria pessoa é quem interpreta assim e publica foto em um site ou perfil de uma organização “afrocultural” chilena, o que faz parecer “confiável”.(atualização: antes de chegar ao perfil chileno a imagem com o texto aparece a primeira vez em uma publicação online da revista AFROCOLOMBIANA Negarit em Setembro de 2016)

2- Um perfil brasileiro do Instagram “especializado em História e entretenimento” reproduz… sem maiores verificações o conteúdo chileno e um outro perfil brasileiro e respeitado reproduz a reprodução… .

3- Tal perfil tem uma “pegada” de “apoios identitários”, ou seja, com muitos seguidores que se entendem “ativistas” ou simpatizantes de causas como a negra, feminista, feminista negra, indígena, LGBTTQIA etc…, que por sua vez acrescentam aos comentários suas próprias pautas e visões, por exemplo “a força da mulher negra ‘salvando’ os homens negros desde os tempos do cativeiro”, logo aparece o discurso da “ingratidão dos homens negros” e óbviamente o da “solidão da mulher negra”(atribuída sempre e somente aos homens negros…, jamais ‘cobrada’ dos homens brancos ou aventado o evitamento de homens negros pelas próprias negras 😒).

4- Tais “seguidorxs” então começam a replicar em suas redes sociais a “descoberta histórica” junto com suas análises identitárias… e a coisa se espalha.

5- Aí vem um “historiador chato” (eu 😏) que diz “PERA AÍ”, eu enquanto bem familiarizado com o tema nunca ouvi falar disso e tem coisa errada ai… a começar por detalhes na imagem como o traje da suposta escravizada negra. Aí com cinco minutos de rastreamento e pesquisa web está “morta a questão”…

O tal quadro é apenas uma “versão negra” do antigo conto romano de Pero e Cimon… 🤔, filha que amamentava o pai preso ao visita-lo para que não morresse de fome… . O que inspirou uma série de obras de arte sobre o tema ao longo do tempo, conhecidas genéricamente como “Caridade Romana”… . NÃO TEM NADA A VER COM ESCRAVIDÃO NEGRA, muito menos dá “suporte” para as N ilações identitárias que quiseram “colar” a partir da imagem….

“BORA” SER MAIS RESPONSÁVEIS ANTES DE SAIR REPOSTANDO TUDO QUE VÊ só porque a fonte parece confiável ou “engajada identitariamente”… 😒 #fakenews #fakeolds #fakehistoria

🚨EM TEMPO: o perfil de alta visitação que viralizou o fake RETIROU a postagem em função do nosso esclarecimento. 😉


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Pela abolição da estupidez e da ode acrítica ao 13 de maio

O 13 de maio, data da abolição malfeita da escravidão no Brasil, já estava sendo há alguns anos colocado no lugar que deve ocupar na história do Brasil e no sentimento popular. Porém, o rumo reacionário, fascista e racista exacerbado dos últimos tempos nos trouxe à um real retrocesso, inclusive nos níveis institucionais.

Com a estratégia governamental de desmonte das conquistas ambientais, sociais, educacionais e culturais por meio dos “antiministérios”, ou seja, ministérios e secretarias ocupadas por gente que vai justamente no sentido contrário dos objetivos naturais das pastas e aspirações dos recortes relacionados, perdemos enquanto população negra, todas as instâncias estatais de valorização da cultura e combate ao racismo e desigualdades, como a SEPPIR e mais recentemente a Fundação Cultural Palmares.

O caso da Palmares é ainda mais emblemático, pois usa e abusa do cinismo METARRACISTA com requintes de deboche. À frente da fundação temos uma pessoa negra que é antítese do pensamento e de tudo pelo qual protoativistas e ativistas negr@s tem lutado nas últimas 13 décadas. Quando o próprio irmão de sangue o chama publicamente de “capitão-do-mato”, não está fazendo uma “injúria racial”, mas sim uma analogia sócio-histórica com uma figura patética que a serviço do status quo escravista/racista buscava impedir o natural direito à liberdade e dignidade dos que fugiam do execrável cativeiro no passado e que transposta aos dias atuais, segue servindo ao status quo METARRACISTA, com a finalidade de desmontar a luta anti-racista e os avanços da população negra.  O fato de majoritariamente terem sido os capitães-do-mato também negros é apenas um detalhe sórdido das práticas racistas do grupo que no passado e no presente se “beneficia da desqualificação e exploração material e simbólica dos não-brancos” como diria Carlos Hasenbalg.

É ignóbil a proposta de retroceder ao “culto à princesa Isabel”, de trocar o nome da Fundação Palmares para “André Rebouças”, que apesar de abolicionista histórico é também conhecido pela sua fidelidade monárquica e pela sujeição inconteste à hegemonia branca e seus valores e modos de ser (a famosa “alma branca”, que pretos tinham que assumir e fazer ode, caso quisessem ser tolerados e obter alguma mobilidade social), feita pelo seu atual titular. Complementada pelo absurdo renegar de Zumbi do Palmares (herói do panteão nacional) e da data em sua homenagem e do quilombo de Palmares, o 20 de novembro, sobreposto pela “Consciência Negra”.

Neste momento cerca de 170 historiador@s negr@s estão em uma maratona coordenada de lives nas redes sociais, com 16 horas de duração, fazendo o cotraponto à essa tentativa de “ressuscitar” o 13 de maio na forma que foi antigamente. Nossas histórias e perspectivas serão contadas por nós mesmos, não para atender interesses antinegro.

Chamada do evento

O 13 de maio é data histórica, e como tal não deixará de ser lembrada, mas não será nunca mais utilizada para contar uma história laudatória à família real, à “bondade da princesa” e o exclusivo protagonismo de abolicionistas brancos, retirando dos próprios negros a sua histórica luta pela emancipação. Luta que se estende até os dias atuais. “Enquanto os leões não puderem contar suas próprias histórias, as histórias serão sempre as dos caçadores” (ditado yorubá), pois é, acabou a “história única” dos caçadores e seus admiradores acríticos.


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Por quê os Orixás se comportam diferente e se apresentam distintamente em África, Caribe e Brasil ?

Yemanjá em terra, na Nigéria, Brasil e Cuba.

Logo de início deixo claro que é apenas uma reflexão minha, uma hipótese levantada a partir do meu conhecimento sobre as religiões de matrizes africanas enquanto estudioso/ acadêmico e praticante neófito (há alguns anos), não a partir dos “segredos” e fundamentos que só pertencem aos sacerdotes e sacerdotisas.

Orixás nas américas e caribe vieram nos oris dos traficados de África. Assim como os nossos ancestrais tiveram que se adaptar ao novo mundo as formas de culto também… .

Não são os Orixás feitos dos Orixás dos Babas e Yas ? Não conformariam linhagens com características “hereditárias” ? de quantos “oris originais” saíram os santos afrobrasileiros ? Isso explicaria o “padrão” que temos aqui ? diferente dos africanos ou mesmo dos caribenhos, sobretudo os cubanos, cujas características são parecidas entre si, mas um tanto diferente dos que vem à terra no Brasil ??? .

Outra questão que se coloca ante algumas afirmações “puristas” que visam colocar as práticas em África como “preferenciais e verdadeiras tradições a serem seguidas” é : As formas de culto em África permanecem as mesmas de 500 anos atrás ? de certo não, inclusive algo do perdido por lá, aqui foi preservado, mas como lá, também aqui ocorreram mudanças circunstanciais… .

Não existe “pureza” em se tratando de cultura mas sim tradições e isso inclui as relações e práticas do místico-sagrado, no entanto é bom lembrar que toda tradição é uma invenção, uma construção ao longo do tempo e do espaço, que agrega, abandona e substitui elementos além de mesclas com elementos de outras culturas que com o tempo passam a ser vistos como parte natural da tradição sem maiores questionamentos.

A natureza é forte mas até ela muda ou é mudada, por vezes em alguns aspectos “controlada”. Todo fogo é incontrolado/ incontrolável ?, toda água só vai aonde quer e como quer ? não se pode “obrigar” uma nuvem a fazer chuva ?, o vento não pode levar um barco a um destino ? não pode ser produzido em forma de jato ? não existem “quebra-ventos” ?, o ar não pode ser resfriado, aquecido, canalizado? então…

Isso não quer dizer que a natureza seja absolutamente controlável e sabemos muito bem que não, tampouco as forças naturais ou sobrenaturais.

Se partirmos do pressuposto que “nada se controla” das forças ou energias da natureza ou que nada funciona fazendo um pouco ou mesmo medianamente diferente, então teríamos um grande paradoxo, pois não existiria nem tecnologia, muito menos mística… nem aqui, nem no Caribe, nem em África… 🤷🏿‍♂️


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CASO RACISMO NO ITAÚ (de novo)

“Pero no mucho…”

Lá vou eu de novo discordar da FHOUTINE MARIE, que acha inútil e ingênuas as propostas de boicote, e que somos reféns do capitalismo, não tem para onde correr…. .

Se estamos no capitalismo, então usaremos as regras dele para que nos respeitem…

Todo boicote tem dois efeitos, o primeiro é que uma vez publicizado ele arranha a imagem da instituição, instituição que como todas outras, em um mercado competitivo precisa investir milhões em publicidade positiva, mas consegue publicidade negativa de graça…, o que ao fim e ao cabo representa não apenas perda no investimento publicitário, mas também na captação financeira e perda para a concorrência… Isso obriga a ações corretivas e mais gasto para reverter a imagem negativa.

Dizer que “todo banco é igual e por isso não adianta boicote” ou que “o assalariado as vezes nem pode escolher o banco em que recebe o salário” é bem falacioso. Hoje tem portabilidade de salário…, não importa por onde o dinheiro entra, importa aonde ele vai permanecer por mais tempo e utilizado em investimentos e serviços como cartão de crédito, etc… . Qualquer um sem muita dificuldade pode ter hoje um conta digital em pequenos bancos que não fica nada a dever a uma nos grandes, pelo contrário oferece facilidades extras e sem taxas de serviço… .

O público a que me refiro é bem amplo, inclui gente que tem acesso a conta tradicional e os que não tem, tem gente muito próxima de mim que está sem emprego mas tem conta digital, os filhos sem emprego ou ganhando mal também tem…, vendedores ambulantes, trabalhadores informais de todos os tipos trabalham com maquininha de cartão atrelada a contas de pagamento (que tem as funções mínimas das contas digitais). Dados do fim do ano dizem que mensalmente estão sendo abertas de 500 mil a 1 milhão de contas digitais, até os dois primeiros meses de 2020 tinha estimativa de 15 milhões de contas.

Óbvio que tem gente que fica de fora dessa “inclusão bancária” e não é exclusão, endividamento ou submissão à lógica capitalista o assunto… nem a “inevitabilidade” que a Fhoutine direciona.

Temos um caso prático e uma solução prática, tem um banco com reiterados casos de racismo nas agências, esse banco tem inúmeros clientes negros, sempre passíveis de algum evento do tipo, estamos falando desses clientes ai que já estão lá ou dos que por um motivo ou outro também se agregariam à carteira de clientes.

A ideia de boicote tem dois alvos, fazer o banco mais uma vez visualizar e repensar formas de evitar as ações discriminatórias e a outra é LEMBRAR aos clientes negros do Itaú (e aos não-negros que se incomodam em estar em um banco com reiterados atos racistas) que eles NÃO PRECISAM seguir como clientes ou pelo menos movimentando a conta ou tratando de serviços nas agências do Itaú, nenhum deles tem o menor problema para ter uma conta digital em qualquer outro banco, em que podem fazer praticamente tudo sem ter que por os pés em uma agência… .

Se há situações como FGTS ou outras que obrigam clientes a ir à agências de qualquer banco, ou gente ainda excluída de acesso bancário, ou que inclusão bancária é adesão ao capitalismo já é outra história… .🤷🏿‍♂️

Para lutar é preciso saber avaliar o inimigo e atacá-lo aonde é possível e com as armas possíveis, a concorrência e os discriminados agradecem…😉


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IEMANJÁ TEM COR ?

Debate necessário. Eu particularmente entendo que a reapresentação antropomórfica das divindades africanas já é por si fruto do processo de apropriação da cultura europeia, em África não era assim e mesmo hoje nas religiões de matrizes africanas (desconto para a Umbanda que é essencialmente sincrética) nos assentamentos religiosos a divindade é representada por algo da natureza, um otá (pedra) por exemplo. Porém como nossa cultura envolvente de maneira tradicional faz representação “santeira” do sagrado, somado ao antigamente necessário sincretismo, acho válido para fins não estritamente litúrgicos.

É o caso das representações simbólicas afirmativas (como as estátuas públicas, estatuetas domésticas, representações em moda e midiáticas) a representação antropomórfica ligada à origem, ou seja, fenótipicamente africanas, até porque os itans/patakins (narrativas sobre as divindades) colocam essas forças na forma humana e contextos africanos).

Sempre digo que a apropriação cultural é normal em uma sociedade caldeada, o que não é bom é a EXPROPRIAÇÃO CULTURAL, e a “Iemanjá Ivete Sangalo” (com todo respeito à artista, inclusive adepta da matriz africana) é uma representação oriunda do hoje desnecessário sincretismo, mas também de um processo de EXPROPRIAÇÃO CULTURAL, em que ocorre a retirada de contexto da estética afro e prol de um branqueamento eurocentrado. Sou negro e filho de Yemanjá, para mim é importante que uma divindade africana seja representada em seu contexto original e não de forma expropriada.


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O laço branco e a violência contra as mulheres

Lá vamos nós de novo em uma reflexão que não duvido será mal entendida por algu(mas) (uns) neoativistas do feminismo (sejam mulheres ou homens).

Em 6 de dezembro de 1989, Marc Lepine, um jovem canadense de 25 anos, invadiu armado uma sala de aula da Escola Politécnica de Montreal (Canadá) e ordenou que todos os homens abandonassem o local, na sequência assassinou todas as mulheres daquela turma, 14 ao todo. Após o nefasto ato ele se suicidou, deixando uma carta na qual explicava que não admitia que mulheres frequentassem o curso de Engenharia, uma “área masculina” segundo ele.

O episódio de cruel misoginia levou homens canadenses a criar a Campanha do Laço Branco (White Ribbin Campaign), um movimento visando fomentar nos homens uma nova visão sobre a masculinidade e apoiar as demandas feministas. A data também virou Dia Internacional dos homens pela eliminação da violência contra a mulher.

Obviamente sou a favor do feminismo efetivo e repudio a violência contra a mulher, apesar de um “povo” limitado, “travado” e radicalizado entender justamente ao contrário… .

Pois bem, não sou a única pessoa, e sei de feministas que pensam da mesma forma, que a resolução ou redução do problema da violência contra a mulher, na verdade não passa pela “fruição narcísica” de homens que se colocam como “desconstruídos”, nem virá da reunião de homens voluntários e dispostos a discutir “masculinidade tóxica”. Isso passa sim por terapias COMPULSÓRIAS e PROFISSIONAIS para agressores e a disponibilização para as vítimas que se dispuserem a se desvencilhar do abuso enquanto é tempo.

Não é difícil perceber que esse tipo de homem voluntariamente “desconstruível” não é o mesmo que perpetra violências contra mulheres. Confundem machismos de baixo potencial ofensivo introjetados, com a misoginia patológica, aquela que passa pela personalidade sádica, que por sua vez proposital e preferencialmente busca e identifica mulheres com brechas de autoestima por onde podem dominar e saciar sua perversidade e prazer em humilhar e ferir lentamente, até o “gran finale”, o feminicídio.

Dois pontos a destacar, nada é absoluto, portanto, há dementes capazes de realizar sua misoginia e sadismo contra mulheres com as quais nunca tiveram relação específica ou de algum termo, assim como parte das vítimas nunca teve relação ou questões de autoestima e intimidades que fomentassem a violência sádica. Caso do evento que motivou o movimento e data citados no início.

Em resumo, apesar de achar válidas demonstrações de apoio masculino a não-violência contra a mulher, não creio que sejam efetivas as ações como o “laço branco” e suas passeatas ou discussões de masculinidade tóxica, pois elas em nada atingem os grandes e reais problemáticos. Por outro lado, em tempos em que ativistas reivindicam “lugar de fala”, como se tem feito majoritariamente de forma equivocada e beligerante contra aliados extra-recorte, é claro ser puro incentivo à “tretas” e “fogo-amigo” que consomem mais energia que a empregada contra os verdadeiros inimigos das causas.

Para finalizar, quero lembrar, reforçar e afirmar, que considero sim importante e necessário o apoio masculino no combate à violência contra a mulher, sempre a partir de premissas e ações que gerem efetividade.

Para quem lê inglês sugiro essa excelente matéria, escrita por uma feminista, sobre o assunto:

https://www.smh.com.au/opinion/it-s-time-to-shut-the-white-ribbon-campaign-down-20181021-p50b33.html


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Pedofilia, abuso de vulnerável e diferença de idade nos relacionamentos…

Capa do disco com a famosa música de autoria de Stanislaw Ponte Preta em 1966

Vou dar uma saída da minha temática principal recorrente, muito embora ainda esteja dentro de outro assunto sobre o qual costumo escrever, neoativismo.

Acredito que todo mundo tem direito a defender pontos de vista, escolher pautas para ativismo, etc…, mas também acho muitíssimo importante, que isso seja feito com coerência, com embasamento e serenidade.

Não é exatamente um problema falar a partir das próprias vivências ou vivências coletivas de recorte, mas é preciso considerar que o emocional não deve “turvar” nem limitar as análises de contexto e situacionais, as coisas tem muito mais elementos e perspectivas que meramente os que enxergamos e extraimos das nossas experiências e campo de visão.

É muito importante que não “embolemos o meio de campo”, confundindo, “entortando” e misturando conceitos e termos distintos. Digo isso pois é uma coisa recorrente em muitas manifestações que percebo ai pela web.

Uma das mais recentes é a atribuição/vinculação de relacionamentos amorosos/afetivos entre homens mais velhos e pessoas mais jovens, com pedofilia e abuso. A premissa é de que tais homens se aproximam e se relacionam com pessoas mais jovens, inclusive menores de idade (ou que aparentam ser) pois seriam “pedófilos” e “abusadores”, nesse último caso pelo poder de manipulação e natural ascendência sobre os mais jovens.

Particularmente discordo, ao menos parcialmente, dessa visão simplista e “entortada”, primeiro pela retirada de termos do seu real sentido, depois pelas inferências diretas sem considerar outros elementos e variáveis comuns em tais relacionamentos.

Pedofilia é um TRANSTORNO MENTAL, uma atração morbida por crianças como indica o radical “Ped” que vem do grego antigo “Paidós”(criança), mas isso não quer dizer que essa atração seja necessariamente sexual, nem importe sempre em abuso sexual. Aliás pedofilia não é sequer crime, é uma morbidade, crime é o abuso sexual, principalmente sobre vulneráveis, caso das crianças até 14 anos de idade, lembrando que a maioria desses abusos são realizados por pais, parentes e amigos mais velhos que não são pedófilos diagnosticados… .

Não descartando o fato que assim como nos estupros (de gente de todas idades e sexos) o principal elemento é a sensação de poder que tem o agressor, não necessariamente a satisfação da lascívia, a busca por relacionamentos com pessoas de faixa etária diversa (e isso em mão dupla) também é uma tentativa de “experimentar poder”.

A pessoa mais velha se sente mais “poderosa” ao “ter sob seu controle” alguém que naturalmente tem muito menor vivência, as vezes conhecimento e em geral condições financeiras e sociais, o que sem dúvida estabelece uma relação assimétrica, mas não absolutamente negativa.

Para além da ideia de poder, há também um caráter “educacional” em tais relações, sugiro um estudo sucinto do caso da pederastia na antiga Grécia.

Por outro lado, a pessoa mais jovem que busca ou se deixa envolver por uma outra de faixa etária superior, igualmente está “testando poder”, a ideia de “dominar” em alguns sentidos alguém de maiores poderes é muito estimulante, é como se ela passasse a ser considerada “madura e bem sucedida por osmose”.

Em tais relacionamentos, e isso é histórico, mais que mera dominação do maior sobre o menor, há uma relação de “uso mútuo”, aonde há ganhos, mas também perdas para ambos os lados, muito embora nem sempre com equilíbrio entre vantagens e desvantagens. Aliás esse princípio se aplica também às relações na mesma faixa…, ou não ?

Enfim, o objetivo do texto é marcar que a utilização do termo pedofilia, sua vinculação direta com abuso (sexual ou de poder) e os relacionamentos fora da mesma faixa etária, não é coerente, usaria até uma expressão popularizada (apesar de hoje bem questionável), é um verdadeiro “samba do crioulo doido”. Menos “sangue nos zóio” e mais serenidade please… .


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Neoativismo, o que é afinal ?

Neoativismo e neoativistas é um termo que venho usando muito, salvo engano desde 2016, apesar de tratar do conceito por trás dos termos pelo menos desde 2011. Não raro pessoas que me leem, não entendem ou alcançam o sentido que dou a eles, então, este texto tem o sentido de deixar isso claro.

Vamos começar porém a partir do conceito de ativismo:

Fonte: dicionário online

Simplificando, ativismo é a atuação pela transformação das realidades, de modo a exigir e proteger direitos individuais e coletivos e fomentar igualdades, liberdades e respeitos. Ativista é quem assim atua, nos vários recortes possíveis marcadamente os sociais.

Há diferença de ativista para militante, enquanto o primeiro pode atuar sozinho ou em cooperações coletivas, já o segundo é sempre parte de um coletivo, de um partido… a atuação militante é em geral prática, “física” e conjunta, não à toa tem a mesma raiz de “militar”, ou seja, o militante é como um “soldado de causa”, age em unidades compostas e em eventos.

Cabe frisar agora que o termo neoativistas ou neo-ativistas, não é ainda popularizado, se veem poucas referências, aliás não lembro de tê-lo lido ou ouvido antes de utilizá-lo a primeira vez e com o sentido que dei, hoje sei que há algumas referências diversas e antigas que remetem à “nova esquerda” e “direito dos consumidores”, mas não é o caso do sentido que tenho utizado (e agora já vejo outros usando no mesmo sentido que eu), aliás é o que se destaca em uma simples “googlada”.

Neotivismo, para mim, é basicamente uma forma peculiar de praticar ativismos na era pós-internet e pós-acesso universitário de maior diversidade, ou seja, não necessariamente por pessoas muito jovens, de pouca ou nenhuma vivência prática de ativismo ou militância, com foco no virtual, tampouco apenas restrita a universitários, apesar de serem esses os perfis predominantes entre os neoativistas, além da forma agressiva, autoritária, excludente com que defendem suas pautas em geral muito polêmicas e de efetividade duvidosa.

Hoje muita gente também se refere a parte do que chamo de neoativismo, como “ativismo de lacração”, aonde imperam “textões” e comentaristas agressiv@s, autoritários e não raro potenciais “linchadores virtuais”.

O neoativismo é portanto muitíssimo mais uma questão de métodos, comportamentos e efetividades do que pauta ou mesmo pessoas…, tem a ver sim com a escolha e priorização de pautas (em geral inéditas, recentes e “identitárias”), porém, tem mais a ver com os efeitos disso e a forma de condução .

Exemplo real: Uma professora negra super reconhecida pela trajetória de apoio à causa negra e ativismo acadêmico em pesquisa sobre africanicidades, estava a frente da organização de um evento enorme e importantíssimo sobre a temática.

Uma das mesas (sobre África pré-colonial) entre muitas outras importantíssimas, foi absurda e desproporcionalmente atacada por neoativistas, pelo fato da mesa em questão ser composta por pessoas brancas (que por coincidência eram pesquisadores da temática e as que se apresentaram…), o fato gerou uma reação virtual absurda e desmedida inclusive com ameaças à integridade física da organizadora.

Fim da história, apesar de muita solidariedade e manifestações de acadêmicos negros e negras, associações científicas relacionadas, TODO O EVENTO FOI CANCELADO…, inclusive as mesas com altíssima representatividade negra. Um enorme prejuízo para a ciência temática, causado por gente que NÃO REALIZA NADA a não ser TRETA VIRTUAL e não farão um evento melhor, sequer igual, apenas destruiram o que havia, em nome de uma “ideia torta” de representatividade e “lugar de fala”… .

Uns dos grandes problemas do neoativismo é a equivocadíssima noção do que é lugar de fala, ou a confusão entre os conceitos de apropriação e expropriação, e assim seguem dando “tiros nos pés”, não apenas não avançam nas pautas questionabilissimas, como transtornam as de ganho efetivo… .

À quem interessar sugiro três outros textos meus que tratam de assuntos práticos envolvendo o conceito:

Movimentos negros ou movimentos pretos ?

https://blogdojuarezsilva.wordpress.com/2011/12/08/movimentos-negros-ou-movimentos-pretos-a-abrangencia-x-a-radicalizacao/

Lugar de fala, esse incompreendido

Lugar de fala, esse incompreendido

O neoativismo do sudeste X o Boi-bumbá amazonense

https://blogdojuarezsilva.wordpress.com/2018/05/06/o-neoativismo-do-sudeste-x-o-boi-bumba-amazonense/


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Ataque orquestrado à matriz africana em Manaus

Obscuros “sites de notícias” de Manaus, daquele tipo que serve para atacar desafetos políticos, reputações e atender interesses igualmente obscuros, aparentemente iniciaram hoje um ataque orquestrado tanto à políticos locais quanto à sacerdotes e as próprias religiões de matrizes africanas via vinculação de satanização.

A qualidade questionável e amadorismo de tais “noticiosos” se percebe em muitos detalhes, que vão desde a ausência de revisão nos textos, passando por linguagem não jornalística, até erros crassos nas matérias e “ameaças” direcionadas.

Os alvos primários do citado ataque parecem ser certos políticos, os secundários as religiões de matrizes africanas, utilizadas de forma distorcida, depreciativa e demonizada nos textos, com a clara finalidade de conferir estigma tanto à uns quanto à outras.

Como manda a praxe metarracista a intolerância não se coloca abertamente, mas através de distorções e referências que levam à uma visualização depreciativa, jocosa ou odienta por parte do leitor.

Tal fato, obviamente não ficará sem resposta devida, tanto no âmbito midiático quanto na esfera judicial. Foi-se o tempo em que a intolerância religiosa, o racismo e outras formas de preconceito e discriminação campeavam livremente sem consequências.


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Antirracismo e lugar de fala

A reflexão que divido aqui é sobre antirracismo, mas com as devidas vênias tem princípios que podem ser aplicados de forma comum aos outros recortes de ativismo social.

O primeiro ponto é que todo ativismo tem vários temas relacionados à sua causa e problemática, porém, em geral tem um tema principal no qual estão encampados boa parte dos subtemas mais relevantes. Por motivos óbvios a agência e discussões do principal tema e seus subtemas de cada recorte social são hegemonicamamente conduzidos pelos respectivos movimentos e ativistas. Hegemonia no entanto não significa, nem deve significar exclusividade, ou “autorização de absoluto sequestro temático”.

E ai entra o “lugar de fala”, que parte entende como todo o “espaço natural” de atuação ativista de determinado movimento social, bem como o de “vivências” que permitiriam um discurso “privilegiado” e “autorizado” ao qual “o outro” não teria “direito” por falta de pertença e vivência. Para outros, o lugar de fala nada mais é que uma “posição discursiva” elaborada a partir não apenas das próprias vivências, mas também de conhecimentos adquiridos formal ou informalmente sobre o tema, ou ao contrário por suas ausências. Sendo assim o “lugar de fala” seria um hierarquizador da fala, um fator de menor ou maior legitimidade, credibilidade ou autoridade atribuida à quem se expressa sobre determinada questão.

De um modo ou de outro, o lugar de fala NÃO É um autorizador ou “desautorizador” de manifestação.

Então voltando ao antiracismo e já finalizando, o tema racismo tem vários subtemas e todos suportam diversos “lugares de fala”, ou seja, pontos de vista, quer internos ao movimento negro, que hegemonicamente estuda, debate e agencia o combate ao racismo, quer externos, afinal um problema social é problema de toda sociedade e por toda ela deve ser debatido e resolvido. Isso não retira protagonismo, pautamento e lugar privilegiado de fala da hegemonia, não ofende nem desmobiliza , o mesmo princípio serve para TODOS os outros movimentos.

O uso de “lugar de fala” como cerceador de manifestação dentro da razoabilidade e do diverso aceitável é antidemocrático e fascista, tiro no pé das causas mesmo.