Blog do Juarez

Um espaço SELF-MEDIA


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DE EMPRESÁRIO À EX-GARÇOM EM UM DIA…

Nenhum problema ser garçom ou ter sido, é uma digníssima ocupação. Mas me diga aí se não é estranhíssima essa “qualificação” que praticamente toda imprensa tem usado direto para o empresário preso e investigado por suspeitas muito fundadas de crimes financeiros, e que não tem saído do noticiário desde a semana passada?🤔

Tudo bem que é raríssimo, ver notícias que juntam pessoas negras e bilhões de reais em uma mesma matéria (mesmo que em notícias policiais), mas por que essa insistência em destacar essa ex-ocupação? Se há anos a pessoa para o bem ou para o mal se ocupa e é reconhecida socialmente como empresário, também foi pastor da IURD…, mas ninguém se refere à ele em lead jornalístico como “ex-pastor”.

Fica mais estranho ainda quando em situação parecida recente, a do “Rei do Bitcoin”, não se vê nenhuma outra referência ao investigado que não seja empresário ou “Rei do Bitcoin”… .

Outro dia escrevi sobre a “resistência” que muita gente opõe à pessoas negras associando a imagem à publicidade do luxo, ou mesmo às meras aspirações ao luxo e poder, como se essa humana característica, não pudesse pertencer aos historicamente estigmatizados.

Apesar dos contextos absolutamente distintos, parece que o tipo de “resistência” é o mesmo…, a pessoa muda de profissão, fica rica (e aí não está em questão os meios) movimenta 38 BILHÕES de Reais, em 6 anos, mas não pode ser visto e referenciado como nada além de um “ex-garçom”… . O que é que o “Rei do Bitcoin”, que é branco, era mesmo antes de virar “Rei do Bitcoin” ??? 🤔 (silêncio ensurdecedor…)


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Djamila e a bolsa da Prada, problema para você? Para mim não…

Postagem de rede social

Só vendo a geral criticando a Djamila Ribeiro, negra formada em Filosofia, Professora, Ativista e que fez sucesso como escritora e editora na temática do racismo e feminismo. Bora se atualizar gente… A luta negra não é uma luta socialista, ela é integracionista…, não defendemos resumir a pirâmide de Maslow apenas ao seu centro, embora a redução da sua base com o aumento da mobilidade social e redução drástica da pobreza e miséria, independente de recortes, seja uma luta compatível e embutida. A luta negra é pelo direito de não ser limitado em nenhum aspecto pela cor/origem, assim como a luta do feminismo, não é em essência uma “luta contra o capital” mas sim contra a hegemonia excludente.

Não dá para deixar de observar que as críticas tem um viés também racista, mesmo que inconsciente, muita gente acha que negro e luxo são coisas incompatíveis, e quando se juntam atraem questionamento e atenção que não é dada quando não se trata de pessoa negra. Outro ponto é a crítica socialista, que não consegue desvencilhar ativismo de luta de classes segundo paradigmas marxistas, o que está longe de ser um real enquadramento do que é ativismo.

Já cantavam os Titãs… em “Comida”

“A gente não quer só comida
A gente quer comida, diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída para qualquer parte

A gente não quer só comida
A gente quer bebida, diversão, balé
A gente não quer só comida
A gente quer a vida como a vida quer”

Se você é millenial e não conhece o sucesso do rock brasileiro dos 80 segue o link do clipe: https://youtu.be/hD36s-LiKlg

Para fechar esse primeiro bloco lógico, o que quero marcar é que a maioria da crítica tem fundo na verdade em uma observação que já foi sistematizada faz tempo:

Segundo (Blumer, 1939) “São quatro os sentimentos que estarão sempre presentes no preconceito racial do grupo dominante: (a) de superioridade; (b) de que a raça subordinada é intrinsecamente diferente e alienígena; (c) de monopólio sobre certas vantagens e privilégios; e (d) de medo ou suspeita de que a raça subordinada deseje partilhar as prerrogativas da raça dominante.

Sigamos, não fulanizar a questão portanto é importante, pois não é iniciativa pessoal nem só a Djamila a entrar nessa, é um fenômeno mundial. A publicidade do luxo é que mudou a linguagem para se adaptar aos valores dos millenials, que sim, ainda gostam de luxo, mas querem equilibrar isso com algum link com justiça social. (Paradoxal ? pode ser, mas é a realidade que o mercado enxergou, e não vai se desviar dela 🤷🏿‍♂️)

⬆️Chamada de matéria sobre o assunto na Veja

Alguém lembra da posse do Biden? Teve uma jovem ativista e poetisa negra que “roubou a cena”, Amanda Gorman, formada em Harvard e que estava vestida de Prada dos pés à cabeça… vide: https://youtu.be/zzPl4TXMK0g

Tem gente “temendo” que em breve Djamila apareça fazendo publicidade de plataforma de investimento, como se isso fosse um “pecado imperdoável”, o que é uma grande bobagem. Eu sou negro, ativista tem quase 35 anos, sou investidor na bolsa americana, nacional e em criptmoedas… e não teria problema nenhum em fazer publicidade para uma plataforma de investimento (alô mercado publicitário estamos aí viu ? 😉)

O problema da geral é não entender que lutar por igualdade é lutar pelo direito de não ficar só no gueto, de poder fazer e usufruir o que a capacidade de cada um possibilitar, sem ser limitado por preconceito, discriminação e desigualdade… .

Ativista não faz voto de pobreza, nem vive só de ativismo, a gente só quer a mobilidade social sem impedimentos artificiais… Afinal “A gente não quer só comida, a gente quer saída para qualquer parte, a gente não quer só dinheiro, a gente quer inteiro e não pela metade” 😉.


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PORQUE VOTO IMPRESSO É UMA ESTUPIDEZ

 ( Ilustração Sérgio Motcha)

Vou aqui rápida e sucintamente dizer porque.

1- O sistema manual de votação é altamente sujeito à fraudes isso é historicamente comprovado, “nenhuma corrente é mais forte que seu elo mais fraco”, ou seja, se em algum momento tiver uma ação manual na votação, seja colocando comprovante impresso em urna, levando comprovante com conteúdo do voto do eleitor para casa ou em uma posterior conferência manual da urna física, todo o sistema fica comprometido e reduzido na prática ao seu nível mais arcaico e falho.

2- NINGUÉM a não ser o próprio eleitor pode saber ao certo em quem ele realmente votou, outras pessoas não podem oficialmente saber quem votou em quem, se o eleitor quiser ANTES OU DEPOIS do momento eleitoral e fora das áreas de votação DECLARAR o voto é outra coisa, porém uma eventual mesa de conferência manual NUNCA vai poder ver quem votou em quem, no máximo ver a quantidade de votos em cada candidato, pois isso seria INCONSTITUCIONAL.

Trecho constitucional

3- O comprovante impresso com o conteúdo do voto RETIRA O SEU SIGILO constitucional, ele pode ser exigido posteriormente por políticos que compraram voto, lideranças religiosas, patrões e outros poderosos que induziram ou coagiram currais eleitorais, além de milícias que coagiram eleitores de suas áreas de domínio a votar em quem eles mandaram, aí é ainda pior pois o comprovante ou a falta dele coloca em risco a segurança e vida do eleitor. Isso, mesmo que não haja o comprovante para levar para casa, pois em eventual recontagem manual, pode haver infiltração que vai ter como saber quem votou em quem… .

4- Por tudo, não tem o menor sentido, imprimir em papel (obviamente com aumento do gasto público e custo ambiental) algo que já foi feito eletronicamente e a que uma mesa de conferência constitucionalmente não pode ter acesso… . A zerésima antes e o relatório impresso com os totais de cada urna já seriam suficientes para garantir a segurança e transparência da votação, mas além dessas tem mais 28 camadas de segurança, todas auditáveis, tá de bom tamanho né ?


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LAÇOS FORA, O RETORNO

Colagem

Outro dia fiz uma postagem em que manifestei o desconforto com a apropriação das cores e símbolos nacionais pela direita. Deu alguma polêmica pois há quem acredite que as cores e os símbolos devem ser “retomados”, não “entregues de bandeja” para os “nacionalistas reaças”. Eu particularmente sinto e já se começa a perceber, que há um sentimento generalizado e uma movimentação no mesmo sentido, por uma revisão dessa símbologia.

Não é incomum em todo mundo e períodos esse tipo de revisão, nos acostumamos com o verde e amarelo como representativo, com aquela “história mal contada” de verde das matas e amarelo do ouro e riquezas naturais, quando na realidade o verde na bandeira brasileira representou originalmente a casa de Bragança e o amarelo a casa dos Habsburgo, ou seja, a família imperial brasileira. Mais que a própria família imperial, o verde e amarelo representava um projeto aristocrata de nação, quando se fez independente da metrópole portuguesa, sem contundo uma ruptura sequer na monarquia que era a mesma… sem grandes mudanças para o povão, “mudamos” de colônia escravagista de mais de 3 séculos, para império escravagista por mais 67 anos.

Nem a abolição da escravidão nem a República foram suficientes para “refundar” a nação, seguimos mais de 130 anos sob as cores imperiais, mas não apenas sob elas, sobretudo sob um pensamento elitista, excludente e não menos repleto de coloniedades (e não que eu as vezes não me divirta com algumas coisas burguesas/nobiliárquicas).

Não à toa vemos hoje um presidente da República e não sei quantas pessoas sem nenhum “pedigree imperial” cultuado a bandeira imperial, não à toa o amarelo dos Habsburgo, que virou “canarinho” no orgulho nacional do imperialismo futebolístico de outros tempos (e não que não tenhamos mais “imperadores”, “reis” e outros “nababos de chuteiras”) e migrou para representação da paradoxal união da “alta toscolagem” com a”baixa toscolagem”, todos compartilhando o mesmo trevoso fervor e espírito nefasto e com as mesmas cores que um dia acreditamos que eram na verdade nossas, de todos nós, mas de certo não são mais.

Essa invenção chamada Brasil, que boa parte acredita que começou com um tal de Cabral chegando ao que ele inicialmente nominou de “Santa Cruz/Vera Cruz”, que se expandiu sob as cores da coroa portuguesa em seus estados americanos, mas outros acreditam que só passou a existir praticamente com a independência, de um jeito ou de outro teve várias bandeiras e cores ao longo do tempo, porém a ruptura do “laços fora” com o fim do Brasil colônia, não se repetiu com o fim do Brasil império… está aí para todo mundo ver.

Por mais apego e afetividade que tenhamos aos nossos símbolos, parece que chegamos à uma nova bifurcação de nossa estrada nacional, incontornável ao menos a discussão do que fazer com eles. Conforme diria proféticamente Eduardo Cunha no ato que abriu a “Caixa de Pandora” desses novos tempos, “Deus tenha piedade dessa nação”…


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DE NOVO SOBRE JORNALISTAS E HISTÓRIA

Laurentino Gomes no Programa Roda Viva

Já escrevi aqui no blog sobre a questão dos jornalistas que escrevem sobre História. No caso falei do Eduardo “peninha” Bueno. No vídeo abaixo tem uma fala do Laurentino Gomes no Roda Viva. Não tenho nada contra, e concordo com eles que se eles fazem sucesso e vendem muito, não deveria ser “problema” como é para muitos colegas Historiadores de formação que os criticam… .

A produção acadêmica é “antropofágica”, ou seja, para consumo endogâmico (interno)… . Enquanto jornalistas e escritores de estilo popular, eles não estão limitados pela sisudez e a “aridez” do método e práticas historiograficas, escrevem para o povo e pelo povo são lidos… fazer o quê? 🤷🏿‍♂️

Certos “corporativismos” parecem mais pura inveja e recalque…, afinal, escrever interessantemente em tese qualquer um pode, por que não os “experts profissionais” ? #mistério

Veja o vídeo:

https://youtu.be/FklN_FRagcE


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O “DEFEITO DE COR” E OS “PRETOS DE ALMA BRANCA”

No final do antigo regime, ou seja, quando a família real veio para o Brasil em 1808, ainda vigorava a regra das ordenações filipinas do “defeito de cor”. A pessoa negra que quisesse e estivesse capacitada para uma função “melhorzinha” tinha que formular e assinar um documento chamado “súplica da dispensa do defeito de cor” no qual se dizia instruído, boa pessoa, temente à Deus e de acordo com o sistema e sendo assim para desconsiderarem seu “acidente de nascimento”.

Praticamente dizia ter a “alma branca” e como tal agiria (inclusive como linha auxiliar na repressão e desprezo aos outros negros) ao desempenhar função e ser melhor “aceito” socialmente. Aliás, “preto de alma branca” foi a única expressão que apesar de partir de um pressuposto racista, não tinha intenção injuriante, mas de “elogio” à uma pessoa negra, e isso no Brasil tem registros desde o século XVII por exemplo na referência à Henrique Dias.

Hoje não se faz nem assina o pedido, mas o tipo de pacto permanece em muitos casos…


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COTAS PARA NEGROS, DOIS CASOS DE ERRO

Segundo caso de repercussão que comento em uma semana. O primeiro uma óbvia “permissividade” em que alguém sem marcas de fenótipo razoáveis (Ricardo Barros) soube-se foi aprovado em concurso público na cota para negros,  agora esse em que a “negritude” do candidato é no mínimo equivocadamente questionada.

As comissões de heteroidentificação devem ser formadas por pessoas conhecedoras da questão e conceitos envolvidos, deve também ter composição diversa, com homens, mulheres, pessoas pretas, pardas e brancas.

Se é verdade que a comissão foi composta somente por pessoas negras (e geralmente quando dizem isso não estão falando em negros na acepção correta mas em pessoas de cor preta) além da não presença (mesmo virtual) do candidato na avaliação, está absolutamente errado. Principalmente se essas pessoas tem formação duvidosa para lidar com a questão corretamente, coisa comum à  neoativistas, coloristas e  pessoas que não sabem a diferença de negro e preto… .

Isso é grave e não pode ocorrer 😒

Matéria em: https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2021/07/11/militar-filho-de-indigena-tenta-provar-que-nao-e-branco-em-cota-de-medicina.htm


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O CORONEL “CORTA CABEÇAS” X O ATOR PAULO GUSTAVO, UMA ESCOLHA DIFÍCIL ?

Umas semanas atrás citei em uma matéria jornalística sobre a substituição de nomes de ruas, o caso da troca em Niterói do nome da rua Cel. Moreira César (um paulista de Pindamonhangaba também conhecido por “o cortador de cabeças”), pela do ator Paulo Gustavo (nascido e criado na região da rua que agora leva seu nome). Apesar de ter sido uma iniciativa de apoio popular, era esperado a reação dos acomodados, acríticos e também uma disputa de narrativa/memória no nível ideológico.

Qual o sentido em manter o nome de um militar notabilizado por sufocar revoltas populares, violência extrema, assassinato de jornalista, morte e decapitação de tantos ? (vide no link https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/coronel-moreira-cesar-o-cortador-de-cabecas-da-republica-velha.phtml )

Não é só “acomodação”, não tem nada a ver com “prejuízo do comércio”, que terá isenção de gastos nos ajustes cadastrais, é parte da defesa de valores inaceitáveis para a maioria da sociedade hoje, mas muito em voga no contexto atual de ode ao militarismo e milicianismo, violência repressiva, discriminação e também uma contraposição aos símbolos e valores não conservadores/elitistas da atualidade. Um triste sinal dos tempos de inversão moral que vivenciamos.

Link para a matéria em que colaborei: https://amazonasatual.com.br/tirar-nomes-de-militares-de-ruas-em-manaus-gera-impasse-entre-moradores-e-reparacao-historica/


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Luana Araújo, negritude e silêncios

Reprodução do Instagram pessoal

No embalo da CPI da Covid surgiu uma nova “musa” nacional, ou melhor amplificou-se em muito uma condição ou vocação de certo pré-existente mas em escala muito menor.

No caso o termo musa se aplica bem em seu sentido de ser feminino algo “divinal” filha de Zeus e Mnemosis, eram nove as musas inspiradoras e matronas das artes e ciências (e ela é uma cientista e também artista) mas também no sentido coloquial de mulher bela e cativante.

O texto, não tem como objetivo fazer loas à cientista, que “lavou a alma” do país (bom, ao menos da maior parte dele) ao com desenvoltura abalar os alicerces do negacionismo e anticientíficismo do governo federal e apoiadores. Escrevo ao perceber um estranho silêncio generalizado sobre a identitarização racial da Dra. Luana, que como já dito, além de cientista de alto nível, também tem talentos artísticos e midiáticos. Não que seja interessante a racialização de tudo e todos. Com pessoas brancas por exemplo esse é um ponto tocado apenas quando acontece algo que clame claramente uma questão de discriminação ou privilégio em relação a outros, não é o caso de pessoas não-brancas que em tudo e por tudo dificilmente escapam de alguma observação nesse sentido, mesmo gratuita.

Pois bem, é estranho que (ao menos eu não vi) não tenham tocado no assunto, nem para “colar afirmativamente” e reinvidicar nela uma negritude inspiradora, tampouco por ao contrário agregar “desqualificação velada” pela não-brancura, o que pode ter sido substituído cinicamente pelo tratamento de “cantora” adjetivado de “frustrada” feito por alguns obviamente negacionistas descontentes e não de Doutora…

Que a Dra. não é branca é óbvio, a “marca” como diria Oracy Nogueira está lá bem colocada em traços, como lábios, cabelo, tom de pele…, mas também na pegada artística, um tanto “black” em um sobrevôo mais atento. Então qual o motivo do silêncio ? Um mistério…

Em uma visita ao seu Instagram, que decididamente é de “popstar” mesmo que incluindo toda a verve científica, se apura que ela apesar de não “levantar bandeira”, admite a sua origem negra, e até com um certo “proud”, mas aí vai por um caminho de “coluna do meio”, tipo “nem branca nem negra” seguida de uma ode à miscigenação, referências comemorativas ao 13 de maio, loas à Princesa Isabel, enfim tudo que se enquadra em um perfil alheio ao de consciência negra, mais alinhado com o do conservadorismo metarracista (que se diz antirracista, mas na verdade vai contra as premissas e interesses do verdadeiro antirracismo)

Reprodução do Instagram

A nossa problematização passa longe de querer cobrar de A ou B uma pertença identitária compulsória, mas questionar o porque a heteroidentificação silencia em alguns casos, assim como a autodeclaração busca uma providencial “coluna do meio”, enquanto em outros casos a pouca marca não impede a autoidentificação enquanto pessoa negra e não como miscigenada.

Creio que são três os principais problemas, o primeiro uma tentativa consciente ou inconsciente de fugir da estigmatização por ser negro(a), o segundo uma introjetada ideia do dito “mito da democracia racial” combinado com um ideal romântico da miscigenação, não percebida como grandemente fomentado por uma antiga política nacional de branqueamento da nação, e terceiro e por fim, pelo desconhecimento dos termos e conceitos que definem as identidades. Por exemplo, a ideia equivocada que negro e preto são sinônimos (quando não são) e que pardo é uma identidade intermediária e independente da negra.

Por economia textual, não vou detalhar bem aqui esses termos e conceitos, remetendo à um outro texto meu específico Entendendo finalmente a diferença de preto para negro, o que vou sucintamente marcar aqui é que PRETO(A) é quem parece um africano não miscigenado ou de pouca miscigenação (o meu caso, que em África só era notado como “gringo” quando abria a boca para falar) NEGRO(A) é quem tem ascendentes trazidos no tráfico negreiro transatlântico, ou seja, escravizados. Portanto ser negro(a) não é uma questão apenas de marca mas principalmente de ORIGEM, é negro(a) quem descende de negros (independente de ser ou parecer miscigenado).

A questão da miscigenação

A Antropologia, mas antes a prática social, se rende ao chamado conceito ou “Lei de Marvin Harris” antropólogo norte-americano falecido em 2002, que pesquisando povos de todo o mundo identificou que invariavelmente o produto de miscigenação étnico-racial é socialmente alocado no lado menos hegemônico e socialmente valorizado de sua múltipla origem, a chamada HIPODESCENDENCIA. Ou seja, no caso uma pessoa não-branca, jamais é alocada socialmente enquanto branca ou mesmo “mista”, exceto caso ela não possua qualquer marca fenotípica que denuncie parte de sua origem estigmatizada e quando o racismo não é o chamado de origem, aonde basta a desconfiança de uma origem estigmatizada para que a pessoa sofra o preconceito e discriminação. No Brasil o racismo é de marca (aparência) muito mais que de origem. Não sei o que a Dra. apurou sobre isso de sua experiência fora do país, mas normalmente é sempre uma “surpresa” e abalo das percepções brazucas de autobrancura ou “meiabrancura”.

Outro ponto é que sendo sabido que biologicamente não há diferentes raças entre humanos, os quais formam uma espécie única, o homo sapiens, a ideia de “mestiço” ou “mistura” da mesma coisa com a mesma coisa é uma falácia teórica.

Tenho certeza que a agora nacionalmente aclamada cientista, à luz da ciência, mesmo que não sejam as do seu metier, haveria de concordar que a ideia de “nem black nem white” é anticientífica, é mais ideológica, vinda de uma política nacional de branqueamento eugenica e escamoteamento de nossas desigualdades sociais de origem racial e psicológico de evitamento da dor da estigmatização. Talvez diante da base científica para reinvidicar sua negritude até se sentiria feliz por poder fazer algo que na alma de artista até já lhe tenha passado.

Aliás, o texto é uma carta aberta, não é pessoalmente direcionado, é para reflexão pública e aproveitamento da informação por quem se sentir nesse “limbo”.


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DE HOMOFÓBICO(A) NÃO SE PECHA SEM BASE

Eu ia fazer essa postagem de tarde, por uma inquietação que tenho com o uso inadequado de termos e conceitos. Agora com a morte de Paulo Gustavo, acho pertinente pois de certa forma tem a ver. Outro dia me deparei com um notícia/postagem em que a ex-presidente Dilma era chamada de “homofóbica”, por não ter comprado como se ativista fosse, algumas reinvindicações do movimento LGBT, a exemplo do veto ao apelidado “Kit Gay” e por ter se aliado politicamente à conservadores, esses sim homofóbicos. Obviamente discordo da pecha. Vou me alongar pouco no texto, prefiro as imagens que dão conta de que o termo não se aplica. Clique na galeria abaixo para ver integralmente as fotos:

Pela ordem…: “Homofóbico(a)” é termo aplicável à quem tem pensamento exteriorizado e ações relacionadas à homofobia. O fato de Dilma não ter sido uma “ativista pela causa” ou politicamente não ter enfrentado os seus “aliados” conservadores (estes sim homofóbicos) não fazem dela uma homofóbica sequer em figura de linguagem.

Com relação à ações de seu governo pro-LGBT dá para citar algumas… :

2011
Criação do módulo LGBT no Disque 100
A intenção foi preparar o Disque Direitos Humanos para receber denúncias de violações de direitos da população LGBT.

Elaboração do 1º Relatório sobre Violência Homofóbica no Brasil
Após a publicação do relatório pela Secretaria dos Direitos Humanos da Presidência da República, as denúncias contra violência homofóbica aumentaram em 116% em um ano.

Realização da 2ª Conferência Nacional de Políticas Públicas e Direitos Humanos LGBT
Nos moldes da conferência realizada em 2008, discutiu-se nacionalmente e com diversas entidades governamentais e da sociedade civil os avanços políticos e sociais sobre o tema.

2013
Alterações no SUS
O Sistema Único de Saúde (SUS) passou a contemplar o atendimento completo para travestis, transexuais e transgêneros, como terapia hormonal e cirurgias. A identidade de gênero passou também a ser respeitada, com a inclusão do nome social no cartão do SUS.

Reconhecimento dos direitos de casais de mesmo sexo no serviço público federal
Os casais homoafetivos passaram a ter, oficialmente, os mesmos direitos de qualquer casal, como plano de saúde, licença gala, entre outros.

Assinatura do governo brasileiro à Convenção contra Todas as Formas de Discriminação e Intolerância da Organização dos Estados Americanos
O texto, assinado em Antígua (Guatemala), define as obrigações dos países sobre temas como orientação sexual e identidade de gênero.

Criação do Sistema Nacional de Promoção de Direitos e Enfrentamento à Violência contra LGBT
O Sistema Nacional LGBT é uma estrutura articulada para incentivar a criação de programas de valorização dessa parte da população, comitês de enfrentamento à discriminação e combate a violência, além de oferecer apoio psicológico e jurídico para LGBTs nessa situação.

2015
Posse de Symmy Larrat como coordenadora-geral de Promoção dos Direitos LGBT da SDH
A paraense foi a primeira travesti a ocupar o cargo. Segundo ela, uma das missões mais importantes na função era “tirar os travestis do submundo e da exclusão social”.

Fora a sanção de legislação que ajudou os casais homoafetivos a conquistar na Justiça, direitos como licença maternidade e paternidade e a adoção.

Depois de tudo isso cabe pecha-la de “homofóbica” ??? Não faz o menor sentido. As palavras devem ser usadas com precisão, cautela e responsabilidade…