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O Negro e o Boi-Bumbá 2018, Caprichoso ou Garantido, qual o melhor ?😉

Chegou o fim de semana mais esperado no Amazonas. Seguindo uma tendência dos últimos anos, de reconhecimento e valorização da presença negra na formação da cultura e população amazonense, os dois bois lançaram toadas sobre o tema (o Caprichoso inclusive com participação da cantora Alcione na gravação oficial).

Veja nos links que seguem:

Garantido

https://youtu.be/NoYxeuNxRWE

Caprichoso

https://youtu.be/fjmipTfIzfk

E ai ? na sua opinião, foco na música, arranjos e pertinência temática qual toada ficou melhor ?

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Mais uma bola fora neoativista: o colorismo dando “tiro no pé” da causa negra.

A manchete estampada na figura abaixo explica do que falo nesta postagem muito sucintamente.

Indo direto ao ponto, mais uma vez o neoativismo “negro” fazendo das suas, negro está aspeado pois esses neoativistas apesar de serem vistos e citados como negros e do movimento negro, não entendem nem representam o pensamento médio e nem se atém à premissas basilares do movimento negro tradicional.

Vou poupar tempo de escrita e ao invés de explicar aqui o que penso sobre o colorismo desatinado desses neoativistas deixo o link para um texto meu de 7 anos atrás, e que hoje me parece super atual…

MOVIMENTOS NEGROS OU MOVIMENTO PRETOS: A ABRANGÊNCIA X A RADICALIZAÇÃO

A escolha de Fabiana Cozza foi submetida à família e mais, aprovada pela própria Dona Ivone em vida, dada a proximidade das duas, conforme declarado pelo neto de D. Ivone, ai chega meia dúzia de “cromopatrulhadores” e “entendem” que nada importa além do matiz exato de pele… .

Pois é, não temos que nos calar contra as besteiras e DESSERVIÇO à causa que essa turminha radical vira e mexe produz. Não dá para “passar o pano” só porque são negros e negras que em tese estão do mesmo lado da luta, podem estar mas estão equivocados, e diz o ditado: “Quem não ajuda, não atrapalhe” … .


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Pantera negra (o filme) : O que aprendemos em Wakanda ?

A partir da nossa última postagem (sobre a polêmica do “blackvoice” na dublagem do filme) recebemos uma solicitação para fazer uma resenha crítica sobre o filme em si (BAIXO SPOILER…), o interesse seria obter uma crítica a partir da visão de um ativista negro, o que certamente difere da de um espectador mais familiarizado ou preocupado com a temática dos super-heróis, da Marvel, ou do cinema em geral.

Desafio aceito, começamos por chamar a atenção para o fato do filme ter uma se não declarada, ao menos óbvia intenção afirmativa, o próprio personagem título e o fictício reino africano de Wakanda surgem timidamente no início dos anos 60 e ganham maior peso no rastro do movimento “blackexploitation” ou “blaxploitation” direcionado aos filmes, mas que atingiu também as HQs na década de 70. O fato de estar sendo chamado de filme mais politizado da Marvel não é à toa, tudo no filme caminha nesse sentido, desde a escolha do diretor (afroamericano) até a centralidade do enredo em Wakanda, o que obrigou a escalar um elenco majoritariamente afroamericano ou africano e introduzir na trama referências à valores culturais africanos que vão desde a estética até a filosofia, contrapondo a algumas  percepções afrodiaspóricas.

Passando um pouco pelo que já foi dito em todas as muitas críticas já disponíveis, o filme é excelente em imagens, figurinos, trilha sonora, efeitos, atuações, etc…, o que vale destacar é que contrariando a tradição Marvel entrega menos ação, mas quando entrega é da boa, concentrando-se porém nos diálogos e cenas que introduzem o espectador no mundo e perspectivas dos wakandianos, essa estratégia é sensacional, pois o espectador “se apropria”, torna Wakanda sua também, passa a fazer parte dela e enxergar mais criticamente “os outros” (ou seja, nós mesmos em nossas mentes ocidentais e colonizadas). Para ficar mais claro, comparemos com a Asgard de Thor, creio que pouca gente fora dos países escandinavos se identificou como “asgardiano”, mas gente do mundo todo e de todas as cores e origens se sentem ou gostariam de ser de Wakanda.

Vou me abster de comentar individualmente os personagens, isso tem por ai aos montes, importa dizer que eles mais do que estereótipos, são tal qual na tradição dos panteões mitológicos africanos, arquétipos, representações de tipos humanos com suas virtudes, defeitos e vicissitudes, aos quais tanto podemos associar outras pessoas, como nos identificar total ou grandemente. Assim como nas tradições de matriz africana, essas forças antropomorfizadas em deuses, heróis divinizados  e em arquétipos aos quais estão vinculadas as pessoas “comuns”, seguem a lógica do amoral ou de que nada nem ninguém é absolutamente bom ou mau, mas apenas circunstancialmente.

Do ponto de vista filosófico e cultural, impressiona, e é um “recado” a perfeita integração entre tradição, modernidade e tecnologia. Nesse ponto choca e dá um “tapa na cara” dos que pela mentalidade eurocentrada, não conseguem conceber que tradições tribais e cosmovisões de povos não-europeus/europeudescendentes, são valores civilizatórios que não significam atraso, inferioridade ou incompatibilidade com o desenvolvimento e as tecnologias mais avançadas. O filme também toca em questão importante na africanicidade, o respeito à ancestralidade e a espiritualidade altamente integrada à natureza, coisa talvez pouco estranha para os afroamericanos ou colonizados de todo o mundo, que acataram quase integralmente os valores e premissas judáico-cristãs, porém nem tanto para os  africanos, os afrodiaspóricos latino-caribenhos e os que orbitam a religiosidade afro. A questão de gênero não fica de fora, as mulheres poderosas, guerreiras, as relações e sinergia entre os gêneros é algo que se evidencia, referência aos efeitos da tradição matriarcal em muitos povos africanos.

O filme está cheio de metáforas, que poderão ser entendidas ou não, dependendo do grau de consciência e informação prévia do espectador, bom exemplo é a divisão das tribos que formam o povo do reino, o povo da fronteira é o que o mundo enxerga de Wakanda, terceiro mundo, um povo simples (visto como pobre), de fazendeiros e extrativistas, produtores de commodities, que trocam com vizinhos, um lugar que nada colaborou ou pode colaborar com o avançado mundo ocidentalizado. Essa não seria uma errônea visão geral que se tem da própria África em si ?, visão que ignora  o que realmente houve e há em África ?. Wakanda é a África, que a maioria do mundo desconhece, só enxerga folclórica e superficialmente e da qual não se espera nada de positivo ou útil.  Há tiradas sensacionais com a ignorância ou surpresa de quem tem uma visão estereotipada da África, tipo:

“Estamos em Wakanda ??? “

“-Não, é Kansas…”

Uma alusão à surpresa personagem Dorothy ao se ver na terra fantástica de OZ , no conhecido filme “O mágico de Oz”, ou seja, certas realidades seriam mais difíceis de crer que as fantasias criadas em torno delas, caso do continente africano. Na mesma cena é importante notar o tratamento dado ao personagem branco com um “Ei! COLONIZADOR não toque em nada…”, óbvia alusão ao estrago feito (e ainda possível) no contato dos brancos com as coisas africanas que desconheciam ou desconhecem, uma outra fala crítica no sentido da estereotipação africana e que talvez passe despercebida para muitos é justamente “Desculpe majestade, mas o que é que um país de terceiro mundo e de fazendeiros tem a oferecer ao mundo ???” .

Pantera negra dá uma “cutucada na ferida” na questão africano x afrodiaspórico, em cenas em que  os governantes wakandianos  demonstram que enxergam como seu povo apenas os próprios wakandianos, enquanto os afrodiaspóricos se enxergam panafricanamente como do mesmo povo de Wakanda, porém desconsiderados, abandonados e deixados à mercê dos colonizadores no passado e no presente, embora não exatamente, essa é uma questão atual que perpassa as reflexões nos movimentos negros. a identidade africana X afrodiaspórica. O filme também não deixa de cutucar outras questões atuais como na fala “governantes sábios constroem pontes, os idiotas constroem muros…”, para bom entendedor… .

No mais há muitos diálogos que expõem questões do campo de relações sociais e raciais, questionam estereótipos e apresentam perspectivas mais desejáveis para a vida no planeta.

Não poderia deixar de tocar brevemente na questão versão legendada X dublada, particularmente não gosto de filme dublado algum, mas esse em especial perde muito com a dublagem, pois o trabalho dos atores na incorporação de sotaques e timbres africanos é primoroso, um dos pontos altos do filme, e que se encaixa na pretensão afirmativa dele.  O modo geral de falar inglês dos africanos e também suas próprias línguas, é importante para imergir cinematograficamente em uma África mais realista e menos caricata, a dublagem brasileira simplesmente dá um bypass nisso, não se preocupa ou não consegue transpor essa africanicidade no falar para o português…, isso devido ao “blackvoice”. Bom exemplo é a personagem Shuri, a adolescente nerdíssima, irmã do Rei T’Chala e responsável pela inovação na tecnologia wakandiana, que na versão original possui uma voz algo grave e rascante, mas que na dublagem fica parecendo a de uma patricinha branca de Beverly hills… . Já nem acho mais que seria apenas o caso de melhor aproveitar timbres e vozes negras brasileiras na dublagem, sendo mais radical, fomentaria também a inclusão no mercado brasileiro de dubladores lusoafricanos, tenho certeza que as produções ganhariam muito com isso, é certo que ainda não temos tantos filmes com personagens africanos, mas as coisas estão evoluindo… .

Pantera negra é um filme que mostra possibilidades, trabalha para mudar mentalidades, tanto na trama quanto na sua própria produção, é paradigmático.

Por outro lado, acaba por mostrar o quão distantes estão a realidade americana e a brasileira, enquanto nos EUA a repercussão tem clima de avanço e crítica virtualmente toda positiva (não falemos da esperada reação “whitetrash”), no Brasil se abrem polêmicas e críticas em todas as direções, algumas justificadas e outras vazias ou de puro reacionarismo, provando que temos problemas de representatividade que ainda são subterrâneos, ou seja, pouco visualizados, e temos também um metaracismo galopante, que se apresenta na forma de críticas aos que problematizam o filme a partir de uma perspectiva das relações raciais, essa reação é percebida sempre e principalmente nas caixas de comentários, o melhor observatório do racismo brazuca.

Enfim,  já sou mais um cidadão de Wakanda.


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Wakanda, o Brasil, a fala branca e o “blackvoice”

Em fórum especializado em dublagens surgiu a polêmica, ativistas negros questionaram o fato de não haver dubladores negros em um filme com elenco majoritariamente negro.

Na esteira, metaracistas, aquele pessoal que se diz não racista e até “antiracista”, mas se ocupa grandemente em antagonizar as demandas dos movimentos negros e tentar desqualificar e ridicularizar ativistas, atacaram com seus comentários típicos, a partir dos seus lugares de fala, ou seja, fala branca, mas não apenas, uma fala branca específica, que trabalha pelo ocultamento das diversas facetas do racismo e desigualdades advindas, bem como, pela manutenção de seus efeitos.

Seria o caso de perguntar “mas por que, dubladores negros ? , voz tem cor ???”, respondo que em tese não, mas há timbres e características de fala que são peculiares a determinados grupos, mesmo em línguas ou sotaques diferentes, tanto é que vivem sendo estereotipados e caricaturados…, na música normalmente se nota bem.  Ou você nunca ouviu alguém falar em “voz de negra ou de negro” ?, pois é… diria que existe uma “panafricidade vocal”, que excepcionalmente se estende a pessoas brancas (vide Janis Joplin, Amy Winehouse e Joss Stone).

Indo direto  ao ponto, o  que se está questionando é o fato de não haver autointerpretação, no passado o cinema, teatro ou TV  as vezes se valiam de blackface, ou seja, ao invés de utilizar atores negros para interpretar personagens negras (em geral protagonistas), preferiam pintar um branco e por no lugar, o problema disso era duplo, pois além de não ficar realístico, ainda impedia que atores e atrizes negras tivessem oportunidades. Nesse ponto já quase superamos o blackface mas ainda temos um persistente “blackvoice”.
A pergunta é: por qual motivo para  um filme com tantos atores negros não há no Brasil dubladores também negros ?,  falta de negros no mercado brasileiro de dublagem ? ou será algum tipo de exclusão dos eventuais ?

É uma boa reflexão, se tivessemos um filme com maioria de atores brancos e todos os dubladores negros com certeza iria ser motivo de estranhamento, ou não ?


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Mozart não era Negro (ou quando neoativistas queimam o filme)

Tem um pessoal por ai que se diz ativista de movimentos negros (ou melhor, de “movimentos pretos”…) prestando tremendo desserviço, não vá na deles. 

Há uma página sendo muito disseminada entre jovens ativistas e simpatizantes da causa negra, que tem como característica fazer um eurocentrismo avesso, ou seja, assim como é comum e “tradicional” o branqueamento de figuras históricas, os mantenedores da página na intenção de pretensamente combater esse branqueamento, acabam por passar por cima e até forjar “evidências” tentando “enegrecer” quem nunca foi negro… . 

O caso mais gritante é o de Mozart. Tudo começa quando lá por 2010 ou 2011, o editor da revista Pride, dedicada à comunidade africana e caribenha do Reino Unido, afirma ser evidente a existência de um complô com a finalidade de ocultar a origem negra de Beethoven. Shabazz Lamumba, autor do artigo, afirma se tratar de um desejo dos brancos em se apropriar do compositor. Ai, algum iletrado que aparentemente  mal domina o idioma inglês, ou então muito mal intencionado, a partir  disso e de uma antiga campanha, feita para o lançamento de um novo programa (de Jazz)  em uma rádio belga (Rádio Klara) especializada em clássicos em que Mozart aparecia “black” (obra de photoshop), resolveu tomar como “verdade” que Mozart era “mouro” ou negro.  Não era. 

Imagem alterada de Mozart para a campanha da rádio Klara.

Para piorar, mistura o caso com o de Joseph Bologne, também conhecido como  Chevalier de Saint Georges.  Esse sim um negro, filho de um nobre francês com uma escrava  que tinha no Caribe ( Nanon, da ilha de Gadaloupe) . Incrivelmente o nobre assumiu o filho (e discretamente a mãe) quando teve que retornar as pressas para a França, educando-o com o que havia de melhor. 

Joseph Bologne tornou-se um exímio esgrimista e mestre da música, tão bem sucedido e famoso em sua época,  que acabou por inspirar Mozart. Hoje muitos se referem a ele como “Black Mozart”, “Mozart noir” ou “Mozart negro” (mesmo tendo sido ele o “inspirador” não o inspirado)…

Portanto meus caros e minhas caras, não seria preciso “forçar a barra” intentando tornar Mozart negro, para fins afirmativos, quando já se tem um real negro entre os mestres da música clássica, que inclusive inspirou o mestre Mozart… . Tiro no pé, pura e simesmente.

Melhor seria divulgar a pouco conhecida história de Joseph Bologne… (link abaixo)

http://pqpbach.sul21.com.br/2016/01/25/joseph-bologne-chevalier-de-saint-georges-1747-17992-concertos-do-violinista-negro-que-influenciou-mozart/


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Monteiro Lobato, Negrinha e a boneca loura…

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Uma das facetas pouco conhecidas de Monteiro Lobato, famoso escritor que se notabilizou entre outras coisas pelos contos infantis, era o fato de ser um “eugenista de carteirinha”. Para quem não sabe, a Eugenia foi uma ideologia instalada em fins do XIX e persistente nas décadas iníciais do XX, para encurtar, basta dizer que as premissas ariano-nazistas tem a mesma origem, que remetem ao Conde de Gobineau, que foi um tipo de embaixador da França no Império brasileiro e amigo de Pedro II. Em outras palavras, racismo que se pretendeu inclusive “científico” .

A correspondência de Lobato com um amigo, acabou se tornando um livro, chamado “A barca de Gleyre”, aonde há uma passagem em que o mesmo diz que implantar tais ideiais no Brasil funcionava melhor de forma indireta, ou seja, subliminar. E com efeito utilizou de sua literatura para isso.

O livro “Negrinha” de 1920,  tinha vários contos inclusive o que dá nome ao livro e do qual abaixo apresentamos apenas a parte final:

Era de êxtase o olhar de Negrinha. Nunca vira uma boneca e nem sequer sabia o nome desse brinquedo. Mas compreendeu que era uma criança artificial.
— É feita?… — perguntou, extasiada.
E dominada pelo enlevo, num momento em que a senhora saiu da sala a providenciar sobre a arrumação das meninas, Negrinha esqueceu o beliscão,o ovo quente, tudo, e aproximou-se da criatura de louça. Olhou-a com assombrado encanto, sem jeito, sem ânimo de pegá-la.
As meninas admiraram-se daquilo.
— Nunca viu boneca?
— Boneca? — repetiu Negrinha. — Chama-se Boneca?
Riram-se as fidalgas de tanta ingenuidade.
— Como é boba! — disseram. — E você como se chama?
— Negrinha.
As meninas novamente torceram-se de riso; mas vendo que o êxtase da bobinha perdurava, disseram, apresentando-lhe a boneca:
— Pegue!
Negrinha olhou para os lados, ressabiada, como coração aos pinotes. Que ventura, santo Deus! Seria possível? Depois pegou a boneca. E muito sem jeito, como quem pega o Senhor menino, sorria para ela e para as meninas, com assustados relanços de olhos para a porta. Fora de si, literalmente… era como se penetrara no céu e os anjos a rodeassem, e um filhinho de anjo lhe tivesse vindo adormecer ao colo. Tamanho foi o seu enlevo que não viu chegar a patroa, já de volta. Dona Inácia entreparou, feroz, e esteve uns instantes assim, apreciando a cena.
Mas era tal a alegria das hóspedes ante a surpresa extática de Negrinha, e tão grande a força irradiante da felicidade desta, que o seu duro coração afinal bambeou. E pela primeira vez na vida foi mulher. Apiedou-se.
Ao percebê-la na sala Negrinha havia tremido, passando-lhe num relance pela cabeça a imagem do ovo quente e hipóteses de castigos ainda piores. E incoercíveis lágrimas de pavor assomaram-lhe aos olhos.
Falhou tudo isso, porém. O que sobreveio foi a coisa mais inesperada do mundo — estas palavras, as primeiras que ela ouviu, doces, na vida:
— Vão todas brincar no jardim, e vá você também, mas veja lá, hein?
Negrinha ergueu os olhos para a patroa, olhos ainda de susto e terror. Mas não viu mais a fera antiga. Compreendeu vagamente e sorriu.
Se alguma vez a gratidão sorriu na vida, foi naquela surrada carinha…
Varia a pele, a condição, mas a alma da criança é a mesma — na princesinha e na mendiga. E para ambos é a boneca o supremo enlevo. Dá a natureza dois momentos divinos à vida da mulher: o momento da boneca — preparatório —, e o momento dos filhos — definitivo. Depois disso, está extinta a mulher.
Negrinha, coisa humana, percebeu nesse dia da boneca que tinha uma alma. Divina eclosão! Surpresa maravilhosa do mundo que trazia em si e que desabrochava, afinal, como fulgurante flor de luz. Sentiu-se elevada à altura de ente humano. Cessara de ser coisa — e doravante ser-lhe-ia impossível viver a vida de coisa. Se não era coisa! Se sentia! Se vibrava!
Assim foi — e essa consciência a matou.
Terminadas as férias, partiram as meninas levando consigo a boneca, e a casa voltou ao ramerrão habitual. Só não voltou a si Negrinha. Sentia-se outra, inteiramente transformada.
Dona Inácia, pensativa, já a não atazanava tanto, e na cozinha uma criada nova, boa de coração, amenizava-lhe a vida.
Negrinha, não obstante, caíra numa tristeza infinita. Mal comia e perdera a expressão de susto que tinha nos olhos. Trazia-os agora nostálgicos, cismarentos.
Aquele dezembro de férias, luminosa rajada de céu trevas adentro do seu doloroso inferno, envenenara-a.
Brincara ao sol, no jardim. Brincara!… Acalentara, dias seguidos, a linda boneca loura, tão boa, tão quieta, a dizer mamã, a cerrar os olhos para dormir. Vivera realizando sonhos da imaginação. Desabrochara-se de alma.
Morreu na esteirinha rota, abandonada de todos, como um gato sem dono. Jamais, entretanto, ninguém morreu com maior beleza. O delírio rodeou-a de bonecas, todas louras, de olhos azuis. E de anjos… E bonecas e anjos remoinhavam-lhe em torno, numa farândola do céu. Sentia-se agarrada por aquelas mãozinhas de louça — abraçada, rodopiada.
Veio a tontura; uma névoa envolveu tudo. E tudo regirou em seguida, confusamente, num disco. Ressoaram vozes apagadas, longe, e pela última vez o cuco lhe apareceu de boca aberta.
Mas, imóvel, sem rufar as asas.
Foi-se apagando. O vermelho da goela desmaiou…
E tudo se esvaiu em trevas.
Depois, vala comum. A terra papou com indiferença aquela carnezinha de terceira — uma miséria, trinta quilos mal pesados…
E de Negrinha ficaram no mundo apenas duas impressões. Uma cômica, na memória das meninas ricas.
— “Lembras-te daquela bobinha da titia, que nunca vira boneca?”
Outra de saudade, no nó dos dedos de dona Inácia.
— “Como era boa para um cocre!…”

Talvez o leitor não conhecedor do conceito de metaracismo, até enxergue no conto um “libelo humanista” e de “compaixão antiracista”, mas quem conhece não deixará de notar a mensagem subliminar que se pretende passar  em “Jamais, entretanto, ninguém morreu com maior beleza. O delírio rodeou-a de bonecas, todas louras, de olhos azuis. E de anjos… E bonecas e anjos remoinhavam-lhe em torno, numa farândola do céu” .

A morte “redentora” de Negrinha se deu por em vida não poder mais alcançar a beleza loura da boneca, e no momento da morte foi “reconfortada” em seu desejo pela beleza branca, rodeada de bonecas louras e anjos (obviamente louros também), mais simbólico de uma apologia ao ideal ariano seria difícil… .


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Dear white people (ou Cara gente branca), isto não é com vocês…

Primeiramente calma!, antes que alguém imagine bobagem, cabe explicar que a ideia do texto é comentar a série ‘homônima’ da Netflix, não um ato de “autosegregação” , “exclusão”, “racismo reverso” , ou “silenciamento via distorção da ideia de ‘lugar de fala’ ”.

Assisti aos dez capítulos em sequência ao longo do domingo, a série é muito boa, engraçada e lida bem com todas as problematizações envolvidas. Tem como base um grupo de estudantes negros de uma universidade de elite norte-americana, que em níveis e formas variadas, fazem militância contra o racismo no ambiente em que se inserem. Especialmente a partir de um programa de rádio comunitária, comandado pela aguerrida SAM e que com o mesmo título visa conscientizar os estudantes brancos de seus privilégios enquanto brancos, e sobre práticas que os mesmos não percebem racistas.

Na realidade, mais que fazer um “letramento racial” (busque no Google… ;)) para brancos, a série acaba por expor uma radiografia do universo militante negro em um contexto bem delimitado, o dos jovens universitários, que em grande medida se sobrepõe ao que tenho chamado de “neoativistas”. É portanto mais interessante e útil a fim de fomentar reflexões para os jovens ativistas sobre suas atuações e premissas (muitas das quais equivocadas e não percebidas), do que levar pessoas brancas a realmente entender como colaboram com a manutenção do racismo. Dai o complemento no título do texto, “isto não é com vocês”.

Descontadas as limitações e peculiaridades do contexto, ou seja, negros e negras norte-americanos em uma universidade de elite, praticamente todas questões que perpassam a militância negra brasileira estão lá, principalmente as da jovem militância:

  • Estereotipização, os vários ‘tipos” de militantes, seus paradigmas e demandas.
  • Aflições identitárias, como a questão da origem miscigenada, estéticas, “padrões” a seguir enquanto negr@.
  • Colorismo, a falácia do “negro de verdade” X “ o meio branco”, o “movimento preto” X movimento negro.
  • Incoerências, como a apologia e “cobrança” de uma endogamia compulsória e crítica aos relacionamentos interraciais, quando se mantém relacionamentos interraciais… .
  • Fragmentação de causa, vários “coletivos” com interesses e paradigmas distintos.
  • Radicalismo versus pragmatismo, Malcom X versus Luther King.
  • Dificuldades de interlocução e integração, não apenas entre os próprios coletivos ou ativistas independentes, mas entre gêneros, gerações e com aliados não-negros.
  • Os aliados brancos “descontruídos” e bem intencionados, aproximações e alijamentos.
  • Apropriações culturais e Blackface.
  • “Textões lacradores” .
  • Multidentitarismo e microidentitarismo, a combinação com outras identidades e causas como a de gênero, a de orientação sexual, religiosa, combate a gordofobia, etc… .
  • Ativismo virtual, o pessoal que “milita” praticamente só via hashtags .
  • Violências policiais, físicas e psicológicas.
  • As cobranças de “perfeição” e de uma “superhumanidade” d@ negr@, para ser aceito/considerado.
  • O embranquecimento cultural e a mobilidade social.
  • A “solidão da mulher preta” .
  • A autoalienação e tentativa de não enxergar o racismo.
  • As reações contrárias e o metaracismo (racismo cínico disfarçado de antiracismo) vindos de conservadores e suas acusções de “racismo reverso” .
  • A relação com africanos, e as dificuldades destes para com a problemática afrodiaspórica.
  • O uso deturpado do conceito de “lugar de fala”, utilizado como “silenciador/inibidor” de participações “alienígenas” ao recorte, e questionado por isso… .

Enfim, é uma excelente fonte para quem se interessa pelo estudo de relações raciais, mas principalmente para quem quer visualizar as aflições e vicissitudes da militância negra em sua neoatuação.

Não sei se a série terá no Brasil a mesma má recepção que teve no lançamento nos EUA, aonde muita gente (branca) se sentiu ofendida, mas espero que pelo menos sirva para chamar ainda mais a atenção sobre um assunto que boa parte dos brasileiros acredita não precisar conhecer e refletir sobre.