Blog do Juarez

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Será racismo? ou só falta de noção?

Em agosto estive em Recife e achei super estranho grandes vacas como “marca” ou sei lá o que de uma rede de drogarias. Não conhecia a rede mas parece estar em todo Nordeste.

Bom, ocorre que em uma ação de marketing de tal rede criou a “CowParade” (literalmente Parada da Vaca), com diversas intervenções artísticas sobre as vacas símbolos, em Salvador salvo engano foram 60. A ideia era homenagear a cultura local. Ocorre que alguém teve a polêmica ideia de “homenagear” a baiana do acarajé, de fato emblemática figura da cultura local, “vestindo” uma das vacs com trajes alusivos, mas não apenas isso, alternado a cor da vaca para o “marrom” característico de parte da população negra .

Na minha opinião, não creio que tenha havido uma consciente intenção “ofensiva” ou “racista”. Mas uma insensibilidade, falta de noção e no mínimo “despreocupação” com a possibilidade da intervenção vir a ser interpretada sem uma maior reflexão sobre o contexto e em primeira mão, como uma mera “animalização” da baiana do acarajé, e por consequência, também do vínculo simbólico entre a imagem da baiana e das praticantes dos cultos afrobrasileiros… .

Essa “despreocupação” e falta de sensibilidade com o sentimento negro, de certa forma é parte da estruturação racista, portanto, ao menos nisso é importante sim fazer lembrete, para que os responsáveis por essas campanhas e seus clientes, passem a ter compromisso profissional de evitar semióticas racistas.

Divulgação


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Coringa: a ascenção dos palhaços medíocres e enlouquecidos.

Ao sair do cinema prometi que ia ter “textão”, agora acho que não será assim tão extenso, mas de certo minhas impressões e reflexões estarão nas linhas abaixo.

Não vou fazer redundantes loas à atuação magnífica do protagonista dessa última versão do velho “Joker”, todas anteriores tiveram suas impressionantes e inovadoras atuações, Phoenix é “o melhor da vez”.

O filme é todo “maravilhoso” em todos os aspectos, será um “celeiro de oscares”, então vou direto às minhas impressões e reflexões.

O filme é TODO do Coringa, não notei uma única cena aonde ele não estivesse “presente” ou em perspectiva, até nos “flashbacks” lá estava ele. A primeira conclusão a que cheguei é que o Coringa é um produto das circunstâncias, o resultado de uma infância cruel, de uma “vida perdedora” e de um ambiente hostil e desumanizador, não descartada a sua própria loucura, que até poderia ter ficado sob controle, não fosse a insistência da vida em traze-la ao exterior e potencializa-la ao extremo.

Daí que oscilei entre a empatia inicial com o personagem e o horror com o que se tornou no processo, Coringa é um vilão desprezível e já pouco importa se foi vítima das circunstâncias, é um louco desnecessariamente cruel.

Agora, o que me tocou especialmente, é o link com o contexto em que vivemos. Impossível não associar com o Brasil de hoje, o símbolo que o Coringa se tornou dos frustrados medíocres e “justiceiros” palhaços de Gotham City (não sei se isso pode ser considerado Spoiler, mas não tem como eu falar de um filme sem citar minimamente coisas que ocorrem nele. Ademais penso que isso não atrapalha em nada, pelo contrário, como diz essa matéria da Rolling Stones).

Como não ligar a imagem de um “líder palhaço”, medíocre e violento, quando temos hoje no comando da nação um líder que se distinguiu por uma risada, piadas sem graça de “tiozão do pavê”, uma “tosquice orgulhosa”, defesa de pautas violentas e tem o apelido de BOZO (justamente um palhaço célebre) ???? .

Me impressionou, o que os atos violentos do Coringa, mesmo os não premeditados fizeram afluir na população frustrada de Gotham, a “identificação” e aprovação popular revelou que ele não estava só, ao “subirem a hashtag” #somostodospalhacos, eu vi o meu país de hoje, com uma parte da população ensandecida e agindo como “gado” em um estouro da boiada.

Quando esse “gado” se sente representado e animado por uma liderança, ele começa a atuar como a conhecida analogia do “Guarda da esquina”, a partir dos seus exemplos, discursos, ou ao menos o que imaginam ser as mensagens expedidas. O ódio que o Batman nutre pelo Coringa, não foi por um ato direto dele, mas por ele provocado. Essa ascenção dos palhaços empurra Gotham City para o caos, para a ditadura da mediocridade, da tosquice e da necropolítica.

Gotham City é aqui.


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“De um historiador para outro”, ou jornalistas que escrevem história popular.

Com o jornalista/escritor de história Eduardo “Peninha” Bueno, em Florianópolis.

Aproveitando a data histórica do 7 de setembro e os já tradicionais “chororôs” de historiadores acadêmicos contra jornalistas históricos, vou dar meu pitaco.

Eu acho que independente de ser jornalista ou não, o desconhecimento de História é que é problema. Por outro lado, não creio que apenas historiadores acadêmicos tenham “lugar de fala” sobre questões históricas , tem muita gente que gosta de História, pesquisa independentemente e tem muita moral para dar pitaco, aliás, as vezes com muito mais propriedade e sucesso.

O povo até gosta de História, mas na perspectiva popular os acadêmicos são “de dar sono”, não tem estilo, não se valem de truques literários, não tratam de passar a ideia principal fluidamente, se travam nos detalhes e nas “citações a cada linha”. Por tal, não é raro que historiadores acadêmicos (parece redundante mas de fato não é) reclamem que livros históricos de jornalistas e outros os deixam ricos e famosos porque vendem muito mais que o de historiadores… . Pela lógica não é difícil imaginar o porque da vantagem né ? 🤷🏿‍♂️ .

Cabe observar que jornalistas históricos ou outros escritores sobre História, exercem ofícios distintos do historiador, embora muitos não entendam assim, os primeiros não estão limitados pelo mesmo compromisso com paradigmas, rigores e métodos que o ofício de historiador exige. Com isso podem criar uma narrativa menos densa, mais fluida e agradável ao grande público, com o consequente guindamento à categoria de “best-sellers” e autores “pop”.

Enquanto historiadores desejamos atingir o povão, mas ficamos em geral “travados” pela episteme e mesmo certa arrogância acadêmica…, logo, nossa produção, é nato-científica, voltada essencialmente para a própria academia e não literatura no sentido estrito da narrativa recreativa. Mesmo quando abrandada para o formato livro ou produzida já com intenção popular, não tem condições de competir nas prateleiras e no gosto popular com o tipo de narrativa realizada com o “estilo pop” dos best-sellers.

Eu particularmente gosto de Jornalismo histórico, desde que conte as histórias com bom nível de honestidade e base… a exemplo do Eduardo “Peninha” Bueno… . Ontem tive a oportunidade de assistir uma palestra dele em Florianópolis, gente… simplesmente sensacional 🤷🏿‍♂️ não à toa ele sempre lembra:

” ‘Istoriador’ com I maiúsculo era minha piada preferencial sobre mim mesmo, só que ela acabou. E me apresentei assim em uma palestra em Parati e, ao terminar, o Eric Hobsbawm falou: ‘A piada é boa, mas você não vai mais poder usá-la porque o autógrafo que vou te dar é um rito de passagem’. E escreveu: ‘De um historiador para outro’. Eu também não me acho historiador, mas não é o que diz o Hobsbawm” (Eduardo Bueno)….🤷🏿‍♂️


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Chico não vai na curimba, por quê ?

Muitas músicas de sucesso fazem referências a coisas das religiões afrobrasileiras, muita gente gosta das músicas, mas as vezes nem percebe o contexto ou conceitos e termos que rolam.

Bom, a famosa música do Dudu Nobre e Zeca Pagodinho, todo mundo conhece, mas não faz muita ideia da motivação e das referências nela contidas. Por sugestão da minha querida filha única, vou falar brevemente sobre “Chico não vai na curimba”.

Bom, para começar “Corimba” ou Curimba” é uma forma “íntima” ou “carinhosa” de se referir à parte musical nos rituais de religiões de matrizes africanas, principalmente na Umbanda e similares, menos assim referido nos Candomblés, ou seja, é a percussão e o canto, quem atua nessa parte é um “curimbeiro”.

Na música tem referências a gonga (também dito conga), um “altar” com imagens de santos, orixás, caboclos, entidades, enfim. Também fala de práticas como tomar “água de moringa” (que pode ser uma cabaça vegetal ou uma “ânfora” feita de barro), fazer “mandinga” (feitiços), saracutear (dançar), dar flores ao Orixá ( uma oferenda, para a divindade), banho de arruda ( para a limpeza espiritual e afastar “negatividades”) ou Abô ( banho para fortalecer).

Também fala em Babalorixá, que é um sacerdote de candomblé. Além de outras referências… .

Na verdade o “Chico da Curimba” existe, é um “roadie” o cara de confiança de um artista ou banda, que cuida da produção musical nos shows, acompanha despacho, montagem e desmontagem da aparelhagem, passagens de som, etc… .

O Chico, que na verdade se chama Francisco Otávio Reis, é também um grande e querido “bicão” da Lapa (aquele cara que faz participações no show dos outros) e “ganhou” a homenagem da dupla de sambistas que conheceu em 1999, na verdade uma grande zoação, já que o Chico, foi criado por evangélicos, é casado com uma católica fervorosa que o arrasta para a missa aos domingos, porém apesar de boêmio e viver no meio do samba ( e ter sido convidado pelo Zeca para “curimbar” em terreiros por ai), nunca quis saber de nada com a “macumba”, como é “padrão” no meio… .

Então, não é que o Chico como sugere a música tenha “se revoltado” e abandonado a religião, na verdade ele nunca foi dela…”, mas o bom humor da dupla não deixou passar a oportunidade de zoar o “Chico da Curimba” que de curimba só tem o apelido.


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A dor por um Machado não branco

Machado de Assis, o grande escritor brasileiro era um afrodescendente. Mesmo sendo um fato já notório, constante da sua biografia, ainda há gente “lutando” por um Machado de Assis branco, inconformada com a representação mais realista que se anda fazendo dele.

Essa “briga” por um Machado branco só se pode mirar sob título de uma reação que visa prorrogar a ideologia de branqueamento e embranquecimento não apenas de grandes vultos da história brasilera, mas também da própria população… como se pode depreender deste trecho de texto meu de 2006…

Portanto essa posição é hoje indefensável, primeiro porque é de amplo conhecimento dos historiadores e estudiosos da temática étnico racial, a tradicional prática do “retrato americano”, técnica de pintura que visava “branquear” cor e traços de não brancos de fins do XIX. Segundo porque há fotos originais em que é perceptível que a tez de Machado não era branca. Terceiro porque há registros escritos sobre sua condição de “mulato”, bem como com sua descrição física, a exemplo:

“Mulato, ele foi de fato, um grego da melhor época. Eu não teria chamado Machado de Assis de mulato e penso que nada lhe doeria mais do que essa síntese. (…) O Machado para mim era um branco e creio que por tal se tornava; quando houvesse sangue estranho isso nada alterava a sua perfeita caracterização caucásica. Eu pelo menos só via nele o grego” (Joaquim Nabuco, em carta a José Veríssimo, após a morte de Machado de Assis).

O texto é claro e não dá margens para outra interpretação, ao iniciar com “Mulato, ele era de fato, um grego”, o que Nabuco está colocando é uma realidade (Mulato) contra a perspectiva moral que tinha de Machadot (equivale ao “classico negro de alma branca) . Em outro trecho diz “PARA MIM era branco e creio que por tal SE TORNAVA”, ou seja, novamente admite uma contradição entre o físico e a percepção que tinha do “lugar social” de Machado. Ao dizer “EU PELO MENOS, só via nele o grego” novamente reforça ser uma visão pessoal, que pela simples colocação deixa claro não ser a única possível nem unânime…

Ou ainda

Em 30 de setembro de 1933, o escritor Humberto de Campos, ao escrever um artigo para o ” Diário de Notícias”, traçou o seguinte perfil do colega Machado de Assis, a maior glória da literatura nacional de todos os tempos:
“Era miúdo de figura, mulato de sangue, escuro de pele, e usava uma barba curta e de tonalidade confusa, que dava ares de antigo escravo brasileiro, filho do senhor e criado na casa de boa família. Era gago de boca, límpido de espírito e manso de coração. E tornara-se pelo estudo e pelo trabalho o mais belo nome, e a glória pura e mais legítima, das letras nacionais”.

(

Uma foto pouco conhecida, publicada na revista argentina “Caras y Caretas” de 1908 mostra um Machado de traços notadamente afrodescendentes.

Igualmente, foto sem retoques e de conhecimento público desde 1957, não deixa dúvidas sobre a tez escura de Machado…

Portanto, não há nada de “fantasioso” em devolver à representação de Machado uma mais realista aparência.


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SOBRE O ABATE RELIGIOSO E A REAFIRMAÇÃO PELO STF

Não poderia ser outra a decisão frente ao direito claramente colocado na constituição, no estatuto da igualdade racial e a partir do conhecimento mais aprofundado e não preconceituoso sobre os cultos afros e suas premissas.

Tem um filme muito bom que fala dessa “culpa cristã” e da intenção de uma religiosidade afro “vegana”, tolerável aos olhos e sentidos eurocentrados, o que contraria os fundamentos essenciais das tradições e que não podem dispensar o sacrifício, o sangue, que nada tem a ver com tortura ou maus-tratos aos animais.

O interessante é que até os não veganos, que pouco se importam com a forma como vivem e são abatidos os bichos que vão parar em suas mesas, entram nessa de querer acabar com o abate religioso, mas nem pensam sobre o abate que lhes alimenta no dia a dia… .

Nessa se lascaram… AŚE 7 X 0 Hipocrisia & Eurocentrismo . ✊🏿


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O Negro e o Boi-Bumbá 2018, Caprichoso ou Garantido, qual o melhor ?😉

Chegou o fim de semana mais esperado no Amazonas. Seguindo uma tendência dos últimos anos, de reconhecimento e valorização da presença negra na formação da cultura e população amazonense, os dois bois lançaram toadas sobre o tema (o Caprichoso inclusive com participação da cantora Alcione na gravação oficial).

Veja nos links que seguem:

Garantido

https://youtu.be/NoYxeuNxRWE

Caprichoso

https://youtu.be/fjmipTfIzfk

E ai ? na sua opinião, foco na música, arranjos e pertinência temática qual toada ficou melhor ?


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Mais uma bola fora neoativista: o colorismo dando “tiro no pé” da causa negra.

A manchete estampada na figura abaixo explica do que falo nesta postagem muito sucintamente.

Indo direto ao ponto, mais uma vez o neoativismo “negro” fazendo das suas, negro está aspeado pois esses neoativistas apesar de serem vistos e citados como negros e do movimento negro, não entendem nem representam o pensamento médio e nem se atém à premissas basilares do movimento negro tradicional.

Vou poupar tempo de escrita e ao invés de explicar aqui o que penso sobre o colorismo desatinado desses neoativistas deixo o link para um texto meu de 7 anos atrás, e que hoje me parece super atual…

MOVIMENTOS NEGROS OU MOVIMENTO PRETOS: A ABRANGÊNCIA X A RADICALIZAÇÃO

A escolha de Fabiana Cozza foi submetida à família e mais, aprovada pela própria Dona Ivone em vida, dada a proximidade das duas, conforme declarado pelo neto de D. Ivone, ai chega meia dúzia de “cromopatrulhadores” e “entendem” que nada importa além do matiz exato de pele… .

Pois é, não temos que nos calar contra as besteiras e DESSERVIÇO à causa que essa turminha radical vira e mexe produz. Não dá para “passar o pano” só porque são negros e negras que em tese estão do mesmo lado da luta, podem estar mas estão equivocados, e diz o ditado: “Quem não ajuda, não atrapalhe” … .


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Pantera negra (o filme) : O que aprendemos em Wakanda ?

A partir da nossa última postagem (sobre a polêmica do “blackvoice” na dublagem do filme) recebemos uma solicitação para fazer uma resenha crítica sobre o filme em si (BAIXO SPOILER…), o interesse seria obter uma crítica a partir da visão de um ativista negro, o que certamente difere da de um espectador mais familiarizado ou preocupado com a temática dos super-heróis, da Marvel, ou do cinema em geral.

Desafio aceito, começamos por chamar a atenção para o fato do filme ter uma se não declarada, ao menos óbvia intenção afirmativa, o próprio personagem título e o fictício reino africano de Wakanda surgem timidamente no início dos anos 60 e ganham maior peso no rastro do movimento “blackexploitation” ou “blaxploitation” direcionado aos filmes, mas que atingiu também as HQs na década de 70. O fato de estar sendo chamado de filme mais politizado da Marvel não é à toa, tudo no filme caminha nesse sentido, desde a escolha do diretor (afroamericano) até a centralidade do enredo em Wakanda, o que obrigou a escalar um elenco majoritariamente afroamericano ou africano e introduzir na trama referências à valores culturais africanos que vão desde a estética até a filosofia, contrapondo a algumas  percepções afrodiaspóricas.

Passando um pouco pelo que já foi dito em todas as muitas críticas já disponíveis, o filme é excelente em imagens, figurinos, trilha sonora, efeitos, atuações, etc…, o que vale destacar é que contrariando a tradição Marvel entrega menos ação, mas quando entrega é da boa, concentrando-se porém nos diálogos e cenas que introduzem o espectador no mundo e perspectivas dos wakandianos, essa estratégia é sensacional, pois o espectador “se apropria”, torna Wakanda sua também, passa a fazer parte dela e enxergar mais criticamente “os outros” (ou seja, nós mesmos em nossas mentes ocidentais e colonizadas). Para ficar mais claro, comparemos com a Asgard de Thor, creio que pouca gente fora dos países escandinavos se identificou como “asgardiano”, mas gente do mundo todo e de todas as cores e origens se sentem ou gostariam de ser de Wakanda.

Vou me abster de comentar individualmente os personagens, isso tem por ai aos montes, importa dizer que eles mais do que estereótipos, são tal qual na tradição dos panteões mitológicos africanos, arquétipos, representações de tipos humanos com suas virtudes, defeitos e vicissitudes, aos quais tanto podemos associar outras pessoas, como nos identificar total ou grandemente. Assim como nas tradições de matriz africana, essas forças antropomorfizadas em deuses, heróis divinizados  e em arquétipos aos quais estão vinculadas as pessoas “comuns”, seguem a lógica do amoral ou de que nada nem ninguém é absolutamente bom ou mau, mas apenas circunstancialmente.

Do ponto de vista filosófico e cultural, impressiona, e é um “recado” a perfeita integração entre tradição, modernidade e tecnologia. Nesse ponto choca e dá um “tapa na cara” dos que pela mentalidade eurocentrada, não conseguem conceber que tradições tribais e cosmovisões de povos não-europeus/europeudescendentes, são valores civilizatórios que não significam atraso, inferioridade ou incompatibilidade com o desenvolvimento e as tecnologias mais avançadas. O filme também toca em questão importante na africanicidade, o respeito à ancestralidade e a espiritualidade altamente integrada à natureza, coisa talvez pouco estranha para os afroamericanos ou colonizados de todo o mundo, que acataram quase integralmente os valores e premissas judáico-cristãs, porém nem tanto para os  africanos, os afrodiaspóricos latino-caribenhos e os que orbitam a religiosidade afro. A questão de gênero não fica de fora, as mulheres poderosas, guerreiras, as relações e sinergia entre os gêneros é algo que se evidencia, referência aos efeitos da tradição matriarcal em muitos povos africanos.

O filme está cheio de metáforas, que poderão ser entendidas ou não, dependendo do grau de consciência e informação prévia do espectador, bom exemplo é a divisão das tribos que formam o povo do reino, o povo da fronteira é o que o mundo enxerga de Wakanda, terceiro mundo, um povo simples (visto como pobre), de fazendeiros e extrativistas, produtores de commodities, que trocam com vizinhos, um lugar que nada colaborou ou pode colaborar com o avançado mundo ocidentalizado. Essa não seria uma errônea visão geral que se tem da própria África em si ?, visão que ignora  o que realmente houve e há em África ?. Wakanda é a África, que a maioria do mundo desconhece, só enxerga folclórica e superficialmente e da qual não se espera nada de positivo ou útil.  Há tiradas sensacionais com a ignorância ou surpresa de quem tem uma visão estereotipada da África, tipo:

“Estamos em Wakanda ??? “

“-Não, é Kansas…”

Uma alusão à surpresa personagem Dorothy ao se ver na terra fantástica de OZ , no conhecido filme “O mágico de Oz”, ou seja, certas realidades seriam mais difíceis de crer que as fantasias criadas em torno delas, caso do continente africano. Na mesma cena é importante notar o tratamento dado ao personagem branco com um “Ei! COLONIZADOR não toque em nada…”, óbvia alusão ao estrago feito (e ainda possível) no contato dos brancos com as coisas africanas que desconheciam ou desconhecem, uma outra fala crítica no sentido da estereotipação africana e que talvez passe despercebida para muitos é justamente “Desculpe majestade, mas o que é que um país de terceiro mundo e de fazendeiros tem a oferecer ao mundo ???” .

Pantera negra dá uma “cutucada na ferida” na questão africano x afrodiaspórico, em cenas em que  os governantes wakandianos  demonstram que enxergam como seu povo apenas os próprios wakandianos, enquanto os afrodiaspóricos se enxergam panafricanamente como do mesmo povo de Wakanda, porém desconsiderados, abandonados e deixados à mercê dos colonizadores no passado e no presente, embora não exatamente, essa é uma questão atual que perpassa as reflexões nos movimentos negros. a identidade africana X afrodiaspórica. O filme também não deixa de cutucar outras questões atuais como na fala “governantes sábios constroem pontes, os idiotas constroem muros…”, para bom entendedor… .

No mais há muitos diálogos que expõem questões do campo de relações sociais e raciais, questionam estereótipos e apresentam perspectivas mais desejáveis para a vida no planeta.

Não poderia deixar de tocar brevemente na questão versão legendada X dublada, particularmente não gosto de filme dublado algum, mas esse em especial perde muito com a dublagem, pois o trabalho dos atores na incorporação de sotaques e timbres africanos é primoroso, um dos pontos altos do filme, e que se encaixa na pretensão afirmativa dele.  O modo geral de falar inglês dos africanos e também suas próprias línguas, é importante para imergir cinematograficamente em uma África mais realista e menos caricata, a dublagem brasileira simplesmente dá um bypass nisso, não se preocupa ou não consegue transpor essa africanicidade no falar para o português…, isso devido ao “blackvoice”. Bom exemplo é a personagem Shuri, a adolescente nerdíssima, irmã do Rei T’Chala e responsável pela inovação na tecnologia wakandiana, que na versão original possui uma voz algo grave e rascante, mas que na dublagem fica parecendo a de uma patricinha branca de Beverly hills… . Já nem acho mais que seria apenas o caso de melhor aproveitar timbres e vozes negras brasileiras na dublagem, sendo mais radical, fomentaria também a inclusão no mercado brasileiro de dubladores lusoafricanos, tenho certeza que as produções ganhariam muito com isso, é certo que ainda não temos tantos filmes com personagens africanos, mas as coisas estão evoluindo… .

Pantera negra é um filme que mostra possibilidades, trabalha para mudar mentalidades, tanto na trama quanto na sua própria produção, é paradigmático.

Por outro lado, acaba por mostrar o quão distantes estão a realidade americana e a brasileira, enquanto nos EUA a repercussão tem clima de avanço e crítica virtualmente toda positiva (não falemos da esperada reação “whitetrash”), no Brasil se abrem polêmicas e críticas em todas as direções, algumas justificadas e outras vazias ou de puro reacionarismo, provando que temos problemas de representatividade que ainda são subterrâneos, ou seja, pouco visualizados, e temos também um metaracismo galopante, que se apresenta na forma de críticas aos que problematizam o filme a partir de uma perspectiva das relações raciais, essa reação é percebida sempre e principalmente nas caixas de comentários, o melhor observatório do racismo brazuca.

Enfim,  já sou mais um cidadão de Wakanda.


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Wakanda, o Brasil, a fala branca e o “blackvoice”

Em fórum especializado em dublagens surgiu a polêmica, ativistas negros questionaram o fato de não haver dubladores negros em um filme com elenco majoritariamente negro.

Na esteira, metaracistas, aquele pessoal que se diz não racista e até “antiracista”, mas se ocupa grandemente em antagonizar as demandas dos movimentos negros e tentar desqualificar e ridicularizar ativistas, atacaram com seus comentários típicos, a partir dos seus lugares de fala, ou seja, fala branca, mas não apenas, uma fala branca específica, que trabalha pelo ocultamento das diversas facetas do racismo e desigualdades advindas, bem como, pela manutenção de seus efeitos.

Seria o caso de perguntar “mas por que, dubladores negros ? , voz tem cor ???”, respondo que em tese não, mas há timbres e características de fala que são peculiares a determinados grupos, mesmo em línguas ou sotaques diferentes, tanto é que vivem sendo estereotipados e caricaturados…, na música normalmente se nota bem.  Ou você nunca ouviu alguém falar em “voz de negra ou de negro” ?, pois é… diria que existe uma “panafricidade vocal”, que excepcionalmente se estende a pessoas brancas (vide Janis Joplin, Amy Winehouse e Joss Stone).

Indo direto  ao ponto, o  que se está questionando é o fato de não haver autointerpretação, no passado o cinema, teatro ou TV  as vezes se valiam de blackface, ou seja, ao invés de utilizar atores negros para interpretar personagens negras (em geral protagonistas), preferiam pintar um branco e por no lugar, o problema disso era duplo, pois além de não ficar realístico, ainda impedia que atores e atrizes negras tivessem oportunidades. Nesse ponto já quase superamos o blackface mas ainda temos um persistente “blackvoice”.
A pergunta é: por qual motivo para  um filme com tantos atores negros não há no Brasil dubladores também negros ?,  falta de negros no mercado brasileiro de dublagem ? ou será algum tipo de exclusão dos eventuais ?

É uma boa reflexão, se tivessemos um filme com maioria de atores brancos e todos os dubladores negros com certeza iria ser motivo de estranhamento, ou não ?