Blog do Juarez

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Pedofilia, abuso de vulnerável e diferença de idade nos relacionamentos…

Capa do disco com a famosa música de autoria de Stanislaw Ponte Preta em 1966

Vou dar uma saída da minha temática principal recorrente, muito embora ainda esteja dentro de outro assunto sobre o qual costumo escrever, neoativismo.

Acredito que todo mundo tem direito a defender pontos de vista, escolher pautas para ativismo, etc…, mas também acho muitíssimo importante, que isso seja feito com coerência, com embasamento e serenidade.

Não é exatamente um problema falar a partir das próprias vivências ou vivências coletivas de recorte, mas é preciso considerar que o emocional não deve “turvar” nem limitar as análises de contexto e situacionais, as coisas tem muito mais elementos e perspectivas que meramente os que enxergamos e extraimos das nossas experiências e campo de visão.

É muito importante que não “embolemos o meio de campo”, confundindo, “entortando” e misturando conceitos e termos distintos. Digo isso pois é uma coisa recorrente em muitas manifestações que percebo ai pela web.

Uma das mais recentes é a atribuição/vinculação de relacionamentos amorosos/afetivos entre homens mais velhos e pessoas mais jovens, com pedofilia e abuso. A premissa é de que tais homens se aproximam e se relacionam com pessoas mais jovens, inclusive menores de idade (ou que aparentam ser) pois seriam “pedófilos” e “abusadores”, nesse último caso pelo poder de manipulação e natural ascendência sobre os mais jovens.

Particularmente discordo, ao menos parcialmente, dessa visão simplista e “entortada”, primeiro pela retirada de termos do seu real sentido, depois pelas inferências diretas sem considerar outros elementos e variáveis comuns em tais relacionamentos.

Pedofilia é um TRANSTORNO MENTAL, uma atração morbida por crianças como indica o radical “Ped” que vem do grego antigo “Paidós”(criança), mas isso não quer dizer que essa atração seja necessariamente sexual, nem importe sempre em abuso sexual. Aliás pedofilia não é sequer crime, é uma morbidade, crime é o abuso sexual, principalmente sobre vulneráveis, caso das crianças até 14 anos de idade, lembrando que a maioria desses abusos são realizados por pais, parentes e amigos mais velhos que não são pedófilos diagnosticados… .

Não descartando o fato que assim como nos estupros (de gente de todas idades e sexos) o principal elemento é a sensação de poder que tem o agressor, não necessariamente a satisfação da lascívia, a busca por relacionamentos com pessoas de faixa etária diversa (e isso em mão dupla) também é uma tentativa de “experimentar poder”.

A pessoa mais velha se sente mais “poderosa” ao “ter sob seu controle” alguém que naturalmente tem muito menor vivência, as vezes conhecimento e em geral condições financeiras e sociais, o que sem dúvida estabelece uma relação assimétrica, mas não absolutamente negativa.

Para além da ideia de poder, há também um caráter “educacional” em tais relações, sugiro um estudo sucinto do caso da pederastia na antiga Grécia.

Por outro lado, a pessoa mais jovem que busca ou se deixa envolver por uma outra de faixa etária superior, igualmente está “testando poder”, a ideia de “dominar” em alguns sentidos alguém de maiores poderes é muito estimulante, é como se ela passasse a ser considerada “madura e bem sucedida por osmose”.

Em tais relacionamentos, e isso é histórico, mais que mera dominação do maior sobre o menor, há uma relação de “uso mútuo”, aonde há ganhos, mas também perdas para ambos os lados, muito embora nem sempre com equilíbrio entre vantagens e desvantagens. Aliás esse princípio se aplica também às relações na mesma faixa…, ou não ?

Enfim, o objetivo do texto é marcar que a utilização do termo pedofilia, sua vinculação direta com abuso (sexual ou de poder) e os relacionamentos fora da mesma faixa etária, não é coerente, usaria até uma expressão popularizada (apesar de hoje bem questionável), é um verdadeiro “samba do crioulo doido”. Menos “sangue nos zóio” e mais serenidade please… .


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Neoativismo, o que é afinal ?

Neoativismo e neoativistas é um termo que venho usando muito, salvo engano desde 2016, apesar de tratar do conceito por trás dos termos pelo menos desde 2011. Não raro pessoas que me leem, não entendem ou alcançam o sentido que dou a eles, então, este texto tem o sentido de deixar isso claro.

Vamos começar porém a partir do conceito de ativismo:

Fonte: dicionário online

Simplificando, ativismo é a atuação pela transformação das realidades, de modo a exigir e proteger direitos individuais e coletivos e fomentar igualdades, liberdades e respeitos. Ativista é quem assim atua, nos vários recortes possíveis marcadamente os sociais.

Há diferença de ativista para militante, enquanto o primeiro pode atuar sozinho ou em cooperações coletivas, já o segundo é sempre parte de um coletivo, de um partido… a atuação militante é em geral prática, “física” e conjunta, não à toa tem a mesma raiz de “militar”, ou seja, o militante é como um “soldado de causa”, age em unidades compostas e em eventos.

Cabe frisar agora que o termo neoativistas ou neo-ativistas, não é ainda popularizado, se veem poucas referências, aliás não lembro de tê-lo lido ou ouvido antes de utilizá-lo a primeira vez e com o sentido que dei, hoje sei que há algumas referências diversas e antigas que remetem à “nova esquerda” e “direito dos consumidores”, mas não é o caso do sentido que tenho utizado (e agora já vejo outros usando no mesmo sentido que eu), aliás é o que se destaca em uma simples “googlada”.

Neotivismo, para mim, é basicamente uma forma peculiar de praticar ativismos na era pós-internet e pós-acesso universitário de maior diversidade, ou seja, não necessariamente por pessoas muito jovens, de pouca ou nenhuma vivência prática de ativismo ou militância, com foco no virtual, tampouco apenas restrita a universitários, apesar de serem esses os perfis predominantes entre os neoativistas, além da forma agressiva, autoritária, excludente com que defendem suas pautas em geral muito polêmicas e de efetividade duvidosa.

Hoje muita gente também se refere a parte do que chamo de neoativismo, como “ativismo de lacração”, aonde imperam “textões” e comentaristas agressiv@s, autoritários e não raro potenciais “linchadores virtuais”.

O neoativismo é portanto muitíssimo mais uma questão de métodos, comportamentos e efetividades do que pauta ou mesmo pessoas…, tem a ver sim com a escolha e priorização de pautas (em geral inéditas, recentes e “identitárias”), porém, tem mais a ver com os efeitos disso e a forma de condução .

Exemplo real: Uma professora negra super reconhecida pela trajetória de apoio à causa negra e ativismo acadêmico em pesquisa sobre africanicidades, estava a frente da organização de um evento enorme e importantíssimo sobre a temática.

Uma das mesas (sobre África pré-colonial) entre muitas outras importantíssimas, foi absurda e desproporcionalmente atacada por neoativistas, pelo fato da mesa em questão ser composta por pessoas brancas (que por coincidência eram pesquisadores da temática e as que se apresentaram…), o fato gerou uma reação virtual absurda e desmedida inclusive com ameaças à integridade física da organizadora.

Fim da história, apesar de muita solidariedade e manifestações de acadêmicos negros e negras, associações científicas relacionadas, TODO O EVENTO FOI CANCELADO…, inclusive as mesas com altíssima representatividade negra. Um enorme prejuízo para a ciência temática, causado por gente que NÃO REALIZA NADA a não ser TRETA VIRTUAL e não farão um evento melhor, sequer igual, apenas destruiram o que havia, em nome de uma “ideia torta” de representatividade e “lugar de fala”… .

Uns dos grandes problemas do neoativismo é a equivocadíssima noção do que é lugar de fala, ou a confusão entre os conceitos de apropriação e expropriação, e assim seguem dando “tiros nos pés”, não apenas não avançam nas pautas questionabilissimas, como transtornam as de ganho efetivo… .

À quem interessar sugiro três outros textos meus que tratam de assuntos práticos envolvendo o conceito:

Movimentos negros ou movimentos pretos ?

https://blogdojuarezsilva.wordpress.com/2011/12/08/movimentos-negros-ou-movimentos-pretos-a-abrangencia-x-a-radicalizacao/

Lugar de fala, esse incompreendido

Lugar de fala, esse incompreendido

O neoativismo do sudeste X o Boi-bumbá amazonense

https://blogdojuarezsilva.wordpress.com/2018/05/06/o-neoativismo-do-sudeste-x-o-boi-bumba-amazonense/


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A AUDIÊNCIA DE CUSTÓDIA X A PATULEIA ENFURECIDA

A audiência de custódia cumpre a importante função de garantir à qualquer pessoa presa (inclusive às injustamente) o direito de só permanecer preso sob necessidade e condições estritamente legais, antes de ser julgado e eventualmente condenado. Também reduz a superlotação carcerária. O juiz só pode fazer o que a lei determina, e as condições da prisão, do preso, e as disposições legais que regulam a prisão antes do julgamento, é o que determina se fica preso ou responde em liberdade.

Logo, por mais óbvia e material que seja a culpabilidade do acusado, não cabe à figura do juiz agir contra a lei movido pela indignação própria ou popular. A diferença da Justiça para o justiciamento está no respeito ao devido processo legal e na serenidade e racionalidade para aplicar a devida punição legal (se for o caso), ao contrário do desejo da “patuleia enfurecida”, que por sinal historicamente já cometeu vários erros e injustiças por precipitação e indução… .


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Monteiro Lopes, a real história da iguaria paraense

Trata-se de um biscoito muito apreciado e presente na memória afetiva dos paraenses, principalmente os da capital, Belém, pois, é presença certa nas festas familiares e vem marcando várias gerações, existe em duas versões.

Porém a origem da iguaria e o seu nome vinham sendo alvo de controvérsias. Como pesquisador trabalhei 150 anos da história da família Monteiro Lopes e acabei topando com a verdadeira história do biscoito.

Há uma versão “romântica a la Romeu e Julieta” onipresente na web que fala que o biscoito surgiu no século XIX, a partir da união dos filhos de famílias rivais (uma negra e outra portuguesa) que possuiam padarias no ver-o-peso e produziam biscoitos distintos, ao casarem, juntaram os nomes das famílias e as receitas formando então o biscoito e nomeando-o Monteiro Lopes.

Isso porém é falso, não há qualquer registro, ao menos ainda não foi encontrado, da existência do biscoito de fins do séc. 19 até meados do séc. 20, e as pessoas que referem a versão não são memorialistas nem de fato publicaram sobre, é portanto um caso típico de “lenda urbana”.

Há uma segunda versão, menos popular, de que o doce e o nome seriam uma homenagem ao falecido Desembargador Agnano Monteiro Lopes, belenense negro nascido em 1910, que foi presidente do Tribunal de Justiça do Pará entre fins dos anos 60 e meados dos 70. A “homenagem” seria pelo fato do mesmo ser visto como “preto por fora e branco por dentro”, uma referência que durante muito tempo se pretendeu elogiosa à pessoas negras extraordinárias, mas na verdade de grande carga racista, o famoso termo “preto de alma branca”.

Essa versão é meia verdade, sim, o nome tem a ver com o Desembargador Monteiro Lopes, mas não pelo motivo aludido. A história real é outra e parece óbvio ter inspirado a primeira versão “romântica”.

Muito jovem Agnano se formou em Direito, aos 20, foi em seguida nomeado Juiz substituto no interior, depois fez concurso para Promotor, trabalhou em Breves, interior do Pará. Lá, o negro Agnano conheceu Laura, então uma adolescente, branca, de família portuguesa e se apaixonaram. A família da jovem, por preconceito e desgosto a expulsou de casa, sendo que a mãe de Agnano, D. Júlia a amparou. Quando do casamento, uma doceira amiga de D. Júlia, inspirada na história do jovem casal de apaixonados criou o doce preto e branco e o batizou com o nome que os jovens compartilhariam ao se casar em 1931, ou seja o o sobrenome de Agnano, Monteiro Lopes. Foram 56 anos de casamento, com 4 filhos.

Essa história foi levantada por mim, combinando pesquisa em fontes bibliográficas, webbgrafia e por meio de entrevista com a filha do Desembargador Agnano, Vera Lúcia Monteiro Lopes Leite. Foi apresentada em evento científico-acadêmico de História e publicada como capítulo de livro resultante dos anais do evento.


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NOVOS APORTES SOBRE A RELAÇÃO ENTRE IFÁ E O CANDOMBLÉ

O seguinte texto é de autoria do meu padrinho em IFÁ, o Babalawo Márcio Alexandre Obeate Ifairawo. Fico muito feliz com o texto e principalmente pela sinergia com o que tenho pensado e dito mesmo antes da minha entrada nesse caminho de Ifá.

NOVOS APORTES SOBRE A RELAÇÃO ENTRE IFÁ E O CANDOMBLÉ

Três grandes pilares sustentam o Candomblé: Oralidade, Tradição e Hierarquia. Se separados cada um desses pilares constituem uma força, juntos então são uma potência. E foi exatamente a potência destes pilares que fez o candomblé resistir a mais de 400 anos de ataques, e foi sua resistência que o transformou na principal e mais pujante tradição religiosa de matriz africana do Brasil.

Desde o início o candomblé se constituiu sem uma autoridade ccentral estabelecendo com as casas matrizes a relação de fator de união e determinação de regras e normas à medida em que novas casas surgiam destas casas matrizes.

Em determinado momento de sua história o candomblé prescindiu da figura do Babalawo e coube à mulher o papel central de condução e consolidação do Culto Lesse Orixá no Brasil. Por causa disso, é o candomblé, uma das poucas grandes tradições religiosas mundiais, em que o predomínio e o comando cabe à mulher.

Em fins dos anos de 1970 e 1980, com os intercâmbios universitários, os africanos chegaram, sendo eles yorubás-falantes e conhecedores dos aspectos culturais dos vários cultos aos Orixás, introduziram a tradução das cantigas, os itans e os odus de Ifá, muitos deles se auto-nomeando babalawos, mesmo sendo cristãos ou muçulmanos. Os elementos introduzidos pelos africanos geraram tensões nos pilares ligados à oralidade e à tradição, pois os mais conservadores não aceitaram certas “novidades” enquanto outros aceitavam bem os *novos” elementos como forma de oxigenação que tanto o candomblé precisava.

Já nos anos de 1990, primeiro com Rafael Zamora Ogunda Kete (ibaen), depois com Wilfredo Nelson Erdibre (ibaen), os cubanos trazem os Tratados de Ifa, documentos compilados a partir dos ensinamentos dos primeiros Bavalawos africanos que chegaram à ilha de Cuba aos que os sucederam e a concepção do Ifá de tradição Afro-cubana, em que se determina que o sacerdócio, Babalawo, só poderia ser um homem heterossexual, que não incorporasse com Orixá, abrindo aí uma avenida a ser pavimentada pelos Ogans e atingindo em cheio o tanto os pilares da oralidade, quanto o da hierarquia.

Cabe aqui ressaltar que o modelo sob o qual o candomblé se constituiu deu ao Babalorixá e à Yialorixa a autoridade suprema sobre sua casa e não reconhece, nem nunca reconheceu nenhuma autoridade maior que estes sobre o candomblé.

No entanto, muitas vezes, por má fé ou oportunismo, muitos buscaram Ifá para se revestir de uma suposta autoridade visando resolver disputas internas, ou até mesmo construir uma sobreposição ou liderança sobre outros, dado o desconhecimento que até então grassava no Brasil sobre o Culto de Ifá e sua lógica de funcionamento. São famosos os casos de uns que passam dez dias na África e voltam como babalawos, mas continuam a jogar búzios pois não aprenderam, em dez dias com o africano que lhes vendeu o título nem mesmo a manipular os ikins ou o opele, instrumentos de adivinhação essenciais do Babalawo; ou, ainda, aqueles outros que, iniciados na tradição Afro-cubana como babalawos, voltam às suas casas de origem exigindo reverência até mesmo de seus babás ou iyas e dos Orixás incorporados em seus irmãos de santo. Totais aberrações típicas de quem não conhece Ifá e não sabe nada do papel que deve representar o Babalawo.

No estágio em que Ifá se encontra no Brasil, notadamente a tradição afro-cubana, à qual orgulhosamente pertenço, cabem aqui alguns esclarecimentos em nome da boa convivência entre o Candomblé e Ifá que tanto almejamos.

Antes de tudo é necessário afirmar que o Babalawo não é um super homem. O Babalawo era um homem perdido do qual Orunmila se apiedou e que entra no Igbodu desprovido de tudo e toca a porta de entrada dizendo que é um homem perdido em busca da ajuda de Ifá. Orunmila nos salva dos nossos osogbos e nos dá por missão salvarnos também a humanidade – pois dentro da tradição Yorubá só damos aquilo que recebemos -, daí o dever que temos de propagar Ifá como está dito nos odus Yogbe, Ogbe xxxx, e constituir famílias (povos), Otura xxxx entre tantos outros. Quando nos sentamos à mesa e nos alimentamos à frente dos outros, o fazemos, não porque sejamos especiais, o fazemos porque em nossa missão de salvar a humanidade, devemos comer primeiro para salvar a todos em caso de envenenamento. Nossa autoridade nos é dada por Orunmila e está circunscrita ao Culto de Ifá e, mesmo nele seguimos uma rígida hierarquia, determinada pelo odu Ofun xxxx, onde a ordem parte sempre do mais novo para o mais velho, culminando no Ojubona e no Oluwo Siwaju que é sempre o cabeça de uma família, ou de uma rama, conjunto de famílias que se originam de um mesmo Oluwo Siwaju.

No entanto, Ifá, não dá tempo de santo a ninguém. Cabe ao Babalawo, o bom senso de aplicar Okana xxxx, que diz que na terra onde fores, faça o que vires. Respeitando sempre o espaço sacerdotal e a terra de cada um.

Para nós, da tradição de Ifá Afro-cubana, o Culto Lesse Orixá se constitui como terra diferente da nossa. Se em Cuba, praticamente não ocorreu essa dissociação entre o Culto Lesse Orixá, Santeria ou Lukumi, por outro, há que se considerar sempre que essa dissociação ocorreu no Brasil e cabe ao Babalawo usar sua sabedoria e inteligência (impori awo) para dirimir e nunca para aumentar tensões.

Para finalizar, afirmo que o Babalawo que, como eu, foi confirmado e teve seu santo feito no candomblé, nunca, jamais, em tempo algum, terá primazia sobre seu babá ou sobre sua Iya, devendo sempre manter o respeito e a reverência tão importante e necessária em nossa tradição Yorubá no que tange ao Culto Lesse Orixá.

É nosso desejo caminhar junto com o candomblé e queremos que o candomblé caminhe conosco. Ifá tem muito a acrescentar ao candomblé e ao manejo cotidiano do babá ou da Iya, não nos esquecendo nunca que Ifá não trata de Ori, cabeça, e nem de Orixá, portanto está aí a necessidade tácita de uma parceria para o atendimento àqueles e àquelas que Ifá determina que sigam o caminho do Culto Lesse Orixá.

Desejo sinceramente que este pequeno ensaio sirva de esclarecimento e sane dúvidas de Babalorixás e Iyalorixas ao que se refere às relações entre Ifá e o candomblé.

Mais que isso, desejo que meus novos abures, já iniciados ou por se iniciar como babalawos, assimilem estas informações e busquem, em seus sacerdócios em Ifá construir a cada dia a unidade entre nós, estabelecendo pontes de diálogos em bases respeitosas e construtivas com as autoridades legitimamente constituídas do Culto Lesse Orixá no Brasil que é o Candomblé.

Ashe to iban eshu.

Iboru, Iboya, Ibosheshe!

Babalawo Marcio Alexandre Obeate Ifairawo


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Ifá, o encontro do destino com a consciência

Simplesmente eu tinha esquecido de registrar no blog esse importante passo em minha vida.

Apesar de ser relativamente discreto, não é segredo para ninguém a minha filiação aos cultos de matrizes africanas, inicialmente ao candomblé keto do qual sou um velho Abian, ou melhor, um Abian velho… .

O candomblé

Abian é aquela pessoa que já está na religião, teve seus orixás “definidos” no jogo de búzios, passou por ritual de limpeza (passivo) e de bori (primeiro ritual ativo, no qual se dá “comida à cabeça”, ou seja, faz oferendas aos Orixás ) .

Por tal usa fio de contas, frequenta um ou vários ilês (terreiros), pois como ainda é um “pré-iniciado” (não passou pelo rito de “feitura de cabeça/santo” ou consagração como Ogan/Ekedi, sacerdotes auxiliares, que não “pegam santo”), não tem vínculo oficial nem obrigações com uma casa ou sacerdote.

Abian é um “caminhante inicial” com liberdade para “andar por ai”, apenas se cuidando espiritualmente, observando e aprendendo antes de uma eventual iniciação.

A minha caminhada pré-iniciática no Candomblé por exemplo, já passa dos 14 anos de muita observação, estudo e participações. Agradeço à todos que me acolheram, cuidam e partilham nesse tempo todo, em especial a mãe Nonata Corrêa com quem tudo começou e ao meu estimado Baba Jean de Xangô, à todos do Ile Ase Afiin Oba e à todo povo de santo de Manaus que desde sempre tem me tratado com muito carinho, respeito e até “deferência” mesmo sendo um “deshierarquizado”.

O Ifá

As religiões de matrizes africanas são várias e fortes nas Américas central, sul e no Caribe. Foram introduzidas pelos africanos de várias partes do continente, trazidos pelo tráfico negreiro por quase 4 séculos e mantidas por seus descendentes, com as naturais e inescapáveis adaptações ao contexto afrodiaspórico. Em todas elas é basilar a necessidade de consulta a oráculos não apenas para os interesses particulares de praticantes e clientes, mas para a própria estruturação e práticas religiosas.

É através dos oráculos que se dá a maior parte da comunicação entre o “mundo de cá” (o ayé, o mundo físico e a vida) e o “mundo de lá” (Orum, o mundo espiritual) e é através deles, os oráculos, que se pode alcançar a comunicação com as divindades, o que é diferente da comunicação com espíritos.

Na cultura Yorubá, grande grupo étnico predominante na região da atual Nigéria e vizinhanças, do qual boa parte dos traficados para a escravidão no novo mundo provinha, os cultos a Orixá tem como o grande sábio e conhecedor do destino o Orixá Orunmila.

Orunmila é testemunha quando antes de virmos ao Ayé (nascer) nos ajoelhamos junto a Olódùmarè para escolher nosso destino, objetivos e com quais odús (também dito oduns) chegaremos à terra, coisas que esquecemos entre a conversa com Olódùmarè e o nascimento, e cuja consciência do conteúdo só pode ser resgatada via a iniciação em Ifá.

Importante esclarecer que o conceito de destino em Ifá não é de coisa absoluta, inalterável, mas sim potencialidades e linhas mestras que podem sofrer alterações em função do livre arbítrio e da influência de outros atores da vida. Não dá portanto para escapar da verdadeira data da partida desse mundo, mas dá para não ser levado antes da hora e para cumprir o destino da vida de forma mais proveitosa, corrigindo os desvios, buscando os melhores caminhos e evitando os percalços e armadilhas que se colocam, reduzindo a atuação da divindade Elenini, cujo objetivo é fiscalizar nosso caráter e merecimentos justamente ao fazer-nos cair nesses desvios e recebendo por isso as famosas “peias”.

Orunmila é portanto não apenas o conhecedor do destino e detentor dos conhecimentos para que o cumpramos bem. Orunmila é também quem interage com os demais Orixás e ancestrais que atuam em nossas vidas e possibilita a comunicação entre eles e nós através do Ifá. O culto à ele, o acesso pleno e privilegiado à essa comunicação oracular, seus segredos, métodos para alcança-la e tomar as medidas cabíveis via cerimônias, obras e condutas indicadas é o chamado IFÁ.

Apesar de no meio de religiões de matrizes africanas, muita gente utilizar o termo Ifá genericamente para se referir aos subsistemas oraculares para práticas divinatórias de raizes iorubanas, ou seja, os métodos de consulta aos Orixás, na verdade Ifá é muitíssimo mais que isso. Ifá é o culto especializado e sistematizado à Orunmila, aos 4 Orixás guerreiros que também se recebe na iniciação para assentar em casa (Eleguá, Ogum, Oxóssi e Ozun, representado pelo galinho, não confundir com Oxum) e é o detentor do sistema oracular mais complexo e preciso.

Os cultos “Lesse Orixá”, caso de alguns cultos africanos ainda praticados por lá, do candomblé no Brasil e do “Lucumi-Osha” cubano (que foi espraiado para outros paises latino-americanos, caribenhos e mesmo aos EUA e Europa), utilizam subsistemas menos complexos do Ifá, como os dilogún, a exemplo do jogo de búzios.

O Ifá apesar de também ser culto a Orixá, como já dito, é o culto que se dedica especialmente ao Orixá Orunmila, ao conhecimento e manutenção dos destinos, diferente dos cultos lesse Orixá, cujo principal objetivo é cuidar dos filhos de Orixá e de suas relações com eles, como a “feitura de santo”, os toques para Orixá, ebós, e o transe.

No Ifá pode eventualmente haver toques de tambor, mas não é cotidiano, não há nem “se trabalha transe”, portanto Babalawos não se ocupam de “feitura de santo”, isso fica para os Oriatés e para Babalorixás e Yalorixás do Lesse.

Ifá, é um caminho muito propício para os que querem cultuar Orixás, ter o axé em suas vidas mas que “não dão santo”, apesar de não haver impedimento para iniciar os que dão, exceto no caso dos Babalawos, que não podem ser pessoas de incorporação ou transe.

Apenas os sacerdotes de Ifá, os Babalawos, conhecem e são autorizados a utilizar todo o sistema de oráculos de Ifá e seus subsistemas mais complexos, através do opon-ifá (um “tabuleiro” especial, junto com outros elementos acessórios) o opele-ifá (um “rosário” de plaquetas côncavas/convexas e um lado claro e outro escuro) e com ikins (os caroços do dendezeiro). Tudo isso combinado com um grande “corpus” literário de patakins (historietas, parábolas) versos, ditados, signos, rezas, saudações, cânticos e procedimentos litúrgicos.

Os Babalawos na tradição afrocubana, não podem jogar búzios, isso é feito pelos sacerdotes e sacerdotisas dos cultos “lesse orixá”, ou iniciados em ifá que não sejam Babalawos, após um rito de consagração ao serviço do oráculo.

Segundo o respeitado site do “Proyecto Orunmila” que reúne o melhor da literatura temática do sistema religioso afrocubano de base yorubá, o ifá-santeria-osha, alguns outros subsistemas oraculares de Ifá como o biange (bianwé) e o aditoto, também podem eventualmente ser manipulados pelos omoifás, aqueles iniciados e iniciadas na primeira mão em Orunmila-ifá, os chamados de Apetebis (as mulheres) e de Awofakans (os homens), assim como por “santeros” que tenham igualmente recebido em iniciação os Orixás guerreiros. Porém isso depende das orientações internas de cada rama de Ifá, algumas permitem, outras não.

O ifá inicialmente introduzindo no Brasil por meio de Babalawos que vieram entre os escravizados, não foi sistematizado e constituido literariamente.

Por um processo peculiar de “matriarcalização” dos cultos afro no país, em meados do século XX acabou por praticamente desaparecer junto com os últimos Babalawos do que teria sido uma “tradição brasileira”, deixando apenas algumas referências utilizadas nos sistemas oraculares manejados por Yalorixás e Babalorixás, destacadamente o jogo de búzios.

Desde meados dos anos 90, o culto de Ifá está sendo reintroduzido no país a partir dos aportes primeiro dos afrocubanos e mais recentemente dos nigerianos. Apesar da base teológica ser comum à toda cultura yorubá, tanto na Nigéria, quanto na preservada em Cuba ou no cultos brasileiros de matrizes africanas, obviamente existem diferenças e evoluções distintas, o que causa divergências e certo “distanciamento” principalme entre “africanos” e “cubanos”.

Particularmente vejo a tradição afrocubana como muito mais próxima da realidade brasileira por ser igualmente diaspórica, e foi essa que escolhi como caminho em Ifá.

Primeiro contato

Meu primeiro contato ritualístico com Ifá seu deu em Cuba, no município de Playa, região metropolitana de Havana, com Osode, Ebó e Bori (Consulta, Limpeza & proteção e Comida à cabeça e aos Orishas) em fins de dezembro de 2018, sob atuação dos Awos El niño Ojuani Hermoso, Peque Itangame Okana SA e Rolando Valdez. Uma experiência forte, de muito respeito ao que já fazíamos no candomblé no Brasil e um Ashé muito perceptível.

A iniciação

Fui iniciado em Ifá em meados de março (2019), no Rio de Janeiro, na Rama Ifá Ni L’órun, a maior do Brasil, a qual pertence a família Ifairawo, conduzida pelo agora meu padrinho, o Babalawo Márcio Alexandre M. Gualberto (Ogbe Ate) tendo como Ojugbona (segundo padrinho) o Babalawo Felipe Oyekun Biroso e Babango (avô) o Oluwó Siwajú Evandro Otura Aira, cabeça da rama. Recebendo a “Mão de Orula”, os ritos e fundamentos que permitem a condição de membro do culto de Ifá, e o acesso ao conhecimento do meu odu principal, dos dois odus de testemunho, das profecias, o recebimento dos ilekès (fios de contas) idefás (pulseiras de santo) a Igba de Orunmila e os fundamentos para assentar os quatro Orixás guerreiros (Eleguá, Ogum, Oxóssi e Ozun [novamente, não confundir com a Yabá Oxum] ) os quais passei a atender em casa e passaram a cuidar de mim, em todo lugar.

Com o padrinho e os irmãos de plante (“barco” de iniciação) antes da entrega dos Odun, dos ilekês, idefás e dos Orixás.

Uma alteração importante, meu Orixá tutelar, até então tido com Oyá/Yansã secundada por Oxum (Orixás femininos), na verdade Ifá revelou ser Yemaiá (Yemanjá). Sem problemas, apenas tomei consciência da verdade, sigo na força das minhas Yabas, agora três, pois não por coincidência meus odús indicam também a proteção tanto de Oyá quanto de Oxum e inclusive me recomendam seguir na devoção à elas e usar também seus fios de contas.

Com os caminhos abertos e indicados não apenas para o atendimento aos meus santos, o autoconhecimento, o aprofundamento no culto e na sabedoria que propicia, para a fraternidade com o abures (irmãos) e os cuidados espirituais do meu padrinho e do ojugbona, mas também para o sacerdócio como Babalawo, com a futura ida ao Igbodu, agora é estudar ainda mais.

Iboru, Iboya Ibosheshe !

“A palavra de Orula não cai ao chão”


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SOBRE O ABATE RELIGIOSO E A REAFIRMAÇÃO PELO STF

Não poderia ser outra a decisão frente ao direito claramente colocado na constituição, no estatuto da igualdade racial e a partir do conhecimento mais aprofundado e não preconceituoso sobre os cultos afros e suas premissas.

Tem um filme muito bom que fala dessa “culpa cristã” e da intenção de uma religiosidade afro “vegana”, tolerável aos olhos e sentidos eurocentrados, o que contraria os fundamentos essenciais das tradições e que não podem dispensar o sacrifício, o sangue, que nada tem a ver com tortura ou maus-tratos aos animais.

O interessante é que até os não veganos, que pouco se importam com a forma como vivem e são abatidos os bichos que vão parar em suas mesas, entram nessa de querer acabar com o abate religioso, mas nem pensam sobre o abate que lhes alimenta no dia a dia… .

Nessa se lascaram… AŚE 7 X 0 Hipocrisia & Eurocentrismo . ✊🏿