Blog do Juarez

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Pela abolição da estupidez e da ode acrítica ao 13 de maio

O 13 de maio, data da abolição malfeita da escravidão no Brasil, já estava sendo há alguns anos colocado no lugar que deve ocupar na história do Brasil e no sentimento popular. Porém, o rumo reacionário, fascista e racista exacerbado dos últimos tempos nos trouxe à um real retrocesso, inclusive nos níveis institucionais.

Com a estratégia governamental de desmonte das conquistas ambientais, sociais, educacionais e culturais por meio dos “antiministérios”, ou seja, ministérios e secretarias ocupadas por gente que vai justamente no sentido contrário dos objetivos naturais das pastas e aspirações dos recortes relacionados, perdemos enquanto população negra, todas as instâncias estatais de valorização da cultura e combate ao racismo e desigualdades, como a SEPPIR e mais recentemente a Fundação Cultural Palmares.

O caso da Palmares é ainda mais emblemático, pois usa e abusa do cinismo METARRACISTA com requintes de deboche. À frente da fundação temos uma pessoa negra que é antítese do pensamento e de tudo pelo qual protoativistas e ativistas negr@s tem lutado nas últimas 13 décadas. Quando o próprio irmão de sangue o chama publicamente de “capitão-do-mato”, não está fazendo uma “injúria racial”, mas sim uma analogia sócio-histórica com uma figura patética que a serviço do status quo escravista/racista buscava impedir o natural direito à liberdade e dignidade dos que fugiam do execrável cativeiro no passado e que transposta aos dias atuais, segue servindo ao status quo METARRACISTA, com a finalidade de desmontar a luta anti-racista e os avanços da população negra.  O fato de majoritariamente terem sido os capitães-do-mato também negros é apenas um detalhe sórdido das práticas racistas do grupo que no passado e no presente se “beneficia da desqualificação e exploração material e simbólica dos não-brancos” como diria Carlos Hasenbalg.

É ignóbil a proposta de retroceder ao “culto à princesa Isabel”, de trocar o nome da Fundação Palmares para “André Rebouças”, que apesar de abolicionista histórico é também conhecido pela sua fidelidade monárquica e pela sujeição inconteste à hegemonia branca e seus valores e modos de ser (a famosa “alma branca”, que pretos tinham que assumir e fazer ode, caso quisessem ser tolerados e obter alguma mobilidade social), feita pelo seu atual titular. Complementada pelo absurdo renegar de Zumbi do Palmares (herói do panteão nacional) e da data em sua homenagem e do quilombo de Palmares, o 20 de novembro, sobreposto pela “Consciência Negra”.

Neste momento cerca de 170 historiador@s negr@s estão em uma maratona coordenada de lives nas redes sociais, com 16 horas de duração, fazendo o cotraponto à essa tentativa de “ressuscitar” o 13 de maio na forma que foi antigamente. Nossas histórias e perspectivas serão contadas por nós mesmos, não para atender interesses antinegro.

Chamada do evento

O 13 de maio é data histórica, e como tal não deixará de ser lembrada, mas não será nunca mais utilizada para contar uma história laudatória à família real, à “bondade da princesa” e o exclusivo protagonismo de abolicionistas brancos, retirando dos próprios negros a sua histórica luta pela emancipação. Luta que se estende até os dias atuais. “Enquanto os leões não puderem contar suas próprias histórias, as histórias serão sempre as dos caçadores” (ditado yorubá), pois é, acabou a “história única” dos caçadores e seus admiradores acríticos.


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MEMOJUS: a busca do reconhecimento e valorização da memória judiciária brasileira.

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Entrevista com o Prof. Dr. Carlos Alexandre Böttcher, juiz de Direito do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, Membro do Comitê do Programa Nacional de Gestão Documental e Memória do Poder Judiciário (Proname) do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e membro da Câmara Setorial de Arquivos Judiciários (CSAJ) do Conselho Nacional de Arquivos (Conarq).

4 de maio de 2020

Dr. Böttcher, grato pela entrevista, o que pode nos dizer sobre a importância da memória tanto para os órgãos do Judiciário quanto para a sociedade?

A memória tem relevância fundamental tanto para a sociedade, quanto para o Poder Judiciário. A noção de memória está ligada à ideia de identidade, que é algo que construímos continuamente a partir da escolha das nossas lembranças de eventos passados, moldando a consciência de quem somos e de nossa posição no mundo. Alguns fatos são lembrados. Outros esquecidos. O ser humano constrói uma narrativa histórica própria com a qual se identifica perante si mesmo e perante os outros. Fenômeno semelhante ocorre quando nos referimos à memória coletiva, que diz respeito a grupos ou instituições, como o Poder Judiciário. Na memória coletiva, quando valorizamos certos eventos comuns do passado e esquecemos outros, estamos definindo a própria identidade daquele grupo social ou instituição e construindo a história. Os grupos, que não conhecem devidamente o próprio passado, não conseguem sustentar-se adequadamente no presente e muito menos projetar-se no futuro. No caso do Poder Judiciário, essa constatação não poderia ser diferente. Nele, vejo a memória, basicamente, com uma dupla importância. Em primeiro lugar, a memória contribui para consolidar a identidade do Judiciário perante a sociedade brasileira, já que se trata de instituição essencial para a pacificação dos litígios e para a garantia da cidadania e dos direitos, sendo um dos principais pilares da democracia. Essa consolidação da identidade, que podemos chamar de memória institucional, também é importante no interior do Poder Judiciário, pois fortalece a consciência de pertencimento à instituição por parte de juízes e servidores. Em segundo lugar, a memória tem por missão preservar, conservar, valorizar e divulgar o Patrimônio histórico e cultural do Judiciário presente em seus Museus, Arquivos, Memoriais e Bibliotecas, que é composto por inúmeros documentos, processos, livros, objetos, móveis, imóveis etc. Não podemos deixar de mencionar que todo esse rico acervo do Poder Judiciário também faz parte do Patrimônio cultural brasileiro, assim como a memória e a identidade também fazem parte desse Patrimônio cultural em sua forma imaterial, nos termos do artigo 216, da Constituição Federal.

O que é e como surgiu a ideia do Memojus?

O MEMOJUS é uma Fórum de discussão, que criei em setembro de 2019, por meio de aplicativo de mensagem, do qual fazem parte historiadores, arquivistas, biblioteconomistas, jornalistas, servidores públicos, juízes, desembargadores e até Ministro de Tribunal Superior. Ele reúne membros de todos os ramos do Judiciário de grande parte do Brasil. Atualmente, também estamos em grupo fechado de rede social. Objetivo principal do MEMOJUS é criar uma rede nacional em prol da Memória da Justiça do Brasil, agrupando Museus, Memoriais, Arquivos e Bibliotecas judiciários para que todos consigam interagir entre si, trocando experiências e iniciativas. Isso é fundamental, pois muitas vezes esses bens culturais não conseguem dialogar de maneira eficaz entre si até mesmo dentro do próprio Tribunal. Apesar de aparentemente estarmos falando de passado, o mundo hoje tem trabalhado cada vez mais em equipe e de forma colaborativa e essa maneira de agir é também a que mais se espera no futuro. Por isso, a importância da criação de rede colaborativa. Para falar de como surgiu a ideia do MEMOJUS, tenho que lembrar que há alguns anos, tenho-me preocupado com as questões de gestão documental, Arquivos judiciários, história e memória institucional do Judiciário. Esses interesses aumentaram quando passei a integrar a Câmara Setorial de Arquivos Judiciários (CSAJ) do CONARQ e o Comitê do Programa Nacional de Gestão Documental e Memória do Poder Judiciário (Proname) do CNJ, pois a atuação neles me permite propor iniciativas relacionadas a esses assuntos com impacto nacional. Em setembro passado, estive, por conta própria, em Seminário sobre História da Justiça e Museus Judiciários organizado pelo TJSC em parceria com o CNJ, onde troquei alguns contatos telefônicos com outros participantes. Poucos dias depois, em 9 de setembro de 2019, tive a ideia de criar um pequeno grupo de Whatsapp, que denominei MEMOJUS, com cerca de quinze contatos de pessoas interessadas no assunto. Em 13 de setembro, já havia cinquenta membros no grupo e atualmente somos cerca de cento e vinte pessoas.

Quais os principais objetivos práticos de organização?

O grupo MEMOJUS tem praticamente oito meses e ainda não tem existência formal jurídica. Está em fase de consolidação. Mesmo assim, tem-se mostrado importante palco para intercâmbio de experiências, discussões de temas relevantes e solução de problemas da área, que afligem o Poder Judiciário de todo o país. Isso contribui para a capacitação e atualização dos profissionais dessa área de Memória. No futuro, com maior fortalecimento, o grupo, provavelmente, será formalizado. Inspiração interessante temos do Memojutra, que é o Fórum Nacional Permanente em Defesa da Justiça do Trabalho, que existe desde 2006, articulando juízes e funcionários atuantes em prol da Memória nesse ramo do Judiciário.

Essa construção colaborativa tem sido eficiente? Cite alguns exemplos em que ela se deu.

Considerando a curta existência do MEMOJUS, diria que tem sido muito eficaz. Com menos de um mês de funcionamento, formulei proposta de instituição do Dia da Memória do Poder Judiciário no grupo e solicitei a colaboração dos integrantes por meio de votação. Ideia era escolher uma data representativa da história da Justiça do Brasil para celebração como Dia da Memória do Poder Judiciário. Discussões e contribuições dos membros do grupo foram muito interessantes e produtivas. No final, ficamos com cinco datas possíveis para votação e a hipótese vencedora foi o dia 10 de maio, que se refere ao Alvará de 10 de maio de 1808, que criou a Casa de Suplicação do Brasil. Elaborei uma proposta formal e uma minuta de ato normativo e encaminhei ao Comitê do Proname, que a aprovou. Proposta tramitou regularmente até ser aprovada, em plenário do CNJ, a recente Resolução CNJ 316/2020, criando o Dia da Memória do Poder Judiciário. Basicamente, a norma exemplifica uma série de ações de fomento para celebração da data e incentiva a mobilização dos setores envolvidos na questão da Memória de todos os Tribunais do país. Também prevê um Encontro Nacional de Memória anualmente. Claro que se trata de um passo, que não esgota a matéria de gestão da memória, mas a importância da conquista é incomensurável. Outro exemplo foi a consulta sobre as datas de corte cronológico da guarda permanente nos vários Tribunais do país, que serviram para subsidiar a discussão de minuta de Resolução no Comitê do Proname.

Para finalizar, qual avaliação o Sr. faz do já conquistado e quais são as expectativas de curto e médio prazo ?

Além da importância do Dia da Memória do Poder Judiciário em termos de conteúdo da norma, não podemos deixar de destacar seu caráter democrático e participativo. A Resolução nasceu da base, pois partiu de proposta de um juiz de primeiro grau, foi discutida e votada por profissionais qualificados de quase todo o país, ou seja, foi gerada de baixo para cima. Isso tem uma relevância enorme, pois mostra como é importante a atuação comprometida e proativa daqueles que estão na linha de frente da gestão da memória dos Tribunais. Ainda que o apoio à cultura seja precário no país, em geral, isso demonstra que com força de vontade e dedicação, todos podemos trazer melhorias para as instituições e a sociedade. Enfim, essa forma é também um exemplo de cidadania e até mesmo de participação popular na gestão pública. A curto prazo, expectativas estão concentradas justamente nas comemorações do Dia da Memória pelos vários Tribunais, lembrando que o CNJ solicitou a todos que elaborassem plano de ação. A médio prazo, esperamos a aprovação de nova Resolução do CNJ, que substituirá a Recomendação 37/2011, tornando a gestão documental cogente para os Tribunais e trazendo novidades ao disciplinar pela primeira vez a gestão da memória. Acredito que o MEMOJUS poderá contribuir muito nessa questão da gestão da memória, auxiliando inclusive o Comitê do Proname com sugestões para a elaboração do respectivo Manual, além de subsidiar o próprio CNJ na organização dos futuros Encontros Nacionais de Memória a partir de 2021. Por fim, gostaria de agradecer ao Juarez Silva pela divulgação dessa importante conquista para a Memória da Justiça brasileira. Muito obrigado!

Carlos Alexandre Böttcher é juiz de Direito do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Doutor e Mestre em História do Direito (Direito Civil) pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP). Especialista em Direito Romano pela Università di Roma La Sapienza (Itália). Membro do Comitê do Programa Nacional de Gestão Documental e Memória do Poder Judiciário (Proname) do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Membro da Câmara Setorial de Arquivos Judiciários (CSAJ) do Conselho Nacional de Arquivos (Conarq). Juiz formador da Escola Paulista da Magistratura (EPM).

*O presente texto é de livre reprodução/republicação, com os devidos créditos e link: publicado originalmente no blogdojuarezsilva .


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DIA DO JORNALISTA

Um dia já quis ser jornalista, era junto com engenharia eletrônica uma das minhas intenções vestibulares. Ambas faculdades diurnas, impossíveis para o militar da época, acabaram perdendo para a “nascente” e noturna processamento de dados.

Quase viro pai de jornalista, mas esse destino também foi desviado… Ao longo do tempo ao invés de “noticieiro” acabei virando “noticiado”, sempre às voltas com esses profissionais. Em comum o gosto pela escrita e divulgação, as vezes praticada no meu blog, que não é noticioso, apenas pessoal/reflexivo, outras vezes, ai sim em um verdadeiro veículo de imprensa, se não na atividade fim jornalística, bem ali do lado, nas tradicionais colunas que compartilham o mesmo leitor das notícias.

Por tudo isso e por ávido consumidor e admirador do trabalho desses importantes profissionais da comunicação social, do presente e do passado, afinal, enquanto historiador as notícias do passado, são para mim matéria prima…, felicito à tod@s jornalistas no seu dia, especialmente aos meus conhecidos e conhecidas. PARABÉNS! (Não vou marcar ninguém pois é muita gente, sintam -se tod@s virtualmente abraçad@s)


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O laço branco e a violência contra as mulheres

Lá vamos nós de novo em uma reflexão que não duvido será mal entendida por algu(mas) (uns) neoativistas do feminismo (sejam mulheres ou homens).

Em 6 de dezembro de 1989, Marc Lepine, um jovem canadense de 25 anos, invadiu armado uma sala de aula da Escola Politécnica de Montreal (Canadá) e ordenou que todos os homens abandonassem o local, na sequência assassinou todas as mulheres daquela turma, 14 ao todo. Após o nefasto ato ele se suicidou, deixando uma carta na qual explicava que não admitia que mulheres frequentassem o curso de Engenharia, uma “área masculina” segundo ele.

O episódio de cruel misoginia levou homens canadenses a criar a Campanha do Laço Branco (White Ribbin Campaign), um movimento visando fomentar nos homens uma nova visão sobre a masculinidade e apoiar as demandas feministas. A data também virou Dia Internacional dos homens pela eliminação da violência contra a mulher.

Obviamente sou a favor do feminismo efetivo e repudio a violência contra a mulher, apesar de um “povo” limitado, “travado” e radicalizado entender justamente ao contrário… .

Pois bem, não sou a única pessoa, e sei de feministas que pensam da mesma forma, que a resolução ou redução do problema da violência contra a mulher, na verdade não passa pela “fruição narcísica” de homens que se colocam como “desconstruídos”, nem virá da reunião de homens voluntários e dispostos a discutir “masculinidade tóxica”. Isso passa sim por terapias COMPULSÓRIAS e PROFISSIONAIS para agressores e a disponibilização para as vítimas que se dispuserem a se desvencilhar do abuso enquanto é tempo.

Não é difícil perceber que esse tipo de homem voluntariamente “desconstruível” não é o mesmo que perpetra violências contra mulheres. Confundem machismos de baixo potencial ofensivo introjetados, com a misoginia patológica, aquela que passa pela personalidade sádica, que por sua vez proposital e preferencialmente busca e identifica mulheres com brechas de autoestima por onde podem dominar e saciar sua perversidade e prazer em humilhar e ferir lentamente, até o “gran finale”, o feminicídio.

Dois pontos a destacar, nada é absoluto, portanto, há dementes capazes de realizar sua misoginia e sadismo contra mulheres com as quais nunca tiveram relação específica ou de algum termo, assim como parte das vítimas nunca teve relação ou questões de autoestima e intimidades que fomentassem a violência sádica. Caso do evento que motivou o movimento e data citados no início.

Em resumo, apesar de achar válidas demonstrações de apoio masculino a não-violência contra a mulher, não creio que sejam efetivas as ações como o “laço branco” e suas passeatas ou discussões de masculinidade tóxica, pois elas em nada atingem os grandes e reais problemáticos. Por outro lado, em tempos em que ativistas reivindicam “lugar de fala”, como se tem feito majoritariamente de forma equivocada e beligerante contra aliados extra-recorte, é claro ser puro incentivo à “tretas” e “fogo-amigo” que consomem mais energia que a empregada contra os verdadeiros inimigos das causas.

Para finalizar, quero lembrar, reforçar e afirmar, que considero sim importante e necessário o apoio masculino no combate à violência contra a mulher, sempre a partir de premissas e ações que gerem efetividade.

Para quem lê inglês sugiro essa excelente matéria, escrita por uma feminista, sobre o assunto:

https://www.smh.com.au/opinion/it-s-time-to-shut-the-white-ribbon-campaign-down-20181021-p50b33.html


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Vamos falar de “CONSCIÊNCIA NEGRA” X “CONSCIÊNCIA HUMANA” ?

Complete as frases com o que faz mais sentido utilizando negra(o)s ou humana(o)s:

Maria foi discriminada na escola por ser ____________________

O IBGE afirma que ________________ ganham em média X% de colegas brancos com mesma formação

Antes das cotas as universidades públicas eram ocupadas em 75% por brancos(50% na população), 2% de “amarelos” (1% na população) e o restante 23% por__________________ (49% na população).

As chances de um jovem____________________ morrer violentamente é 200% maior que a dos demais.

O SUS detectou que mulheres ________________ parturientes recebiam menos anestesia que as demais.

A Consciência __________________ é importante porque 75% da história do Brasil eles os ______________ foram oficialmente escravizados, o que causa prejuízo social até os dias atuais…

A capoeira, patrimônio cultural da humanidade surge no Brasil no âmbito da cultura ________________

E ai ? ficou bacana e fez sentido ? 🤷🏿‍♂️


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CAXIAS E O MEDO BRANCO.

No 25 de agosto, Dia do Soldado, homenagem à data de nascimento do patrono do Exército, uma reflexão um pouco “diferente”.

Caxias se notabilizou por ter “pacificado” (termo militar para a neutralização pela força/violenta) várias revoltas populares, muitas com base e alta participação negra, além de grande comandante da Guerra do Paraguai. Em tese a “manu militari” serve ao poder constituído de um Estado, garantindo seus interesses e suas políticas de defesa (eventualmente de conquista) e manutenção da ordem, é portanto essencialmente patriótica, apesar disso não significar sempre algo “moral, ético e humanitário”, pelo contrário, ainda mais visto à distância no tempo. Pouco lembrado é o episódio vil de traição e massacre dos Lanceiros Negros da revolução farroupilha urdida entre o General rebelde David Canabarro e o então Barão de Caxias, conforme explica Daniel Isaia:

“Em novembro de 1844, conforme combinado entre os dois líderes militares, Canabarro ordenou à tropa de Lanceiros Negros para que fosse desarmada até o cerro de Porongos e lá montasse acampamento. A Caxias, coube ordenar às tropas imperiais para que também se deslocassem até o local para combater os farroupilhas que lá estivessem. Eis um trecho da carta enviada pelo Barão de Caxias ao comandante imperial Francisco Pedro de Abreu, líder das tropas que atacariam os Lanceiros Negros:

‘Poupe o sangue brasileiro o quanto puder, particularmente da gente branca da Província ou dos índios, pois bem se sabe que essa pobre gente ainda pode ser útil no futuro.’

Desarmados e pegos de surpresa às 2h da madrugada, os negros farroupilhas foram dizimados pelos soldados imperiais. O massacre resultou na morte de centenas de lanceiros (as versões variam entre 170 e 800 mortos). Os poucos que sobreviveram foram enviados ao Rio de Janeiro para serem reintroduzidos à vida de escravidão e trabalhos forçados.”

Mais adiante Caxias comandou a campanha do Paraguai, aonde boa parte da população negra foi dizimada nas linhas de frente. No entanto, antes de abandonar o comando, assumido pelo genro do Imperador, o Conde D’Eu, Caxias “reconhece” o valor dos combatentes negros e o temor que finda a guerra os valentes e experimentados soldados negros sobreviventes fizessem tal qual no caso do Haití a tomada do poder e eliminação da população branca. Conforme trecho extraído de texto do Frei David da EDUCAFRO:

” A guerra do Paraguai (1864-1870) foi um dos instrumentos usados pelo poder para reduzir a população negra do Brasil. Foi difundido que todos os negros que fossem lutar na guerra, ao retornarem, receberiam a liberdade e os já livres receberiam terra. Além do mais, quando chegava a convocação para o filho do fazendeiro, ele o escondia e, em seu lugar, enviava de 5 a 10 negros.
Durante a guerra, o Exército brasileiro colocou o nosso povo negro na frente de combate e foi grande o número dos mortos. Para se ter uma idéia, a população negra do Brasil era de 2 milhões 500 mil pessoas (45% do total da população brasileira). Depois da guerra, diminuiu para 1 milhão 500 mil pessoas (15% do total da população brasileira).
Os poucos negros que sobraram, eram os que sabiam manejar as armas do Exército. Duque de Caxias escreve para o imperador demonstrando temor sobre o fato:

‘[..] à sombra dessa guerra, nada pode livrar-nos de que aquela imensa escravatura do Brasil dê o grito de sua divina e humanamente legítima liberdade, e tenha lugar uma guerra interna como no Haiti, de negros contra brancos, que sempre tem ameaçado o Brasil e desaparece dele a escassíssima e diminuta parte branca que há!’. ”

OBS. HÁ ERRO INDUZIDO NOS NÚMEROS APRESENTADOS NESSE TEXTO CITADO DO FREI DAVID, NOTA EXPLICATIVA AO FINAL.

Para o bem da pátria e sorte da “diminuta parte branca” de então, os heróis negros não eram vingativos e traiçoeiros e nem agiram coordenada e intencionalmente para eliminar os que estavam no caminho da sua liberdade e interesses.

Portanto, nesse Dia do Soldado, nossa homenagem à todos brasileiros(as) que já vestiram um uniforme e com suor, sangue, lágrimas e espírito cívico defenderam ou se prepararam ou preparam para defender a pátria, a segurança e dignidade da população não apenas brasileira como a de países amigos, mas muito especialmente à todos os soldados negros que muitas vezes receberam históricamente ingrata paga pelo sacrifício, dedicação e honra.

* NOTA

Estranhei os números e pesquisando encontrei o motivador do erro… . Por isso que digo que é importante dominar e utilizar corretamente as CATEGORIAS e ter uma leitura mais ampla para tentar evitar as ciladas. Entendo que o erro no texto do Frei David, não se trata de desonestidade poderia ser cometido por qualquer outro mais desatento. Vejam o print anexo de texto em livro do Dagoberto Fonseca fazendo um apud no Chiavenato.. 😉

São vários erros de AMBOS, que levaram a posteriores replicações equivocadas. Ao usar negro como sinônimo de preto, se interpreta errado, já que negro não é opção censitária, mas a soma dos autodeclarados pretos e pardos (e isso desde 1872). O “povo”, especialmente a imprensa, fica insistindo no uso equivocado de ” negros e pardos”, isso quando não apela para termos que nunca foram usados demograficamente como “mulatos” .

Outro erro é ler automaticamente negro como escravo no pré-abolição, a população negra (ou seja, preta e parda) a partir da 2a metade do XIX já era majoritariamente nascida livre ou liberta… .

O Chiavenato induziu ao erro ao ver a população escrava antes da guerra do Paraguai e depois, e imaginar que a diferença de 1 milhão a menos era exclusivamente efeito da guerra… . Parcialmente sim, mas na verdade o que ocorreu foi uma grande mudança geral de status de escravizado para liberto… . O tal “milhão de negros” (na verdade escravizados) não “desaparecereu”, a maioria apenas deixou de ser escrava, muito embora um número nada desprezível tenha de fato sido dizimada na guerra.


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Um dia em um mundo sem negros

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Essa é uma estorinha muito interessante, disponibilizada no site de uma das pessoas tidas como um dos maiores gênios científicos da atualidade, Philip Emeagwali  (vale a pena conhecer sua biografia), já tendo passado por várias traduções e adaptações, essa é uma delas, mas está bem fiel à original em Inglês.

Apesar de baseada apenas nos inventores/cientistas afroamericanos “modernos”, dá bem a ideia da contribuição negra para a civilização moderna (não vamos nem falar das antigas para a história de toda a humanidade), fatos desconhecidos da grande maioria das pessoas e que uma vez conhecidos podem mudar muitas visões preconceituosas… .

COMO SERIA O MUNDO SEM OS NEGROS ?
Philip Emeagwali 

O garoto, um dia, acordou e perguntou à mãe:

“Mãe, o que aconteceria se não existissem pessoas negras no mundo?” Sua mãe pensou por um momento e então falou:

“Filho, siga-me hoje e vamos ver como seria se não houvesse pessoas negras no mundo”. E, então, disse:

“Agora vá se vestir e nós começaremos” Theo correu para seu quarto para colocar suas roupas e sapatos.

Sua mãe deu uma olhada nele e disse: “Theo , onde estão seus sapatos? E suas roupas estão amassadas, filho, preciso passá-las”.
Mas quando ela procurou pela tábua de passar, ela não estava mais lá. Veja, 
Sarah Boone, uma mulher negra, inventou a tábua de passar roupa.

Jan E. Matzelinger, um homem negro, inventou a máquina de colocar solas nos sapatos. “Então… – ela falou – Por favor vá e faça algo em seu cabelo.”

Theo decidiu apenas escovar seu cabelo, mas a escova havia desaparecido. Veja, Lydia O. Newman, uma mulher negra, inventou a escova. Ora, essa foi uma visão… nada de sapatos, roupas amassadas, cabelos desarrumados.

Mesmo o cabelo da mãe, sem as invenções para cuidar do cabelo feitas por Madame C. J. Walker… Bem, vocês podem vislumbrar… A mãe disse a Theo : “Vamos fazer nossos trabalhos domésticos e, então, iremos ao mercado”.

A tarefa de Theo era varrer o chão. Ele varreu, varreu e varreu.
Quando ele procurou pela 
pá de lixo, ela não estava lá. Lloyde P. Ray, um homem negro, inventou a pá de lixo.

Ele decidiu, então, esfregar o chão, mas o esfregão tinha desaparecido. Thomas W. Stewart, um homem negro, inventou o esfregão. Theo gritou para sua mãe: “Não estou tendo nenhuma sorte!”

Ela responde: “Bem, filho, deixe-me terminar de lavar estas roupas e prepararemos a lista do mercado”. Quando a lavagem estava finalizada, ela foi colocar as roupas na secadora, mas ela não estava lá. Acontece que George T. Samon, um homem negro, inventou a secadora de roupas. A mãe pediu a Theo que pegasse papel e lápis para fazerem a lista do mercado. Theo correu para buscá-los, mas percebeu que a ponta do lápis estava quebrada.
Bem… ele estava sem sorte, porque 
John Love, um homem negro, inventou o apontador de lápis. A mãe procurou por uma caneta, mas ela não estava lá, porque William Purvis, um homem negro, inventou a caneta-tinteiro.

Além disso, o negro Lee Burridge inventou a máquina de datilografia e outro negro, W. A. Lovette, a prensa de impressão avançada.

Theo e sua mãe decidiram, então, ir direto para o mercado. Ao abrir a porta, Theo percebeu que a grama estava muito alta.
De fato, 
a máquina de cortar grama foi inventada por um homem negro, John Burr.

Eles se dirigiram para o carro, mas notaram que ele simplesmente não sairia do lugar. Isso porque Richard Spikes, um homem negro, inventou a mudança automática de marchas e Joseph Gammel inventou o sistema de supercarga para os motores de combustão interna. Eles perceberam que os poucos carros que estavam circulando, batiam uns contra os outros, pois não havia sinais de trânsito. Garret A. Morgan, um homem negro, foi o inventor do semáforo.

Estava ficando tarde e eles, então, caminharam para o mercado, pegaram suas compras e voltaram para casa. Quando eles iriam guardar o leite, os ovos e a manteiga, eles notaram que a geladeira havia desaparecido. É que John Standard, um homem negro, inventou a geladeira.

Colocaram, assim, as compras sobre o balcão. A essa hora Theo começou a sentir bastante frio. Sua mãe foi ligar o aquecimento. Acontece que Alice Parker, uma mulher negra, inventou a fornalha de aquecimento. Mesmo no verão eles não teriam sorte, pois Frederick Jones, um homem negro, inventou o ar condicionado.

Já era quase a hora em que o pai de Theo costumava chegar em casa. Ele normalmente voltava de ônibus. Não havia, porém, nenhum ônibus, pois seu precursor, o bonde elétrico, foi inventado por outro homem negro, Elbert R. Robinson.

Ele usualmente pegava o elevador para descer de seu escritório, no vigésimo andar do prédio, mas não havia nenhum elevador, porque um homem negro, Alexander Miles, foi o inventor do elevador.

Ele costumava deixar a correspondência do escritório em uma caixa de correio próxima ao seu trabalho, mas ela não estava mais lá, uma vez que foi Philip Downing, um homem negro, o inventor da caixa de correio para a colocação de cartas e William Berry inventou a máquina de carimbo e de cancelamento postal.

Theo e sua mãe sentaram-se na mesa da cozinha com as mãos na cabeça. Quando o pai chegou, perguntou-lhes: “Por que vocês estão sentados no escuro?”. A razão disso? Pois Lewis Howard Latimer, um homem negro, inventou o filamento de dentro da lâmpada elétrica.

Theo havia aprendido rapidamente como seria o mundo se não existissem as pessoas negras. Isso para não mencionar o caso de que pudesse ficar doente e necessitar de sangue. Charles Drew, um cientista negro, encontrou uma forma para preservar e estocar o sangue, o que o levou a implantar o primeiro banco de sangue do mundo. E se um membro da família precisasse de uma cirurgia cardíaca? Isso não seria possível sem o Dr. Daniel Hale Williams, um médico negro, que executou a primeira cirurgia aberta de coração.

Então, se você já se perguntou, como Theo, onde estaríamos sem os negros? Bem, é muito fácil de ver. Ainda estaríamos no escuro!


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EPARREI !

yansã-4dezNão poderia deixar o dia acabar sem falar nadica, sobre ela… Yansã ou Iansã também conhecida por Oyá.

Para quem não sabe, Yansã é um Orixá feminino do panteão de divindades Yorubá, a “rainha dos raios”, a “melhor companhia na guerra” , “a companheira da Justiça” , a “sensualidade forte e cativante” , a “curiosidade e desejo de aprender” e também a “condutora dos mortos” para “o outro lado”,  e junto com Oxum e Obá é companheira de Xangô (o poderoso Orixá da Justiça).

Nas religiões brasileiras de matrizes africanas é muito cultuada, tanto nas mais antigas e africanizadas como é o Candomblé de Keto, quanto na Umbanda (religião genuinamente brasileira que recebeu elementos do Candomblé, Kardecismo, Catolicismo e cultos indígenas-derivados como a Jurema e  o Catimbó ).

Devido as restrições as práticas religiosas dos escravizados  trazidos de África e seus descendentes, como forma de resistência e a fim de manter os cultos as suas divindades africanas, foi desenvolvido o sincretismo religioso, que consistia em associar a divindade africana a um santo da igreja católica, ou seja, “botar o santo na frente” para cultuar sem maiores restrições a divindade “por trás”, estratégia bastante utilizada até os dias de hoje,  e principalmente  incorporada as tradições da Umbanda que por essência agrega elementos de várias religiões e por natureza é altamente sincrética,  sincretismo esse que há bons anos vem sendo reduzido e praticamente extinto dentro das tradições e práticas do Candomblé.

No calendário católico, o dia 4 de dezembro é o dia de Santa Bárbara, com quem  Yansã foi sincretizada devido as cores de vestimentas coincidentes (vermelho, ou vermelho e branco) e principalmente pela características  de “protetora contra” e “rainha/divindade” dos raios, atribuídas respectivamente a uma e outra, sendo assim o dia de Santa Bárbara passou a ser também o “Dia de Yansã”, os anti-sincretistas mais ferrenhos defendem a dissociação disso, mas a maioria dos adeptos de ambas religiões mantém o costume de “comemorar” Yansã no 4 de Dezembro.

Portanto fica aqui a saudação a essa importante divindade das religiões afrobrasileiras (e que “por acaso” 🙂 é meu Orixá de de cabeça, ou seja, minha “mãe-protetora”), EPARREI OYÁ !!!!