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Os "chifres" do Sr. Presidente e a poligamia

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Zuma e esposa


Presidente Zuma e suas esposas, a primeira da esquerda para direita é Nompumelelo Ntuli

Mais do que a abertura da copa do mundo de futebol 2010, na África do Sul, as atenções por lá e agora por aqui, tem sido direcionadas para  a notícia do adultério praticado com um dos seguranças presidenciais por uma das primeiras-damas do país (Nompumelelo Ntuli, a segunda das 3 atuais esposas do Presidente sul-africano Jacob Zuma de 67 anos), que inclusive teria engravidado do guarda-costas Phinda Thomo (que se suicidou após a história toda vir a tona).

Zuma que é do grupo étnico (tribo) Zulu, é um ferrenho defensor dos costumes tradicionais dos Zulus, entre eles a poligamia;  casou 5 vezes e tem cerca de 20 filhos reconhecidos; divorciou-se de uma das esposas  e ficou viúvo de outra (que se suicidou após 24 anos de casamento) ; além das 3 atuais esposas Zuma tem também uma “noiva” com quem tem anunciado pretensão de casamento para breve.

Antes de qualquer coisa acho justo lembrar que “chifre” é uma coisa extremamente democrática, atinge poderosos, pobres, poligamos, monogâmicos, pretos, brancos, asiáticos, indígenas, gente de todos os credos,, heterosexuais, homosexuais, jovens, velhos, bonitos, feios  e até quem não é casado…,  portanto nada de querer fazer a automática ligação de poligamia ou  de amantismo com “bem merecidos chifres”… , como dizem os norte-americanos “Shit happens…”

Ao invés de apenas repercutir  o caso ou  fazer comentário sobre a situação específica, achei que seria uma ótima oportunidade para falar sobre uma questão cultural não apenas africana, mas histórica e mundial, que é a poligamia (e que sempre achei um assunto muito interessante…).

A poligamia, que é a composição familiar tipicamente patriarcal a partir do casamento de um homem com várias mulheres, é coisa natural e antiga, remonta à  mais longíqua antiguidade e está (ou esteve) presente na base de todos os povos e culturas do mundo.

Quando se fala em poligamia, a primeira imagem que vem à mente, são os misteriosos e vigiados haréns de mandatários árabes, mas na realidade essa prática de muitas esposas e concubinas reais ocorreu em muitos outros povos, aliás não apenas reis e outros poderosos praticavam a “poligamia oficial” , pessoas “comuns” também, mas é certo que para tal, a condição básica sempre foi a capacidade provedora suficiente do homem, ou seja, se poderia ter a quantidade de mulheres e filhos que se aguentasse sustentar… .

Na natureza (entre os mamíferos)  a  “familia poligama” é o padrão na maioria das espécies, o chamado macho-alfa é o lider do grupo, sendo o único sexualmente ativo naquele grupo familiar, os que quiserem constituir familia própria tem que desafiar  e vencer em luta  o macho-alfa do próprio grupo ou   de outro, tomando então todas as fêmeas  para si  (The Winner takes All…), o interessante é que as fêmeas não brigam entre si por “exclusividade”  e também não aceitam sexualmente  outros machos que não o macho-alfa.

Só para lembrar aos que entendem a poligamia como sinônimo de atraso ou que por motivos “religiosos” e culturais a recriminam, temos nas bases da religiosidade e da cultura ocidental vários exemplos de lideranças e referências  morais” que eram  poligamas :

Na Bíblia: praticamente todos os patriarcas eram polígamos; O Rei Davi  era um reconhecido mulherengo e seu filho Salomão (o rei-sábio) tinha mais de 700 esposas e mais 300 concubinas…, isso é fato, embora muitos tentem justificar através de muitas outras citações que tal comportamento não era “bem visto” por Deus e deveria ser “convenientemente” substituido pela monogamia.

No oriente: Gregos, Romanos, Hindús, Babilónios, Persas, Árabes, Chineses, Nipônicos e muitos outros povos praticaram históricamente a poligamia,  coisa ainda muito comum em alguns países mesmo não havendo poligamia oficializada, a China por exemplo com todo o controle estatal exercido e apesar de ter proibido a poligamia no inicio do período comunista, ainda hoje se vê as voltas com casos de poligamia não oficializada mas de fato… .

Na europa pré-cristã:  até por volta do primeiro milênio da era cristã (séc. X) era comum a poligamia, que  somente a muito custo deixou de ser aberta e oficializada pelos estados recentemente convertidos ao cristianismo.

O islamismo:   segunda religião mais professada no mundo (21%) e  que hoje não se restringe apenas ao povos árabes e descendentes, mas está espalhada por todo o mundo  (segundo as autoridades islâmicas só no Brasil,  há mais de  1 milhão de adeptos), admite a poligamia com até 4 esposas.

Cristãos : entre os mesmos a poligamia institucionalizada ou  de fato também  já foi muito praticada, inclusive houve papas casados (o último papa casado foi Adriano 2º (867 – 872).) que mantinham concubinas ; mesmo sem casamento a prática de relacionamentos “estáveis e duradouros” com várias mulheres  persistiu algum tempo, por exemplo o Papa Alexandre 6º (Rodrigo Bórgia – 1.492 – 1.503),  tinha 6 filhos…  ;  nos EUA entre os conhecidos Mórmons (Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias) a prática da poligamia foi natural por mais de 100 anos tendo sido abolida oficialmente em 1890,  porém ainda hoje grupos dissidentes como a Igreja Fundamentalista de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, possui na região de UTAH e redondezas,  cerca de 40.000 membros que se recusam a abandonar a prática (não oficializada obviamente).

Em várias outras partes do mundo e da história, a poligamia se fez e faz presente, na África muitas etnias mantém a tradição, na Suazilândia (última monarquia absolutista do mundo, país encravado dentro da África do Sul e fronteiriço com Moçambique) o Rei tem mais de 30 esposas (e todo ano há um festival para escolher mais uma…); nos antigos reinos da região havia desde há muito tempo a figura do “assistente real”, que nada mais era que um “ricardão oficial” que “fazia a manutenção” das esposas que o Rei já não visitava mais com frequência, o detalhe é que uma vez atendida pelo assistente, nunca mais a esposa voltava ao leito real, mas continuava esposa… .

É importante frisar que ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, a poligamia tem regras rígidas que exigem responsabilidade do homem e tem servido para evitar que mulheres e crianças fiquem desprovidas de direitos e dignidade familiar, no ocidente hipocrita o que se pratica é o AMANTISMO…, que é nada mais nada menos, que o relacionamento de um homem com várias mulheres onde apenas uma é  esposa, por vezes constituindo famílias paralelas, mas de forma dissimulada e infâme, mantendo mulheres e filhos ilegítimos na clandestinidade; a lei brasileira por exemplo ampara o filho ilegítimo que tem a paternidade reconhecida legalmente (de forma voluntária ou compulsória), mas não reconhece qualquer direito à concubina de homem já legalmente casado.

Para finalizar deixo uma recomendação para uma leitura envolvente sobre o tema, um dos meus livros favoritos,  o romance  da escritora moçambicana Paulina Chiziane : Niketche, uma história de poligamia (tem na livraria Saraiva e dá para comprar pela Internet), é um livro daqueles imperdíveis que além de desvendar várias facetas do comportamento humano nos faz viajar conhecendo detalhes de outras culturas. ver a resenha em : http://www.irohin.org.br/imp/n10/36.htm

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Autor: Juarez Silva (Manaus)

Analista de T.I, Prof. Universitário, Tít. de Especialista em Educação a Distância (Univ. Católica de Brasília), Certificação em História e Cultura africana e afrobrasileira (FINOM-MG) e em Direitos Humanos e Mediação de Conflitos (SEEDH- Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República), Mestrando em História pela UFAM - Universidade Federal do Amazonas, Ex-Conselheiro Estadual de DH; Analista Judiciário do Quadro efetivo do Tribunal de Justiça do Amazonas. Ativista do Movimento Negro.

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