Blog do Juarez

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Afrolatinoamericanos, os invisibilizados

Essa escrita é breve. É apenas para lembrar que os projetos nacionais de branqueamento das populações foram comuns em toda a América do século XIX avançando pelo XX.

No entanto, todas as iniciativas eugenistas não foram suficientes para de fato eliminar fisicamente as populações negras desses países, que então passaram a ser invisibilisadas, negadas, minoradas. Em alguns países como Brasil e os caribenhos essa presença é muito ostensiva, portanto difícil de ocultar, em outros não…

As populações afro existem, estão lá vivas e firmes nas suas lutas pela visibilidade e contra a discriminação.

Então, colabore com a luta delas, ao invés de reforçar a sua invisibilisação, reproduzindo o discurso de que elas não existem.

Aqui destacamos apenas parte dos países da América do Sul, que são os que sofrem mais com essa invisibilidade. Essa presença negra se dá também em toda América central, Caribe e América do Norte.

Apenas à título de informação, o título de “Mãe da Pátria Argentina” pertence à Capitã Maria Remédios Del Valle, heroína de guerra da Independência argentina…

Rode a galeria para ver integralmente as fotos:


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Africanos na América muito antes de Colombo

Esse texto obviamente não se pretende de rigor e formatação científicos, é um texto popular e referencial que aponta para fatos reconhecidos na comunidade científica especializada, mas não muito divulgados ou consolidados, para o grande público.

Vários foram os reinos e impérios africanos antes do contato com os europeus, reinos e impérios ricos e poderosos. Um deles foi o Império do Mali, na região de Manden, por Isso também conhecido por Mandinga, durou entre 1235 e 1670, o território era o ocupado pelos atuais Mali, Serra Leoa, Senegal, Gâmbia, Guiné e sul do Saara Ocidental.

Nele governou no início do séc. XIV Abu Bakr II, também citado como Abubakari II, que foi sucedido em 1.311 por Mansa Musa, o “Leão do Mali”, tido como o homem mais rico que já existiu, mas a interessante história de Musa não é nosso objeto, está nas referências para quem se interessar, é importante aqui pelo relato que segue:

“Al-Umari, historiador e viajante árabe da Idade Média, afirma que, em sua estada no Egito, ouviu a seguinte estória, que havia sido ali contada por Mansa Musa, então senhor do Mali: O governante que me precedeu não acreditava que era impossível alcançar a extremidade do oceano que circunda a Terra, e queria chegar ao final dele. Assim, equipou duzentos barcos cheios de homens, e muitos outros cheios de água, ouro, e provisões suficientes para vários anos. Então, ordenou ao capitão que não voltasse até que eles chegassem ao outro lado do oceano, ou até que estivessem esgotadas provisões e água. Mas, apenas um barco retornou. Quando questionado, o capitão deste barco respondeu: “Navegamos por longo período, até que vimos, no meio do oceano, um grande rio que flui de forma maciça. Meu barco foi o último; os outros, que seguiam antes de mim, foram afogados num grande redemoinho, do qual não saíram de novo. Eu naveguei de volta para escapar da corrente.” Mas, o sultão não se deu por satisfeito: ordenou que se preparasse dois mil barcos para ele e seus homens, e mais mil para a água e provisões. Em seguida, conferiu a regência a mim durante sua ausência, e partiu com seus homens, para nunca mais voltar; nem para dar um sinal de vida. Assim sendo, há quem acredite que o governante desaparecido, Abu Bakr II, tio-avô de Musa, não retornou porque desembarcou nas Américas” (SANTOS, 2016)

Fonte: Mansa Musa: The Lion of Mali de Kephra Burns, ilustradores Leo e Diane Dillon (2001)

Relato histórico básico do fato realizado, as expedições, e corrigir um detalhe, na verdade Abu Bakr II era irmão de Mansa Musa, não Tio-avô, provável confusão com Abu Bakr I, cabe complementar com outros detalhes e fortes evidências de que as expedições mandingas atingiram as Américas.

São várias as fontes possíveis, mas vou me concentrar no interessante trabalho publicado por Elisa Larkin do Nascimento, pesquisadora reputadissíma, que por sua vez se apoia em outros renomados como Ivan Sertima, que revela testes feitos com modelos de antigas embarcações africanas provando a sua capacidade transatlântica. Elisa Larkin traz inclusive elementos de presença africana nas Américas anteriores à de Abu Bakr II, porém vamos manter o foco:

“Abubakari II manda construir uma frota de navios e embarca, em 1311, pelos “rios no meio do mar” que levam o navegante em direção às Américas. Trata-se do mesmo complexo de correntes marítimas que trouxe Pedro Alvares Cabral ao Brasil. Algumas dessas correntes partem da costa ocidental da Africa em direção à Península de lucatã, região do litoral mexicano onde floresciam naquela
época as civilizações clássicas maias e toltecas.

Exatamente em 1311, de acordo com a concepção cíclica do tempo no calendário maia, o Popol Vuh registra o retorno à sua terra do deus-serpente emplumado, Quetzalcoatl, na forma de um homem escuro, alto e barbado, vestido de branco. O retrato coincide perfeitamente com a figura do imperador africano islamizado, que trajava vestes brancas e usava barbicha.
Os historiadores árabes da época registraram o embarque de Abu bakari II. Levando em conta as correntes marítimas e as viagens de Heyerdahl e outros marinheiros, a viabilidade da chegada às Américas do imperador africano fica evidente. Práticas religiosas e rituais, complexos de traços culturais, elementos lingüísticos, deuses e divindades, mitos e símbolos compartilhados entre a cultura maia e as culturas africanas de Mali corroboram a tese. Quando consideramos o volume de evidências reunidas por Ivan Van Sertima e outros autores, fica difícil deixar de concordar que o único obstáculo à aceitação geral da tese da presença africana nas Américas antes de Colombo é o eurocentrismo, que não permite à ciência abalar sua convicção da inferioridade africana.”

E segue, agora com uma evidência muito forte.


“Desde sua primeira viagem às Américas, Colombo realizava trocas com os índios caribenhos, que lhe vendiam tecidos africanos (almayzars) e outras peças elaboradas por meio de tradições próprias à África ocidental. Em sua segunda viagem ao Caribe, Colombo obteve dos indígenas da ilha de Espanhola, que hoje compreende o Haiti e a República Dominicana, várias pontas de lança feitas de uma liga metálica cheirosa. Os índios afirmavam ter adquirido essas peças dos “homens negros e altos que vinham de onde nasce o sol”. Os índios chamavam essas pontas de lança de gua-nin. Em Portugal, após entrevista com Colombo, o rei mandou analisar a liga metálica. Descobriu, então, que
se tratava de uma liga utilizada na África ocidental cuja fórmula era: dezoito partes de ouro, seis partes de prata e oito partes de cobre. O nome dessa liga, em todas as línguas africanas do grupo mande, é gua-nin (Sertima, 1976, p. 11-3). Outros objetos africanos apareciam da mesma forma entre os índios.” (NASCIMENTO, 2008)

Ou seja, não deixa espaço para dúvidas que os africanos mandingas não apenas chegaram, como interagiram com os nativos do “novo mundo”, bem antes de Colombo.

Fonte: Mansa Musa: The Lion of Mali de Kephra Burns, ilustradores Leo e Diane Dillon (2001)

No Brasil também.

Como dito as expedições mandingas envolveram milhares de embarcações, a ideia de naufrágios, separação das frotas, com chegadas em pontos diversos não é desprezível, afinal as conhecidas correntes atlânticas levam à diversos pontos nas Américas.

Capa do livro Abu Bakr II: explorador mandinga de Diawara

Tiemoko Konate, da equipe de pesquisadores do autor de “Abu Bakr II, explorateur mandigue” Gaussou Diawara, diz que a frota de Abu Bakr II teria chegado também na costa brasileira, onde hoje é Recife, e estabelecido uma colônia, “Seu outro nome é Purnanbuco, o que acreditamos ser uma corrupção do Mande Boure Bambouk, os campos ricos em ouro que representavam grande parte da riqueza do Império do Mali”

outros textos, esses de referências menos sólidas, ou mesmo sem referências, de que Boure Bambouk ou Purnanbuco, teria sido uma bem sucedida experiência de colonização mandinga, pelo próprio Abu Bakr II com alta integração com os Tupis, e com conhecimento e contato com o Mali, que após duas gerações se desinteressou pelas colônias de além-mar.

Os comerciantes de Purnanbuco, sob o comando de Mohammed, fiho de Abu Bakr II, teriam atingindo por volta de 1340 a Península de Yucatán e estabelecido comércio com os Maias. De qualquer forma, são tantos detalhes e coincidências da narrativa, com outras melhor referenciadas, e conhecendo o histórico de apagamentos eurocêntricos dos protagonismos africanos e civilizações pré-colombianas, que tendo a ver grande plausibilidade.

Referências

SANTOS, Ademir Barros dos. Mansa Musa: o homem mais rico que o mundo já viu. 2016. Portal Por Dentro da África. Disponível em:   http://www.pordentrodaafrica.com/cultura/22885 . Acesso em: 12 set. 2020.

NASCIMENTO, Elizabeth Larkin. 2008. Sankofa: As civilizações africanas no mundo antigo. In: A matriz africana no mundo. São Paulo: Selo Negro Ed. Col. Sankofa I: Matrizes africanas da cultura brasileira, p.98-107.


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Gato que nasce no forno…, ou o terraplanismo panafricanista de facebook

Na temporada que passei lecionando em Moçambique anos atrás, aprendi um ditado que era usado pelos portugueses e seus descendentes nos tempos coloniais, que no caso foi até meados dos anos 70 do século passado, portanto “recente”. O ditado dizia “Gato que nasce no forno não é biscoito, é gato”, ou seja, não importa o local de nascimento, mas sim de quem se descende. Era uma forma de “proteger” os filhos e “proteger-se”, no caso dos nascidos na colônia, da identificação estigmatizante como africanos, apenas por terem nascido no continente.

Era uma utilização obviamente racista e negacionista. Racista por entender que ser africano, mesmo que de origem européia era “ofensivo” e segundo por negar uma condição óbvia chamada NATURALIDADE.

Fiz a introdução para demonstrar o quão tortas e falaciosas são as premissas de “panafricanistas de facebook” que se identificam como “Afrikanos” ou “Afrakanos” não o sendo. Usando a mesma lógica, do “não importa onde nasça só seus ancestrais é que te definem”, acabam por repetir a mesma barbaridade que unia os racistas da Klu Klux Klan, que viam os negros que ajudaram a construir os EUA como alienígenas africanos (enquanto não se viam como invasores alienígenas da América) e desejavam mandar os negros para “o seu lugar, a África” e os seguidores de Marcus Garvey, que pretendiam se apossar da África por se considerarem “africanos”, apenas pela descendência.

Não é à toa que são tão agressivos, renitentes e fascistóides como os terraplanistas e outros tipos de negacionistas que se agrupam ou sobrepõem. Por mais que se apresentem argumentos e evidências nada os demovem da “fé cega” e da negação das evidências.

Quando topo com um desses ai pela web, lembro dos neonazistas brasileiros que escreveram para um grupo neonazi alemão e foram esculhambados, rechaçados e chamados de “cucarachas”, ou mais recentemente dos “brancos do sul” que foram mortos pelos gringos no filme Bacurau. Exemplos de percepção fantasiosa e identidade falaciosa.

Vou dar um exemplo, é comum no Brasil as vezes se referir ou apelidar às pessoas por sua ancestralidade, “Alemão”, “Japonês”, “Turco”, “Portuga”, quando há um fenótipo ou informações que apontem para essas origens nacionais… . Isso porém não ocorre com todo brasileiro dito “branco”. Por outro lado, diga sinceramente se você já viu algum branco brasileiro, mesmo os descendentes de imigrantes mais “recentes” se dizendo “EUROPEU” ou assim sendo referenciado ??? . Ser branco não é necessariamente ser europeu, no mais das vezes é ser eurodescendente, o que é coisa distinta. Então por que raios, alguns afrodescendentes, afrodiaspóricos querem insistir em se dizer “Afrikanos” ou “Afrakanos” quando NÃO SÃO ???. Qual é a dificuldade de entender que africano é quem nasce em África e que quem descende de africanos é afrodescendente. ? As palavras não existem e são diferentes à toa.

Não venham brigar comigo, vão brigar com os livros, dicionários, com a ONU…, que diz claramente em seu glossário que afrodescendente “é uma pessoa de descendência africana subsaariana, mas NÃO É ele(a) mesmo(a) africano(a).”

Na terraplana panafricanista de facebook, evidências e referências não contam, anos de estudos sobre África, africanos e diáspora não contam, experiências reais em África não contam…, só o que conta é usar a mesma lógica racista e estapafúrdia, do “não sou biscoito só por ter nascido no forno”, se fantasiarem de afrakanos (com coisas que nem os próprios africanos usam) e saírem bradando mecânica e insistentemente “Sou Afrikano”, além é claro de atacar quem por N motivos não concorda.

Enquanto isso, depois de 3 décadas de estudos, alguma grana gasta com livros, incontáveis horas de pesquisa em N meios, cursos sobre História e Cultura africana e afrobrasileira, temporada em África para uma experiência real, seminários, congressos, vivências culturais, artigos, capítulos de livro publicados, reconhecimento público e acadêmico na temática, lá vem aquela meninada que não consegue se contrapor a um argumento no mesmo nível, gastar sua agressividade, arrogância e soltar emojis com risadinhas… . Se a gente após todo esse trabalho “não pode” nem opinar no que conhece, fico imaginando o que é que os autoriza sem nada disso.


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Ifá, filosofia, tecnologia ou religião ?

Essa é uma discussão recorrente e não é exclusiva de uma ou outra tradição (a africana ou a afrocubana) e chega à reflexão acadêmica de estudiosos das matrizes africanas, com posição favorável à autodefinição como “filosofia assistida por tecnologia ancestral de comunicação cósmica”. Enquanto iniciado em primeira mão, portanto caminhante no aprendizado básico sobre Ifá, mas principalmente como acadêmico, não limito a visão a tal, acato, mas vejo possibilidade outra.

Em história por exemplo, trabalhamos com a categoria das fontes e a do próprio pesquisador, que não escreve para o passado, mas sim para o presente, onde estão seus questionamentos e leitores, e quiças o futuro. Sendo assim, não necessariamente o fato de no passado uma categoria ter nome ou conceito um pouco diferente do que se identifica olhando a partir de hoje, obriga a trabalhar somente com a categoria e terminologia das fontes, ou seja daquela época. O trabalho se dá com a categoria da época ao nível das fontes, mas a análise e reflexão pode e deve abrigar categoria hoje disponível e melhor para a compreensão problemática.

Muito embora Ifá possa ser tudo que se coloca no enunciado, a depender do nível em que se está envolvido ou comprometido com ele, vamos ao “popular”.

Se uma pessoa hoje vê algo em que há presença de:

Divindade(s)
Crença/culto
Noção de sagrado
Sacerdócio
Seguidores
Mística
Congregação/Irmandade

Ela identifica como o quê ??? RELIGIÃO, pura e simplesmente. Em primeiro momento não faz diferença se o foco maior é no culto ao divino, nas formas cósmicas do divino, na filosofia aplicada à vida ou nos detalhes teológicos ou tecnológicos.

Se no meio yorubá original não se entendia culto e vivências com exatamente o mesmo conceito eurocentrico de religião, hoje, no caldeamento cultural em que vivemos, é muito difícil deslocar Ifá de uma categorização não apenas de tradição, mas de “tradição religiosa”.

Ifá não tem “mestres” como em uma mera filosofia, tampouco meros “operadores” de tecnologia oracular, e sim sacerdotes…, e esses últimos só existem em religiões, portanto… 🤷🏿‍♂️


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Babalawo Marcio Obeate, agora no YouTube, explica o Ifá.

Se você busca conhecer as religiões de matrizes africanas, o Culto de Ifá e seu profeta Orunmila, com seriedade e uma sólida base de informações, visite o canal deste sacerdote.

Consagrado babalawo (pai do segredo) na maior Rama da Tradição Afro Cubana de Ifá do Brasil, o jornalista Marcio Alexandre Martins Gualberto, um reconhecido ativista das causas sociais, adotou o nome religioso de Babalawo Obeate Ifairawo e ao longo dos últimos anos vem divulgando textos onde busca desmistificar algumas ideias pré concebidas deste e de outros cultos oriundos do continente africano. 

Ifá é um dos mais antigos sistemas oraculares da humanidade tendo sua origem no continente africano desde tempos imemoriais. Regido por um Orixá, ou profeta, chamado Orunmila, Ifá conecta o ser humano ao seu destino e, como culto dá à pessoa instrumentos para lidar com as dificuldades cotidianas para viver bem o seu destino. 

O destino do ser humano é revelado através dos odus de Ifá que são 256 que se combinam e recimbinam até chegar ao infinito, dando assim à pessoa que se inicia a bula de sua vida, ou seja, as orientações para evitar os osobos (negatividades) e fortalecer o Ire (positividade). 

O Babalawo Obeate Ifairawo mantém sua família religiosa com cerca de cinquenta afilhados no bairro de Pedra de Guaratiba, Rio de Janeiro e de lá propaga o culto de Ifá para todo o país, tendo entre seus afilhados pessoas que vivem no Amazonas, Bahia, Rio Grande do Sul, Espírito Santo e Portugal.

Visando dar mais objetividade às suas ações, Marcio Alexandre inaugurou seu canal, Babalawo Obeate Ifairawo e onde serão postados vídeos curtos abertos ao público e palestras privadas somente para aqueles que buscam ter um conhecimento mais profundo do culto de Ifá e da Tradição Afro Cubana. 

Para maiores informações:

Contato: 21982421476

Link do canal: https://youtu.be/XI6WmJFtjE4


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Por quê os Orixás se comportam diferente e se apresentam distintamente em África, Caribe e Brasil ?

Yemanjá em terra, na Nigéria, Brasil e Cuba.

Logo de início deixo claro que é apenas uma reflexão minha, uma hipótese levantada a partir do meu conhecimento sobre as religiões de matrizes africanas enquanto estudioso/ acadêmico e praticante neófito (há alguns anos), não a partir dos “segredos” e fundamentos que só pertencem aos sacerdotes e sacerdotisas.

Orixás nas américas e caribe vieram nos oris dos traficados de África. Assim como os nossos ancestrais tiveram que se adaptar ao novo mundo as formas de culto também… .

Não são os Orixás feitos dos Orixás dos Babas e Yas ? Não conformariam linhagens com características “hereditárias” ? de quantos “oris originais” saíram os santos afrobrasileiros ? Isso explicaria o “padrão” que temos aqui ? diferente dos africanos ou mesmo dos caribenhos, sobretudo os cubanos, cujas características são parecidas entre si, mas um tanto diferente dos que vem à terra no Brasil ??? .

Outra questão que se coloca ante algumas afirmações “puristas” que visam colocar as práticas em África como “preferenciais e verdadeiras tradições a serem seguidas” é : As formas de culto em África permanecem as mesmas de 500 anos atrás ? de certo não, inclusive algo do perdido por lá, aqui foi preservado, mas como lá, também aqui ocorreram mudanças circunstanciais… .

Não existe “pureza” em se tratando de cultura mas sim tradições e isso inclui as relações e práticas do místico-sagrado, no entanto é bom lembrar que toda tradição é uma invenção, uma construção ao longo do tempo e do espaço, que agrega, abandona e substitui elementos além de mesclas com elementos de outras culturas que com o tempo passam a ser vistos como parte natural da tradição sem maiores questionamentos.

A natureza é forte mas até ela muda ou é mudada, por vezes em alguns aspectos “controlada”. Todo fogo é incontrolado/ incontrolável ?, toda água só vai aonde quer e como quer ? não se pode “obrigar” uma nuvem a fazer chuva ?, o vento não pode levar um barco a um destino ? não pode ser produzido em forma de jato ? não existem “quebra-ventos” ?, o ar não pode ser resfriado, aquecido, canalizado? então…

Isso não quer dizer que a natureza seja absolutamente controlável e sabemos muito bem que não, tampouco as forças naturais ou sobrenaturais.

Se partirmos do pressuposto que “nada se controla” das forças ou energias da natureza ou que nada funciona fazendo um pouco ou mesmo medianamente diferente, então teríamos um grande paradoxo, pois não existiria nem tecnologia, muito menos mística… nem aqui, nem no Caribe, nem em África… 🤷🏿‍♂️


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Oito motivos para eu não ser um panafricanista garveista

Já começo reforçando que esses são MEUS motivos PARA NÃO O SER e como nada na vida é absoluto, obviamente também teria motivos outros caso quisesse se-lo… só que na minha percepção os motivos abaixo pesam mais e por si só inviabilizam uma opção de “pareamento” com o garveismo.

Vou chamar essa selfie de “Sou afro sim, africano não…”

Isso não quer dizer que não preze a minha ancestralidade africana e que não reconheço uma “linha” que nos une enquanto afrodiaspóricos e aos africanos, mas o faço de forma bem consciente de que sou afrobrasileiro (até porque ao contrário de todos “panafricanistas garveistas” que cruzo pela web, eu vivi em África…) e sei bem que meu lugar é aqui, não sou africano, apesar das raízes me fazerem um afro.

Marcus Garvey, foi um líder negro, nascido na Jamaica e criador do mais mobilizador e conhecido movimento panafricanista, a Associação Universal para o Progresso Negro ou AUPN mais conhecida pela sigla em inglês UNIA de Universal Negro Improvement Association. Não vou nem deixar link para sua biografia, há várias, basta pesquisar na web, a maioria absolutamente laudatória, deixando de lado fatos importantes para uma avaliação mais integral e realista sobre Garvey e sua ideologia, portanto, aqui vou tratar do que a maioria dos “idolatradores” de Garvey e defensores acríticos do panafricanismo, desconhece. Os dados e fatos biográficos abaixo são recolhidos de várias fontes, mas também estão todos nesta biografia de 2008, para quem lê bem em inglês…,tem na Amazon e formato Kindle, Negro with a Hat: The Rise and Fall of Marcus Garvey (Negro de chapéu: a ascensão e queda de Marcus Garvey)

Então vamos lá…

1- Ao contrário de outras importantes referências do conceito de negritude, do afrocentrismo e panafricanismo, Garvey não era africano, mas sim um afrodiaspórico, que nunca esteve na África (e não vou discutir os motivos), portanto, como a maioria dos que não tiveram essa experiência, mantinha uma ideia romântica e ilusória sobre “África como verdadeiro lar de todos os negros do mundo” e que a origem continental ancestral remota e a pele preta seriam os principais elementos de “irmandade” entre diaspóricos e africanos. Coisa que qualquer diaspórico que tenha vivido minimamente em África sabe ser falso, lá o que manda é a etnicidade, quando muito a nacionalidade, a cor da pele não faz ninguém “irmão” automaticamente, pelo contrário, mínimas diferenças cromáticas, não percebidas entre os diaspóricos, te “tiram da turma” de cara, isso sem falar a questão cultural. Se 100 Km são suficientes para ter uma mudança de concentração étnica, língua e costumes, a noção de “estrangeiro” é muitíssimo mais exacerbada, já que a noção de povo / nação é muito mais restrita. Em suma, qualquer “retornado” e tanto faz se no tempo de Garvey ou hoje, sempre seria um estrangeiro, visto como qualquer outro estrangeiro um potencial “recolonizador”, com tudo que a palavra possa significar, além de passivo de xenofobia.

2- Acrescento aos motivos acima, as grandes diferenças entre os próprios afrodiaspóricos, que ao contrário dos africanos, não são etnizados, mas sim “racializados.. Ou seja, o que nos une na diáspora é primeiramente a cor da pele, mesmo que de distintíssimos matizes, pois ela indica uma história ancestral dividida, nem tanto pela origem em África, mas a partir do tráfico negreiro, do cativeiro, das tradições e traços culturais trazidos, mantidos e adaptados, mas principalmente dos surgidos em cada contexto afrodiaspórico, além das vicissitudes do pós-cativeiro. Somos portanto NEGROS e não apenas PRETOS como o são os africanos. Isso significa que a cultura negra e a identidade negra, apesar de tributária de várias identidades étnicas africanas, são coisas que só a nós afrodiaspóricos competem e se atribuem. O entendimento de NEGRO como sinônimo de PRETO é um equívoco, que aliás os próprios africanos fazem sempre questão de nos lembrar. Mesmo que a União Africana tenha acenado com um simbólico (e na prática inútil) reconhecimento da diáspora africana como 6a região da África. Enquanto isso a ONU (por fomento da delegação brasileira à Conferência de Durban em 2001) sabiamente em sua redação oficial resolve esse conceito assim:

Ou seja, “africano” é uma coisa, “afrodescendente” é outra… . A tão citada “6a região da África” na prática não torna ninguém africano, pois africano é uma identidade continental, de quem nasceu na África ou possui cidadania de um de seus países…, tente obter um passaporte ou ao menos um visto facilitado para visitar qualquer país africano baseado nesse “reconhecimento”, se conseguir por favor me avise… .

Ainda nesse quesito, quero lembrar a inteligente crítica e analogia feita no filme “Pantera Negra” em que vimos um amargurado afrodiaspórico Kill Monger, após reivindicar “seu reino por direito” em África e se transformar em um tirano, morrer, combatido pelos wakandianos. Isso não antes de fazer seu discurso NEGRO, e reconhecer que na verdade “os seus” eram os que atravessaram ou ficaram pelo meio do Atlântico no tráfico negreiro. Os seus eram na verdade, os que compartilharam as agruras afrodiaspóricas, não aqueles que ficaram em Wakanda (uma África tão mítica, quanto a imaginada pelos afrodiaspóricos) e viam nele um estranho, mais um “estrangeiro colonizador” e não lhe reconheciam como “legítimo”, mesmo historicamente sendo um verdadeiro herdeiro.

3- Garvey era um NEOCOLONIALISTA, pretendia RECOLONIZAR a África, criando uma ELITE baseada nos “retornados” e nos valores já eurocentrados destes, não nos dos verdadeiros africanos. Ou seja, ele não pretendia reintegrar os negros à África e suas culturas, pretendia fazer o mesmo que os colonizadores brancos pretendiam. Basta ver uma divisão proposta e os títulos NOBILIÁRQUICOS EUROCENTRADOS que pretendia IMPOR em África, vide:

Em 1920, a Unia realizou a I Internacional Convention of Negroes of the World (Primeira Convenção Internacional dos Negros do Mundo), reunindo delegados dos Estados Unidos, de Cuba, Barbados, Jamaica, Costa Rica, Honduras, Panamá, Equador, Venezuela, Guianas, Etiópia, Austrália, em síntese, congregando delegados oriundos dos diversos países com representação. Os desfiles espetacularizados promovidos pelas delegações durante o evento – momentos nos quais se entoavam hinos, ostentavam slogans e ovacionavam Marcus Garvey – indicavam a pujança da Unia e sua capilaridade. Ao final do conclave, foi tomada uma série de deliberações, como a promulgação da Declaração Universal dos Direitos dos Negros, que trazia um programa de 54 pontos; a instituição de uma nobreza negra, com alguns membros da Unia sendo agraciados com os títulos de Cavaleiros do Nilo, Cavaleiros da Ordem de Serviços Relevantes da Etiópia, Duques do Níger e de Uganda, entre outros; e a aclamação de Garvey como Presidente Provisório da República Africana, uma espécie de governo em exílio. (DOMINGUES, 2017)

ou ainda conforme

Garvey reclamou que a África fosse reservada aos africanos e que se organizasse o regresso a África dos negros de outros continentes. Tratar-se-ia de uma verdadeira expedição colonial, porque em terras africanas os negros vindos do outro lado do Atlântico constituiriam inevitavelmente uma elite, detentora de capacidades técnicas e administrativas com as quais os autóctones não saberiam competir, e transformar-se-iam em exploradores da mão-de-obra nativa. Esses imigrantes negros, proclamou Garvey, iriam “ajudar a civilizar as tribos africanas atrasadas”, e se tal houvesse sucedido ter-se-ia reeditado em grande escala uma experiência anterior – a da Libéria, onde, como visto anteriormente, escravos emancipados tinham-se convertido numa classe dominante tão feroz que condenou ao trabalho forçado a população autóctone, a quem foi inclusivamente negado o direito de representação política. (PASSAPALAVRA, 2010)

Stokely Carmichael, um garveista famoso nos anos 60 ia na mesma linha ao afirmar:

A África não precisaria de estar dependente de técnicos estrangeiros para a reparação e a manutenção do mais moderno equipamento importado. Os técnicos africanos existem, eles estão na América. […] A nossa terra é em África, não na América. O nosso objectivo principal deve ser a África. (PASSAPALAVRA, 2010)

Olhando para esta fotografia abaixo, o quão “africano” se percebe em Garvey e seus seguidores imediatos ? O que se vê, ao contrário do mitificado “liberte-se da escravidão mental” é uma colonização eurocêntrica que beira ao patético…, ao menos para quem não se entendia como “outra coisa” diferente do africano, forjado em uma cultura caldeada.

Agora, abaixo, o Imperador da Etiópia, Haile Selassie, um verdadeiro membro de realeza africana…, ele até podia por questões protocolares e afirmação ante as realezas e governos ocidentais utilizar uniformes militares e outras vestimentas no mesmo estilo, mas não dispensava o tradicional africano não eurocentrado…, já viu alguma foto em que Garvey minimamente remetesse a um “africano” e não um colonizado/colonizador?, não? nem eu…

4- Luther King já dizia “negros são humanos, não super-humanos”, Garvey assim como qualquer um estava sujeito a equívocos, desvios de caráter e mesmo incompetência, logo, a sua “honorabilização” pode ser questionada a partir de muitos argumentos históricos. Uma falácia muito comum ocorre ao falar da Black Star Lines e de sua sucessora a Black Cross. A verdade é que ambas FALIRAM por má gestão, por possuir navios “bichados” . Garvey não foi “impedido” pelo governo norte-americano de navegar para a África com seus navios levando pretos norte-americanos, primeiro ele não foi autorizado por países africanos já livres como a Libéria e outros, depois a frota era reduzida e sofreu vários problemas que poderiam se tornar tragédias marítimas e por fim, como em toda falência, etc… os bens foram indisponibilizados. Garvey foi condenado e preso por fraude… e depois deportado. Nem nego que pode e provavelmente tenha “havido dedo” dos serviços de inteligência dos EUA, mas isso muda pouco as coisas, vide:

Se as articulações políticas de Garvey iam bem, mesmo em face dessa atmosfera de vigilância e suspeição, seus negócios iam mal. Os navios comprados começaram a apresentar problemas em suas viagens, “devido à necessidade de reparos técnicos e à má administração da empresa”. Logo a Black Star Line Inc. estava operando no vermelho. Mas, paradoxalmente, Garvey decidiu comprar mais um navio. Para arrecadar fundos, enviou “prospectos pelo correio, divulgando a venda de novas ações da empresa”. Esta iniciativa custou a ele e aos executivos da Black Star Line um “processo judicial pelo uso fraudulento dos correios e a consequente falência de sua empresa”. O processo, iniciado em 1923, foi acompanhado por diversos setores da opinião pública.
No ano seguinte, Garvey sofreria outro revés em seu projeto racial. Na IV Convenção Internacional dos Negros do Mundo, a Unia definiu o programa de colonização da África pelos negros dispersos pela diáspora, programa, aliás, que já vinha sendo esboçado desde a primeira Convenção. A princípio, o governo da Libéria acenou favoravelmente ao plano de colonização de afro-americanos, e a Unia até investiu na criação da Black Cross Navigation and Trading Company – mais um projeto de estabelecimento de linha de navegação a vapor entre os Estados Unidos e o continente africano, cuja intenção era garantir o transporte dos negros para Monróvia. (DOMINGUES, 2017)

5- Garvey NÃO FOI ACATADO nem pelos países livres africanos, vide:
O certo é que em junho de 1924 os governantes liberianos se opuseram terminantemente às atividades da UNIA no seu país, declarando que não autorizariam o estabelecimento de quaisquer colonos enviados pela associação. Como observou um biógrafo de Garvey, “na prática o movimento do regresso a África ficou liquidado quando a República da Libéria se recusou a apoiar o programa de colonização”. Entretanto, outros africanos haviam denunciado a pretensão de Garvey a apresentar-se como presidente provisório da África e houve também nigerianos e senegaleses a pronunciar-se contra a colonização do seu continente pelos negros norte-americanos. Com igual insucesso se deparou a delegação enviada pela UNIA à Abissínia no final da década de 1920, não se mostrando os governantes deste país interessados em qualquer afluxo maciço de negros americanos.(PASSAPALAVRA, 2010)

6- Garvey não era tão querido e respeitado entre outros panafricanistas e lideranças negras contemporâneas W.E.B Du Bois, chamou Garvey de “o inimigo mais perigoso da raça negra na América e no mundo” em uma edição de maio de 1924 de “A crise”.

7- Garvey ao fim e ao cabo tinha posições compatíveis com os racistas, acreditava em “pureza racial” e que “o lugar dos negros era na África “ e chegou a manter contatos com a KKK (Klux Klux Klan) vide:

Eu acredito numa raça negra pura, tal como todos os brancos que se prezam acreditam numa raça branca tanto quanto possível pura.

ou

a UNIA inseriu-se numa arraigada tradição de defesa da hegemonia branca nos Estados Unidos. Quando o presidente Harding, em outubro de 1921, declarou no Alabama que era contrário à mestiçagem e favorável à segregação, Garvey enviou-lhe um telegrama de felicitações, e a UNIA não teve vergonha de apoiar uma proposta de lei apresentada por um senador da direita racista, que propunha o repatriamento para África de todos os negros norte-americanos. Embora por razões opostas, observou Garvey, os objetivos de ambos eram convergentes .

Ou ainda

Vários historiadores têm comparado, com acerto, o movimento lançado por Garvey ao sionismo criado por Theodor Herzl, já que ambos se aliaram aos políticos racistas como forma de promover a migração, num caso dos negros para África, no outro dos judeus para a Palestina. [..] E assim se explica que Garvey tivesse beneficiado da aprovação do Ku Klux Klan e de outras organizações racistas brancas, cujos representantes foram frequentemente convidados a discursar nos comícios da UNIA.

Por fim

“A Sociedade Americana Branca, os Clubes Anglo-Saxônicos e o Ku Klux Klan gozam de todo o meu apoio na sua luta por uma raça pura”, afirmou Garvey sem quaisquer rodeios, “no mesmo momento em que nós estamos a lutar por uma raça negra pura” (PASSAPALAVRA, 2010)

8- Garvey era assumidamente um FASCISTA, disse sem rodeios 3 anos antes de morrer:
Nós fomos os primeiros fascistas. Disciplinamos homens, mulheres e crianças e preparamo-los para a libertação da África. As massas negras viram que só neste nacionalismo extremo podiam depositar as suas esperanças e apoiaram-no de imediato. Mussolini copiou de mim o fascismo, mas os reacionários negros sabotaram-no (PASSAPALAVRA, 2010)

Portanto car@ “irmã@” que “idolatra” Garvey e acha que é “africano” só por causa das ideias dele e de outros seus seguidores, bem como por nunca ter morado em África (como eu tive a oportunidade), eis ai os meus motivos REFERENCIADOS para não me somar à você e muit@s outros.

Se você curte e concorda com um neocolonizador, mal sucedido, admirador de racistas e fascista assumido (que inclusive reclamava ter sido copiado por Mussolini), problema seu…, mas agora não pode alegar que desconhece e não é admirador de um utópico, delirante e ainda bem, mal sucedido fascismo negro, EU TÔ FORA… .

Referências

DOMINGUES, PETRÔNIO. O “MOISÉS DOS PRETOS”: MARCUS GARVEY NO BRASIL. Novos estud. CEBRAP, São Paulo , v. 36, n. 3, p. 129-150, Nov. 2017 . Disponível em < http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-33002017000300129&lng=en&nrm=iso&tlng=pt > . accesso em 13 Fev. 2020.

PASSAPALAVRA. De volta à África (3): “Nós fomos os primeiros fascistas”. 2010. Site anticapitalista independente.Disponível em: <https://passapalavra.info/2010/07/26128/ >. Acesso em: 14 fev. 2020.


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IEMANJÁ TEM COR ?

Debate necessário. Eu particularmente entendo que a reapresentação antropomórfica das divindades africanas já é por si fruto do processo de apropriação da cultura europeia, em África não era assim e mesmo hoje nas religiões de matrizes africanas (desconto para a Umbanda que é essencialmente sincrética) nos assentamentos religiosos a divindade é representada por algo da natureza, um otá (pedra) por exemplo. Porém como nossa cultura envolvente de maneira tradicional faz representação “santeira” do sagrado, somado ao antigamente necessário sincretismo, acho válido para fins não estritamente litúrgicos.

É o caso das representações simbólicas afirmativas (como as estátuas públicas, estatuetas domésticas, representações em moda e midiáticas) a representação antropomórfica ligada à origem, ou seja, fenótipicamente africanas, até porque os itans/patakins (narrativas sobre as divindades) colocam essas forças na forma humana e contextos africanos).

Sempre digo que a apropriação cultural é normal em uma sociedade caldeada, o que não é bom é a EXPROPRIAÇÃO CULTURAL, e a “Iemanjá Ivete Sangalo” (com todo respeito à artista, inclusive adepta da matriz africana) é uma representação oriunda do hoje desnecessário sincretismo, mas também de um processo de EXPROPRIAÇÃO CULTURAL, em que ocorre a retirada de contexto da estética afro e prol de um branqueamento eurocentrado. Sou negro e filho de Yemanjá, para mim é importante que uma divindade africana seja representada em seu contexto original e não de forma expropriada.


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Sobre o IFÁ

Texto de Juarez Awofakan Oshe Di, iniciado em Ifá, vertente afrocubana

As religiões de matrizes africanas são várias e fortes nas Américas central, sul e no Caribe. Foram introduzidas pelos africanos de várias partes do continente, trazidos pelo tráfico negreiro por quase 4 séculos e mantidas por seus descendentes, com as naturais e inescapáveis adaptações ao contexto afrodiaspórico. Em todas elas é basilar a necessidade de consulta a oráculos não apenas para os interesses particulares de praticantes e clientes, mas para a própria estruturação e práticas religiosas.

É através dos oráculos que se dá a maior parte da comunicação entre o “mundo de cá” (o ayé, o mundo físico e a vida) e o “mundo de lá” (Orum, o mundo espiritual) e é através deles, os oráculos, que se pode alcançar a comunicação com as divindades, o que é diferente da comunicação com espíritos.

Na cultura Yorubá, grande grupo étnico predominante na região da atual Nigéria e vizinhanças, do qual boa parte dos traficados para a escravidão no novo mundo provinha, os cultos a Orixá tem como o grande sábio e conhecedor do destino o Orixá Orunmila.

Orunmila é testemunha quando antes de virmos ao Ayé (nascer) nos ajoelhamos junto a Olódùmarè para escolher nosso destino, objetivos e com quais odús (também dito oduns) chegaremos à terra, coisas que esquecemos entre a conversa com Olódùmarè e o nascimento, e cuja consciência do conteúdo só pode ser resgatada via a iniciação em Ifá.

Importante esclarecer que o conceito de destino em Ifá não é de coisa absoluta, inalterável, mas sim potencialidades e linhas mestras que podem sofrer alterações em função do livre arbítrio e da influência de outros atores da vida. Não dá portanto para escapar da verdadeira data da partida desse mundo, mas dá para não ser levado antes da hora e para cumprir o destino da vida de forma mais proveitosa, corrigindo os desvios, buscando os melhores caminhos e evitando os percalços e armadilhas que se colocam, reduzindo a atuação da divindade Elenini, cujo objetivo é fiscalizar nosso caráter e merecimentos justamente ao fazer-nos cair nesses desvios e recebendo por isso as famosas “peias”.

Orunmila é portanto não apenas o conhecedor do destino e detentor dos conhecimentos para que o cumpramos bem. Orunmila é também quem interage com os demais Orixás e ancestrais que atuam em nossas vidas e possibilita a comunicação entre eles e nós através do Ifá. O culto à ele, o acesso pleno e privilegiado à essa comunicação oracular, seus segredos, métodos para alcança-la e tomar as medidas cabíveis via cerimônias, obras e condutas indicadas é o chamado IFÁ.

Apesar de no meio de religiões de matrizes africanas, muita gente utilizar o termo Ifá genericamente para se referir aos subsistemas oraculares para práticas divinatórias de raizes iorubanas, ou seja, os métodos de consulta aos Orixás, na verdade Ifá é muitíssimo mais que isso. Ifá é o culto especializado e sistematizado à Orunmila, aos 4 Orixás guerreiros que também se recebe na iniciação para assentar em casa (Eleguá, Ogum, Oxóssi e Ozun, representado pelo galinho, não confundir com Oxum) e é o detentor do sistema oracular mais complexo e preciso.

Os cultos “Lesse Orixá”, caso de alguns cultos africanos ainda praticados por lá, do candomblé no Brasil e do “Lucumi-Osha” cubano (que foi espraiado para outros paises latino-americanos, caribenhos e mesmo aos EUA e Europa), utilizam subsistemas menos complexos do Ifá, como os dilogún, a exemplo do jogo de búzios.

O Ifá apesar de também ser culto a Orixá, como já dito, é o culto que se dedica especialmente ao Orixá Orunmila, ao conhecimento e manutenção dos destinos, diferente dos cultos lesse Orixá, cujo principal objetivo é cuidar dos filhos de Orixá e de suas relações com eles, como a “feitura de santo”, os toques para Orixá, ebós, e o transe.

No Ifá pode eventualmente haver toques de tambor, mas não é cotidiano, não há nem “se trabalha transe”, portanto Babalawos não se ocupam de “feitura de santo”, isso fica para os Oriatés e para Babalorixás e Yalorixás do Lesse.

Ifá, é um caminho muito propício para os que querem cultuar Orixás, ter o axé em suas vidas mas que “não dão santo”, apesar de não haver impedimento para iniciar os que dão, exceto no caso dos Babalawos, que não podem ser pessoas de incorporação ou transe.

Apenas os sacerdotes de Ifá, os Babalawos, conhecem e são autorizados a utilizar todo o sistema de oráculos de Ifá e seus subsistemas mais complexos, através do opon-ifá (um “tabuleiro” especial, junto com outros elementos acessórios) o opele-ifá (um “rosário” de plaquetas côncavas/convexas e um lado claro e outro escuro) e com ikins (os caroços do dendezeiro). Tudo isso combinado com um grande “corpus” literário de patakins (historietas, parábolas) versos, ditados, signos, rezas, saudações, cânticos e procedimentos litúrgicos.

Os Babalawos na tradição afrocubana, não podem jogar búzios, isso é feito pelos sacerdotes e sacerdotisas dos cultos “lesse orixá”, ou iniciados em ifá que não sejam Babalawos, após um rito de consagração ao serviço do oráculo.

Segundo o respeitado site do “Proyecto Orunmila” que reúne o melhor da literatura temática do sistema religioso afrocubano de base yorubá, o ifá-santeria-osha, alguns outros subsistemas oraculares de Ifá como o biange (bianwé) e o aditoto, também podem eventualmente ser manipulados pelos omoifás, aqueles iniciados e iniciadas na primeira mão em Orunmila-ifá, os chamados de Apetebis (as mulheres) e de Awofakans (os homens), assim como por “santeros” que tenham igualmente recebido em iniciação os Orixás guerreiros. Porém isso depende das orientações internas de cada rama de Ifá, algumas permitem, outras não.

O ifá inicialmente introduzindo no Brasil por meio de Babalawos que vieram entre os escravizados, não foi sistematizado e constituido literariamente.

Por um processo peculiar de “matriarcalização” dos cultos afro no país, em meados do século XX acabou por praticamente desaparecer junto com os últimos Babalawos do que teria sido uma “tradição brasileira”, deixando apenas algumas referências utilizadas nos sistemas oraculares manejados por Yalorixás e Babalorixás, destacadamente o jogo de búzios.

Desde meados dos anos 90, o culto de Ifá está sendo reintroduzido no país a partir dos aportes primeiro dos afrocubanos e mais recentemente dos nigerianos. Apesar da base teológica ser comum à toda cultura yorubá, tanto na Nigéria, quanto na preservada em Cuba ou no cultos brasileiros de matrizes africanas, obviamente existem diferenças e evoluções distintas, o que causa divergências e certo “distanciamento” principalme entre “africanos” e “cubanos”.

Particularmente vejo a tradição afrocubana como muito mais próxima da realidade brasileira por ser igualmente diaspórica, e foi essa que escolhi como caminho em Ifá.


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NOVOS APORTES SOBRE A RELAÇÃO ENTRE IFÁ E O CANDOMBLÉ

O seguinte texto é de autoria do meu padrinho em IFÁ, o Babalawo Márcio Alexandre Obeate Ifairawo. Fico muito feliz com o texto e principalmente pela sinergia com o que tenho pensado e dito mesmo antes da minha entrada nesse caminho de Ifá.

NOVOS APORTES SOBRE A RELAÇÃO ENTRE IFÁ E O CANDOMBLÉ

Três grandes pilares sustentam o Candomblé: Oralidade, Tradição e Hierarquia. Se separados cada um desses pilares constituem uma força, juntos então são uma potência. E foi exatamente a potência destes pilares que fez o candomblé resistir a mais de 400 anos de ataques, e foi sua resistência que o transformou na principal e mais pujante tradição religiosa de matriz africana do Brasil.

Desde o início o candomblé se constituiu sem uma autoridade ccentral estabelecendo com as casas matrizes a relação de fator de união e determinação de regras e normas à medida em que novas casas surgiam destas casas matrizes.

Em determinado momento de sua história o candomblé prescindiu da figura do Babalawo e coube à mulher o papel central de condução e consolidação do Culto Lesse Orixá no Brasil. Por causa disso, é o candomblé, uma das poucas grandes tradições religiosas mundiais, em que o predomínio e o comando cabe à mulher.

Em fins dos anos de 1970 e 1980, com os intercâmbios universitários, os africanos chegaram, sendo eles yorubás-falantes e conhecedores dos aspectos culturais dos vários cultos aos Orixás, introduziram a tradução das cantigas, os itans e os odus de Ifá, muitos deles se auto-nomeando babalawos, mesmo sendo cristãos ou muçulmanos. Os elementos introduzidos pelos africanos geraram tensões nos pilares ligados à oralidade e à tradição, pois os mais conservadores não aceitaram certas “novidades” enquanto outros aceitavam bem os *novos” elementos como forma de oxigenação que tanto o candomblé precisava.

Já nos anos de 1990, primeiro com Rafael Zamora Ogunda Kete (ibaen), depois com Wilfredo Nelson Erdibre (ibaen), os cubanos trazem os Tratados de Ifa, documentos compilados a partir dos ensinamentos dos primeiros Bavalawos africanos que chegaram à ilha de Cuba aos que os sucederam e a concepção do Ifá de tradição Afro-cubana, em que se determina que o sacerdócio, Babalawo, só poderia ser um homem heterossexual, que não incorporasse com Orixá, abrindo aí uma avenida a ser pavimentada pelos Ogans e atingindo em cheio o tanto os pilares da oralidade, quanto o da hierarquia.

Cabe aqui ressaltar que o modelo sob o qual o candomblé se constituiu deu ao Babalorixá e à Yialorixa a autoridade suprema sobre sua casa e não reconhece, nem nunca reconheceu nenhuma autoridade maior que estes sobre o candomblé.

No entanto, muitas vezes, por má fé ou oportunismo, muitos buscaram Ifá para se revestir de uma suposta autoridade visando resolver disputas internas, ou até mesmo construir uma sobreposição ou liderança sobre outros, dado o desconhecimento que até então grassava no Brasil sobre o Culto de Ifá e sua lógica de funcionamento. São famosos os casos de uns que passam dez dias na África e voltam como babalawos, mas continuam a jogar búzios pois não aprenderam, em dez dias com o africano que lhes vendeu o título nem mesmo a manipular os ikins ou o opele, instrumentos de adivinhação essenciais do Babalawo; ou, ainda, aqueles outros que, iniciados na tradição Afro-cubana como babalawos, voltam às suas casas de origem exigindo reverência até mesmo de seus babás ou iyas e dos Orixás incorporados em seus irmãos de santo. Totais aberrações típicas de quem não conhece Ifá e não sabe nada do papel que deve representar o Babalawo.

No estágio em que Ifá se encontra no Brasil, notadamente a tradição afro-cubana, à qual orgulhosamente pertenço, cabem aqui alguns esclarecimentos em nome da boa convivência entre o Candomblé e Ifá que tanto almejamos.

Antes de tudo é necessário afirmar que o Babalawo não é um super homem. O Babalawo era um homem perdido do qual Orunmila se apiedou e que entra no Igbodu desprovido de tudo e toca a porta de entrada dizendo que é um homem perdido em busca da ajuda de Ifá. Orunmila nos salva dos nossos osogbos e nos dá por missão salvarnos também a humanidade – pois dentro da tradição Yorubá só damos aquilo que recebemos -, daí o dever que temos de propagar Ifá como está dito nos odus Yogbe, Ogbe xxxx, e constituir famílias (povos), Otura xxxx entre tantos outros. Quando nos sentamos à mesa e nos alimentamos à frente dos outros, o fazemos, não porque sejamos especiais, o fazemos porque em nossa missão de salvar a humanidade, devemos comer primeiro para salvar a todos em caso de envenenamento. Nossa autoridade nos é dada por Orunmila e está circunscrita ao Culto de Ifá e, mesmo nele seguimos uma rígida hierarquia, determinada pelo odu Ofun xxxx, onde a ordem parte sempre do mais novo para o mais velho, culminando no Ojubona e no Oluwo Siwaju que é sempre o cabeça de uma família, ou de uma rama, conjunto de famílias que se originam de um mesmo Oluwo Siwaju.

No entanto, Ifá, não dá tempo de santo a ninguém. Cabe ao Babalawo, o bom senso de aplicar Okana xxxx, que diz que na terra onde fores, faça o que vires. Respeitando sempre o espaço sacerdotal e a terra de cada um.

Para nós, da tradição de Ifá Afro-cubana, o Culto Lesse Orixá se constitui como terra diferente da nossa. Se em Cuba, praticamente não ocorreu essa dissociação entre o Culto Lesse Orixá, Santeria ou Lukumi, por outro, há que se considerar sempre que essa dissociação ocorreu no Brasil e cabe ao Babalawo usar sua sabedoria e inteligência (impori awo) para dirimir e nunca para aumentar tensões.

Para finalizar, afirmo que o Babalawo que, como eu, foi confirmado e teve seu santo feito no candomblé, nunca, jamais, em tempo algum, terá primazia sobre seu babá ou sobre sua Iya, devendo sempre manter o respeito e a reverência tão importante e necessária em nossa tradição Yorubá no que tange ao Culto Lesse Orixá.

É nosso desejo caminhar junto com o candomblé e queremos que o candomblé caminhe conosco. Ifá tem muito a acrescentar ao candomblé e ao manejo cotidiano do babá ou da Iya, não nos esquecendo nunca que Ifá não trata de Ori, cabeça, e nem de Orixá, portanto está aí a necessidade tácita de uma parceria para o atendimento àqueles e àquelas que Ifá determina que sigam o caminho do Culto Lesse Orixá.

Desejo sinceramente que este pequeno ensaio sirva de esclarecimento e sane dúvidas de Babalorixás e Iyalorixas ao que se refere às relações entre Ifá e o candomblé.

Mais que isso, desejo que meus novos abures, já iniciados ou por se iniciar como babalawos, assimilem estas informações e busquem, em seus sacerdócios em Ifá construir a cada dia a unidade entre nós, estabelecendo pontes de diálogos em bases respeitosas e construtivas com as autoridades legitimamente constituídas do Culto Lesse Orixá no Brasil que é o Candomblé.

Ashe to iban eshu.

Iboru, Iboya, Ibosheshe!

Babalawo Marcio Alexandre Obeate Ifairawo