Blog do Juarez

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LGBTFOBIA NÃO É RACISMO…

Ornitorrinco é um animal bizarro, mamífero que vive na água, tem bico e nadadeiras semelhante um pato e põe ovos. Tão exótico quanto certas combinações conceituais e teóricas que as vezes se insiste em tentar “validar”.

Que dificuldade ! Mania essa a de fazer malabarismos que não se respaldam semântica, conceitual e lógicamente…

As palavras não existem à toa… RACISMO é discriminação por motivo de “raça”, LGBT* e HÉTEROS simplesmentee não são e nunca foram considerados “raça”, mas sim grupos de orientação sexual e gênero diversa. O preconceito e discriminação contra LGBT*s NÃO É RACISMO, para isso existe o termo LGBTFOBIA…, hoje apenas se utiliza para criminalização a mesma lei antirracista (e nada contra) ENQUANTO NÃO VOTAREM UMA ESPECÍFICA…

Por outro lado, falar em “racismo reverso” é falsa simetria…, racismo é uma estrutura de preconceitos e discriminação HISTÓRICA e CULTURALMENTE construída e aplicada pelos grupos hegemônicos contra os tidos como estigmatizados. Não tem “mão dupla”, o que pode ter são vítimas patéticas do racismo tentando reproduzir comportamentos racistas, ou mesmo sendo INSURGENTES, isso não é racismo, são efeitos e consequências dele.

Racismo é um fenômeno social identificado e sistematizado. Não se limita ao interpretado de forma positivista da lei… .


Afinal o que é então o racismo ? (segundo definições de alguns estudiosos renomados (brasileiros e estrangeiros):

“O racismo, como construção ideológica incorporada em e realizada através de um conjunto de práticas materiais de discriminação racial, é o determinante primário da posição dos não-brancos nas relações de produção e distribuição” (Hasenbalg, 1979, p. 114).

“(a) discriminação e preconceito raciais não são mantidos intactos após a abolição mas, pelo contrário, adquirem novos significados e funções dentro das novas estruturas e (b) as práticas racistas do grupo dominante branco que perpetuam a subordinação dos negros não são meros arcaísmos do passado, mas estão funcionalmente relacionadas aos benefícios materiais e simbólicos que o grupo branco da desqualificação competitiva dos não brancos.” (Hasenbalg, 1979, p. 85)

Segundo (Blumer, 1939) “São quatro os sentimentos que estarão sempre presentes no preconceito racial do grupo dominante: (a) de superioridade; (b) de que a raça subordinada é intrinsecamente diferente e alienígena; (c) de monopólio sobre certas vantagens e privilégios; e (d) de medo ou suspeita de que a raça subordinada deseje partilhar as prerrogativas da raça dominante. “

“Considera-se como preconceito racial uma disposição (ou atitude) desfavorável, culturalmente condicionada, em relação aos membros de uma população, aos quais se têm como estigmatizados, seja devido à aparência, seja devido a toda ou parte da ascendência étnica que se lhes atribui ou reconhece. Quando o preconceito de raça se exerce em relação à aparência, isto é, quando toma por pretexto para as suas manifestações os traços físicos do indivíduo, a fisionomia, os gestos, o sotaque, diz-se que é de marca; quando basta a suposição de que o indivíduo descende de certo grupo étnico, para que sofra as conseqüências do preconceito, diz-se que é de origem. (Nogueira, 1985, p. 78-9)

“Surgiu, então, a noção de “preconceito de cor” como uma categoria inclusiva de pensamento. Ela foi construída para designar, estrutural, emocional e cognitivamente, todos os aspectos envolvidos pelo padrão assimétrico e tradicionalista de relação racial. Por isso, quando o negro e mulato falam de “preconceito de cor”, eles não distinguem o “preconceito” propriamente dito da “discriminação”. Ambos estão fundidos numa mesma representação conceitual. Esse procedimento induziu alguns especialistas, tanto brasileiros, quanto estrangeiros, a lamentáveis confusões interpretativas.” (Fernandes, 1965, p. 27)

Portanto a coisa não é tão simples como quem usa termos e conceitos de forma equivocada, interpreta a lei de modo positivista, ou acha que racismo tem “mão dupla” e não oferece nada além de um “EU acho…”. Não é que um “ornitorrinco” seja absolutamente inviável, prova é que eles são reais, mas convenhamos, é esquisito e raro tipo de combinação esdrúxula que funciona, no mais das vezes é uma improbabilidade lógica.

Referências

BLUMER, (Herbert). “The nature of racial prejudice”. Social Process in Hawaii, 1939, 11-20.

FERNANDES (Florestan) . — A integração do Negro na sociedade de classes. Dominus Editora. São Paulo, 2 vols. 655 págs., 1965. 1° Vol. “O legado da raça branca” . 2° Vol. “No limiar de uma nova era” .

HASENBALG, Carlos. Discriminação e Desigualdades Raciais no Brasil. Rio de Janeiro, Graal, 1979.

NOGUEIRA (Oracy) – Tanto preto quanto branco – Estudos de relações raciais. São Paulo, T. A. Queiroz, 1985.


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Contas digitais X racismo e desigualdade

Faz tempo, vira e mexe, escrevo sobre  tecnologia e as vantagens democratizantes da sua utilização, inclusive no “drible ao racismo”.

A exclusão bancária foi até pouco tempo difícil de contornar. O capitalismo só se mexe para incluir quando ele mesmo ganha com a inclusão. A questão é que antes não se visualizava as classes D e E como fatia de mercado. Parte por preconceito, parte por uma real e maior desigualdade que fazia o consumo e movimentação financeira básicas ao mínimo, e finalmente por falta de tecnologias que permitissem não apenas mudanças de formas de renda e hábitos de consumo nas citadas classes, bem como, uma massificação da oferta de serviços pelo mercado financeiro.

Com a internet, a telefonia celular e uma infinidade de serviços eletrônicos e online, como o comércio eletrônico, as redes sociais, o teletrabalho e a automação bancária, muita coisa mudou. Me lembro quando uma década e meia atrás, morando em Moçambique, vi as pessoas transformando seus celulares em máquinas de pagamento e recebimento pela transferência livre de créditos de celular de uma linha para outra, usados então como moeda eletrônica. Isso dava um certo “bypass” no sistema bancário.

No Brasil, a grande maioria das classes C, D e E é negra, boa parte dela na informalidade, porém participante ativa da economia e mercados.  Ter uma conta bancária, poder fazer transferências, receber e pagar sem ser em dinheiro vivo era para uma minoria, em geral empregada e com uma conta salário aberta pela empresa. Mesmo quem tinha condições privilegiadas não estava livre de sofrer discriminações e até violências nas agências bancárias ao buscar serviços ou resolver simples questões de suas contas. Exemplos de travamento de porta-giratórias, descasos de atendimento, “mata-leões” e até tiros recebidos dos seguranças da sua própria agência bancária não faltam… .

As contas digitais permitiram à esses historicamente excluídos bancários, acessarem até mais que os serviços básicos que normalmente necessitam. E principalmente permitem que se evitem as agências bancárias e todos os problemas já citados, praticamente tudo que se fazia nas agências hoje pode ser resolvido a partir do smartphone, o que também já não é “luxo” e está muito espraiado mesmo nas classes mais desfavorecidas (obviamente não estou falando do “under class” os “pobres dos pobres inatingíveis”).

Já ouvi, principalmente vindo de uma esquerda branca marxializada que nunca foi barrada na porta giratória, nem se sentiu na iminência de um tratamento discriminatório racial, que meu posicionamento é de “integração ao capitalismo” e “fuga de luta” pelo tratamento isonômico e antirracista no sistema, ou que o digital é uma forma de apartheid que cria uma classe que fica distante das agências.   Vou dizer, estou nem aí para isso…, não pretendo “fazer a revolução”, tomar os meios de produção e o sistema financeiro, tampouco insistir em escaramuças evitáveis com o racismo institucional e ficar perdendo tempo, “gastando bílis”e ainda por cima arriscando minha integridade física e moral em atendimento presencial, isso não é de fato necessário nem vantagem.

Sou da prática. Vivemos em um sistema que pode sim ser contestado, alterado com muita luta, mas convenhamos, assim como no judô as vezes é melhor se adaptar ao adversário e usar sua própria força para derruba-lo, ou ao menos apanhar menos dele… .

No fim o que importa é ver um monte de gente que vivendo no capitalismo e em um ecosistema tecnológico era extremamente excluída, e hoje muitíssimo menos.


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LGBTFOBIA NÃO É RACISMO.

Só para lembrar. Apesar de favorável à criminalização da homofobia e similares e o enquadramento por analogia na mesma lei que criminaliza o racismo enquanto não se define via legislativo tipo penal específico, é importante dizer que LGBTFOBIA NÃO É RACISMO.

É uma incoerência ou ao menos imprecisão a ideia e uso do termo “racismo social”. Racismo como observável lexicologicamente é aplicável à preconceito e discriminação baseados em diferenças étnicas e raciais, e o grupo LGBT não se enquadra em nenhum dos dois conceitos.

DISCRIMINAÇÃO SOCIAL por sua vez é um termo mais adequado e amplo quando não se fala em tipo específico, pois abarca todas discriminações de recortes existentes na sociedade, inclusive a discriminação racial, já que raça é uma importante variável social, igualmente as discriminações por orientação sexual ou gênero e outros RECORTES SOCIAIS.

O entendimento utilizado pelo STF quando anos atrás confirmou o antissemitismo como racismo não se afastou do conceito prático e acadêmico de racismo, vez que o antissemitismo é preconceito e discriminação ÉTNICA, e os conceitos de raça e etnia, apesar de distintos são próximos e os mecanismos discriminatórios análogos. O uso do termo “racismo social” vinculado ao antissemitismo pelo simples fato de não haver no geral significativa diferença fenotípica (marca) da maior parte dos judeus para os demais “brancos”, o que remete o preconceito e discriminação basicamente para o campo cultural e social, é redundante, pois racismo já é em si um fenômeno social.

Logo, não seria o caso de chamar de racismo todas ou quaisquer manifestações discriminatórias que atentem contra a dignidade humana, muito embora não haja incoerência em por analogia utilizar a já existente legislação antirracista para efeito penal enquanto não se tem tipo específico.

LGBTFOBIA é LGBTFOBIA
GORDOFOBIA é GORDOFOBIA
XENOFOBIA é XENOFOBIA

INTOLERÂNCIA RELIGIOSA é INTOLERÂNCIA RELIGIOSA

DISCRIMINAÇÃO de CLASSE é
DISCRIMINAÇÃO de CLASSE
SEXISMO é SEXISMO
e
RACISMO é RACISMO…

As coisas não tem nomes diferentes por mero acaso… .


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Que tal um pouco de poesia ? O emparedado (Cruz e Sousa)

Apesar de oitocentista (séc. XIX) o poema continua super atual (será que alguém não vai perceber do que ele  está falando ? ).

cruz e sousa-aos-22b

O poeta emparedado

“Não! Não! Não! Não transporás os pórticos milenários da vasta edificação do mundo, porque atrás de ti e adiante de ti não sei quantas gerações foram acumulando, pedra sobre pedra, pedra sobre pedra, que para aí estás agora o verdadeiro emparedado de uma raça. Se caminhares para a direita baterás e esbarrarás, ansioso, aflito, numa parede horrendamente incomensurável de Egoísmos e Preconceitos! Se caminhares para a esquerda, outra parede, de Ciências e Críticas, mais alta do que a primeira, te mergulhará profundamente no espanto! Se caminhares para a frente, ainda nova parede, feita de Despeitos e Impotências, tremenda, de granito, broncamente se elevará ao alto! Se caminhares, enfim, para trás, ah! ainda, uma derradeira parede, fechando tudo, fechando tudo ~ horrível – parede de Imbecilidade e Ignorância, te deixará num frio espasmo de terror absoluto…
E, mais pedras, mais pedras se sobreporão às pedras já acumuladas, mais pedras, mais pedras… Pedras destas odiosas, caricatas e fatigantes Civilizações e Sociedades… Mais pedras, mais pedras! E as estranhas paredes hão de subir longas, negras, terríficas! Hão de subir, subir, subir, mudas, silenciosas, até as Estrelas, deixando-te para sempre perdidamente alucinado e emparedado dentro do teu Sonho…”

Cruz e Souza

Fonte: Emparedado; Poema do Livro Evocações de Cruz e Souza; http://www.palavrainvadida.com/2013/03/cruz-e-souza-o-poeta-emparedado.html

 


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Nova onda de ataque aos haitianos

cuidado-com-compartilhaDepois de algum tempo sem notícias envolvendo preconceito e discriminação contra haitianos, eis que surge uma onda de boatos com clara intenção de causar uma reação popular generalizada contra a presença dos mesmos.

O Hoax (boato na rede)  parece ter se originado no Acre, iniciou pelo facebook mas se concentrou e espalhou principalmente pelo Whatsapp e rapidamente,  e associa haitianos com um suposto surto do vírus ebola…,  a partir de uma mensagem que fala em 7 ônibus com haitianos doentes vindos de Brasília e mantidos em um parque de exposições (em Manaus não seria pois como viriam de ônibus de Brasília ????, mas ninguém para para pensar) diferentes  a que vão se agregando outras com adaptações para Manaus.

Os deflagradores contam com a ignorância das pessoas e apostam em uma mistura explosiva de preconceito com histeria em função de uma suposta muito próxima epidemia com o vírus mais temido da atualidade, sendo que o Ebola está restrito e contido em partes de países do centro-leste-oeste africano como Uganda, Congo e mais recentemente na Libéria e Guiné (onde já foram constatadas mais de 400 infecções e 150 mortes), ou seja, que não tem absolutamente nada a ver com o Haiti, a única semelhança está na cor das pessoas… (e com certeza absoluta ai reside novamente a motivação maior para o ataque).

Não há um só caso conhecido de Ebola fora do continente africano e ainda assim restrito as áreas citadas, a própria SUSAM já negou qualquer situação relacionada a Manaus: http://www.d24am.com/noticias/saude/susam-nega-caso-de-haitianos-com-virus-ebola-em-manaus/110799 .

Triste o mau uso que se faz dos modernos recursos de comunicação, mas isso só grassa devido a ignorância e preconceito das pessoas… .


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O que mudou ?

Os recentes acontecimentos no Rio de Janeiro (caso dos justiceiros), onde em momentos distintos dois jovens foram atacados, espancados, despidos e amarrados e/ou acorrentados a equipamentos urbanos, deveria levar as pessoas a refletir sobre algo que muitas não enxergam (ou fingem não enxergar).

Independente da ação prévia (tentativa de ato criminoso ou o simples fato de estar no lugar errado na hora errada), os dois tem uma coisa em comum…, são negros, e ambos receberam tratamento “nada humano”, humilhante, incomum e muito “simbólico”… (vilipêndio extremado).

Aliás…, esse tipo de prática de desrespeito aos Direitos Humanos (principalmente em se tratando de negros) se repete há séculos… e é com certeza “cultural”.

O ditado “Uma imagem vale mais que mil palavras” cabe perfeitamente aqui, fica a pergunta : para “justiceiros”, políciais ou escravagistas (brancos ou agentes a serviço da branquitude e seus interesses) e para os vilipendiados (não por coincidência quase todos negros, ou “quase negros de tão pobres” como diria Caetano) .

O que mudou ?

E ai ?, visualizou ?


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O que você faria? furto de Bicicleta (Cara Branco, Cara Negro, Moça Bonita)

Este é um “experimento social” (pegadinha) feito nos EUA, mas que não teria um desfecho muito diferente no Brasil…(exceto pelo fato de que talvez um ou outro ligasse discretamente para a polícia no caso cara branco, e muito provavelmente o cara negro teria sido linchado antes que tivesse chance de explicar qualquer coisa ou ser salvo pela equipe de produção…), infelizmente o vídeo não possui legendas nem tradução em português (até tentei baixar para legendar mas veio completamente sem som…), porém não importa a língua, as imagens valem por mil palavras, o que está acontecendo fica muito claro só observando as reações das pessoas…, alguém tem dúvidas da diferença de tratamento em função da cor ? (note que as roupas são similares,  local e situação são exatamente os mesmos…) e isso não acontece só em situações extremas e suspeitas, só sabe quem já viveu…

No Brasil foi feita experiência em vídeo semelhante (só que com as famigeradas portas giratórias de banco), advinha o resultado ? : http://www.contrafcut.org.br/noticias.asp?CodNoticia=24907&CodSubItem=36

E ai ? ainda acredita que não há “vantagens”  e “desvantagens” sociais por conta da cor ?, que julgamento de “mérito” não tem nenhuma relação direta ou derivada dessas  práticas que facilitam a vida de uns e dificulta a de outros ?.

 


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PREENCHIMENTO OBRIGATÓRIO DE “COR OU RAÇA” NO CURRÍCULO LATTES

CNPQ-Afirmativas-Lattes

Seguindo o previsto na LEI Nº 12.288, DE 20 DE JULHO DE 2010. (Estatuto da Igualdade Racial)  a plataforma de Lattes de Curriculuns (do CnPq) utilizada pela comunidade acadêmica e nos processos seletivos e concessões de bolsas  para cursos de pós-graduação ou na contratação de professores/pesquisadores, passa a ter como campo obrigatório o item “cor/raça”, a exemplo do que já ocorre nos formulários do SUS e outros cadastros governamentais.

Como previsto e de costume está ocorrendo polêmica e  a “indignação” dos “neo-democratas-raciais” (aquelas pessoas que juram que “não são racistas”  e se colocam contra a utilização de termos que lembrem “raça/cor” ou quaisquer ações afirmativas que utilizem o critério e  possam trazer correções da histórica desigualdade entre brancos e não-brancos), bem como o apoio dos que já compreenderam a filosofia e necessidade das ações afirmativas, a novidade visa a obtenção de dados mais concretos e centralizados sobre a “cor”  da academia e pesquisa brasileira, oferecendo subsídios para o planejamento e ações de correção da discrepância de oportunidades na área.

Dados mais antigos revelavam que dos então cerca de 300 mil mestres e doutores brasileiros, 90% eram brancos (quando na população geral são coisa de 49%), 9,4% pardos e apenas 0,6% (coisa de 2 mil) eram pretos. Sendo portanto a questão da pós-graduação ainda mais desigual do que a da graduação, contrariando a premissa dos que defendem que “não há” questão de cor na mobilidade social brasileira remetendo tudo para o “meramente social”, e que uma vez superada a barreira da pobreza e formação básica já não há mais “diferenças” nas oportunidades; na realidade a forma extremamente subjetiva como se dá o acesso aos programas de pós-graduação e concessão de bolsas, somada à observação de que mesmo superada a etapa da graduação, a desigualdade se assevera ainda mais nos  níveis acima, demonstram que a cor dos candidatos é de fato uma variável  de extrema influência, não apenas no acesso ao ensino superior mas também na mobilidade acadêmica, bem como, é premente a necessidade de identificar detalhadamente o fenômeno, as ações necessárias e o público alvo da ação afirmativa.


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Até tu Joelma ???

joelma-gays

Todo mundo tem direito de ter suas convicções, venham elas de base cultural, ética ou moral/religiosa ( mesmo que equivocadas ou questionáveis), só não dá para agregar impunemente besteiras ao seu discurso sem esperar que tudo o que diga, não seja bem aceito por todos e pior que não seja contestado (e por vezes fortemente), ser contra o casamento gay por convicções religiosas não é o problema, o problema é o seu entendimento sobre orientação sexual e principalmente sua visão da homossexual como “doença/vício”, já que entende que a mesma é passível de “regeneração/recuperação”… .

A cantora Joelma, até por ser “musa” e ter boa parte de seus fãs na comunidade Gay (além de obviamente ter muitos no seu entorno profissional), bem que poderia ter uma mente mais aberta (ou pelo menos uma boca mais fechada…, aliás, bem que esses fãs deslumbrados e inconscientes, poderiam se ligar e abandonar de vez a sua “JoelmaMania” e encontrar uma “Diva” que ao menos os respeitasse e entendesse…)  .

Não satisfeita com a besteira I, ao tentar se explicar, piorou ainda mais…

“Eu não comparei gays às drogas. Disse que a recuperação é tão difícil quanto, mas Deus faz o impossível. Falo em recuperação porque conheço pessoas que saíram dessa. Foi muito difícil, mas Deus pode absolutamente tudo”.

Lascou !!!!,  “regenerar” ?,  “recuperação” ????,  que é isso D. Joelma ????; orientação sexual é doença ???, é uma “dependência”, um “vício” ?, tem “cura” ????; desculpem, ignorância natural a gente até compreende, perdoa…, porém ando ficando cada vez mais insurgente contra esse tipo de “ignorância introjetada” que vem todos sabem de onde, de uma cada vez maior alienação provocada por arautos da intolerância e da discriminação…, ainda bem que não existe inferno (e os fariseus-chefes sabem bem disso, pois não tem qualquer escrúpulo em insistir em todas suas práticas nefastas), pois se tivesse era um lugar perfeito para mandar por toda a eternidade todos esses disseminadores da intolerância e ignorância.


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A dispensa do “defeito de cor” ou a origem do “negro de alma branca

“Em nós, até a cor é um defeito. Um imperdoável mal de nascença, o estigma de um crime.”

(Luiz Gama, sec. XIX)

Uma das grandes dificuldades para a popularização e maior abrangência do conhecimento sobre relações raciais no Brasil, é além da enorme extensão do tema, a falta de referências mais simplificadas e diretas sobre aspectos da temática.

Na maioria dos casos, tais aspectos estão dispersos e embutidos em dissertações e teses de doutorado, livros densos, ou nas melhores das hipóteses em artigos também muito elaborados e longos, situações que “espantam” grande parte dos interessados apenas pela verificação do volume e do formato científico… . Afinal ler muito não é uma característica dos mais jovens e dos mais “populares”, dai a minha intenção de em menos de uma página, passar as informações básicas sobre o exposto no título e referências para quem quiser se aprofundar no assunto.

Durante muito tempo, se ouviu vindo de pessoas brancas, de forma “popularizada e natural” a expressão “Negro de alma branca” utilizada por aqueles como um “elogio” aplicável à pessoas que sendo negras, assimilavam o discurso e comportamento “desejáveis” aos padrões hegemônicos em uma sociedade mascaradamente racista e “racialmente” estratificada.

Uma das primeiras referências registradas encontramos em Ronald Raminelli ao comentar sobre crônica do seiscentista Frei Manuel Calado, em relação ao herói negro da guerra contra os holandeses em Pernambuco, Henrique Dias.

Conjecturas postas por Raminelli na sequência do texto citado ampliam tal entendimento, apesar de não se colocarem enquanto conclusivas.

Os “Negros de alma branca” eram também por vezes referidos como “bons crioulos”, dos EUA nos chegou também a expressão análoga “Pai Tomás”, em referência ao conhecido personagem literário de “A cabana do pai Tomás”, subserviente e não questionador… .

No Brasil, tal concepção foi praticada efetivamente e até oficializada na época da colônia e mesmo já no império, pois o negro (preto ou miscigenado) que tivesse alcançado por qualquer caminho o status de livre e condições acadêmicas suficientes para assumir postos de proeminência social ( em especial no clero), deveria peticionar e assinar um documento chamado “DISPENSA DO DEFEITO DE COR” .

Em tal ele “pedia” oficialmente que não se levasse em consideração sua cor e origem pois era totalmente assimilado aos valores civilizatórios eurocêntricos, aos “bons costumes”, aplicado aos estudos e ao trabalho (em contraposição à imagem preconceituosa sobre e “lugar-social” esperado do “negro comum”) ; ou seja, apesar de negro declarava oficialmente ter ‘alma de branco’.

Isso era racista ?, obviamente, porém uma imposição do estado e da própria igreja, uma violência psicológica a que eram submetidos tais negros durante toda uma vida, violência tamanha a ponto de para introjetarem a suposta “alma branca” (terem adoecimentos psicológicos) e estabelecerem negações e repulsas identitárias ao se sujeitarem a tamanha humilhação… ( além de outras subserviências abjetas aos interesses do sistema).

É interessante visualizar os termos em que se colocavam a súplica da dispensa do “defeito de cor” no caso do clero e na sequência, algumas situações fáticas ocorridas quando isso já era inconstitucional:

Trata-se o habilitando, do então futuro e já citado Padre José Maurício Nunes Garcia, Mestre-Capela (músico, regente e compositor sacro) da Capela Real do Rio de Janeiro, no período em que a corte portuguesa transferiu-se para o Brasil, No mesmo sentido em alguns casos no serviço público e forças armadas, exigia-se declaração semelhante.

Outro exemplo posterior em narração sobre a entrada para o Seminário de Mariana-MG do padre Francisco de Paula Victor no ano de 1849, já se verifica a utilização do conceito e do termo de forma muito próxima da que hoje conhecemos, e importante lembrar que o caso se dá pelo menos 25 anos depois da Constituição de 1824, quando em tese já não se poderia utilizar a cor de um homem livre como fator discriminatório.

Fica patente a ideia que a “Alma alvíssima” ou “Alma branca” era tida como um “elogio” e “abonador” à uma pessoa negra. Não obstante o conceito encerrar um alto teor racista (perceptível hoje e aparentemente nada na época). Também se pode inferir que tal consideração já não dependia de uma solicitação formal da dispensa do “defeito de cor”, bastava apenas que a visualização do nível de assimilação e a contemplação de expectativas sobre o indivíduo se apresentassem de forma clara para o “elogiador”.

O “Negro de alma branca” ainda existe, ele é produto e mais uma vítima (patética) do racismo secular em nossa sociedade, se hoje não mais oficialmente e por exigência explícita das esferas de poder, mas pelo racismo “velado” (e nem sempre tão velado) arraigado principalmente nos altos estratos da sociedade (virtualmente brancos).

O racismo pressiona uma fuga desesperada de estigmas e “exige” de maneira informal e silenciosa, que em troca de muito boa (e excepcional) mobilidade social e aceitação, a pessoa negra não veja nada, não “enxergue” racismo em nada e que abdique de sua estética (alisando/cortando o cabelo, usando roupas “padrão”). Igual de seus valores não eurocêntricos (negando a religiosidade afro e outros aspectos culturais de clara origem afro), do discurso questionador (ao falar em racismo ou defender ações afirmativas).

Exige ainda e principalmente que reafirme (por atos e omissões) sua lealdade e subserviência ao sistema opressor secular, agindo por vezes como verdadeiros “neo-capitães-do mato” contra os interesses do restante da população negra e nunca ultrapassando os “limites” a ela impostos (ou logo serão chamados de insolentes, ambiciosos ou ineptos para tais alturas), exigências que são atendidas por muitos e muitas que não conseguem vislumbrar progresso fora desse esquema.

A adoção voluntária da “alma branca” como paradigma de vida e fator de mobilidade, ajuda a explicar alguns posicionamentos e características de negros do passado e do presente; inescapável a dedução de que a impossibilidade real e plena de “ser branco”, tendo “marca” negra, gerou no passado, assim como pode gerar hoje, conflitos psicológicos, angústias, bizarrices comportamentais, ou mesmo adoecimentos, para um aprofundamento na questão sugiro a leitura de “Negros de almas brancas ?” de Petrônio José Domingues [4].

Referências para aprofundamento:

Literatura : Um defeito de cor , romance da escritora Ana Maria Gonçalves : vide entrevista http://www.record.com.br/autor_entrevista.asp?id_autor=12&id_entrevista=28

Teses , Dissertações e Artigos Científicos:

[1] RAMINELLI, Ronald. Impedimentos da cor: mulatos no Brasil e em Portugal c. 1640-1750. Varia hist., Belo Horizonte , v. 28, n. 48, Dec. 2012 . pp 700-701. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-87752012000200011&lng=en&nrm=iso>.

[2] OLIVEIRA, Anderson José Machado de. Suplicando a “dispensa do defeito da cor”: clero secular e estratégias de mobilidade social no Bispado do Rio de Janeiro – século XVIII . Encontro de História ANPUH-RJ. 2008. Disponível em: <http://encontro2008.rj.anpuh.org/resources/content/anais/1212773302_ARQUIVO_Texto-AndersondeOliveira-Anpuh-RJ-2008.pdf>

OLIVEIRA, Anderson José Machado de. Dispensa da Cor e Clero Nativo: poder eclesiástico e sociedade católica na América Portuguesa (1671-1822). In: IV Encontro Internacional de História Colonial, 2014, Belém. Anais do IV Encontro Internacional de História Colonial. Belém: Editora Açaí, 2012. v. 3. p. 15-28. Disponível em <http://www.ufpa.br/pphist/documentos/Vol.%203%20-%20Dimens%C3%B5es%20do%20catolicismo%20portugu%C3%AAs.pdf>

[3] ASSOCIAÇÃO ESPÍRITA DE ESTUDOS EVANGÉLICOS FRANCISCO DE PAULA VICTOR (Limeira). Biografia – Francisco de Paula Victor. Disponível em: <http://paulavictor.com.br/franciscodepaulavictor.htm>.

[4] DOMINGUES, Petrônio José .Negros de almas brancas? A ideologia do branqueamento no interior da comunidade negra em São Paulo, 1915-1930. Estudos afro-asiáticos., Rio de Janeiro , v. 24, n. 3, 2002 . Disponível em <www.scielo.br/pdf/eaa/v24n3/a06v24n3>.

A RECUSA DA “RAÇA”: ANTI-RACISMO E CIDADANIA NO BRASIL DOS ANOS 1830* Celia Maria Marinho de Azevedo em : http://www.scielo.br/pdf/ha/v11n24/a13v1124.pdf

Matérias em Revistas :

REVISTA RAÇA BRASIL, Maçons: ontem e hoje por Flávio Carrança http://racabrasil.uol.com.br/cultura-gente/151/artigo208161-1.asp

Poesia :

O EMPAREDADO, Cruz e Souza (poeta negro catarinense do séc. XIX) em : http://www.fflch.usp.br/sociologia/asag/o%20emparedado%20-%20Cruz%20e%20Souza.pdf