Blog do Juarez

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EXEMPLAR ! (ou quando ignorar ou minimizar não é a opção)

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Quando aconteceu 13 dias atrás o repercutido fato do xingamento racista ao goleiro Aranha do time do Santos, não escrevi  nada, idem quando ocorreu o julgamento no STJD – Superior Tribunal de Justiça Desportiva na semana passada ( não tive muito tempo, nem muita disposição para escrever nos últimos dias ), mas isso foi muito bom…, pois com o desenrolar dos acontecimentos, posso fazer hoje um texto mais amplo e mostrar a@ car@ leitor@ mais nuances da questão toda.

Já que o caso  já está bem conhecido vamos direto ao que interessa:

Primeiro ao resultado do julgamento no STJD; que foi EXEMPLAR, a punição ao clube (desclassificado do campeonato e condenado a pagar multa) é “pedagógica”, muita gente não entende ou acha “injusto” punir o clube por um ato de uma simples torcedora…, ocorre que o clube lucra com o torcedor (na venda de camisas, artigos, ingressos, etc…) além de estimular uma relação “quase étnica” com a torcida (note que coloquei entre aspas, OK ?, tem gente que não entende metáforas…), ou seja, o clube/time estimula o torcedor e o torcedor estimula o clube/time, e os torcedores do time X se estimulam entre si e contra os “outros”,  o sentimento de pertencimento é semelhante ao dos membros de uma tribo (dai eu ter falado em ” quase étnica” ), cabe portanto ao clube EDUCAR e CONTER  sua torcida contra todo tipo de atitudes e atos negativos (e principalmente criminosos em função dos jogos ou  mesmo fora deles…), ao não fazer isso e não desestimular tais práticas, ele se torna CÚMPLICE; por outro lado, o torcedor tem que entender que seus atos também pesam contra o clube;  quer ser racista, violento, etc ??? “tudo bem !”, mas o time vai pagar por isso…  (e o resto da torcida vai se voltar contra você), e é ai que entra a “pedagogia” da punição do clube.

A punição à arbitragem também foi exemplar…., um dos grandes problemas com o racismo é a complacência, o “não vi nada” , o “deixa para lá” e os “panos quentes” dos que deveriam se indignar e reprovar cabalmente os atos racistas (principalmente quando por questão profissional, não tendo o real poder de evitar, tem a obrigação de ao menos coibir e tomar as providências necessárias com relação ao já ocorrido),  é um exemplo que deveria ser aplicado também a testemunhas, autoridades policiais  e outras, que fazem “corpo mole” e “vista grossa” quando a questão é racismo.

A punição aos agressores, dispensa maiores comentários, simplesmente perfeita…, mas ainda tem a punição criminal, afinal, racismo é crime dentro e fora dos campos, já a execração pública é uma coisa que acontece com criminosos de todos os tipos (pelo menos em geral acontece), é claro que ela tem que ter limites, mas não deve ser “afogada”  nem “reprimida” quando dentro do legal e do razoável, retorna ai o “efeito pedagógico”…, vale a pena “estragar a vida” por preconceitos e práticas irracionais ????, o exemplo é necessário e vai fazer muita gente pensar três vezes antes de arriscar… .

 Segundo,  o tal “Não sou (somos) racista(s)”,  é preciso ficar claro e massificado que  a maioria dos “brancos” brasileiros  TEM SIM MENTALIDADE RACISTA (muito embora não o percebam ou não admitam), assim como há negros que inconscientes se deixam ser afetados placidamente por reflexos de tal mentalidade e os que ainda colaboram com os que a tem;  não vou discorrer aqui um “tratado” sobre o que é racismo e o que é ser racista… (é muito mais complexo do que a maioria imagina ser), porém uma coisa é óbvia no mundo todo, associar pessoas negras a macacos (diretamente, via bananas, ou o que o valha) é um dos mais descarados e conhecidos ato de racismo, não tem “outra intenção”, nem tem “justificativa”, MACACO sempre foi e é uma ofensa racial e especialmente direcionada a negros (há raras exceções como o “gorila” aplicado à “brutamontes” em geral), e tem como intenção NEGAR ao outro a condição de humano, coloca-lo em uma situação de inferioridade, a história mostra a questão dos “macaquitos” (das guerras cisplatina e do Paraguai) e a própria questão dos gremistas se referirem aos “colorados”  como “macacos” (por ser um time que teve negros pioneiramente), depois da série de casos recentes de racismo no futebol, dizer que “não teve intenção racista”  ou que “desconhecia” a possibilidade de ser assim vista é um grande exercício de “cara-de-pau” .

A movimentação de parte da imprensa  em “amenizar” as coisas, demonstra o quanto é forte a intenção de escamotear o racismo brasileiro e “proteger” os que por desventura sejam apanhados na sua prática, afinal, o racismo mantém práticas efetivas e simbólicas que favorecem o grupo hegemônico, inclusive de forma psicológica ao manter sua ilusão de “superioridade”  e de a mesma lhe garante também impunidade.

Terceiro, a atitude do goleiro Aranha em reclamar do ato racista da torcedora e depois não querer se encontrar com a moça  para que fossem pedidas “desculpas esfarrapadas” revelam um nível de consciência bem maior que de alguns outros jogadores que passaram por situação semelhante, ele entendeu que a coisa ia muito além dele…, fazer parte do circo midiático que se preparava para tentar “limpar a barra” da agressora, não foi uma opção; ele bem o sabia que para o bem do esporte e para o combate ao racismo em geral, a punição e a execração pública tinham uma finalidade mais pragmática e nobre.

Quarto, os comentários das notícias e as redes sociais, um “conhecido” muito culto e que vive majoritariamente fora do país, sempre diz que que são neles que mais aparece o racismo do brasileiro, que vem em forma de justificativas e argumentações estapafúrdias no afã de defender o Status Quo, reacionarismo contra avanços efetivos para as populações não-brancas (em nome de uma “igualdade” meramente formal e desconsiderando ou minimizando a desigualdade material e efetiva), através de relativizações e minimizações dos casos de racismo e não raro em uma técnica meta-racista que é “inverter as coisas” , ou seja,  defendendo e “limpando a barra” dos reais agressores e acusando os indignados e antiracistas de estarem “exagerando”, promovendo “ódio”, “racismo as avessas” e ainda aproveitando para atacar conquistas das populações indígena e negra, como as cotas universitárias e no serviço público, demarcação de terras indígenas e quilombolas e outras ações afirmativas, ou mesmo a própria existência dos movimentos representativos  e datas como o dia da Consciência Negra, etc… .

Por fim, espero que esse episódio e desdobramentos inaugurem uma era de maior efetividade no combate e punição ao racismo, não apenas no futebol, mas em todos âmbitos da vida.


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Os comedores de banana e o antiracismo imbecil

Primeiro se veste de macaco, depois come banana...

Primeiro se veste de macaco, depois come banana…

Mais perigoso que o racismo declarado, é o meta-racismo (racismo cínico travestido de combate ao racismo, mas que tem como objetivo real manter o status quo inalterado), porém, pior é quando a inconsciência e ignorância dos que não conhecem ou estudam com maior profundidade a questão racial e do racismo, faz com que se metam a palpitar e até a fomentar atos que reputam como “antiracistas” mas que na realidade são um tremendo “fora” ou “tiro no pé” que acaba por favorecer os interesses meta-racistas ou mesmo os declaradamente racistas; é exatamente o que está acontecendo agora com essa campanha “viral” iniciada pelo Neymar  #somostodosmacacos … .

O simples fato de ter alta adesão de não ativistas e principalmente dos anti-ativistas (vide a turma dos neo-democratas-raciais e anti-cotas, seguidores da lógica “kameliana”  e “magnoliana” e dos articulistas da revista Veja e da mídia má) já serve para demonstrar que tem alguma coisa errada com essa campanha.

Qualquer um com algum conhecimento mais aprofundado da temática, sabe que juntar “negros”, macacos e/ou bananas, tem por essência reforçar um dos pilares do racismo, jamais combate-lo…,  nenhum dos brancos que aparecem com bananas se colocando como “antiracistas”  via #somostodosmacacos, foi assim chamado e associado (com ou sem banana) e nunca serão…, e nenhum racista deixará de usar a ofensa tradicional e exclusivamente aplicada a negros por causa disso, e coitados dos negros inconscientes que embarcarem nessa e registrarem seu momento banana nas redes sociais…,  os racistas vão se rasgar de tanto dar risada dos que macacos se assumirem… .

Quanto ao Neymar e outros jogadores negros milionários ou artistas  idem, que nem se enxergavam como negros (e de repente se espantaram em receber racismo 😉 ) ou se enxergando acreditavam na falácia de que “o preconceito é social não racial”, sendo totalmente alienados com relação ao racismo e suas reais características, a partir de suas “cercas de jurubeba” (expressão nortista para “blindagem” / isolamento em relação a realidade e grupos de convívio hostis), lembram do Ronaldo “fenômeno” ?, que perguntado sobre racismo no futebol europeu, respondeu,  – “é terrível mesmo, até EU QUE SOU BRANCO, sofro…”, mais inconsciente que isso tá difícil….;   não é de se admirar que enxerguem que a ideia de se vestir de macaco não tenha nenhuma consequência, ou que “comer a banana”  e  ignorar e “zoar” os racistas a partir de atitudes do tipo tenha alguma efetividade antiracista.

Só tem duas coisas que param um racista consciente, execração pública direta e punição exemplar, para os inconscientes talvez ações didáticas sérias que os façam refletir e mudar a mentalidade, mas nenhuma delas está encerrada na baboseira do #somostodosmacacos ,  a minha  hashtag é #NaoSouMacaco.

Tem gente que só deveria jogar futebol ou atuar na sua área profissional pois “calado é artista”, falando ou “agindo” contra o racismo só dá “bola fora”…  .

Ah! em tempo, falar o que dê uma pessoa negra destas ??? (o mesmo “amigão” do Neymar que acha legal brincar de macaco… )

Alexandre Pires

Alexandre Pires


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“Racismo” de PHA, se a “mídia-má” comemora, indica o contrário…

A notícia do acordo judicial realizado pelo Jornalista Paulo Henrique Amorim ou (simplesmente PHA), acusado de racismo (na realidade injúria racial) ao também Jornalista Heraldo Pereira (o mais proeminente negro do telejornalismo brasileiro), me entristece, mas pela realidade da questão, não pelo que os afoitos estão errôneamente vendo .

Na realidade essa é uma “vitória” da hipócrita ala “neo-democrata-racial” e meta-racista da imprensa brazuca (que representa todo o reacionarismo dos setores mais elitistas e discriminadores da sociedade).

A questão do peso e medidas diferentes com que tratam a questão, revela bem quem  está do lado certo da história e quem só está ao lado dos interesses mesquinhos de uma sociedade que sofre de uma vergonhosa dificuldade em “enxergar racismo”  onde ele é mais que óbvio,  e  paradoxalmente enxerga-lo sem dúvidas onde tal “racismo” não se configura ou é totalmente questionável.

Durante muito tempo, essa mesma elite que agora apredreja PHA, utilizou naturalmente a expressão “Negro de alma branca” sem maiores reflexões e até imaginando ser um “elogio” aplicável a pessoas que sendo negras, assimilavam o discurso e comportamento “desejáveis” para uma sociedade  mascaradamente racista,  também vistos como  “bons crioulos”, dos EUA  nos chegou a expressão “Pai Tomás” em referência ao conhecido personagem literário, subserviente e não questionador…; no Brasil a prática foi até oficializada na época do império, o negro que tivesse alcançado por qualquer motivo o status de livre e condições acadêmicas para assumir postos de proeminência social, deveria assinar um documento chamado “DISPENSA DO DEFEITO DE COR”  no qual ele “pedia” oficialmente que não se levasse em consideração sua cor e origem pois era totalmente assimilado, ou seja, apesar de “negro tinha ´alma  de branco´ “, isso era racista ?, obviamente, mas imposto pelo estado,  pior mesmo era a violência psicológica a que eram submetidos tais negros durante toda uma vida, violência tamanha a ponto de introjetarem de bom grado  a  suposta “alma branca” (não sem terem adoecimentos psicológicos)  e se sujeitarem a tamanha humilhação… ( além de outras subserviências  abjetas aos interesses do sistema).

O “negro de alma branca” existe, ele  é produto do racismo secular em nossa sociedade, não apenas existiu de fato e oficialmente, como ainda hoje é uma realidade (principalmente nos altos estratos da sociedade), penso que PHA enquanto conhecedor dos problemas brasileiros, tenha essa exata noção; e sabe que observar e contestar tal comportamento nas pessoas, ao contrário de “racismo ” é na realidade uma prática  de desconstrução anti-racista (só não sei se o Advogado dele também sabe disso…), mas  a elite encarapitada em seus devaneios de democracia racial e ignorância temática não perderia a chance de “inverter” as coisas (prática comum no meio meta-racista, que já teve até a audácia de chamar de racistas, ativistas conhecidos do anti-racismo, inclusive responsáveis pelas políticas nacionais anti-racistas), se houve “erro” de PHA foi  atribuir pessoalmente a carapuça à alguém, principalmente no contexto .

Basta ver a “festa”  que os representantes do pensamento reacionário brazuca estão fazendo…, para saber quem está sendo injustamente apedrejado e quem se regojiza com as perdas de quem defende o fim do status quo…: http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/blogueiro-tera-de-se-retratar-por-declaracao-racista-ou-uma-vitoria-historica-do-grande-jornalista-heraldo-pereira/  .


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Ainda sobre a questão da imigração haitiana

A polêmica e a discussão acalorada do tema (pelo menos aqui pela Amazônia e especialmente no Amazonas) não dão sinais de arrefecimento, fatos novos e um número crescente de manifestações diversas na imprensa e nas redes sociais continuam e continuarão alimentando o debate e trazendo à luz da questão, novos e “requentados” prismas  .

Depois de N manifestações preconceituosas e discriminatórias mais ou menos veladas (culminadas  com o incendiário e nada velado artigo da  colunista Mazé Mourão (se ainda não está a par da questão leia aqui meu artigo anterior) ), vieram as reações e contra-reações (muitas também questionáveis, mesmo quando aparentemente anti-discriminatórias).

Como não poderia deixar de ser na nossa meta-racista sociedade,  a tentativa e “propostas” de retirar o foco da questão racial embutida no ” imbróglio” tem aparecido recorrentemente , sendo o rebate desse viés  específico o motivo do post atual.

O brasileiro “não-negro” possui  o tradicional costume  de tentar camuflar a sua mentalidade e práticas racistas, remetendo tudo para a “questão social”…; ela existe sim, mas no caso brasileiro nunca se dissocia completamente da questão racial, é uma variável real e indispensável tanto para a análise do nosso contexto histórico-social passado quanto presente e expectativas futuras.

A imigração maçica de europeus (e depois japoneses) no final do séc. XIX e por todo século XX, mais do que inserir mão de obra qualificada para a era industrial e substituição da mão-de-obra escrava na lavoura ( e não sei o “porque” de tamanha necessidade de “substituição”, já que os ex-escravos nem haviam se “extinguido” muito menos se negavam a trabalhar e receber por um trabalho que feito de graça “serviu bem” ao Brasil por mais de 350 anos), tinha na realidade o “componente racial” como base (vide “Política nacional de branqueamento” : http://amazonida.orgfree.com/movimentoafro/branqueamento.htm), hoje muito mais que antes tenta-se dissimular que a a imigração de negros não é bem-vinda, mas ainda em pleno meados do século XX , isso era descaradamente colocado inclusive na LEI : vide Decreto-lei nº 7.967/1945. cuidando da política imigratória, dispôs que o ingresso de imigrantes dar-se-ia tendo em vista “a necessidade de preservar e desenvolver, na composição étnica da população, as características mais convenientes da sua ascendência européia.” (artigo 2º) .

Pouco conhecido fora do círculo dos estudiosos da temática  é  também o caso  do Brazilian-American Colonization Syndicate,  descrito por (Tiago de Melo Gomes) em 1921 manifestou  seu desejo de adquirir terras no interior do Mato Grosso, visando colonizá-las com afro-americanos. Quando a notícia chegou aos ouvidos dos habitantes do “paraíso”(racial, grifo nosso) as reações foram instantâneas, e imediatamente os deputados Andrade Bezerra e Cincinato Braga apresentaram à Câmara dos Deputados um projeto impedindo “a importação de indivíduos de raças negras”. O projeto não se transformou em lei, mas isso não impediu o governo brasileiro de utilizar diversas artimanhas para negar vistos de entrada a afro-americanos, provocando com isso diversos protestos nos Estados Unidos.” ,  ou seja, o argumento de que toda “preocupação” e “reservas” à imigração massiva haitiana é meramente com as “consequências sociais” ou de priorização dos nacionais e regionais  em situação de pobreza, não é plenamente verdadeiro…,  há registros inequívocos na nossa história relacionada a imigrações, da faceta anti-negro; é portanto certo, que o velho e hipócrita META-RACISMO brasileiro também se faz presente na atual questão.


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Campanha anti-EAD “Educação não é fast-food”, por que sou contra

Não é de hoje que o  Conselho Federal do Serviço Social (CFESS) e vários profissionais da área de Serviço Social tem se manifestado contra os cursos  de graduação a distância em Serviço Social,  mas a partir de  maio passado  começou a ser veiculada uma campanha intitulada “Educação não é fast-food – diga não à graduação a distância em Serviço Social”,  feita principalmente a partir de um hotsite que concentra os esforços de campanha e “linka ” vários”  recursos utilizados como 13 filmes no YouTube,  spots de rádio e material gráfico,  adesivos e cartazes  nos quais se faz a associação do ensino a distância com alimentação de baixa qualidade (vide matéria no site do CRESSPR) : http://www.cresspr.org.br/noticias/campanha-educacao-nao-e-fast-food/ ) .

Naturalmente  a campanha acendeu uma grande polêmica, provocando a reação tanto de profissionais e entusiastas da EAD (Educação a Distância) quanto dos próprios estudantes de graduação em Serviço Social  a distância;  mas de forma inusitada alguns profissionais de EAD  (inclusive da alto peso na área) acolheram e apoiaram a campanha, enquanto alguns profissionais de Serviço Social  se posicionaram  contra a mesma;  também ” entrou na briga” a Associação Nacional dos Tutores de Ensino a Distância (Anated),  movendo uma  ação cautelar contra a campanha, culminando (até agora) com uma liminar da Justiça Federal proibindo a veiculação.

Enquanto profissional com décadas na área de Educação,  com título de Especialista em EAD e atuante na área, não poderia me furtar  de  me manifestar (e de forma mais ampla aqui no blog , apesar dos comentários já feitos ai pela web).

Após ver a maior parte do material da campanha, as argumentações e posicionamentos de colegas da área de EAD  ( que com toda honestidade intelectual apresentaram visões críticas e referencial teórico que legitimam vários dos questionamentos referentes à EAD, bem como, alguns fatos que não podem ser desconsiderados em uma análise séria sobre Educação a Distância  (em contexto geral e/ou específico), além de diversos posicionamentos prós e contra , não tenho dúvidas que as verdadeiras intenções e razões por trás de todo discurso META-MODALISTA (termo cunhado por mim a partir dessa questão, para definir  uma ação dissimulada de preconceito e discriminação de MODALIDADE de ensino) encerrado nessa campanha, seja sim reacionarismo, preconceito e discriminação contra a modalidade a distância, porém devidamente camuflado em “preocupação com a qualidade” e com os “efeitos profissionais e sociais” .

Digo isso a partir da experiência adquirida em anos de leituras, escritas e debates na minha militância principal que é o movimento negro… .

Identifiquei na campanha “Educação não é fast-food”, exatamente o mesmo método de tentar “embarreirar” a democratização do acesso ao que a “elite” do Serviço Social (notadamente a acadêmica e “reguladora profissional” ) considera “seus domínios”, que encontro diariamente nos discursos META-RACISTAS da elite brasileira (e dos seus “aspirantes” da classe média) contra as Ações Afirmativas no acesso universitário e em outras esferas sociais para as populações historicamente prejudicadas e excluídas.

Não obstante o curso de Serviço Social fazer parte dos chamados “cursos de pobre” (aqueles que não garantem muito grande mobilidade social, não interessando portanto aos “filhos de rico”…, o que abre espaço para os “filhos de pobre” alcançarem com maior facilidade uma carreira de nível superior), fica evidente que depois do processo de formação ideológica característica das ciências sociais e correlatas (alinhadas à esquerda),  o que muitas vezes acaba se formando é uma “casta nobre” de origem proletária (vide “A Revolução dos bichos” de George Orwell),  aguerridamente “politizada” mas que precisa encontrar “causas de interesse interno” para mobilizar a classe e manter viva a chama da ilusão que agora estão “do lado de cima da sociedade”, sendo necessário “primar” pela “qualidade e mérito” do acesso à “ORDEM” …

O maior paradoxo se dá quando se observa os valores dispostos no seu próprio código de ética profissional   :

  • Empenho na eliminação de todas as formas de preconceito, incentivando o respeito à diversidade, à participação de grupos socialmente discriminados e à discussão das diferenças;
  • Garantia do pluralismo, através do respeito às correntes profissionais democráticas existentes e suas expressões teóricas, e compromisso com o constante aprimoramento intelectual;
Definitivamente, me parece que algum  código de ética está sendo “rasgado”  e substituído por uma “elitização cínica” e travestida de “preocupação com a qualidade e bem coletivo”

Tal qual no META-RACISMO, no META-MODALISMO o discurso é “bonito”, sempre com citações à defesa da qualidade de ensino, mérito pessoal, reformas de base, evitar conflitos futuros, garantir ganhos para a sociedade  etc..;   mas no fundo ( e nem tão fundo…) tem com real motivação os velhos preconceitos e como meta principal (mas nunca declarada), preservar os recursos do grupo dominante e “já bem instalado” do compartilhamento com os “diferentes” que graças à democratização do acesso começam a chegar em maior número (nesse caso a diferença ao invés da “raça”  é a modalidade historicamente discriminada) ; a retórica não é difícil de “encantar” pessoas bem intencionadas, mas alheias as reais motivações ,  interesses e métodos de preservação do Status Quo.

Pode parecer “paranóia” mas não é …  ao ler o trecho abaixo, trocando a palavra “raça” por “modalidade”  e  racismo por modalismo,  se percebe a impressionante justaposição conceitual.

“São quatro os sentimentos que, segundo (Blumer, 1939), estarão sempre presentes no preconceito racial do grupo dominante: (a) de superioridade; (b) de que a raça subordinada é intrinsecamente diferente e alienígena; (c) de monopólio sobre certas vantagens e privilégios; e (d) de medo ou suspeita de que a raça subordinada deseje partilhar as prerrogativas da raça dominante. ”   ;  soa familiar ?

Pode-se fazer o mesmo exercício com o texto abaixo :

(Zizek 1995), “vivemos um novo tipo de racismo, um racismo pós-moderno, um“meta-racismo”, que pode perfeitamente assumir a forma de um combate contra o racismo. Essa resistência cínica pode ser encarada como uma das vicissitudes da atual abertura proposta pelo liberalismo e seu projeto de re-invenção da democracia e do discurso dos direitos humanos”, porém como a diferença entre o meta-racismo e o racismo direto, tradicionalmente de forma aberta e declarada, é  nula ( já que não existe metalinguagem…), faz com que o cinismo com o qual se apresenta o meta-racismo o torne muito mais perigoso.

Trincheiras diferentes, mas as armas dos inimigos da democratização e inclusão parecem ser as mesmas…

Na prática ao fazerem uma campanha contra a EAD na graduação em Serviço Social (afirmando peculiaridades e incompatibilidades), acabam por fazer uma campanha contra a EAD de forma geral…, contra uma modalidade  que tem respaldo legal para ser aplicada em todos os níveis de ensino e tem efetivamente colhido muito bons resultados nos mais variados cursos (inclusive  superando no desempenho, a modalidade presencial em mais da metade dos cursos comparados) ; somos sim contra os cursos EAD  mal elaborados e conduzidos (e os há) , mas se há problemas em determinados cursos a distãncia, a solução é aumentar a fiscalização e exigir que se adequem a um bom padrão, não simplesmente criar campanhas e lutar para que sejam eliminados.

Ao agir do modo atual estão fazendo como fariam racistas dissimulados ao dizer ” Não temos nada contra negros em geral, a legislação até permite que eles existam aqui e em outros lugares…,  mas bem aqui no “nosso pedaço” por  suas dificuldades no estilo do seu processo de aprendizagem,  não achamos que sejam ou possam vir a ser tão bons quanto nós e por isso achamos melhor que parem de nascer aqui “, não somos racistas, mas reivindicamos  isso apenas para preservar e garantir que nosso povo tenha a melhor qualidade possível…” .

Bom é isso, estou terminando de fazer a atualização e revisão do meu primeiro livro (na realidade uma “versão livro” da minha monografia da especialização em EAD em 2006) “A EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA (EAD) COMO INSTRUMENTO DE TRANSFORMAÇÃO SOCIAL E DESENVOLVIMENTO. ” , pretendia apresentar para uma editora e ver se conseguia lançar no CIAED aqui em Manaus no fim do mês, mas atrasou e não há mais tempo hábil…, mas talvez consiga estar com uma edição independente (daquelas por demanda) pronta até lá, vou tentar incluir essa questão da campanha do CFESS no tópico sobre resistências a EAD… .


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O Globo e a sua "seletividade comercial"

 

Mais um desmascaramento surgido no rastro da movimentação causada em torno e em função das audiências públicas no STF,  convocadas pelo Ministro Ricardo Lewandowski (relator da ADPF movida pelo DEM contra as cotas raciais na UnB e "por tabela" contra todo o sistema em nível nacional)  para embasar com as informações dos Amicus Curiae  o seu relatório (que influenciará fortemente o posicionamento do Ministros no Julgamento).

A Campanha AFIRME-SE, criada e levada a cabo por militantes e organizações favoráveis às cotas raciais , conseguiu recolher mais de 150 mil reais, com a finalidade de publicar no período da audiência página publicitária inteira nos mais estratégicos jornais do país (O Globo, O Estado de S.Paulo, Folha de S.Paulo  e Jornal A Tarde).

O preço acertado previamente com o departamento comercial de O Globo pela empresa de publicidade responsável pela campanha (Propeg) seria de R$ 54 mil, mas ao ser enviado o material e tomar conhecimento do conteúdo, o Jornal simplesmente aumentou o preço para R$ 712 mil (1300% de aumento, obviamente inviabilizando a publicação).

Os responsáveis pela campanha entraram com representação judicial contra o jornal O Globo , através do Ministério Público do Rio de janeiro; e pretendem que comprovada a discriminação, o jornal realize a publicação por preço simbólico ou gratuitamente.

Pois é…, é assim que funciona boa parte da estrutura favorável à manutenção das desigualdades brasileiras(principalmente da racial), privilegiando editorialmente os que se apresentam de acordo com a sua linha ideológica e vetando os contrários; quando não podem fazer isso se escondendo na "subjetividade editorial", apelam para a "barreira econômica"… , cínica e muito mais eficiente que os velhos métodos diretos e abertos de discriminação.

Apenas para referência lembro alguns teóricos… :

META-RACISMO: Joel Kovel em seu livro White Racism: A Psychohistory (Racismo Branco: Um Psicohistoria, e é interessante observar que foi bem frisado no título ao que ele se refere para que não fosse "distorcido"…) publicado em 1970 e republicado em 1984 descreve "meta-racismo" como "… o racismo de tecnocracia; isto é, sem mediação psicológica como tal, no qual a opressão racista é executada diretamente POR MEIOS ECONÔMICOS E TECNOCRÁTICOS", ainda segundo Kovel "Como ele incorpora as formas mais avançadas de dominação, transforma-se em múltiplas configurações como um camaleão (independentemente das formas necessárias para executar a sua missão racista), e é mais  eficiente que as formas mais antigas, cheias de ódio, odiosas formas do racismo que levavam a discriminação e violência pública e aberta – META-RACISMO é o modo dominante do racismo no capitalista pós-moderno"


Ou ainda como alerta (Zizek 1995),  " vivemos um novo tipo de racismo, um racismo pós-moderno, um «meta-racismo», que pode perfeitamente assumir a forma de um combate contra o racismo. Essa resistência cínica pode ser encarada como uma das vicissitudes da atual abertura proposta pelo liberalismo e seu projeto de re-invenção da democracia e do discurso dos direitos humanos.
Entretanto, conforme argumenta Zizek, a diferença entre o meta-racismo e o racismo tradicional, direto e declarado, é absolutamente nula, uma vez que não existe metalinguagem. Talvez, exatamente por isso, a postura cínica do meta-racismo se torne mais ameaçadora".

Preparar carapuças…


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Audiências no STF: obrigado ao DEM…

Montagem: blog do juarez(fonte banco de imagens STF e outros)

Graças à empáfia e “falta de noção” do partido Democratas e da “tropa de choque” anti-AA e meta-racista, (que “forçou e adiantou” mediante a entrada de uma ADPF(Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental)), o STF (Supremo Tribunal Federal)  finalmente teve que  colocar em julgamento e definirá em breve o destino das ações afirmativas com recorte racial  no ensino superior .

O que não esperavam é que o Ministro Relator (Ricardo Lewandowski), fosse  brilhantemente convocar audiências públicas com “Amicus Curiae” (especialistas e entidades com notório conhecimento na temática) … .

Tal fato permitiu que a nossa Corte Suprema (e por tabela todo o Judiciário) tomasse oficialmente conhecimento abalizado não apenas na questão das cotas, mas de toda a problemática racial brasileira; mais que isso, conseguiu juntar em um só evento os maiores especialistas e entidades da causa negra brasileira, dando-lhes voz e a oportunidade de mostrar em cadeia nacional (além do registro em vídeo e  textos diversos que ficarão disponibilizado gratuitamente e poderão ser reproduzidos e utilizados por qualquer pessoa), coisa que a grande imprensa (majoritariamente de linha editorial anti-AA) sempre obstaculizou, dando espaço e destaque amplo e desproporcional para os contrários às Ações Afirmativas.

No período de 03 a 05 de março de 2010 o STF protagonizou algo histórico para o Brasil e um momento único para todos que lá se fizeram presentes expondo ou na platéia (incluindo a mim), absolutamente todas as exposições favoráveis às cotas foram brilhantes, seguras e extremamente embasadas; em um contraste de nível e de convecimento absurdamente distantes dos frágeis e falaciosos argumentos dos contrários; posso dizer que foi um “verdadeiro banho”  ou uma “goleada”  em cima dos anti-AA, que demonstraram ter  uma argumentação fraca e claramente cínica, em alguns casos com apresentações inseguras e até hilárias.

Como disse, todas as apresentações favoráveis foram esplêndidas, mas destaco algumas como as

da Subprocuradora-geral da República Débora Duprat

do Dir. Coop. e Desenv. do Inst. de Pesquisa Econômica Aplicada, Mario Lisboa

do Prof. da USP, Kabengele Munanga

do Professor da UnB, José Jorge de Carvalho

do Coordenador-geral de Educação em Direitos Humanos, Erasto Fortes (que por sinal citou informação exclusiva de um dos meus escritos espalhados pela rede)

do Prof. da UFSC, Marcelo Tragtenberg

da Secretária de Ensino Superior, Maria Paula Dallari Bucci

de Marcos Antonio Cardoso (CONEN)

da Profa Dra. Sueli Carneiro

do Prof da UNICAMP, João Feres

do Presidente da UNE, Augusto Canizella

Outros pontos a destacar foram a calma e o estilo “gentleman” e simpático do Min. Ricardo Lewandowski , a presença mais que simbólica e o apoio silencioso mas obvio a partir das leituras faciais do Ministro Joaquim Barbosa além da intervenção discreta da Ministra Cármen Lúcia incluindo na reflexão a questão da mulher negra), por fim a participação exemplar dos ativistas presentes nos recintos da Audiência pública (no primeiro e segundo dias, apenas os expositores e 3 convidados podiam ficar no auditório principal onde ocorria a audiência, os demais assistiam via telão em auditório anexo, no 3o. dia o Ministro em um gesto de sensibilidade e confiança concentrou todo mundo no auditório principal), a presença de espírito de “Cizinho” e a sua turma do Coletivo DeNegrir (cotistas da UERJ ) DeNegrir na Audiência pública .

O Ministro Ricardo Lewandowski no final . elogiou o nível das apresentações e comportamento da assistência, concedeu entrevista coletiva e simpaticamente quebrou o protocolo cumprimentado e recebendo os cumprimentos de vários presentes.

Estou muito feliz por ter feito parte desse momento histórico, acrescentando aos demais movimentos e ativistas de todo o país, uma representação do estado do Amazonas, tive a oportunidade de reencontrar velhos companheiros de luta, repetir gratos encontros (como com o Senador Paulo Paim,  com o Prof. Kabengele Munaga da USP e Prof. José Jorge da unB) conhecer  e interagir pessoalmente outros com que só tinha contato virtual (Dojival Vieira da Afropress, o Advogado Humberto Adami,(Ouvidor da SEPPIR) Carlos Medeiros (Gestor de igualdade da cidade do RJ) e  Prof. Marcelo Tragtenberg da UFSC..) , militantes da nova geração e  da nova imprensa negra, assim como outros que já são verdadeiras “lendas” dentro da causa, como O Prof. Carlos Moura, o Dr. Eduardo Oliveira (de 83 anos), o João Jorge (Prof. da UnB e Diretor do Grupo Olodum, potencialmente o primeiro Senador negro da Bahia), ou ainda com Edna Roland, que chefiou a Delegação brasileira à Conferência da ONU contra o Racismo, Xenofobia e intolerâcias , ocorrida   em   Durban- África do Sul em 2001 e a responsável direta pela introdução na redação oficial da ONU do termo afrodescendente; todos esses os últimos destacados aparecem nas fotos abaixo:

Parte da "Tropa de apoio" as Ações Afirmativas

Por tudo isso, nossos agradecimentos ao DEM…  🙂

Link para o banco de imagens do STF: http://www.stf.jus.br/portal/cms/listarImagem.asp?servico=&palavraChave=audi%EAncia+p%FAblica&pagina=3&dataDE=03/03/2010&dataATE=05/03/2010