Blog do Juarez

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SOBRE RACISMO E RACIALISMO

Por anos debatendo a questão das Ações Afirmativas (AA), sobretudo as cotas universitárias com recorte racial, me deparei muito com gente classificando de “racialistas” os que defendiam o recorte racial nas AA.

Ainda hoje vejo o uso de “racialista” como se fosse um racista com “sinal invertido”, nada mais errôneo e injusto. O racialismo é a crença em diversas raças humanas no sentido BIOLÓGICO, instituído por Carolus Linnaeus no XVIII ao criar a classificação homo sapiens e dividi-la em subespécies relacionadas à cor de pele e características fenotipicas prevalentes nas populações de cada continente. No mesmo ato Linnaeus também cria o racismo “científico” ao atribuir características atávicas (determinantes e hereditárias) à cada um dos grupos “raciais”, reservando apenas para os brancos as positivas e para os demais negativas.

Hoje o entendimento de “raça” ou “racial” só é admitido em sentido de construção social a ser superada com relação às desigualdades e determinismos preconceituosos e discriminatórios. Isso não quer dizer no entanto que se pretenda uma homogeneização étnico/cultural e a desconsideração das peculiaridades históricas, culturais e sociais dos diversos grupos.

Portanto, admitir tais peculiaridades e diferenças sociais construídas por milênios e séculos recortados de experiências culturais e sociais coletivas diferenciadas, e principalmente os prejuízos e necessidade da correção das desigualdades decorrentes, não é racialismo, muito menos “racismo as avessas” .

Os entendimentos partidos de dentro de um grupo tradicionalmente prejudicado, sobre sua realidade social, condições efetivas, valores civilizatórios, igualmente a sua memória coletiva e percepções não podem ser desconsiderados na sua totalidade, tampouco cerceado o direito ao ressentimento e as demandas por respeito, autodeterminação e “propriedade” de seus bens culturais.

Se existe uma CULTURA NEGRA, produto do contato e do amálgama secular das culturas africanas traficadas junto com os escravizados e as nativas e européias, isso não quer dizer que deixa de ser peculiarmente negra e diferentemente vivenciada a partir de diferentes origens e perspectivas.

Não há problema algum em qualquer pessoa de qualquer cor ou origem se imiscuir na cultura negra e vivencia-la, mas é importante que entenda que antes de mais nada ela é um bem cultural ao qual se adere, do qual se pode apropriar mas não deturpar, muito menos expropriar o negro, “retirando” dele o direito de controlar primariamente os seus bens culturais ou de se manifestar sobre eles a partir da própria perspectiva.

Quando uma pessoa negra (e não apenas que assim se assuma por realidade e pertença remota ou não, mas que principalmente assim seja vista socialmente e assim se relacione com a sociedade) se insurge contra apropriações indébitas ou questiona a forma de participação não negra na cultura negra, ela não está sendo racialista muito menos racista, ela está apenas chamando a atenção para a diferença de viver a cultura negra sendo efetiva e socialmente negro e não sendo… .

Não precisa ser negro para ser capoeirista ou de religião de matriz africana, mas é preciso conhecer as motivações históricas, reconhecer a essência, as premissas cosmogônicas, filosóficas e principalmente aceitar as regras da tradição e ter alteridade e empatia com quem tem a cultura como herança natural e coletiva… .

É o que não entendem o que dizia o Mestre Pastinha, e dizem hoje muitos praticantes e ativistas negros da cultura negra em suas perspectivas negras.

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CAXIAS E O MEDO BRANCO.

No 25 de agosto, Dia do Soldado, homenagem à data de nascimento do patrono do Exército, uma reflexão um pouco “diferente”.

Caxias se notabilizou por ter “pacificado” (termo militar para a neutralização pela força/violenta) várias revoltas populares, muitas com base e alta participação negra, além de grande comandante da Guerra do Paraguai. Em tese a “manu militari” serve ao poder constituído de um Estado, garantindo seus interesses e suas políticas de defesa (eventualmente de conquista) e manutenção da ordem, é portanto essencialmente patriótica, apesar disso não significar sempre algo “moral, ético e humanitário”, pelo contrário, ainda mais visto à distância no tempo. Pouco lembrado é o episódio vil de traição e massacre dos Lanceiros Negros da revolução farroupilha urdida entre o General rebelde David Canabarro e o então Barão de Caxias, conforme explica Daniel Isaia:

“Em novembro de 1844, conforme combinado entre os dois líderes militares, Canabarro ordenou à tropa de Lanceiros Negros para que fosse desarmada até o cerro de Porongos e lá montasse acampamento. A Caxias, coube ordenar às tropas imperiais para que também se deslocassem até o local para combater os farroupilhas que lá estivessem. Eis um trecho da carta enviada pelo Barão de Caxias ao comandante imperial Francisco Pedro de Abreu, líder das tropas que atacariam os Lanceiros Negros:

‘Poupe o sangue brasileiro o quanto puder, particularmente da gente branca da Província ou dos índios, pois bem se sabe que essa pobre gente ainda pode ser útil no futuro.’

Desarmados e pegos de surpresa às 2h da madrugada, os negros farroupilhas foram dizimados pelos soldados imperiais. O massacre resultou na morte de centenas de lanceiros (as versões variam entre 170 e 800 mortos). Os poucos que sobreviveram foram enviados ao Rio de Janeiro para serem reintroduzidos à vida de escravidão e trabalhos forçados.”

Mais adiante Caxias comandou a campanha do Paraguai, aonde boa parte da população negra foi dizimada nas linhas de frente. No entanto, antes de abandonar o comando, assumido pelo genro do Imperador, o Conde D’Eu, Caxias “reconhece” o valor dos combatentes negros e o temor que finda a guerra os valentes e experimentados soldados negros sobreviventes fizessem tal qual no caso do Haití a tomada do poder e eliminação da população branca. Conforme trecho extraído de texto do Frei David da EDUCAFRO:

” A guerra do Paraguai (1864-1870) foi um dos instrumentos usados pelo poder para reduzir a população negra do Brasil. Foi difundido que todos os negros que fossem lutar na guerra, ao retornarem, receberiam a liberdade e os já livres receberiam terra. Além do mais, quando chegava a convocação para o filho do fazendeiro, ele o escondia e, em seu lugar, enviava de 5 a 10 negros.
Durante a guerra, o Exército brasileiro colocou o nosso povo negro na frente de combate e foi grande o número dos mortos. Para se ter uma idéia, a população negra do Brasil era de 2 milhões 500 mil pessoas (45% do total da população brasileira). Depois da guerra, diminuiu para 1 milhão 500 mil pessoas (15% do total da população brasileira).
Os poucos negros que sobraram, eram os que sabiam manejar as armas do Exército. Duque de Caxias escreve para o imperador demonstrando temor sobre o fato:

‘[..] à sombra dessa guerra, nada pode livrar-nos de que aquela imensa escravatura do Brasil dê o grito de sua divina e humanamente legítima liberdade, e tenha lugar uma guerra interna como no Haiti, de negros contra brancos, que sempre tem ameaçado o Brasil e desaparece dele a escassíssima e diminuta parte branca que há!’. ”

OBS. HÁ ERRO INDUZIDO NOS NÚMEROS APRESENTADOS NESSE TEXTO CITADO DO FREI DAVID, NOTA EXPLICATIVA AO FINAL.

Para o bem da pátria e sorte da “diminuta parte branca” de então, os heróis negros não eram vingativos e traiçoeiros e nem agiram coordenada e intencionalmente para eliminar os que estavam no caminho da sua liberdade e interesses.

Portanto, nesse Dia do Soldado, nossa homenagem à todos brasileiros(as) que já vestiram um uniforme e com suor, sangue, lágrimas e espírito cívico defenderam ou se prepararam ou preparam para defender a pátria, a segurança e dignidade da população não apenas brasileira como a de países amigos, mas muito especialmente à todos os soldados negros que muitas vezes receberam históricamente ingrata paga pelo sacrifício, dedicação e honra.

* NOTA

Estranhei os números e pesquisando encontrei o motivador do erro… . Por isso que digo que é importante dominar e utilizar corretamente as CATEGORIAS e ter uma leitura mais ampla para tentar evitar as ciladas. Entendo que o erro no texto do Frei David, não se trata de desonestidade poderia ser cometido por qualquer outro mais desatento. Vejam o print anexo de texto em livro do Dagoberto Fonseca fazendo um apud no Chiavenato.. 😉

São vários erros de AMBOS, que levaram a posteriores replicações equivocadas. Ao usar negro como sinônimo de preto, se interpreta errado, já que negro não é opção censitária, mas a soma dos autodeclarados pretos e pardos (e isso desde 1872). O “povo”, especialmente a imprensa, fica insistindo no uso equivocado de ” negros e pardos”, isso quando não apela para termos que nunca foram usados demograficamente como “mulatos” .

Outro erro é ler automaticamente negro como escravo no pré-abolição, a população negra (ou seja, preta e parda) a partir da 2a metade do XIX já era majoritariamente nascida livre ou liberta… .

O Chiavenato induziu ao erro ao ver a população escrava antes da guerra do Paraguai e depois, e imaginar que a diferença de 1 milhão a menos era exclusivamente efeito da guerra… . Parcialmente sim, mas na verdade o que ocorreu foi uma grande mudança geral de status de escravizado para liberto… . O tal “milhão de negros” (na verdade escravizados) não “desaparecereu”, a maioria apenas deixou de ser escrava, muito embora um número nada desprezível tenha de fato sido dizimada na guerra.


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O Negro e o Boi-Bumbá 2018, Caprichoso ou Garantido, qual o melhor ?😉

Chegou o fim de semana mais esperado no Amazonas. Seguindo uma tendência dos últimos anos, de reconhecimento e valorização da presença negra na formação da cultura e população amazonense, os dois bois lançaram toadas sobre o tema (o Caprichoso inclusive com participação da cantora Alcione na gravação oficial).

Veja nos links que seguem:

Garantido

https://youtu.be/NoYxeuNxRWE

Caprichoso

https://youtu.be/fjmipTfIzfk

E ai ? na sua opinião, foco na música, arranjos e pertinência temática qual toada ficou melhor ?


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Um presentão nos 30 anos de ativismo.

Domingos Jorge Velho em pintura laudatória feita por Benedito Calixto em 1.903

Que felicidade,🎉🎊 acabei de receber o maior presente pelos meus 30 anos de ativismo…, DERRUBEI O DOMINGOS JORGE VELHO ( para quem não sabe ele foi um bandeirante paulista do XVII apresador e exterminador de índios, foi líder da ofensiva final contra o Quilombo dos Palmares e responsável pela perseguição e morte de Zumbi) . É nome de importante via em Manaus-AM (e também de vias em ao menos 12 cidades paulistas), o que afronta a lei que proíbe homenagem a exploradores e defensores da escravidão em logradouros públicos.

Solicitei ao MPF providências para fazer cumprir a lei e a alteração do nome da via. Fiquei sabendo há pouco que minha solicitação foi atendida e o município de Manaus vai ter que alterar o nome da via por um que homenageie vulto negro na história do Amazonas…🎉🎊

Veja no link a manifestação do MPF .


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O neoativismo do sudeste X o Boi Bumbá amazonense

Não é a primeira vez que escrevo sobre os excessos e “tiros no pé” dos que chamo neoativistas, neo não necessariamente pela idade ou tempo de ativismo, mas pelas características de um ativismo pós-internet e predominantemente virtual, entre elas o método agressivo/fascista de debate e as demandas quando não bizarras, ao menos pouco ou nada prioritárias, fora a centralidade no “fogo-amigo” aos ativistas menos radicais e mais conformes com os reais objetivos e abordagens tradicionais.

Também não é a primeira vez que falo de blackface, que é basicamente uma caracterização negra estereotipada e ridicularizante feita por pessoas brancas sob pretexto de “humor”, coisa vinda do teatro, que atingiu o nascente cinema e chegou à TV. Comum também no carnaval a exemplo da conhecida fantasia “nega maluca”.

Black face

O blackface porém nem sempre visa a mera ridicularização, já foi usado por outros motivos racistas, impedir atores negros de assumir como protagonistas de produções importantes como na famosa novela de TV do final dos 60, “A cabana do Pai Tomás”, no qual o protagonista foi o ator branco Sérgio Cardoso em um blackface “utilitário”, não humorístico mas de impersonação substitutiva. Obviamente tal caso é coisa negativa, já que impediu não apenas um maior realismo cênico, mas como já dito, também um ator negro de se beneficiar de tudo que um papel desses poderia lhe render.

Há porém situações em que o “blackface” ou caracterização negra se distancia da intenção racista, atuando ao contrário, como um marcador ou afirmador da presença negra, bom exemplo ocorre no carnaval colombiano com as “negritas puloy” ou “palenqueras” em que o estilo “nega maluca” se dá tanto sem pintura mas com perucas, ou seja, por mulheres negras de verdade, como através de máscaras, perucas e “collants” por não negras e homens.

Negritas puloy do carnaval de Barranquilla

Negritas puloy estilizadas do carnaval de Barranquilla

A caracterização negra estereotipada ou exagerada as vezes acaba ocorrendo por mera falta de pessoas negras para fazer um personagem negro, ou mesmo havendo, como forma de obter mais efeito em âmbito cênico mais aberto, ou seja, em espetáculo com platéia maior e mais distante, buscando uma visualização mais marcante, mesmo que exagerada ou fantástica. Como já dito isso se faz não apenas por pintura como as vezes por máscaras estilizadas, por sinal tradição em várias culturas da África, o que acabou introduzido por herança na nossa cultura popular.

Mascarados divinos da Costa do Marfim

Mascarados festa popular no Mato Grosso

Mateus e Catirina versão pernambucana derivada das figuras do boi maranhense

São João, também tem inclusive “whiteface”

Portanto, antes de sair por ai acusando toda caracterização negra de blackface e racista é preciso contextualizar, há as de fato racistas e desnecessárias e há as de contexto cultural e inclusive afirmativas.

BUMBA MEU BOI & BOI BUMBÁ

O boi bumbá, é festejo popular amazonense e derivado do bumba meu boi maranhense, por sinal introduzido no estado do Amazonas por negros vindos de lá do Maranhão, e que aqui ganhou peculiaridades ante ao peso cultural indígena e caboclo que o diferenciaram bastante do boi maranhense. É uma festa de muitas representações fantásticas, tem negros, índios e brancos, além de outros elementos da cultura amazônica.

PAI FRANCISCO E CATIRINA

Personagens comuns às festas nordestinas e amazônicas, o casal de negros escravos fugitivos do auto do boi, Pai Francisco e Mãe Catirina, são representados tanto com pintura como máscaras, e em vários estilos, no boi amazonense apenas com pintura.

Boi no Maranhão

Boi no Maranhão

Boi maranhense

No boi bumbá amazonense (Garantido)

No boi bumbá amazonense (Caprichoso)

A forma e intensidade da pintura tem variado no boi bumbá ao longo dos anos, do mais caricato ao menos carregado, cabendo lembrar que no Amazonas o boi é uma festa popular centenária…, no Maranhão mais antiga ainda. Devemos pois, se for o caso de lutar, lutar pela valorização do reconhecimento da presença negra via tais personagens e por uma “caracterização mais respeitosa” não pela sua exclusão.

Aproveito para lembrar uma outra festa amazonense, essa menos conhecida, que se dá em São Paulo de Olivença, região do alto Solimões, a dança do africano .

A história dessa dança está no link acima, importante no entanto é destacar que a sua origem e intenção é de preservação e afirmação de presença negra na região desde tempos idos.

Isso tudo posto e explicado, voltemos ao motivo real da postagem. Recentemente grupo amazonense viajou com muitas dificuldades para o sudeste a fim de apresentar em atividade cultural o nosso boi bumbá, e eis que uma vez lá, foram impedidos de se apresentar acusados por neoativistas de “blackface”, situação piorada com a perseguição e linchamento virtual, bem ao estilo neoativista, aos organizadores da incursão amazonense.

Tais “Neos”, óbvios desconhecedores da cultura popular do próprio país e da diáspora, atuam como arrogantes ditadores do “correto”, sem contudo se darem ao trabalho de tentar entender do que realmente se trata algo, partindo precipitadamente de suas concepções rasas e descontextualizadas para o ataque insano. Mais um DESSERVIÇO prestado à causa negra e mais um “tiro no pé”, envergonhando esses “neotreteiros” à nós, velhos ou novos combatentes equilibrados da causa.

Se há desculpas a apresentar não é por parte amazonense… .


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O “pardo de schrödinger” e a falácia metaracista.

O presente texto visa desconstruir mais uma das típicas argumentações metaracistas, para tal é preciso antes apreender alguns conceitos importantes para o entendimento pleno da questão.

O primeiro ponto, Schrödinger, foi um físico teórico austríaco muito vinculado à física quântica, prêmio Nobel de Física em 1933. Um de seus experimentos mais famosos é conhecido por “O gato de Schrödinger”, no qual basicamente tenta verificar o quanto uma situação é verdadeira ou não a partir de análises da realidade a partir de pontos de vista diversos, ou seja, algo um tanto subjetivo.

Pois bem, a partir disso algum metaracista ( logo adiante vamos trabalhar o conceito) resolveu fazer uma paródia tratando da visualização e atribuição da população e indivíduos de cor parda, que seriam ora tratados e incorporados à população negra, ora descartados ao sabor de “conveniências” dos movimentos e ativistas negros, chamando a paródia de “O pardo de Schrödinger” .

Metaracismo é conceito colocado por Joel Kovel e também tratado por outros intelectuais como Zizek, que trabalham o tema do racismo. Basicamente metaracismo é uma forma moderna de racismo aonde não se assume intenção supremacista, direta e claramente racista, pelo contrário, se diz “antiracista” ao mesmo tempo que trabalha no combate ao verdadeiro antiracismo, desse modo, cinicamente busca manter as desigualdades sociais de origem racial, mesmo considerando não haver de fato diversas raças entre a humanidade, ou seja é o racismo que prescinde da ideia de raça biológica mas atinge igualmente os mesmos grupos tradicional e socialmente expostos à subordinação e tenta manter o status quo.

Dai a afirmação de que a argumentação utilizando “Pardo de Schrödinger” tem finalidade metaracista, pois ataca não apenas a definição de população negra enquanto bloco formado por pretos e pardos, mas as críticas dos movimentos negros, seus ativistas e aliados e o critério utilizado nas políticas públicas de correção das desigualdades raciais.

A questão do pardo enquanto negro, tem base histórica, tanto no período da escravidão, a exemplo do censo de 1872 (o primeiro oficial de todo o país) que utilizava em geral o termo pardo para os negros livres e libertos (independente de cor/miscigenação) e o termo preto para os ainda cativos, quanto no pós-abolição, aonde o estado brasileiro sempre definiu como pessoas negras os membros da população negra, oficialmente formada pelos autodeclarados pretos e pardos, igualmente aos movimentos negros e a academia.

Se há dúvidas e divergências em situações pontuais de “fronteira extrema” é devido à subjetividade das visões dos envolvidos, não uma intencional e “matreira” utilização dos conceitos identitários pelos ativistas e movimentos. Matreiros são os argumentos dos metaracistas para sempre se colocarem contra toda e qualquer ação afirmativa de recorte racial e mesmo as denúncias do racismo cotidiano e estrutural.


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Pantera negra (o filme) : O que aprendemos em Wakanda ?

A partir da nossa última postagem (sobre a polêmica do “blackvoice” na dublagem do filme) recebemos uma solicitação para fazer uma resenha crítica sobre o filme em si (BAIXO SPOILER…), o interesse seria obter uma crítica a partir da visão de um ativista negro, o que certamente difere da de um espectador mais familiarizado ou preocupado com a temática dos super-heróis, da Marvel, ou do cinema em geral.

Desafio aceito, começamos por chamar a atenção para o fato do filme ter uma se não declarada, ao menos óbvia intenção afirmativa, o próprio personagem título e o fictício reino africano de Wakanda surgem timidamente no início dos anos 60 e ganham maior peso no rastro do movimento “blackexploitation” ou “blaxploitation” direcionado aos filmes, mas que atingiu também as HQs na década de 70. O fato de estar sendo chamado de filme mais politizado da Marvel não é à toa, tudo no filme caminha nesse sentido, desde a escolha do diretor (afroamericano) até a centralidade do enredo em Wakanda, o que obrigou a escalar um elenco majoritariamente afroamericano ou africano e introduzir na trama referências à valores culturais africanos que vão desde a estética até a filosofia, contrapondo a algumas  percepções afrodiaspóricas.

Passando um pouco pelo que já foi dito em todas as muitas críticas já disponíveis, o filme é excelente em imagens, figurinos, trilha sonora, efeitos, atuações, etc…, o que vale destacar é que contrariando a tradição Marvel entrega menos ação, mas quando entrega é da boa, concentrando-se porém nos diálogos e cenas que introduzem o espectador no mundo e perspectivas dos wakandianos, essa estratégia é sensacional, pois o espectador “se apropria”, torna Wakanda sua também, passa a fazer parte dela e enxergar mais criticamente “os outros” (ou seja, nós mesmos em nossas mentes ocidentais e colonizadas). Para ficar mais claro, comparemos com a Asgard de Thor, creio que pouca gente fora dos países escandinavos se identificou como “asgardiano”, mas gente do mundo todo e de todas as cores e origens se sentem ou gostariam de ser de Wakanda.

Vou me abster de comentar individualmente os personagens, isso tem por ai aos montes, importa dizer que eles mais do que estereótipos, são tal qual na tradição dos panteões mitológicos africanos, arquétipos, representações de tipos humanos com suas virtudes, defeitos e vicissitudes, aos quais tanto podemos associar outras pessoas, como nos identificar total ou grandemente. Assim como nas tradições de matriz africana, essas forças antropomorfizadas em deuses, heróis divinizados  e em arquétipos aos quais estão vinculadas as pessoas “comuns”, seguem a lógica do amoral ou de que nada nem ninguém é absolutamente bom ou mau, mas apenas circunstancialmente.

Do ponto de vista filosófico e cultural, impressiona, e é um “recado” a perfeita integração entre tradição, modernidade e tecnologia. Nesse ponto choca e dá um “tapa na cara” dos que pela mentalidade eurocentrada, não conseguem conceber que tradições tribais e cosmovisões de povos não-europeus/europeudescendentes, são valores civilizatórios que não significam atraso, inferioridade ou incompatibilidade com o desenvolvimento e as tecnologias mais avançadas. O filme também toca em questão importante na africanicidade, o respeito à ancestralidade e a espiritualidade altamente integrada à natureza, coisa talvez pouco estranha para os afroamericanos ou colonizados de todo o mundo, que acataram quase integralmente os valores e premissas judáico-cristãs, porém nem tanto para os  africanos, os afrodiaspóricos latino-caribenhos e os que orbitam a religiosidade afro. A questão de gênero não fica de fora, as mulheres poderosas, guerreiras, as relações e sinergia entre os gêneros é algo que se evidencia, referência aos efeitos da tradição matriarcal em muitos povos africanos.

O filme está cheio de metáforas, que poderão ser entendidas ou não, dependendo do grau de consciência e informação prévia do espectador, bom exemplo é a divisão das tribos que formam o povo do reino, o povo da fronteira é o que o mundo enxerga de Wakanda, terceiro mundo, um povo simples (visto como pobre), de fazendeiros e extrativistas, produtores de commodities, que trocam com vizinhos, um lugar que nada colaborou ou pode colaborar com o avançado mundo ocidentalizado. Essa não seria uma errônea visão geral que se tem da própria África em si ?, visão que ignora  o que realmente houve e há em África ?. Wakanda é a África, que a maioria do mundo desconhece, só enxerga folclórica e superficialmente e da qual não se espera nada de positivo ou útil.  Há tiradas sensacionais com a ignorância ou surpresa de quem tem uma visão estereotipada da África, tipo:

“Estamos em Wakanda ??? “

“-Não, é Kansas…”

Uma alusão à surpresa personagem Dorothy ao se ver na terra fantástica de OZ , no conhecido filme “O mágico de Oz”, ou seja, certas realidades seriam mais difíceis de crer que as fantasias criadas em torno delas, caso do continente africano. Na mesma cena é importante notar o tratamento dado ao personagem branco com um “Ei! COLONIZADOR não toque em nada…”, óbvia alusão ao estrago feito (e ainda possível) no contato dos brancos com as coisas africanas que desconheciam ou desconhecem, uma outra fala crítica no sentido da estereotipação africana e que talvez passe despercebida para muitos é justamente “Desculpe majestade, mas o que é que um país de terceiro mundo e de fazendeiros tem a oferecer ao mundo ???” .

Pantera negra dá uma “cutucada na ferida” na questão africano x afrodiaspórico, em cenas em que  os governantes wakandianos  demonstram que enxergam como seu povo apenas os próprios wakandianos, enquanto os afrodiaspóricos se enxergam panafricanamente como do mesmo povo de Wakanda, porém desconsiderados, abandonados e deixados à mercê dos colonizadores no passado e no presente, embora não exatamente, essa é uma questão atual que perpassa as reflexões nos movimentos negros. a identidade africana X afrodiaspórica. O filme também não deixa de cutucar outras questões atuais como na fala “governantes sábios constroem pontes, os idiotas constroem muros…”, para bom entendedor… .

No mais há muitos diálogos que expõem questões do campo de relações sociais e raciais, questionam estereótipos e apresentam perspectivas mais desejáveis para a vida no planeta.

Não poderia deixar de tocar brevemente na questão versão legendada X dublada, particularmente não gosto de filme dublado algum, mas esse em especial perde muito com a dublagem, pois o trabalho dos atores na incorporação de sotaques e timbres africanos é primoroso, um dos pontos altos do filme, e que se encaixa na pretensão afirmativa dele.  O modo geral de falar inglês dos africanos e também suas próprias línguas, é importante para imergir cinematograficamente em uma África mais realista e menos caricata, a dublagem brasileira simplesmente dá um bypass nisso, não se preocupa ou não consegue transpor essa africanicidade no falar para o português…, isso devido ao “blackvoice”. Bom exemplo é a personagem Shuri, a adolescente nerdíssima, irmã do Rei T’Chala e responsável pela inovação na tecnologia wakandiana, que na versão original possui uma voz algo grave e rascante, mas que na dublagem fica parecendo a de uma patricinha branca de Beverly hills… . Já nem acho mais que seria apenas o caso de melhor aproveitar timbres e vozes negras brasileiras na dublagem, sendo mais radical, fomentaria também a inclusão no mercado brasileiro de dubladores lusoafricanos, tenho certeza que as produções ganhariam muito com isso, é certo que ainda não temos tantos filmes com personagens africanos, mas as coisas estão evoluindo… .

Pantera negra é um filme que mostra possibilidades, trabalha para mudar mentalidades, tanto na trama quanto na sua própria produção, é paradigmático.

Por outro lado, acaba por mostrar o quão distantes estão a realidade americana e a brasileira, enquanto nos EUA a repercussão tem clima de avanço e crítica virtualmente toda positiva (não falemos da esperada reação “whitetrash”), no Brasil se abrem polêmicas e críticas em todas as direções, algumas justificadas e outras vazias ou de puro reacionarismo, provando que temos problemas de representatividade que ainda são subterrâneos, ou seja, pouco visualizados, e temos também um metaracismo galopante, que se apresenta na forma de críticas aos que problematizam o filme a partir de uma perspectiva das relações raciais, essa reação é percebida sempre e principalmente nas caixas de comentários, o melhor observatório do racismo brazuca.

Enfim,  já sou mais um cidadão de Wakanda.