Blog do Juarez

Um espaço SELF-MEDIA


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Será racismo? ou só falta de noção?

Em agosto estive em Recife e achei super estranho grandes vacas como “marca” ou sei lá o que de uma rede de drogarias. Não conhecia a rede mas parece estar em todo Nordeste.

Bom, ocorre que em uma ação de marketing de tal rede criou a “CowParade” (literalmente Parada da Vaca), com diversas intervenções artísticas sobre as vacas símbolos, em Salvador salvo engano foram 60. A ideia era homenagear a cultura local. Ocorre que alguém teve a polêmica ideia de “homenagear” a baiana do acarajé, de fato emblemática figura da cultura local, “vestindo” uma das vacs com trajes alusivos, mas não apenas isso, alternado a cor da vaca para o “marrom” característico de parte da população negra .

Na minha opinião, não creio que tenha havido uma consciente intenção “ofensiva” ou “racista”. Mas uma insensibilidade, falta de noção e no mínimo “despreocupação” com a possibilidade da intervenção vir a ser interpretada sem uma maior reflexão sobre o contexto e em primeira mão, como uma mera “animalização” da baiana do acarajé, e por consequência, também do vínculo simbólico entre a imagem da baiana e das praticantes dos cultos afrobrasileiros… .

Essa “despreocupação” e falta de sensibilidade com o sentimento negro, de certa forma é parte da estruturação racista, portanto, ao menos nisso é importante sim fazer lembrete, para que os responsáveis por essas campanhas e seus clientes, passem a ter compromisso profissional de evitar semióticas racistas.

Divulgação


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Capitães do Mato tinham patente…

Em uma descoberta da minha emérita orientadora sobre patentes militares no Pará colonial, onde o foco era uma de “Alferes dos Índios”, notei na fonte exibida também uma outra de “Capitão do Mato”. Não sou muito fã de Colônia e Império, embora tenha até pesquisado sobre militares negros nos ditos períodos, nunca me ocorreu porém que “Capitão do Mato” fosse um “posto” de fato e obtido por patente, imaginava ser só uma referência de ofício e um tratamento popular dado aos caçadores de escravizados fugidos. Com a atenção chamada fui pesquisar e de fato, no Brasil colonial os capitães do mato tinham patentes, emitidas pelos governadores das capitanias ou mesmo pelo Rei. Outros pontos interessantes são que, diferente do senso comum, o capitão do mato não necessariamente era um “profissional liberal” que trabalhava sozinho, como sugere o famoso quadro de Rugendas ou como vemos nas novelas de época da TV. Na verdade existiram milícias chamadas “Corpos de homens do mato”, aonde não apenas atuavam em grupos organizados, como havia uma hierarquia ao estilo militar, com Soldados do mato, Cabos do Mato, Capitães do Mato, Sargentos-mor do Mato e Capitães-mor do Mato.
Por mais que a gente estude, sempre “come mosca” em algum sub-assunto e todo dia a gente aprende… ☺️, então bora compartilhar.


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“Contando os brancos”, ou Por que o brasileiro branco não enxerga seu metarracismo?

Ao republicar uma matéria jornalística falando do percentual de negros entre os mortos pela polícia, resultado da publicação do último Atlas da violência, recebi um questionamento: “por que vocês não contam os brancos também? , isso é preconceito…” seguido de uma “recomendação” para rever conceitos… .

Como um calejado ativista, estudioso da temática e também um educador, além de ter reconhecida e pública expertise, achei por bem didaticamente explicar a questão. Pois bem, então vamos lá:

Primeiro a pessoa tem que entender o que significa preconceito, depois discriminação, de posse dos dois conceitos deve buscar saber o que de fato é racismo. Com isso dominado vai saber o que é desigualdade racial e portanto qual motivo de se apresentar os indicadores estatísticos das questões que favorecem historicamente um grupo e prejudicam o outro.

Vejamos:

Retirado de https://www.diferenca.com

É necessário saber também que não existe preconceito ou racismo “reverso”, por isso é que sempre se denuncia o que é desequilíbrio… e normalmente a partir dos números que atingem os prejudicados principais, ou seja, “contando os negros”.

Podemos no entanto “contar os brancos” sim, e o que qualquer um vai ver é que nas coisas boas eles são sempre em maior proporção e nas coisas ruins eles são sempre menos…, entendeu ? 😉

Vamos “contar brancos” então:

Entenderam caríssimos ? “contar os brancos” não muda a realidade, só evidencia mais ainda a desigualdade, e isso é que deveria importar e indignar, não o fato de se denunciar a desigualdade a partir do indicadores dos negros…

Isso porém não é o pior, ainda há quem mesmo diante de todos esses dados e fatos insista em seguir no discurso da “divisão” sempre que se toca na questão da desigualdade racial.

Não somos nós que denunciamos a desigualdade que “dividimos” seja o que for, são a HISTÓRIA e REALIDADE que já fizeram isso, e é por conta disso os indicadores…, que eles insistem em ignorar para manter um discurso que não sabem mas se chama METARRACISTA (negar o racismo, ou em nome de um falso combate ao racismo, sugerir que não se fale mais dele ou não se tomem medidas para corrigir as desigualdades, deixando tudo como está, isso é trabalhar para o racismo, mesmo que involuntária e insconscientemente).

Você não divide quando coloca negros e índios em uma universidade que era só branca, você UNE, você não divide quando coloca negros no serviço público e em cargos elevados JUNTO com brancos, você UNE, você não divide quando favorece oportunidades para que negros tenham as mesmas condições que brancos e trabalhem juntos em pé de igualdade, morem juntos dividindo bairros de todos os tipos e não apenas bairros pobres…, você não divide quando permite aos índios manterem suas culturas e terras do jeito que eles querem… . A divisão é a realidade, quem quer ver enxerga…

Estamos trabalhando para mudar isso.


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DRA. ODILIA LAVIGNE, UMA MULHER PARA SER LEMBRADA

Registrando e deixando aqui link para texto de 2010, produzido por Maria Luiza Heine e publicado no seu Blog “Ilheus com amor”, sobre a primeira mulher negra formada médica no Brasil, em 1912, a baiana Odília Teixeira Lavigne, filha do médico negro baiano José Pereira Teixeira. Siga o link.

https://wp.me/pkOAV-e4


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Neoativismo, o que é afinal ?

Neoativismo e neoativistas é um termo que venho usando muito, salvo engano desde 2016, apesar de tratar do conceito por trás dos termos pelo menos desde 2011. Não raro pessoas que me leem, não entendem ou alcançam o sentido que dou a eles, então, este texto tem o sentido de deixar isso claro.

Vamos começar porém a partir do conceito de ativismo:

Fonte: dicionário online

Simplificando, ativismo é a atuação pela transformação das realidades, de modo a exigir e proteger direitos individuais e coletivos e fomentar igualdades, liberdades e respeitos. Ativista é quem assim atua, nos vários recortes possíveis marcadamente os sociais.

Há diferença de ativista para militante, enquanto o primeiro pode atuar sozinho ou em cooperações coletivas, já o segundo é sempre parte de um coletivo, de um partido… a atuação militante é em geral prática, “física” e conjunta, não à toa tem a mesma raiz de “militar”, ou seja, o militante é como um “soldado de causa”, age em unidades compostas e em eventos.

Cabe frisar agora que o termo neoativistas ou neo-ativistas, não é ainda popularizado, se veem poucas referências, aliás não lembro de tê-lo lido ou ouvido antes de utilizá-lo a primeira vez e com o sentido que dei, hoje sei que há algumas referências diversas e antigas que remetem à “nova esquerda” e “direito dos consumidores”, mas não é o caso do sentido que tenho utizado (e agora já vejo outros usando no mesmo sentido que eu), aliás é o que se destaca em uma simples “googlada”.

Neotivismo, para mim, é basicamente uma forma peculiar de praticar ativismos na era pós-internet e pós-acesso universitário de maior diversidade, ou seja, não necessariamente por pessoas muito jovens, de pouca ou nenhuma vivência prática de ativismo ou militância, com foco no virtual, tampouco apenas restrita a universitários, apesar de serem esses os perfis predominantes entre os neoativistas, além da forma agressiva, autoritária, excludente com que defendem suas pautas em geral muito polêmicas e de efetividade duvidosa.

Hoje muita gente também se refere a parte do que chamo de neoativismo, como “ativismo de lacração”, aonde imperam “textões” e comentaristas agressiv@s, autoritários e não raro potenciais “linchadores virtuais”.

O neoativismo é portanto muitíssimo mais uma questão de métodos, comportamentos e efetividades do que pauta ou mesmo pessoas…, tem a ver sim com a escolha e priorização de pautas (em geral inéditas, recentes e “identitárias”), porém, tem mais a ver com os efeitos disso e a forma de condução .

Exemplo real: Uma professora negra super reconhecida pela trajetória de apoio à causa negra e ativismo acadêmico em pesquisa sobre africanicidades, estava a frente da organização de um evento enorme e importantíssimo sobre a temática.

Uma das mesas (sobre África pré-colonial) entre muitas outras importantíssimas, foi absurda e desproporcionalmente atacada por neoativistas, pelo fato da mesa em questão ser composta por pessoas brancas (que por coincidência eram pesquisadores da temática e as que se apresentaram…), o fato gerou uma reação virtual absurda e desmedida inclusive com ameaças à integridade física da organizadora.

Fim da história, apesar de muita solidariedade e manifestações de acadêmicos negros e negras, associações científicas relacionadas, TODO O EVENTO FOI CANCELADO…, inclusive as mesas com altíssima representatividade negra. Um enorme prejuízo para a ciência temática, causado por gente que NÃO REALIZA NADA a não ser TRETA VIRTUAL e não farão um evento melhor, sequer igual, apenas destruiram o que havia, em nome de uma “ideia torta” de representatividade e “lugar de fala”… .

Uns dos grandes problemas do neoativismo é a equivocadíssima noção do que é lugar de fala, ou a confusão entre os conceitos de apropriação e expropriação, e assim seguem dando “tiros nos pés”, não apenas não avançam nas pautas questionabilissimas, como transtornam as de ganho efetivo… .

À quem interessar sugiro três outros textos meus que tratam de assuntos práticos envolvendo o conceito:

Movimentos negros ou movimentos pretos ?

https://blogdojuarezsilva.wordpress.com/2011/12/08/movimentos-negros-ou-movimentos-pretos-a-abrangencia-x-a-radicalizacao/

Lugar de fala, esse incompreendido

Lugar de fala, esse incompreendido

O neoativismo do sudeste X o Boi-bumbá amazonense

https://blogdojuarezsilva.wordpress.com/2018/05/06/o-neoativismo-do-sudeste-x-o-boi-bumba-amazonense/


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A dor por um Machado não branco

Machado de Assis, o grande escritor brasileiro era um afrodescendente. Mesmo sendo um fato já notório, constante da sua biografia, ainda há gente “lutando” por um Machado de Assis branco, inconformada com a representação mais realista que se anda fazendo dele.

Essa “briga” por um Machado branco só se pode mirar sob título de uma reação que visa prorrogar a ideologia de branqueamento e embranquecimento não apenas de grandes vultos da história brasilera, mas também da própria população… como se pode depreender deste trecho de texto meu de 2006…

Portanto essa posição é hoje indefensável, primeiro porque é de amplo conhecimento dos historiadores e estudiosos da temática étnico racial, a tradicional prática do “retrato americano”, técnica de pintura que visava “branquear” cor e traços de não brancos de fins do XIX. Segundo porque há fotos originais em que é perceptível que a tez de Machado não era branca. Terceiro porque há registros escritos sobre sua condição de “mulato”, bem como com sua descrição física, a exemplo:

“Mulato, ele foi de fato, um grego da melhor época. Eu não teria chamado Machado de Assis de mulato e penso que nada lhe doeria mais do que essa síntese. (…) O Machado para mim era um branco e creio que por tal se tornava; quando houvesse sangue estranho isso nada alterava a sua perfeita caracterização caucásica. Eu pelo menos só via nele o grego” (Joaquim Nabuco, em carta a José Veríssimo, após a morte de Machado de Assis).

O texto é claro e não dá margens para outra interpretação, ao iniciar com “Mulato, ele era de fato, um grego”, o que Nabuco está colocando é uma realidade (Mulato) contra a perspectiva moral que tinha de Machadot (equivale ao “classico negro de alma branca) . Em outro trecho diz “PARA MIM era branco e creio que por tal SE TORNAVA”, ou seja, novamente admite uma contradição entre o físico e a percepção que tinha do “lugar social” de Machado. Ao dizer “EU PELO MENOS, só via nele o grego” novamente reforça ser uma visão pessoal, que pela simples colocação deixa claro não ser a única possível nem unânime…

Ou ainda

Em 30 de setembro de 1933, o escritor Humberto de Campos, ao escrever um artigo para o ” Diário de Notícias”, traçou o seguinte perfil do colega Machado de Assis, a maior glória da literatura nacional de todos os tempos:
“Era miúdo de figura, mulato de sangue, escuro de pele, e usava uma barba curta e de tonalidade confusa, que dava ares de antigo escravo brasileiro, filho do senhor e criado na casa de boa família. Era gago de boca, límpido de espírito e manso de coração. E tornara-se pelo estudo e pelo trabalho o mais belo nome, e a glória pura e mais legítima, das letras nacionais”.

(

Uma foto pouco conhecida, publicada na revista argentina “Caras y Caretas” de 1908 mostra um Machado de traços notadamente afrodescendentes.

Igualmente, foto sem retoques e de conhecimento público desde 1957, não deixa dúvidas sobre a tez escura de Machado…

Portanto, não há nada de “fantasioso” em devolver à representação de Machado uma mais realista aparência.


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Ataque orquestrado à matriz africana em Manaus

Obscuros “sites de notícias” de Manaus, daquele tipo que serve para atacar desafetos políticos, reputações e atender interesses igualmente obscuros, aparentemente iniciaram hoje um ataque orquestrado tanto à políticos locais quanto à sacerdotes e as próprias religiões de matrizes africanas via vinculação de satanização.

A qualidade questionável e amadorismo de tais “noticiosos” se percebe em muitos detalhes, que vão desde a ausência de revisão nos textos, passando por linguagem não jornalística, até erros crassos nas matérias e “ameaças” direcionadas.

Os alvos primários do citado ataque parecem ser certos políticos, os secundários as religiões de matrizes africanas, utilizadas de forma distorcida, depreciativa e demonizada nos textos, com a clara finalidade de conferir estigma tanto à uns quanto à outras.

Como manda a praxe metarracista a intolerância não se coloca abertamente, mas através de distorções e referências que levam à uma visualização depreciativa, jocosa ou odienta por parte do leitor.

Tal fato, obviamente não ficará sem resposta devida, tanto no âmbito midiático quanto na esfera judicial. Foi-se o tempo em que a intolerância religiosa, o racismo e outras formas de preconceito e discriminação campeavam livremente sem consequências.