Blog do Juarez

Um espaço SELF-MEDIA


Deixe um comentário

INTOLERÂNCIA RELIGIOSA (de novo)

Hoje no jornal A Crítica saiu notícia sobre uma intolerância religiosa praticada por um padre na zona leste de Manaus, contra 4 integrantes das religiões de matrizes africanas que foram até a igreja pedir uma benção, ato que pessoalmente acho anacrônico, mas faz parte da tradição de iniciação.

Ocorre que a Igreja católica há muito não tem relação de discriminação com as religiões de matrizes africanas, pelo contrário, o respeito e acolhimento mútuo tem sido cada vez maior (até porque a esmagadora maioria dos adeptos das matrizes africanas são batizados e passaram por quase todos sacramentos da igreja católica) na há ou não deveria haver “antagonismo insuperável” entre católicos e afroreligiosos.

No entanto ainda temos sacerdotes e principalmente fiéis que ignoram isso e como de costume as caixas de comentários nos enchem de vergonha pela ignorância e intolerância registradas. Vejam e entendam, os tempos mudaram:


Deixe um comentário

COTAS PARA NEGROS, DOIS CASOS DE ERRO

Segundo caso de repercussão que comento em uma semana. O primeiro uma óbvia “permissividade” em que alguém sem marcas de fenótipo razoáveis (Ricardo Barros) soube-se foi aprovado em concurso público na cota para negros,  agora esse em que a “negritude” do candidato é no mínimo equivocadamente questionada.

As comissões de heteroidentificação devem ser formadas por pessoas conhecedoras da questão e conceitos envolvidos, deve também ter composição diversa, com homens, mulheres, pessoas pretas, pardas e brancas.

Se é verdade que a comissão foi composta somente por pessoas negras (e geralmente quando dizem isso não estão falando em negros na acepção correta mas em pessoas de cor preta) além da não presença (mesmo virtual) do candidato na avaliação, está absolutamente errado. Principalmente se essas pessoas tem formação duvidosa para lidar com a questão corretamente, coisa comum à  neoativistas, coloristas e  pessoas que não sabem a diferença de negro e preto… .

Isso é grave e não pode ocorrer 😒

Matéria em: https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2021/07/11/militar-filho-de-indigena-tenta-provar-que-nao-e-branco-em-cota-de-medicina.htm


2 Comentários

Luana Araújo, negritude e silêncios

Reprodução do Instagram pessoal

No embalo da CPI da Covid surgiu uma nova “musa” nacional, ou melhor amplificou-se em muito uma condição ou vocação de certo pré-existente mas em escala muito menor.

No caso o termo musa se aplica bem em seu sentido de ser feminino algo “divinal” filha de Zeus e Mnemosis, eram nove as musas inspiradoras e matronas das artes e ciências (e ela é uma cientista e também artista) mas também no sentido coloquial de mulher bela e cativante.

O texto, não tem como objetivo fazer loas à cientista, que “lavou a alma” do país (bom, ao menos da maior parte dele) ao com desenvoltura abalar os alicerces do negacionismo e anticientíficismo do governo federal e apoiadores. Escrevo ao perceber um estranho silêncio generalizado sobre a identitarização racial da Dra. Luana, que como já dito, além de cientista de alto nível, também tem talentos artísticos e midiáticos. Não que seja interessante a racialização de tudo e todos. Com pessoas brancas por exemplo esse é um ponto tocado apenas quando acontece algo que clame claramente uma questão de discriminação ou privilégio em relação a outros, não é o caso de pessoas não-brancas que em tudo e por tudo dificilmente escapam de alguma observação nesse sentido, mesmo gratuita.

Pois bem, é estranho que (ao menos eu não vi) não tenham tocado no assunto, nem para “colar afirmativamente” e reinvidicar nela uma negritude inspiradora, tampouco por ao contrário agregar “desqualificação velada” pela não-brancura, o que pode ter sido substituído cinicamente pelo tratamento de “cantora” adjetivado de “frustrada” feito por alguns obviamente negacionistas descontentes e não de Doutora…

Que a Dra. não é branca é óbvio, a “marca” como diria Oracy Nogueira está lá bem colocada em traços, como lábios, cabelo, tom de pele…, mas também na pegada artística, um tanto “black” em um sobrevôo mais atento. Então qual o motivo do silêncio ? Um mistério…

Em uma visita ao seu Instagram, que decididamente é de “popstar” mesmo que incluindo toda a verve científica, se apura que ela apesar de não “levantar bandeira”, admite a sua origem negra, e até com um certo “proud”, mas aí vai por um caminho de “coluna do meio”, tipo “nem branca nem negra” seguida de uma ode à miscigenação, referências comemorativas ao 13 de maio, loas à Princesa Isabel, enfim tudo que se enquadra em um perfil alheio ao de consciência negra, mais alinhado com o do conservadorismo metarracista (que se diz antirracista, mas na verdade vai contra as premissas e interesses do verdadeiro antirracismo)

Reprodução do Instagram

A nossa problematização passa longe de querer cobrar de A ou B uma pertença identitária compulsória, mas questionar o porque a heteroidentificação silencia em alguns casos, assim como a autodeclaração busca uma providencial “coluna do meio”, enquanto em outros casos a pouca marca não impede a autoidentificação enquanto pessoa negra e não como miscigenada.

Creio que são três os principais problemas, o primeiro uma tentativa consciente ou inconsciente de fugir da estigmatização por ser negro(a), o segundo uma introjetada ideia do dito “mito da democracia racial” combinado com um ideal romântico da miscigenação, não percebida como grandemente fomentado por uma antiga política nacional de branqueamento da nação, e terceiro e por fim, pelo desconhecimento dos termos e conceitos que definem as identidades. Por exemplo, a ideia equivocada que negro e preto são sinônimos (quando não são) e que pardo é uma identidade intermediária e independente da negra.

Por economia textual, não vou detalhar bem aqui esses termos e conceitos, remetendo à um outro texto meu específico Entendendo finalmente a diferença de preto para negro, o que vou sucintamente marcar aqui é que PRETO(A) é quem parece um africano não miscigenado ou de pouca miscigenação (o meu caso, que em África só era notado como “gringo” quando abria a boca para falar) NEGRO(A) é quem tem ascendentes trazidos no tráfico negreiro transatlântico, ou seja, escravizados. Portanto ser negro(a) não é uma questão apenas de marca mas principalmente de ORIGEM, é negro(a) quem descende de negros (independente de ser ou parecer miscigenado).

A questão da miscigenação

A Antropologia, mas antes a prática social, se rende ao chamado conceito ou “Lei de Marvin Harris” antropólogo norte-americano falecido em 2002, que pesquisando povos de todo o mundo identificou que invariavelmente o produto de miscigenação étnico-racial é socialmente alocado no lado menos hegemônico e socialmente valorizado de sua múltipla origem, a chamada HIPODESCENDENCIA. Ou seja, no caso uma pessoa não-branca, jamais é alocada socialmente enquanto branca ou mesmo “mista”, exceto caso ela não possua qualquer marca fenotípica que denuncie parte de sua origem estigmatizada e quando o racismo não é o chamado de origem, aonde basta a desconfiança de uma origem estigmatizada para que a pessoa sofra o preconceito e discriminação. No Brasil o racismo é de marca (aparência) muito mais que de origem. Não sei o que a Dra. apurou sobre isso de sua experiência fora do país, mas normalmente é sempre uma “surpresa” e abalo das percepções brazucas de autobrancura ou “meiabrancura”.

Outro ponto é que sendo sabido que biologicamente não há diferentes raças entre humanos, os quais formam uma espécie única, o homo sapiens, a ideia de “mestiço” ou “mistura” da mesma coisa com a mesma coisa é uma falácia teórica.

Tenho certeza que a agora nacionalmente aclamada cientista, à luz da ciência, mesmo que não sejam as do seu metier, haveria de concordar que a ideia de “nem black nem white” é anticientífica, é mais ideológica, vinda de uma política nacional de branqueamento eugenica e escamoteamento de nossas desigualdades sociais de origem racial e psicológico de evitamento da dor da estigmatização. Talvez diante da base científica para reinvidicar sua negritude até se sentiria feliz por poder fazer algo que na alma de artista até já lhe tenha passado.

Aliás, o texto é uma carta aberta, não é pessoalmente direcionado, é para reflexão pública e aproveitamento da informação por quem se sentir nesse “limbo”.


Deixe um comentário

TOBY NÃO ! KUNTA KINTÊ!!!

Um dos problemas do neoativismo negro é a ideia romantizada e irreal de que somos africanos ou afrakanos como preferem alguns. A verdade é que nós diaspóricos produto do tráfico negreiro transatlântico temos raiz, mas africanos não somos, e essa é uma das primeiras coisas que descobrimos ao ter a oportunidade de viver um tempo por lá (principalmente os obviamente miscigenados que aqui se chamam de pretos e lá destoam na paisagem, já que a miscigenação por lá comparada com as diaspóricas foi mínima)… .

A história e os séculos nos transformaram em “outra coisa”, por mais que pelas regras do racismo estrutural até sejamos vistos como estrangeiros em nossa própria terra, pelo que paradoxalmente tanto racistas quanto “afrocentristas” ou “panafricanistas desse lado do Atlântico” concordam e lutam.

É até compreensível a busca por uma identidade que tenta reafirmar essa ligação ancestral por meio do viés cultural, estético etc, mas tem gente que exagera… . Os que tem religiosidade de matrizes africanas, tem o seu nome afro interno, que as vezes também tem uso social que remete à tradições do continente africano, outros adotam apelidos ou nomes fakes que nada tem à ver com a sua real origem ( étnicamente falando, em termos familiares ou mesmo de regiões africanas ancestrais) mas lhes proporcionam um sentimento de insurgência anticolonialista e pertencimento afro, até aí tudo bem.

A grande questão é quando a utopia vai além do razoável, e quando digo razoável é entender que gostando ou não, tanto nós quanto muitas gerações da nossa ancestralidade fomos formados nesse caldo de cultura cheio de expropriações e apropriações do novo mundo. Eu até admirava no épico filme “Raízes” baseado no livro de Alex Hailey, quando o escravizado Kunta Kintê obstinadamente tentava preservar o próprio nome e identidade, não aceitando o “Toby” do colonizador, mas ele era um verdadeiro africano recém retirado de sua cultura, o que é bem diferente de alguém que não tem um africano na família a provavelmente pelo menos 7 gerações, das quais a esmagadora maioria mal tem referência das 3 anteriores a si mesmo… .

Somos afro-brasileiros com tudo que isso significa, nada vai mudar isso, nem um nome africano arbitrário num pedaço de papel…, precisamos é de respeito e justa integração social, identidade até faz parte, mas não é a única nem mais útil demanda.


Deixe um comentário

LGBTFOBIA NÃO É RACISMO…

Ornitorrinco é um animal bizarro, mamífero que vive na água, tem bico e nadadeiras semelhante um pato e põe ovos. Tão exótico quanto certas combinações conceituais e teóricas que as vezes se insiste em tentar “validar”.

Que dificuldade ! Mania essa a de fazer malabarismos que não se respaldam semântica, conceitual e lógicamente…

As palavras não existem à toa… RACISMO é discriminação por motivo de “raça”, LGBT* e HÉTEROS simplesmentee não são e nunca foram considerados “raça”, mas sim grupos de orientação sexual e gênero diversa. O preconceito e discriminação contra LGBT*s NÃO É RACISMO, para isso existe o termo LGBTFOBIA…, hoje apenas se utiliza para criminalização a mesma lei antirracista (e nada contra) ENQUANTO NÃO VOTAREM UMA ESPECÍFICA…

Por outro lado, falar em “racismo reverso” é falsa simetria…, racismo é uma estrutura de preconceitos e discriminação HISTÓRICA e CULTURALMENTE construída e aplicada pelos grupos hegemônicos contra os tidos como estigmatizados. Não tem “mão dupla”, o que pode ter são vítimas patéticas do racismo tentando reproduzir comportamentos racistas, ou mesmo sendo INSURGENTES, isso não é racismo, são efeitos e consequências dele.

Racismo é um fenômeno social identificado e sistematizado. Não se limita ao interpretado de forma positivista da lei… .


Afinal o que é então o racismo ? (segundo definições de alguns estudiosos renomados (brasileiros e estrangeiros):

“O racismo, como construção ideológica incorporada em e realizada através de um conjunto de práticas materiais de discriminação racial, é o determinante primário da posição dos não-brancos nas relações de produção e distribuição” (Hasenbalg, 1979, p. 114).

“(a) discriminação e preconceito raciais não são mantidos intactos após a abolição mas, pelo contrário, adquirem novos significados e funções dentro das novas estruturas e (b) as práticas racistas do grupo dominante branco que perpetuam a subordinação dos negros não são meros arcaísmos do passado, mas estão funcionalmente relacionadas aos benefícios materiais e simbólicos que o grupo branco da desqualificação competitiva dos não brancos.” (Hasenbalg, 1979, p. 85)

Segundo (Blumer, 1939) “São quatro os sentimentos que estarão sempre presentes no preconceito racial do grupo dominante: (a) de superioridade; (b) de que a raça subordinada é intrinsecamente diferente e alienígena; (c) de monopólio sobre certas vantagens e privilégios; e (d) de medo ou suspeita de que a raça subordinada deseje partilhar as prerrogativas da raça dominante. “

“Considera-se como preconceito racial uma disposição (ou atitude) desfavorável, culturalmente condicionada, em relação aos membros de uma população, aos quais se têm como estigmatizados, seja devido à aparência, seja devido a toda ou parte da ascendência étnica que se lhes atribui ou reconhece. Quando o preconceito de raça se exerce em relação à aparência, isto é, quando toma por pretexto para as suas manifestações os traços físicos do indivíduo, a fisionomia, os gestos, o sotaque, diz-se que é de marca; quando basta a suposição de que o indivíduo descende de certo grupo étnico, para que sofra as conseqüências do preconceito, diz-se que é de origem. (Nogueira, 1985, p. 78-9)

“Surgiu, então, a noção de “preconceito de cor” como uma categoria inclusiva de pensamento. Ela foi construída para designar, estrutural, emocional e cognitivamente, todos os aspectos envolvidos pelo padrão assimétrico e tradicionalista de relação racial. Por isso, quando o negro e mulato falam de “preconceito de cor”, eles não distinguem o “preconceito” propriamente dito da “discriminação”. Ambos estão fundidos numa mesma representação conceitual. Esse procedimento induziu alguns especialistas, tanto brasileiros, quanto estrangeiros, a lamentáveis confusões interpretativas.” (Fernandes, 1965, p. 27)

Portanto a coisa não é tão simples como quem usa termos e conceitos de forma equivocada, interpreta a lei de modo positivista, ou acha que racismo tem “mão dupla” e não oferece nada além de um “EU acho…”. Não é que um “ornitorrinco” seja absolutamente inviável, prova é que eles são reais, mas convenhamos, é esquisito e raro tipo de combinação esdrúxula que funciona, no mais das vezes é uma improbabilidade lógica.

Referências

BLUMER, (Herbert). “The nature of racial prejudice”. Social Process in Hawaii, 1939, 11-20.

FERNANDES (Florestan) . — A integração do Negro na sociedade de classes. Dominus Editora. São Paulo, 2 vols. 655 págs., 1965. 1° Vol. “O legado da raça branca” . 2° Vol. “No limiar de uma nova era” .

HASENBALG, Carlos. Discriminação e Desigualdades Raciais no Brasil. Rio de Janeiro, Graal, 1979.

NOGUEIRA (Oracy) – Tanto preto quanto branco – Estudos de relações raciais. São Paulo, T. A. Queiroz, 1985.


Deixe um comentário

Gato que nasce no forno…, ou o terraplanismo panafricanista de facebook

Na temporada que passei lecionando em Moçambique anos atrás, aprendi um ditado que era usado pelos portugueses e seus descendentes nos tempos coloniais, que no caso foi até meados dos anos 70 do século passado, portanto “recente”. O ditado dizia “Gato que nasce no forno não é biscoito, é gato”, ou seja, não importa o local de nascimento, mas sim de quem se descende. Era uma forma de “proteger” os filhos e “proteger-se”, no caso dos nascidos na colônia, da identificação estigmatizante como africanos, apenas por terem nascido no continente.

Era uma utilização obviamente racista e negacionista. Racista por entender que ser africano, mesmo que de origem européia era “ofensivo” e segundo por negar uma condição óbvia chamada NATURALIDADE.

Fiz a introdução para demonstrar o quão tortas e falaciosas são as premissas de “panafricanistas de facebook” que se identificam como “Afrikanos” ou “Afrakanos” não o sendo. Usando a mesma lógica, do “não importa onde nasça só seus ancestrais é que te definem”, acabam por repetir a mesma barbaridade que unia os racistas da Klu Klux Klan, que viam os negros que ajudaram a construir os EUA como alienígenas africanos (enquanto não se viam como invasores alienígenas da América) e desejavam mandar os negros para “o seu lugar, a África” e os seguidores de Marcus Garvey, que pretendiam se apossar da África por se considerarem “africanos”, apenas pela descendência.

Não é à toa que são tão agressivos, renitentes e fascistóides como os terraplanistas e outros tipos de negacionistas que se agrupam ou sobrepõem. Por mais que se apresentem argumentos e evidências nada os demovem da “fé cega” e da negação das evidências.

Quando topo com um desses ai pela web, lembro dos neonazistas brasileiros que escreveram para um grupo neonazi alemão e foram esculhambados, rechaçados e chamados de “cucarachas”, ou mais recentemente dos “brancos do sul” que foram mortos pelos gringos no filme Bacurau. Exemplos de percepção fantasiosa e identidade falaciosa.

Vou dar um exemplo, é comum no Brasil as vezes se referir ou apelidar às pessoas por sua ancestralidade, “Alemão”, “Japonês”, “Turco”, “Portuga”, quando há um fenótipo ou informações que apontem para essas origens nacionais… . Isso porém não ocorre com todo brasileiro dito “branco”. Por outro lado, diga sinceramente se você já viu algum branco brasileiro, mesmo os descendentes de imigrantes mais “recentes” se dizendo “EUROPEU” ou assim sendo referenciado ??? . Ser branco não é necessariamente ser europeu, no mais das vezes é ser eurodescendente, o que é coisa distinta. Então por que raios, alguns afrodescendentes, afrodiaspóricos querem insistir em se dizer “Afrikanos” ou “Afrakanos” quando NÃO SÃO ???. Qual é a dificuldade de entender que africano é quem nasce em África e que quem descende de africanos é afrodescendente. ? As palavras não existem e são diferentes à toa.

Não venham brigar comigo, vão brigar com os livros, dicionários, com a ONU…, que diz claramente em seu glossário que afrodescendente “é uma pessoa de descendência africana subsaariana, mas NÃO É ele(a) mesmo(a) africano(a).”

Na terraplana panafricanista de facebook, evidências e referências não contam, anos de estudos sobre África, africanos e diáspora não contam, experiências reais em África não contam…, só o que conta é usar a mesma lógica racista e estapafúrdia, do “não sou biscoito só por ter nascido no forno”, se fantasiarem de afrakanos (com coisas que nem os próprios africanos usam) e saírem bradando mecânica e insistentemente “Sou Afrikano”, além é claro de atacar quem por N motivos não concorda.

Enquanto isso, depois de 3 décadas de estudos, alguma grana gasta com livros, incontáveis horas de pesquisa em N meios, cursos sobre História e Cultura africana e afrobrasileira, temporada em África para uma experiência real, seminários, congressos, vivências culturais, artigos, capítulos de livro publicados, reconhecimento público e acadêmico na temática, lá vem aquela meninada que não consegue se contrapor a um argumento no mesmo nível, gastar sua agressividade, arrogância e soltar emojis com risadinhas… . Se a gente após todo esse trabalho “não pode” nem opinar no que conhece, fico imaginando o que é que os autoriza sem nada disso.


Deixe um comentário

Fenótipo X Estereótipo

Nesses tempos em que a discussão das relações raciais ganha grande visibilidade é importante conhecer e entender os termos e conceitos envolvidos, para não cometer equívocos, injustiças ou por outro lado, acabar “passando pano” para o racismo.

Em outras palavras, FENÓTIPO é aparência da pessoa, isso resulta da combinação genética herdada dos seus ancestrais. Sendo assim o fenótipo é próprio, individual. Porém os indivíduos de uma mesma população em seu contexto original ou expatriado tende a compartilhar muitos traços comuns, como cor da pele, olhos, traços fisionômicos, cabelo e compleição física. O fenótipo da pistas da ancestralidade geográfica dos indivíduos, e que associado a elementos culturais pode apontar  origem ou pertença étnico-racial. O tipo de fenótipo mais característico de cada continente foi utilizado para definir o superado conceito de distintas raças entre os humanos, bem como para a prática racista.

Já o ESTEREÓTIPO é uma ideia preconceituosa, um padrão estético e comportamental que se atribui arbitrariamente a um grupo e seus membros, não raro com ilações morais. O estereótipo abarca fenótipos na sua composição. Vem dai a sua utilização para preconceitos positivos ou negativos, bem como discriminações. O uso do termo traz embutida a CLARA NOÇÃO de VISÃO PRECONCEITUOSA e na verdade não abrangente.

Um exemplo claro da confusão entre os termos vem de uma sentença judicial…

Em uma leitura apressada ou na falta de compreensão do sentido do termo, alguém pode entender que se está admitindo que há um padrão estético real para bandidos e que ele está vinculado a cor, traços, cabelos, enfim o que ainda se costuma dizer “raça”. No entanto não é o caso, esse entendimento só seria plausível caso o termo utilizado fosse FENÓTIPO.

Ao dizer ESTEREÓTIPO, já se está dizendo que é um padrão irreal, preconceituoso. Ao negar o benefício da dúvida pelo réu ter características fenotípicas que não são cultural e arraigadamente associadas a um estereótipo de malfeitor, o que tradicionalmente leva a erros de reconhecimento e injustiças, se está dizendo justamente que o racismo prejudica não-brancos, mas que ao réu, sendo branco e livre de estereótipo negativo e causador de constantes erros de reconhecimento, a razoável dúvida não poderia beneficiar.

Bem diferente de uma outra sentença, em que o fenótipo do réu (raça) foi utilizado de forma estereotipada, causando a automática associação racista da condição racial do indivíduo com a de criminoso:

“Seguramente integrante do grupo criminoso, em razão da sua raça” não deixa espaço razoável para uma descontextualização ou outra interpretação… . Ai o ESTEREÓTIPO foi utilizado em sua plena função estigmatizante, para condenar.


Deixe um comentário

Beyoncé e o retorno às raízes

Me dá um desalento essas “idas e vindas” das discussões dos movimentos negros. Tudo bem que as novas gerações não estavam no planeta quando isso estava “quente”, por isso acham que vários assuntos são novos, acham quem estão avançados ou “pisando terreno novo”.

Por isso que é importante a memória. Faz parte da essência afro o ouvir os mais velhos, os que vieram antes, o conceito de “griot” que vai muito além da contação de histórias. Importante seria que todo mundo buscasse a história dos movimentos, a evolução dos paradigmas e demandas na população ao longo do tempo, antes de  “reiventar a roda” e achar que está sendo “original”.

Vendo o povo às turras por conta do filme da Beyoncé, discutindo se a mensagem de “retorno à África” (mítica)  é literal ou “filosófica”, de resgate de raízes e conhecimentos.  Se estivessem no planeta e conscientes 40 anos atrás, lembrariam da banda norte-americana ODISSEY performando “Going back to my roots” (“Voltando às minhas raízes) e teriam a resposta… :

“To the place of my birth
Back down to earth
Ain’t talkin’ ‘bout no roots in the land

Talkin’ ‘bout the roots in the man
I feel my spirit gettin’ old
It’s time to recharge my soul”

Tradução: “Para o local do meu nascimento
De volta à terra (planeta)
Não estou falando sobre raízes na terra

Falando sobre as raízes do homem
Eu sinto meu espírito ficando velho
É hora de recarregar minha alma” .

Obviamente se está falando de valores ancestrais DA HUMANIDADE INCIPIENTE, que surge em África… uma África mítica, que não necessariamente é a terra africana atual, que também passou por processo eurocentrico e perdeu boa parte da cultura e filosofia originária. Não uma filosofia e lógica perversas e destrutivas  como as que temos no ocidente, mas como os vestígios que ainda encontramos no UBUNTU ou nas cosmovisões que sobreviveram em África e na diáspora africana.

Cabe lembrar, que para o afroamericanos, que foram muito mais colonizados mentalmente, a ponto de normalmente não terem referências culturais e espirituais “africanas”  como nós afrodiaspóricos temos, essa busca de raízes africanas é muito mais distante, longa e complicada. Daí que tendem a ir ainda mais distante no tempo e espaço para encontrá-las…

O texto da burundiana Judicaelle Irakoze expressa uma posição jovem mas que não “joga a criança fora com a água da bacia”, traz uma visão muito sensata de como o resgate da africanidade deve ser encarado: “Por que devemos ter cuidado ao assistir ‘Black Is King’ de Beyoncé” https://medium.com/@allankardecpereira/por-que-devemos-ter-cuidado-ao-assistir-black-is-king-de-beyonc%C3%A9-eead653fa9ac


Deixe um comentário

Pela abolição da estupidez e da ode acrítica ao 13 de maio

O 13 de maio, data da abolição malfeita da escravidão no Brasil, já estava sendo há alguns anos colocado no lugar que deve ocupar na história do Brasil e no sentimento popular. Porém, o rumo reacionário, fascista e racista exacerbado dos últimos tempos nos trouxe à um real retrocesso, inclusive nos níveis institucionais.

Com a estratégia governamental de desmonte das conquistas ambientais, sociais, educacionais e culturais por meio dos “antiministérios”, ou seja, ministérios e secretarias ocupadas por gente que vai justamente no sentido contrário dos objetivos naturais das pastas e aspirações dos recortes relacionados, perdemos enquanto população negra, todas as instâncias estatais de valorização da cultura e combate ao racismo e desigualdades, como a SEPPIR e mais recentemente a Fundação Cultural Palmares.

O caso da Palmares é ainda mais emblemático, pois usa e abusa do cinismo METARRACISTA com requintes de deboche. À frente da fundação temos uma pessoa negra que é antítese do pensamento e de tudo pelo qual protoativistas e ativistas negr@s tem lutado nas últimas 13 décadas. Quando o próprio irmão de sangue o chama publicamente de “capitão-do-mato”, não está fazendo uma “injúria racial”, mas sim uma analogia sócio-histórica com uma figura patética que a serviço do status quo escravista/racista buscava impedir o natural direito à liberdade e dignidade dos que fugiam do execrável cativeiro no passado e que transposta aos dias atuais, segue servindo ao status quo METARRACISTA, com a finalidade de desmontar a luta anti-racista e os avanços da população negra.  O fato de majoritariamente terem sido os capitães-do-mato também negros é apenas um detalhe sórdido das práticas racistas do grupo que no passado e no presente se “beneficia da desqualificação e exploração material e simbólica dos não-brancos” como diria Carlos Hasenbalg.

É ignóbil a proposta de retroceder ao “culto à princesa Isabel”, de trocar o nome da Fundação Palmares para “André Rebouças”, que apesar de abolicionista histórico é também conhecido pela sua fidelidade monárquica e pela sujeição inconteste à hegemonia branca e seus valores e modos de ser (a famosa “alma branca”, que pretos tinham que assumir e fazer ode, caso quisessem ser tolerados e obter alguma mobilidade social), feita pelo seu atual titular. Complementada pelo absurdo renegar de Zumbi do Palmares (herói do panteão nacional) e da data em sua homenagem e do quilombo de Palmares, o 20 de novembro, sobreposto pela “Consciência Negra”.

Neste momento cerca de 170 historiador@s negr@s estão em uma maratona coordenada de lives nas redes sociais, com 16 horas de duração, fazendo o cotraponto à essa tentativa de “ressuscitar” o 13 de maio na forma que foi antigamente. Nossas histórias e perspectivas serão contadas por nós mesmos, não para atender interesses antinegro.

Chamada do evento

O 13 de maio é data histórica, e como tal não deixará de ser lembrada, mas não será nunca mais utilizada para contar uma história laudatória à família real, à “bondade da princesa” e o exclusivo protagonismo de abolicionistas brancos, retirando dos próprios negros a sua histórica luta pela emancipação. Luta que se estende até os dias atuais. “Enquanto os leões não puderem contar suas próprias histórias, as histórias serão sempre as dos caçadores” (ditado yorubá), pois é, acabou a “história única” dos caçadores e seus admiradores acríticos.


Deixe um comentário

Por quê os Orixás se comportam diferente e se apresentam distintamente em África, Caribe e Brasil ?

Yemanjá em terra, na Nigéria, Brasil e Cuba.

Logo de início deixo claro que é apenas uma reflexão minha, uma hipótese levantada a partir do meu conhecimento sobre as religiões de matrizes africanas enquanto estudioso/ acadêmico e praticante neófito (há alguns anos), não a partir dos “segredos” e fundamentos que só pertencem aos sacerdotes e sacerdotisas.

Orixás nas américas e caribe vieram nos oris dos traficados de África. Assim como os nossos ancestrais tiveram que se adaptar ao novo mundo as formas de culto também… .

Não são os Orixás feitos dos Orixás dos Babas e Yas ? Não conformariam linhagens com características “hereditárias” ? de quantos “oris originais” saíram os santos afrobrasileiros ? Isso explicaria o “padrão” que temos aqui ? diferente dos africanos ou mesmo dos caribenhos, sobretudo os cubanos, cujas características são parecidas entre si, mas um tanto diferente dos que vem à terra no Brasil ??? .

Outra questão que se coloca ante algumas afirmações “puristas” que visam colocar as práticas em África como “preferenciais e verdadeiras tradições a serem seguidas” é : As formas de culto em África permanecem as mesmas de 500 anos atrás ? de certo não, inclusive algo do perdido por lá, aqui foi preservado, mas como lá, também aqui ocorreram mudanças circunstanciais… .

Não existe “pureza” em se tratando de cultura mas sim tradições e isso inclui as relações e práticas do místico-sagrado, no entanto é bom lembrar que toda tradição é uma invenção, uma construção ao longo do tempo e do espaço, que agrega, abandona e substitui elementos além de mesclas com elementos de outras culturas que com o tempo passam a ser vistos como parte natural da tradição sem maiores questionamentos.

A natureza é forte mas até ela muda ou é mudada, por vezes em alguns aspectos “controlada”. Todo fogo é incontrolado/ incontrolável ?, toda água só vai aonde quer e como quer ? não se pode “obrigar” uma nuvem a fazer chuva ?, o vento não pode levar um barco a um destino ? não pode ser produzido em forma de jato ? não existem “quebra-ventos” ?, o ar não pode ser resfriado, aquecido, canalizado? então…

Isso não quer dizer que a natureza seja absolutamente controlável e sabemos muito bem que não, tampouco as forças naturais ou sobrenaturais.

Se partirmos do pressuposto que “nada se controla” das forças ou energias da natureza ou que nada funciona fazendo um pouco ou mesmo medianamente diferente, então teríamos um grande paradoxo, pois não existiria nem tecnologia, muito menos mística… nem aqui, nem no Caribe, nem em África… 🤷🏿‍♂️