Blog do Juarez

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VAMOS BRINCAR DE ENEM

A proposta é testar se você sabe de onde vem a noção política de “esquerda” e “direita”, então vamos lá:

Exercício resolvido

(Enem) “Em nosso país queremos substituir o egoísmo pela moral, a honra pela probidade, os usos pelos princípios, as conveniências pelos deveres, a tirania da moda pelo império da razão, o desprezo à desgraça pelo desprezo ao vício, a insolência pelo orgulho, a vaidade pela grandeza de alma, o amor ao dinheiro pelo amor à glória, a boa companhia pelas boas pessoas, a intriga pelo mérito, o espirituoso pelo gênio, o brilho pela verdade, o tédio da volúpia pelo encanto da felicidade, a mesquinharia dos grandes pela grandeza do homem.”

HUNT, L. Revolução Francesa e Vida Privada. In: PERROT, M. (Org.) História da Vida Privada: da Revolução Francesa à Primeira Guerra. Vol. 4. São Paulo: Companhia das Letras, 1991 (adaptado)

O discurso de Robespierre, de 5 de fevereiro de 1794, do qual o trecho transcrito é parte, relaciona-se à qual dos grupos político-sociais envolvidos na Revolução Francesa?

a) À alta burguesia, que desejava participar do poder legislativo francês como força política dominante.

b) Ao clero francês, que desejava justiça social e era ligado à alta burguesia.

c) A militares oriundos da pequena e média burguesia, que derrotaram as potências rivais e queriam reorganizar a França internamente.

d) À nobreza esclarecida, que, em função do seu contato com os intelectuais iluministas, desejava extinguir o absolutismo francês.

e) Aos representantes da pequena e média burguesia e das camadas populares, que desejavam justiça social e direitos políticos.

Resolução: LETRA E

Maximilien Robespierre era o líder dos jacobinos no período em que eles estiveram à frente da Revolução Francesa. A ascensão dos jacobinos foi impulsionada pelo apoio do povo, sobretudo dos sans-culottes. Contavam com o apoio da pequena e média burguesia e desejavam ampliar as reformas sociais na França revolucionária. Durante o domínio dos jacobinos, aconteceu o período conhecido como Terror, no qual os opositores dos jacobinos eram sumariamente guilhotinados.

|1| HOBSBAWM, Eric. A Era das Revoluções 1789-1848. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2014, p. 114.
|2| Idem, p. 119.

OK, então já sabemos na revolução francesa quem eram os Jacobinos, era o povão que junto com a pequena e média burguesia se opunha à aristocracia, ao clero aliado e aos conservadores, generalizados então como Girondinos.

Na Assembleia Jacobinos ficavam no lado esquerdo e Girondinos no lado direito. Resumindo, quem defendia liberdade, igualdade e o lado dos mais pobres era da esquerda, os que defendiam a desigualdade e os interesses dos mais ricos era direita…

Karl Marx, o teórico do socialismo moderno e dos comunistas só iria nascer em 5 de maio de 1818, em Tréveris, Alemanha, ou seja, 24 anos depois da ideia de esquerda e direita ter sido implantada e na França…, portanto nada a ver, limitar hoje o que é ser esquerda ao campo socialista e direita ao que não é socialista. A questão é de “lado dos pobres” e “lado dos ricos”, lado dos avanços sociais ou lado da desigualação e privilégios, lado da solidariedade ou lado do egoísmo, simples assim…

Por isso é que a melhor definição de esquerda hoje é a do Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai, que vai na raiz da ideia.


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UM NOVO PARADIGMA CRIPTO

Enquanto o BITCOIN sofre com a antipatia mundial por motivos ambientais, com o desapoio oficial da China e Irã e a resistência de investidores conservadores antidigitais, as altcoins e “shitcoins”, em especial as moedas meme caem no gosto popular e vão ampliando sua participação de mercado, melhorando posições no ranking e entregando percentuais de lucro impressionantes (apesar de também caírem com a mesma facilidade e rapidez que sobem)🤷🏿‍♂️.

As frases abaixo apontam bem a lógica por trás do paradigma:

“O dogecoin tem cachorro e meme, já os outros não” (Elon Musk)

“Os memes são a linguagem da geração do milênio […] Agora vamos ter um meme ligado a uma moeda.” (Glauber Contessoto)

“A dogecoin tem o melhor branding de todas as criptomoedas[..] Se você colocar na minha frente todos os símbolos de ethereum, bitcoin, litecoin — tudo parece apenas super high-tech e futurista. E a dogecoin parece com: ‘E aí, tudo bem?’ ” (Glauber Contessoto)

Contessoto é um brasileiro que vive nos EUA desde criança e ficou milionário com a moeda meme, virando notícia no The New York Times. O motivo dessa postagem não é uma ode ao Dogecoin, mas a constatação de que os critérios meramente técnicos e “fundamentos” não são mais o único caminho de sucesso de uma criptmoeda, a “simpatia” do ativo e o engajamento dos seus detentores pode sim agregar valor e tornar o que foi iniciado a partir de um meme, em “coisa séria” e lucrativa, principalmente se além da simpatia houver por trás um projeto muito bem estruturado e útil.

Caso da criptomoeda brasileira REAU, baseada no nosso querido Viralata Caramelo, e que ainda serve para caridade apoiando abrigos de cães retirados de situação de rua e vulnerabilidades. Se a REAU ainda não “decolou” em preço (aliás até decolou mas foi prejudicada por acusações infundadas e mal intencionadas), engajamento não falta por parte da comunidade apoiadora que passa de 23 mil, a moeda já ganhou citações na mídia especializada, o mercado estrangeiro e até uma competição internacional de  potencialidade,  o Crypto Moon Watch. Portanto questão de tempo até atingir o status de “milionarizadora”.

Viralata Finance, o REAU, primeiro cachorro na lua verde

Finalizando, ainda com Contessoto na FSP

“Eu acho que um dia todos vamos comprar e vender coisas com memes, e a dogecoin vai abrir o caminho”, disse ele. Por mais estranha que possa parecer sua tese de investimento, é difícil negar os resultados.” (Glauber Contessoto/FSP)

Pois é, fiquem atentos, nem só de Bitcoin vive o mundo cripto.

Blogdojuarezsilva


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ENDIVIDAMENTO PÚBLICO e EMISSÃO DE MOEDA ou AUMENTO DE ARRECADAÇÃO ? 🤔

China lança moeda digital oficial



Todo estado precisa encontrar formas de fazer girar a economia doméstica, para isso deve gastar e fomentar trabalho. Ou seja, o estado gasta primeiro para que o dinheiro que ele emite circule, imposto e taxação ajudam mas não são o principal trunfo dos governos para ter recursos e distribuir renda, principalmente a social.

O verdadeiro trunfo é a capacidade de aumentar o endividamento público e imprimir dinheiro, e isso não é problema desde que a economia não esteja no limite de superaquecimento, o que gera inflação “apodrecendo” a moeda para além do racional.

A novidade das moedas digitais oficiais oferecem uma solução bem controlável para injetar dinheiro na economia inclusive nos programas de renda social. Outro ponto é a possibilidade de ter dinheiro com data de validade, o que incentiva o consumo no curto prazo ao invés da poupança e especulação. A China já está nessa…, inclusive mudou posição com relação às criptmoedas descentralizadas, ou o Bitcoin, autorizando o seu uso paralelo no comércio.

https://blocktrends.com.br/china-lanca-moeda-digital-e-testa-dinheiro-com-prazo-de-validade-para-estimular-consumo/amp/

https://oasislab.com.br/governo-chines-legaliza-o-uso-de-criptomoedas-no-comercio/#:~:text=Indiv%C3%ADduos%20e%20empresas%20poder%C3%A3o%20transferir,de%20not%C3%ADcias%20CCN%20e%20CnLedger.

https://pt.gizchina.it/2021/03/revolu%C3%A7%C3%A3o-e-digital-yuan-china/amp/


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NFT, o novo estado da arte

Montagem com imagem da web e alguns dos meus NFTs à venda

Provavelmente você já deve ter ouvido ou lido nos últimos tempos, sobre as vendas milionárias e até bilionárias de peças de arte digitais, algumas inclusive de gosto e valor artístico totalmente bizarros.

O que afinal são NFTs ?

O termo é a abreviatura em inglês para Token Não Fungível, ou seja, um “receptáculo” digital que representa um contrato com valor ou coisa nessa forma, utilizado nas redes Blockchain via internet e são à prova de fraude.

Diferente dos tokens fungíveis que representam um valor que se pode usar para trocas com valor estabelecido igualmente para todos os tokens do mesmo tipo, funcionando por exemplo como dinheiro digital (ex. imagine o token como uma nota ou moeda, toda nota de 10 reais vale 10 reais, certo ? e pode ser trocada por outras menores perfazendo o mesmo valor ou agrupadas para perfazer um valor maior. Podendo ainda ter câmbio com outros tipos de moedas fiduciárias como o dólar, usando uma cotação geral). Já os tokens não fungíveis são registros na Blockchain utilizados em geral para coisas únicas ou raras, o que confere a cada token (ou tokens sobre a mesma coisa) um contrato com valor inicial até indicado, mas totalmente subjetivo ao longo do tempo, o que é propicio para leilões.

Por isso é que o NFT se encaixa perfeitamente para vender arte digital de todos os tipos: música, literatura, imagens, colecionáveis… ou outros tipos de registro público “infraudáveis” que podem representar digitalmente algo no mundo real ou produto da imaginação. Além é claro servir de prova de propriedade intelectual e autenticidade. Várias bandas e artistas já estão trabalhando com a tokenização de tiragens limitadas de seus albúns, o que é muito mais vantajoso que o padrão até então imposto pelas gravadoras.

Ou seja, caso você produza ou possua conteúdo desses tipos pode “tokeniza-lo” e colocar à venda e de repente ganhar uma grana muito acima do esperado no mercado tradicional.

Já são várias os sites que permitem você tokenizar e vender online suas peças artísticas. Em geral há um custo para “cunhagem” do seu NFT, que é cobrado no mais das vezes de um saldo na cripto moeda Ethereum, que se deve depositar em uma criptocarteira como a metamask (gratuita). Também é possível em alguns desses sites tokenizar sua arte  sem pagar a taxas chamadas de GAS, o que faz que apesar de necessitar ter uma criptocarteira, não precise botar dinheiro no processo, apenas pagará comissões no caso de venda, cujo pagamento também vai automaticamente para a sua criptocarteira.

Ah! outra coisa interessante é que você também ganha nas vendas seguintes ou secundárias. Ex. você ficou inseguro precificou baixo e vendeu hoje por mil, mas quem comprou, mais adiante conseguiu vender por um milhão, você então recebe um percentual disso e de cada nova transação, que normalmente é de 5 a 10%. Bom né ?

Para não ficar de fora dessa rara oportunidade de ficar rico de repente, já tokenizei via fotografias e montagens digitais, algumas das peças de arte que possuo e registros de momentos históricos que podem vir a ser vistos como de valor. 😉 Para isso utilizei a mintable , um dos sites que permitem fazer isso sem gastar.

Para dar uma olhada nos meus NFTs basta entrar no link acima e na caixa de pesquisa do site buscar por “jjunior” . 🤑


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Africanos na América muito antes de Colombo

Esse texto obviamente não se pretende de rigor e formatação científicos, é um texto popular e referencial que aponta para fatos reconhecidos na comunidade científica especializada, mas não muito divulgados ou consolidados, para o grande público.

Vários foram os reinos e impérios africanos antes do contato com os europeus, reinos e impérios ricos e poderosos. Um deles foi o Império do Mali, na região de Manden, por Isso também conhecido por Mandinga, durou entre 1235 e 1670, o território era o ocupado pelos atuais Mali, Serra Leoa, Senegal, Gâmbia, Guiné e sul do Saara Ocidental.

Nele governou no início do séc. XIV Abu Bakr II, também citado como Abubakari II, que foi sucedido em 1.311 por Mansa Musa, o “Leão do Mali”, tido como o homem mais rico que já existiu, mas a interessante história de Musa não é nosso objeto, está nas referências para quem se interessar, é importante aqui pelo relato que segue:

“Al-Umari, historiador e viajante árabe da Idade Média, afirma que, em sua estada no Egito, ouviu a seguinte estória, que havia sido ali contada por Mansa Musa, então senhor do Mali: O governante que me precedeu não acreditava que era impossível alcançar a extremidade do oceano que circunda a Terra, e queria chegar ao final dele. Assim, equipou duzentos barcos cheios de homens, e muitos outros cheios de água, ouro, e provisões suficientes para vários anos. Então, ordenou ao capitão que não voltasse até que eles chegassem ao outro lado do oceano, ou até que estivessem esgotadas provisões e água. Mas, apenas um barco retornou. Quando questionado, o capitão deste barco respondeu: “Navegamos por longo período, até que vimos, no meio do oceano, um grande rio que flui de forma maciça. Meu barco foi o último; os outros, que seguiam antes de mim, foram afogados num grande redemoinho, do qual não saíram de novo. Eu naveguei de volta para escapar da corrente.” Mas, o sultão não se deu por satisfeito: ordenou que se preparasse dois mil barcos para ele e seus homens, e mais mil para a água e provisões. Em seguida, conferiu a regência a mim durante sua ausência, e partiu com seus homens, para nunca mais voltar; nem para dar um sinal de vida. Assim sendo, há quem acredite que o governante desaparecido, Abu Bakr II, tio-avô de Musa, não retornou porque desembarcou nas Américas” (SANTOS, 2016)

Fonte: Mansa Musa: The Lion of Mali de Kephra Burns, ilustradores Leo e Diane Dillon (2001)

Relato histórico básico do fato realizado, as expedições, e corrigir um detalhe, na verdade Abu Bakr II era irmão de Mansa Musa, não Tio-avô, provável confusão com Abu Bakr I, cabe complementar com outros detalhes e fortes evidências de que as expedições mandingas atingiram as Américas.

São várias as fontes possíveis, mas vou me concentrar no interessante trabalho publicado por Elisa Larkin do Nascimento, pesquisadora reputadissíma, que por sua vez se apoia em outros renomados como Ivan Sertima, que revela testes feitos com modelos de antigas embarcações africanas provando a sua capacidade transatlântica. Elisa Larkin traz inclusive elementos de presença africana nas Américas anteriores à de Abu Bakr II, porém vamos manter o foco:

“Abubakari II manda construir uma frota de navios e embarca, em 1311, pelos “rios no meio do mar” que levam o navegante em direção às Américas. Trata-se do mesmo complexo de correntes marítimas que trouxe Pedro Alvares Cabral ao Brasil. Algumas dessas correntes partem da costa ocidental da Africa em direção à Península de lucatã, região do litoral mexicano onde floresciam naquela
época as civilizações clássicas maias e toltecas.

Exatamente em 1311, de acordo com a concepção cíclica do tempo no calendário maia, o Popol Vuh registra o retorno à sua terra do deus-serpente emplumado, Quetzalcoatl, na forma de um homem escuro, alto e barbado, vestido de branco. O retrato coincide perfeitamente com a figura do imperador africano islamizado, que trajava vestes brancas e usava barbicha.
Os historiadores árabes da época registraram o embarque de Abu bakari II. Levando em conta as correntes marítimas e as viagens de Heyerdahl e outros marinheiros, a viabilidade da chegada às Américas do imperador africano fica evidente. Práticas religiosas e rituais, complexos de traços culturais, elementos lingüísticos, deuses e divindades, mitos e símbolos compartilhados entre a cultura maia e as culturas africanas de Mali corroboram a tese. Quando consideramos o volume de evidências reunidas por Ivan Van Sertima e outros autores, fica difícil deixar de concordar que o único obstáculo à aceitação geral da tese da presença africana nas Américas antes de Colombo é o eurocentrismo, que não permite à ciência abalar sua convicção da inferioridade africana.”

E segue, agora com uma evidência muito forte.


“Desde sua primeira viagem às Américas, Colombo realizava trocas com os índios caribenhos, que lhe vendiam tecidos africanos (almayzars) e outras peças elaboradas por meio de tradições próprias à África ocidental. Em sua segunda viagem ao Caribe, Colombo obteve dos indígenas da ilha de Espanhola, que hoje compreende o Haiti e a República Dominicana, várias pontas de lança feitas de uma liga metálica cheirosa. Os índios afirmavam ter adquirido essas peças dos “homens negros e altos que vinham de onde nasce o sol”. Os índios chamavam essas pontas de lança de gua-nin. Em Portugal, após entrevista com Colombo, o rei mandou analisar a liga metálica. Descobriu, então, que
se tratava de uma liga utilizada na África ocidental cuja fórmula era: dezoito partes de ouro, seis partes de prata e oito partes de cobre. O nome dessa liga, em todas as línguas africanas do grupo mande, é gua-nin (Sertima, 1976, p. 11-3). Outros objetos africanos apareciam da mesma forma entre os índios.” (NASCIMENTO, 2008)

Ou seja, não deixa espaço para dúvidas que os africanos mandingas não apenas chegaram, como interagiram com os nativos do “novo mundo”, bem antes de Colombo.

Fonte: Mansa Musa: The Lion of Mali de Kephra Burns, ilustradores Leo e Diane Dillon (2001)

No Brasil também.

Como dito as expedições mandingas envolveram milhares de embarcações, a ideia de naufrágios, separação das frotas, com chegadas em pontos diversos não é desprezível, afinal as conhecidas correntes atlânticas levam à diversos pontos nas Américas.

Capa do livro Abu Bakr II: explorador mandinga de Diawara

Tiemoko Konate, da equipe de pesquisadores do autor de “Abu Bakr II, explorateur mandigue” Gaussou Diawara, diz que a frota de Abu Bakr II teria chegado também na costa brasileira, onde hoje é Recife, e estabelecido uma colônia, “Seu outro nome é Purnanbuco, o que acreditamos ser uma corrupção do Mande Boure Bambouk, os campos ricos em ouro que representavam grande parte da riqueza do Império do Mali”

outros textos, esses de referências menos sólidas, ou mesmo sem referências, de que Boure Bambouk ou Purnanbuco, teria sido uma bem sucedida experiência de colonização mandinga, pelo próprio Abu Bakr II com alta integração com os Tupis, e com conhecimento e contato com o Mali, que após duas gerações se desinteressou pelas colônias de além-mar.

Os comerciantes de Purnanbuco, sob o comando de Mohammed, fiho de Abu Bakr II, teriam atingindo por volta de 1340 a Península de Yucatán e estabelecido comércio com os Maias. De qualquer forma, são tantos detalhes e coincidências da narrativa, com outras melhor referenciadas, e conhecendo o histórico de apagamentos eurocêntricos dos protagonismos africanos e civilizações pré-colombianas, que tendo a ver grande plausibilidade.

Referências

SANTOS, Ademir Barros dos. Mansa Musa: o homem mais rico que o mundo já viu. 2016. Portal Por Dentro da África. Disponível em:   http://www.pordentrodaafrica.com/cultura/22885 . Acesso em: 12 set. 2020.

NASCIMENTO, Elizabeth Larkin. 2008. Sankofa: As civilizações africanas no mundo antigo. In: A matriz africana no mundo. São Paulo: Selo Negro Ed. Col. Sankofa I: Matrizes africanas da cultura brasileira, p.98-107.


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O laço branco e a violência contra as mulheres

Lá vamos nós de novo em uma reflexão que não duvido será mal entendida por algu(mas) (uns) neoativistas do feminismo (sejam mulheres ou homens).

Em 6 de dezembro de 1989, Marc Lepine, um jovem canadense de 25 anos, invadiu armado uma sala de aula da Escola Politécnica de Montreal (Canadá) e ordenou que todos os homens abandonassem o local, na sequência assassinou todas as mulheres daquela turma, 14 ao todo. Após o nefasto ato ele se suicidou, deixando uma carta na qual explicava que não admitia que mulheres frequentassem o curso de Engenharia, uma “área masculina” segundo ele.

O episódio de cruel misoginia levou homens canadenses a criar a Campanha do Laço Branco (White Ribbin Campaign), um movimento visando fomentar nos homens uma nova visão sobre a masculinidade e apoiar as demandas feministas. A data também virou Dia Internacional dos homens pela eliminação da violência contra a mulher.

Obviamente sou a favor do feminismo efetivo e repudio a violência contra a mulher, apesar de um “povo” limitado, “travado” e radicalizado entender justamente ao contrário… .

Pois bem, não sou a única pessoa, e sei de feministas que pensam da mesma forma, que a resolução ou redução do problema da violência contra a mulher, na verdade não passa pela “fruição narcísica” de homens que se colocam como “desconstruídos”, nem virá da reunião de homens voluntários e dispostos a discutir “masculinidade tóxica”. Isso passa sim por terapias COMPULSÓRIAS e PROFISSIONAIS para agressores e a disponibilização para as vítimas que se dispuserem a se desvencilhar do abuso enquanto é tempo.

Não é difícil perceber que esse tipo de homem voluntariamente “desconstruível” não é o mesmo que perpetra violências contra mulheres. Confundem machismos de baixo potencial ofensivo introjetados, com a misoginia patológica, aquela que passa pela personalidade sádica, que por sua vez proposital e preferencialmente busca e identifica mulheres com brechas de autoestima por onde podem dominar e saciar sua perversidade e prazer em humilhar e ferir lentamente, até o “gran finale”, o feminicídio.

Dois pontos a destacar, nada é absoluto, portanto, há dementes capazes de realizar sua misoginia e sadismo contra mulheres com as quais nunca tiveram relação específica ou de algum termo, assim como parte das vítimas nunca teve relação ou questões de autoestima e intimidades que fomentassem a violência sádica. Caso do evento que motivou o movimento e data citados no início.

Em resumo, apesar de achar válidas demonstrações de apoio masculino a não-violência contra a mulher, não creio que sejam efetivas as ações como o “laço branco” e suas passeatas ou discussões de masculinidade tóxica, pois elas em nada atingem os grandes e reais problemáticos. Por outro lado, em tempos em que ativistas reivindicam “lugar de fala”, como se tem feito majoritariamente de forma equivocada e beligerante contra aliados extra-recorte, é claro ser puro incentivo à “tretas” e “fogo-amigo” que consomem mais energia que a empregada contra os verdadeiros inimigos das causas.

Para finalizar, quero lembrar, reforçar e afirmar, que considero sim importante e necessário o apoio masculino no combate à violência contra a mulher, sempre a partir de premissas e ações que gerem efetividade.

Para quem lê inglês sugiro essa excelente matéria, escrita por uma feminista, sobre o assunto:

https://www.smh.com.au/opinion/it-s-time-to-shut-the-white-ribbon-campaign-down-20181021-p50b33.html


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Entenda o que tem a ver a guerra na Síria com o Brasil e Lula.

Muita gente não entende a guerra da Síria muito menos a relação do Brasil com ela, então vou tentar dar uma esclarecida básica “didática”.

Primeiro o contexto. A Síria está naquela “região complicada” do mundo conhecida por oriente médio. Cheia de conflitos milenares por conta de questões étnicas e religiosas, mas também por territórios, recursos naturais e de comércio. A partir do Séc. XX principalmente por causa do petróleo que abunda em alguns países na região. Hoje é governada por um presidente, Bashar Al-Assad, que já foi considerado “moderado” e por isso apoiado pelos norte-americanos, de olho nos seus interesses na região, só que Assad acabou virando um ditador violento, tendo problemas de insurgência interna, com vizinhos e também com o Estado Islâmico, movimento terrorista que tomou parte de seu território.

Segundo, a guerra. Nesse contexto já explicado, o presidente ditador Assad, começa a reprimir fortemente as tentativas de tirá-lo do poder e abre frentes de combate contra os insurgentes, os vizinhos e o Estado Islâmico, incluindo ai atos desumanos de perseguição e massacre contra partes da população civil síria, apanhada no meio de todo esse fogo cruzado, Assad é acusado de inclusive usar armas químicas. Os americanos deixam de apoiá-lo e passam a querer tirá-lo do poder apoiando os insurgentes (rebeldes) e formando uma coalizão com outros países com interesses na região como os britânicos e os franceses, passando a atacar alvos sírios, em especial instalações em tese relacionadas com armas químicas, tentam produzir também uma área de exclusão aérea a fim de evitar bombardeios.

Ai é que entram os russos, que também tem muitos interesses na região, principalmente petróleo…, tanto para seu uso, quanto a possibilidade de obstruir o acesso a ele por seus potenciais inimigos, ou seja, os americanos e aliados, dai ser estratégico para os russos manter um ponto de apoio “dominado” no mediterrâneo. Os russos passam então a apoiar Assad, entrando em oposição com a coalizão liderada pelos americanos. Eles tentam evitar o confronto direto com baixas nas forças da coalizão, porém funcionam como um “escudo” protegendo as forças de Assad e até participando de ataques tanto ao estado islâmico quanto aos insurgentes sírios (e reforçando, no meio disso tudo leva a pior partes da população civil vista como apoiadora dos rebeldes, exposta a bombardeios, sitiamentos e atrocidades como ataque químico, fora os ataques do Estado Islâmico, hoje praticamente eliminado na Síria).

Terceiro, o Brasil nessa história. Muita gente acha que o Brasil é um “eterno aliado norte-americano” e que nessa guerra o “nosso lado” é automaticamente o mesmo deles certo ?, ERRADO !.. . Apesar de obviamente não apoiarmos a violência e atrocidades de Assad, principalmente contra os civís, e também de termos uma tradicional relação de parcerias econômicas-culturais e aliada militarmente aos norte-americanos, na verdade hoje SOMOS GRANDES PARCEIROS DOS RUSSOS, e não apenas deles mas também dos CHINESES, junto com os indianos e os sulafricanos, em uma aliança econômica chamada BRICS, palavra formada pelas iniciais em inglês dos países da aliança (Brasil, Rússia,Índia,China e África do Sul), também é uma “referência irônica” à palavra “BRICK” que tem quase o mesmo som e em inglês quer dizer tijolo ou BLOCO, ou seja, potencialmente um bloco econômico como hoje é União Européia.

A expectativa é que uma vez encerrada a guerra da Síria, com a vitória de Assad apoiada pelos russos, os BRICS sejam os responsáveis pelos investimentos para reeguer e reestruturar o país, ou seja, negócios que ultrapassam os US$ 200 BILHÕES…, o que aquecerá e movimentará fortemente a economia dos cinco países da aliança, da qual faz parte o Brasil, portanto, estamos na verdade do lado dos russos, não dos norte-americanos.

Essa poderosa “aliança fora do eixo” (dos 5 países o Brasil é o único a não ter bomba atômica, apesar de também dominar tecnologia nuclear) que “ameaça” não apenas a posição européia como player global, mas também e principalmente a liderança econômica norte-americana, dai a ideia incomodar tanto lá por Wall Street e Washington… .

Quarto, e o Lula a ver com isso ?. O BRICS foi fundado em 2006, sob forte articulação e liderança do então presidente Lula, não à toa foi chamado de “O cara” por Obama e não à toa justamente dos EUA vem o maior interesse em neutralizar “O cara”… . Em uma época em que Rússia e China cada vez mais se abrem para um “capitalismo controlado”, e depois de 3 governos e meio do PT, sendo 2 de Lula no mesmo caminho e com grandes avanços sociais, só um completo alienado ou doutrinado por uma direita burra e desonesta ainda enxerga “perigos comunistas” no Brasil , vindo de Lula ou mesmo do PT, isso não existe.

O que existe é um capitalismo selvagem liderado pelos norte-americanos querendo dominar todos os recursos do planeta (com os neoliberais brasileiros, leia-se PSDB, Temer e aliados, entregando os nossos, como o petróleo do pré-sal, empresas nacionais e mercados, tudo “de bandeja” para o capital estrangeiro) e uma oposição à isso querendo tornar o Brasil em “cachorro grande” nessa briga, em “macho alfa”, não aquele subdesenvolvido que além de não “mandar” nada, ainda é abusado à vontade…, foi Lula, um “da Silva” , quem botou o Brasil nessa condição de grande “global player” (grande jogador global), e por isso não será perdoado, inclusive pela elite brasileira entreguista com “síndrome de vira-latas” e ridiculamente subserviente ao “império”.

Portanto, o interesse do Brasil como de boa parte do mundo é que a guerra na Síria e suas atrocidades acabem logo, tem gente torcendo para que seja com a queda do ditador Assad e o domínio dos americanos, porém o que se delinea é que a vitória será de Assad e dos russos, favorecendo por tabela também ao Brasil, infelizmente o preço da paz passa pela manutenção do ditador no poder, mas no momento alcançar a paz é a prioridade.

É isso…


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Para lusófonos entenderem o que está havendo no Brasil

Como tenho amigos falantes de português mas que não são brasileiros e tem dificuldades para entender o que de fato está havendo no Brasil nos últimos 3 anos (e para alguns brasileiros desinformados também), resolvi mostrar em uma sequência de notícias que se encadenam para que tirem suas próprias conclusões…

1 – Dilma, do mesmo partido, o PT, e sucessora de Lula é eleita para seu segundo mandato.

2- Aécio o derrotado, do PSDB, faz “profecias” .

3- O PSDB de Aécio resolve derrubar a presidente via parlamento.

4- Junto com aliados de outros partidos tramam o golpe parlamentar e conseguem.

5- Logo após isso Cunha é apanhado em alta corrupção e é afastado.

6- Cunha sem mandato acaba preso e sem fórum especial é condenado em Curitiba, sua esposa contudo é inocentada por “falta de provas”

7- Nesse meio tempo o processo de “impeachment” segue no Senado contra qualquer plausabilidade jurídica na acusação.

8- O “grande crime” de Dilma ( a “pedalada fiscal”, mero ajuste de orçamento, praticado por todos os presidentes anteriores) nunca antes penalizado na história do país, e da qual foi isenta por perícia do próprio senado, é liberado após seu uso de ocasião.

9- Concluído o impeachment farsesco toma posse o vice, aquele mesmo que se engajou nas articulações com o PSDB, partido do candidato derrotado nas últimas eleições o Senador Aécio Neves e Eduardo Cunha o condenado por comprovada corrupção.

10- O governo Temer é tomado por escândalos de ministros e assessores envolvidos com corrupção.

12- O próprio Presidente é apanhado em gravações e delações mas é salvo pela sua base parlamentar.

13- Aécio Neves também se complica mas segue livre e no cargo

14- Iniciado em 2016 se acentua em 2017 o Lawfare sobre Lula, que pretende voltar ao comando do Brasil.

15- Reação de Lula e questionamentos sobre parcialidade

16- Lula assume que pretende à presidência e em 2018 se acelera o processo para a condenação em segunda instância, o que por regras em questionamento no Supremo Tribunal impediria a sua candidatura e ainda o levaria à prisão antes de esgotados os recursos de apelação.

17 – E assim Lula é preso, uns lamentam outros comemoram…

“O Brasil não é para amadores” é uma expressão autoexplicativa, por enquanto é isso… seguem manifestações diversas pela prisão e contra ela e aguarda-se novos lances jurídicos que podem libertar Lula nos próximos dias.


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Pantera negra (o filme) : O que aprendemos em Wakanda ?

A partir da nossa última postagem (sobre a polêmica do “blackvoice” na dublagem do filme) recebemos uma solicitação para fazer uma resenha crítica sobre o filme em si (BAIXO SPOILER…), o interesse seria obter uma crítica a partir da visão de um ativista negro, o que certamente difere da de um espectador mais familiarizado ou preocupado com a temática dos super-heróis, da Marvel, ou do cinema em geral.

Desafio aceito, começamos por chamar a atenção para o fato do filme ter uma se não declarada, ao menos óbvia intenção afirmativa, o próprio personagem título e o fictício reino africano de Wakanda surgem timidamente no início dos anos 60 e ganham maior peso no rastro do movimento “blackexploitation” ou “blaxploitation” direcionado aos filmes, mas que atingiu também as HQs na década de 70. O fato de estar sendo chamado de filme mais politizado da Marvel não é à toa, tudo no filme caminha nesse sentido, desde a escolha do diretor (afroamericano) até a centralidade do enredo em Wakanda, o que obrigou a escalar um elenco majoritariamente afroamericano ou africano e introduzir na trama referências à valores culturais africanos que vão desde a estética até a filosofia, contrapondo a algumas  percepções afrodiaspóricas.

Passando um pouco pelo que já foi dito em todas as muitas críticas já disponíveis, o filme é excelente em imagens, figurinos, trilha sonora, efeitos, atuações, etc…, o que vale destacar é que contrariando a tradição Marvel entrega menos ação, mas quando entrega é da boa, concentrando-se porém nos diálogos e cenas que introduzem o espectador no mundo e perspectivas dos wakandianos, essa estratégia é sensacional, pois o espectador “se apropria”, torna Wakanda sua também, passa a fazer parte dela e enxergar mais criticamente “os outros” (ou seja, nós mesmos em nossas mentes ocidentais e colonizadas). Para ficar mais claro, comparemos com a Asgard de Thor, creio que pouca gente fora dos países escandinavos se identificou como “asgardiano”, mas gente do mundo todo e de todas as cores e origens se sentem ou gostariam de ser de Wakanda.

Vou me abster de comentar individualmente os personagens, isso tem por ai aos montes, importa dizer que eles mais do que estereótipos, são tal qual na tradição dos panteões mitológicos africanos, arquétipos, representações de tipos humanos com suas virtudes, defeitos e vicissitudes, aos quais tanto podemos associar outras pessoas, como nos identificar total ou grandemente. Assim como nas tradições de matriz africana, essas forças antropomorfizadas em deuses, heróis divinizados  e em arquétipos aos quais estão vinculadas as pessoas “comuns”, seguem a lógica do amoral ou de que nada nem ninguém é absolutamente bom ou mau, mas apenas circunstancialmente.

Do ponto de vista filosófico e cultural, impressiona, e é um “recado” a perfeita integração entre tradição, modernidade e tecnologia. Nesse ponto choca e dá um “tapa na cara” dos que pela mentalidade eurocentrada, não conseguem conceber que tradições tribais e cosmovisões de povos não-europeus/europeudescendentes, são valores civilizatórios que não significam atraso, inferioridade ou incompatibilidade com o desenvolvimento e as tecnologias mais avançadas. O filme também toca em questão importante na africanicidade, o respeito à ancestralidade e a espiritualidade altamente integrada à natureza, coisa talvez pouco estranha para os afroamericanos ou colonizados de todo o mundo, que acataram quase integralmente os valores e premissas judáico-cristãs, porém nem tanto para os  africanos, os afrodiaspóricos latino-caribenhos e os que orbitam a religiosidade afro. A questão de gênero não fica de fora, as mulheres poderosas, guerreiras, as relações e sinergia entre os gêneros é algo que se evidencia, referência aos efeitos da tradição matriarcal em muitos povos africanos.

O filme está cheio de metáforas, que poderão ser entendidas ou não, dependendo do grau de consciência e informação prévia do espectador, bom exemplo é a divisão das tribos que formam o povo do reino, o povo da fronteira é o que o mundo enxerga de Wakanda, terceiro mundo, um povo simples (visto como pobre), de fazendeiros e extrativistas, produtores de commodities, que trocam com vizinhos, um lugar que nada colaborou ou pode colaborar com o avançado mundo ocidentalizado. Essa não seria uma errônea visão geral que se tem da própria África em si ?, visão que ignora  o que realmente houve e há em África ?. Wakanda é a África, que a maioria do mundo desconhece, só enxerga folclórica e superficialmente e da qual não se espera nada de positivo ou útil.  Há tiradas sensacionais com a ignorância ou surpresa de quem tem uma visão estereotipada da África, tipo:

“Estamos em Wakanda ??? “

“-Não, é Kansas…”

Uma alusão à surpresa personagem Dorothy ao se ver na terra fantástica de OZ , no conhecido filme “O mágico de Oz”, ou seja, certas realidades seriam mais difíceis de crer que as fantasias criadas em torno delas, caso do continente africano. Na mesma cena é importante notar o tratamento dado ao personagem branco com um “Ei! COLONIZADOR não toque em nada…”, óbvia alusão ao estrago feito (e ainda possível) no contato dos brancos com as coisas africanas que desconheciam ou desconhecem, uma outra fala crítica no sentido da estereotipação africana e que talvez passe despercebida para muitos é justamente “Desculpe majestade, mas o que é que um país de terceiro mundo e de fazendeiros tem a oferecer ao mundo ???” .

Pantera negra dá uma “cutucada na ferida” na questão africano x afrodiaspórico, em cenas em que  os governantes wakandianos  demonstram que enxergam como seu povo apenas os próprios wakandianos, enquanto os afrodiaspóricos se enxergam panafricanamente como do mesmo povo de Wakanda, porém desconsiderados, abandonados e deixados à mercê dos colonizadores no passado e no presente, embora não exatamente, essa é uma questão atual que perpassa as reflexões nos movimentos negros. a identidade africana X afrodiaspórica. O filme também não deixa de cutucar outras questões atuais como na fala “governantes sábios constroem pontes, os idiotas constroem muros…”, para bom entendedor… .

No mais há muitos diálogos que expõem questões do campo de relações sociais e raciais, questionam estereótipos e apresentam perspectivas mais desejáveis para a vida no planeta.

Não poderia deixar de tocar brevemente na questão versão legendada X dublada, particularmente não gosto de filme dublado algum, mas esse em especial perde muito com a dublagem, pois o trabalho dos atores na incorporação de sotaques e timbres africanos é primoroso, um dos pontos altos do filme, e que se encaixa na pretensão afirmativa dele.  O modo geral de falar inglês dos africanos e também suas próprias línguas, é importante para imergir cinematograficamente em uma África mais realista e menos caricata, a dublagem brasileira simplesmente dá um bypass nisso, não se preocupa ou não consegue transpor essa africanicidade no falar para o português…, isso devido ao “blackvoice”. Bom exemplo é a personagem Shuri, a adolescente nerdíssima, irmã do Rei T’Chala e responsável pela inovação na tecnologia wakandiana, que na versão original possui uma voz algo grave e rascante, mas que na dublagem fica parecendo a de uma patricinha branca de Beverly hills… . Já nem acho mais que seria apenas o caso de melhor aproveitar timbres e vozes negras brasileiras na dublagem, sendo mais radical, fomentaria também a inclusão no mercado brasileiro de dubladores lusoafricanos, tenho certeza que as produções ganhariam muito com isso, é certo que ainda não temos tantos filmes com personagens africanos, mas as coisas estão evoluindo… .

Pantera negra é um filme que mostra possibilidades, trabalha para mudar mentalidades, tanto na trama quanto na sua própria produção, é paradigmático.

Por outro lado, acaba por mostrar o quão distantes estão a realidade americana e a brasileira, enquanto nos EUA a repercussão tem clima de avanço e crítica virtualmente toda positiva (não falemos da esperada reação “whitetrash”), no Brasil se abrem polêmicas e críticas em todas as direções, algumas justificadas e outras vazias ou de puro reacionarismo, provando que temos problemas de representatividade que ainda são subterrâneos, ou seja, pouco visualizados, e temos também um metaracismo galopante, que se apresenta na forma de críticas aos que problematizam o filme a partir de uma perspectiva das relações raciais, essa reação é percebida sempre e principalmente nas caixas de comentários, o melhor observatório do racismo brazuca.

Enfim,  já sou mais um cidadão de Wakanda.