Blog do Juarez

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Alfredo da Matta, o eugenista (racista científico)

Dr. Alfredo da Matta e o quadro “A redenção de Cam”, simbólico do projeto eugenista de branqueamento do Brasil .

Em tempos em que o antirracismo está efervescente e a discussão sobre a retirada ou derrubada (as vezes literal) de homenagens à notabilizados por escravismo ou racismo, cabe colocar luz em certas biografias em que o racismo possui alguma relevância mas é desconhecido da população.

No caso vamos falar de um nome muito conhecido da população amazonense, sobretudo da capital.

Alfredo Augusto da Matta, nasceu em Salvador, em 18 de março de 1870 e faleceu em Manaus em  3 de março de 1954. Foi um médico e político brasileiro. Graduado em medicina pela Faculdade de Medicina da Bahia em 1893, especialista em medicina tropical, profilática e dermatológica. (WIKIPEDIA)

Enquanto político foi:

Deputado Estadual 1916-1918

Deputado Estadual 1919-1922 quando foi presidente da Assembleia Legislativa da Amazonas.

Deputado Federal – AM 1933-1934

Constituinte – AM 1934-1937

Senador – AM 1935-1937 ( SENADO)

Teve profícua carreira médica, foi tenente-coronel-cirurgião da Guarda Nacional, carreira estendida a cargos de gestão como diretor do Departamento de Saúde Pública do Estado do Amazonas no governo de Antônio Clemente Bittencourt (1908-1910), diretor do Serviço de Higiene da Municipalidade de Manaus, do Serviço de Higiene do Estado do Amazonas e do Instituto Pasteur de Manaus, inspetor federal do Serviço Sanitário Rural, além de diretor do Serviço de Profilaxia da Lepra e Doenças Venéreas, no qual exerceu até 1930.  Colaborou para as revistas Brasil Médico e Amazonas Médico, além de ter contribuído com mais de duzentos artigos em outras revistas nacionais e estrangeiras. Publicou inúmeros trabalhos científicos. (WIKIPEDIA).

Sua notoriedade fez com que a instituição que após N denominações e regimes jurídicos a partir de 1.955, sempre atreladas ao seu nome, hoje seja a Fundação de Dermatologia Tropical e Venereologia “Alfredo da Matta”, referência a que se remetem a quase totalidade dos amazonenses ao ouvir o nome.

No entanto, como muitos homens de ciências e intelectuais de sua época, Alfredo da Matta, também foi um entusiasta da eugenia, ou seja, um eugenista, a exemplo de famosos como Nina Rodrigues, Renato Kehl, Monteiro Lobato entre outros.

Mas afinal o que é EUGENIA e  EUGENISTA ? 

O assunto merece uma explanação mais ampla, por tal não vou tratar dele detidamente aqui. Vou apenas dizer que “grossus modus”, apesar de atribuído a Sir Francis Galton,  é um movimento que nasceu a partir do Conde de Gobineau, que foi um tipo de embaixador da França no Brasil, amigo de D. Pedro II e que escreveu sobre superioridades e inferioridades raciais, dizia que o Brasil precisava se livrar da miscigenação e negros para ser um “país civilizado”.  A ideia central da eugenia, é a ” ‘melhora’ da humanidade via seleção racial e eliminação dos ‘imperfeitos e  indesejáveis’ “. No caso do Brasil, basicamente a ideia era branquear a população fazendo desaparecer o elemento negro ou de aparência miscigenada, uma “arianização”.

Ou seja, a eugenia é uma materialização e solução prática racista. Para se ter ideia, a tônica nazista da “raça ariana” e tudo que veio dela, surge da eugenia… . Deixo aqui o link para um texto detalhado: https://www.geledes.org.br/o-que-foi-o-movimento-de-eugenia-no-brasil-tao-absurdo-que-e-dificil-acreditar/

Há várias evidências da filiação de Alfredo da Matta à corrente eugenista. Por exemplo:

“No final do século XIX e inicio do século XX, o governo norte americano adotou medidas legislativas em vários estados como fator de melhoramento racial. O parlamentar Alfredo da Mata assim se expressa:
O povo norte‐americano, povo de técnicos sempre ávidos de progresso material e social, impregnado de ciência desde as escolas até a imprensa, conhecedor de métodos biológicos de cultura e de criação, é o povo que habita a terra prometida da eugenia. Não pormenorizarei; mas esta ciência faz parte dos programas
escolares e universitários.” (ROCHA,2018)

Falando sobre o documentário “Menino 23”, que trata da escravização em sítio no Rio de Janeiro, de meninos negros pela família Rocha Miranda, ligada ao nazismo brasileiro da década de 30 do século passado temos:

“Segue uma frase de um Deputado Federal chamado Alfredo da Matta em discurso no ano de 1933: ‘A eugenia, senhor presidente, visa a aplicação de conhecimentos úteis e indispensáveis para reprodução e melhoria da raça.’ No tempo que os garotos foram feitos de escravos, o Brasil vivia o ápice da política de superioridade racial e de “branqueamento”, impulsionadas pelo darwinismo social. Isso não faz 200 ou 100 anos: isso faz apenas 89 anos.” (SEE.33, 2020)

Entre a vasta produção bibliográfica de Alfredo da Matta podemos encontrar: DA MATTA, Alfredo. A Eugenia do Amazonas: melhoria racial. In: Revista Amazonas Médico. Ano II- N°8- 1919.

A eugenia no Brasil teve seu ápice no período que antecedeu o rompimento de Getúlio Vargas com o eixo da segunda grande guerra mundial e o consequente banimento do nazismo, integralismo e fascismo aberto no Brasil, e o silenciamento de ideias e práticas que lhes eram circundantes como o racismo científico.

Não digo que é o caso de retirar-lhe as homenagens, afinal elas foram feitas não por essa peculiaridade de sua biografia, mas pelos outros feitos. Porém é interessante que esse detalhe não seja mantido em virtual desconhecimento popular. Muita gente utiliza a ideia de “homens de seu tempo” para “tentar livrar da crítica histórica” a imagem de pessoas do passado hoje reconhecidas positivamente, mas que tem em suas biografias detalhes hoje repudiáveis.

Acho falaciosa a ideia de “homem de seu tempo” para “livrar a cara” de quem em seu tempo fez ou defendeu coisas desprezíveis, me valendo de um argumento muito simples. Em todo tempo e lugar sempre houve dissidência e oposições ao socionormativo, ou seja, sempre teve gente que defendeu valores humanos inalienáveis que antecederam as vilanias e desumanidades de sua própria época, valores que seguem positivados até hoje. Um exemplo foi o médico sergipano Manoel Bomfim, autor da obra “América Latina: males de origem”, de 1905, contemporâneo de Da Matta. Logo não foram “inescapáveis” as posições e atitudes tomadas, foram escolhas… e como tal, não isentam da crítica e do “julgamento” histórico.

Referências

ROCHA, Simone. A educação como projeto de melhoramento racial: uma análise do art. 138 da Constituição de 1934. Revista Eletrônica de Educação, v. 12, n. 1, p. 61-73, jan./abr. 2018. [ Links ]

SEE.33. Vocês já viram “Menino 23”?. disponível em <https://br.toluna.com/opinions/4941878/J%C3%A1-assistiu-o-document%C3%A1rio-Menino-23>


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Manaus não está enterrando em “vala comum”

Ao menos não por enquanto… . Sei que o assunto é delicado e pode até aparecer polêmica pelo texto, mas eu não poderia a bem da boa informação e sua precisão deixar de fazer essa observação.

Primeiro vamos ao significado de “vala comum” :

Valas comuns também são frequentemente empregadas para enterrar um grande número de vítimas de desastres naturais, tais como terremotos e furacões.Vala comum é uma cova normalmente localizada nos cemitérios onde um conjunto de cadáveres que não podem ser colocados em sepultura individual, ou que são de origem desconhecida ou ainda não reclamados são enterrados sem cerimônia alguma. Na maioria das vezes os mesmos não são registrados nos locais onde foram enterrados. A ONU define como vala comum a cova que contém três ou mais vítimas de uma execução/massacre. (Wikipedia)

Bem, moro em Manaus e estou acompanhando atentamente as notícias sobre a pandemia e seus desdobramentos. Tem gente aqui e fora visualizando e se referindo, inclusive imprensa, aos enterros coletivos por conta da Covid-19 como em “vala comum”, mas conforme visto acima, o emprego do termo e visualização para o contexto de Manaus estão equivocados. Imagens de epidemias e pandemias passadas, podem lembrar, mas nem sempre refletir “ipsis litteris” as imagens e situações do presente. Não estou falando de uma possível ilação entre situações caóticas, questões de gestão pública e colapsos hospitalar e funerário que perpassam situações separadas no tempo, mas de um importante detalhe semântico e técnico.

Por enquanto, aqui em Manaus não se está enterrando em “vala comum”, apesar das imagens poderem lembrar uma… . O sistema adotado aqui foi o de “trincheira”, ou seja, apesar de ser cavado com retroescavadeira como uma vala ou cova comum, os caixões são colocados respeitosamente lado a lado com espaçamento padrão, sendo suas posições marcadas na beira da trincheira.

Com isso ao serem cobertos de terra é possível identificar a posição exata de cada um e fazer os caixilhos individuais e futuros túmulos. Não se perde a referência individual e a ligação familiar. Ademais, em enterramentos em vala, como dito, não há qualquer cerimônia e no mais das vezes nem cuidado, muito menos presença de familiares, mesmo que poucos, a vala comum em seu sentido e forma literal é uma medida sanitária extrema, por enquanto não atingida aqui, apesar de uma tentativa frustrada de uma versão um pouco mais digna, o empilhamento em 3 níveis para otimizar espaço, como se está fazendo em Nova Iorque.

É portanto um importante diferencial entre uma situações e outra…, aqui ao menos há uma tentativa de manter alguma dignidade frente ao colapso que estamos passando. Até quando será possível manter isso só sabe Deus, a coisa está aumentando assustadoramente e de forma exponencial, muitos rostos e nomes conhecidos partindo… .


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DRA. ODILIA LAVIGNE, UMA MULHER PARA SER LEMBRADA

Registrando e deixando aqui link para texto de 2010, produzido por Maria Luiza Heine e publicado no seu Blog “Ilheus com amor”, sobre a primeira mulher negra formada médica no Brasil, em 1912, a baiana Odília Teixeira Lavigne, filha do médico negro baiano José Pereira Teixeira. Siga o link.

https://wp.me/pkOAV-e4


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Ataque orquestrado à matriz africana em Manaus

Obscuros “sites de notícias” de Manaus, daquele tipo que serve para atacar desafetos políticos, reputações e atender interesses igualmente obscuros, aparentemente iniciaram hoje um ataque orquestrado tanto à políticos locais quanto à sacerdotes e as próprias religiões de matrizes africanas via vinculação de satanização.

A qualidade questionável e amadorismo de tais “noticiosos” se percebe em muitos detalhes, que vão desde a ausência de revisão nos textos, passando por linguagem não jornalística, até erros crassos nas matérias e “ameaças” direcionadas.

Os alvos primários do citado ataque parecem ser certos políticos, os secundários as religiões de matrizes africanas, utilizadas de forma distorcida, depreciativa e demonizada nos textos, com a clara finalidade de conferir estigma tanto à uns quanto à outras.

Como manda a praxe metarracista a intolerância não se coloca abertamente, mas através de distorções e referências que levam à uma visualização depreciativa, jocosa ou odienta por parte do leitor.

Tal fato, obviamente não ficará sem resposta devida, tanto no âmbito midiático quanto na esfera judicial. Foi-se o tempo em que a intolerância religiosa, o racismo e outras formas de preconceito e discriminação campeavam livremente sem consequências.


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Monteiro Lopes, a real história da iguaria paraense

Trata-se de um biscoito muito apreciado e presente na memória afetiva dos paraenses, principalmente os da capital, Belém, pois, é presença certa nas festas familiares e vem marcando várias gerações, existe em duas versões.

Porém a origem da iguaria e o seu nome vinham sendo alvo de controvérsias. Como pesquisador trabalhei 150 anos da história da família Monteiro Lopes e acabei topando com a verdadeira história do biscoito.

Há uma versão “romântica a la Romeu e Julieta” onipresente na web que fala que o biscoito surgiu no século XIX, a partir da união dos filhos de famílias rivais (uma negra e outra portuguesa) que possuiam padarias no ver-o-peso e produziam biscoitos distintos, ao casarem, juntaram os nomes das famílias e as receitas formando então o biscoito e nomeando-o Monteiro Lopes.

Isso porém é falso, não há qualquer registro, ao menos ainda não foi encontrado, da existência do biscoito de fins do séc. 19 até meados do séc. 20, e as pessoas que referem a versão não são memorialistas nem de fato publicaram sobre, é portanto um caso típico de “lenda urbana”.

Há uma segunda versão, menos popular, de que o doce e o nome seriam uma homenagem ao falecido Desembargador Agnano Monteiro Lopes, belenense negro nascido em 1910, que foi presidente do Tribunal de Justiça do Pará entre fins dos anos 60 e meados dos 70. A “homenagem” seria pelo fato do mesmo ser visto como “preto por fora e branco por dentro”, uma referência que durante muito tempo se pretendeu elogiosa à pessoas negras extraordinárias, mas na verdade de grande carga racista, o famoso termo “preto de alma branca”.

Essa versão é meia verdade, sim, o nome tem a ver com o Desembargador Monteiro Lopes, mas não pelo motivo aludido. A história real é outra e parece óbvio ter inspirado a primeira versão “romântica”.

Muito jovem Agnano se formou em Direito, aos 20, foi em seguida nomeado Juiz substituto no interior, depois fez concurso para Promotor, trabalhou em Breves, interior do Pará. Lá, o negro Agnano conheceu Laura, então uma adolescente, branca, de família portuguesa e se apaixonaram. A família da jovem, por preconceito e desgosto a expulsou de casa, sendo que a mãe de Agnano, D. Júlia a amparou. Quando do casamento, uma doceira amiga de D. Júlia, inspirada na história do jovem casal de apaixonados criou o doce preto e branco e o batizou com o nome que os jovens compartilhariam ao se casar em 1931, ou seja o o sobrenome de Agnano, Monteiro Lopes. Foram 56 anos de casamento, com 4 filhos.

Essa história foi levantada por mim, combinando pesquisa em fontes bibliográficas, webbgrafia e por meio de entrevista com a filha do Desembargador Agnano, Vera Lúcia Monteiro Lopes Leite. Foi apresentada em evento científico-acadêmico de História e publicada como capítulo de livro resultante dos anais do evento.


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O ENEM, o pajubá e os néscios.

O texto que segue pretende ser curto e direto, tentarei… . Desde a divulgação do conteúdo da I etapa do ENEM 2018, tenho lido e ouvido inúmeras reclamações sobre o mesmo, mas me incomodam sobremaneira as críticas à questão sobre o pajubá, espécie de jargão (que uns insistem em chamar de “dialeto”, mas tudo bem) utilizado na comunidade LGBT (não vou ficar explicando siglas conhecidíssimas).

O que mais me incomodou e por tal resolvi escrever, foi o do radialista Fred Lobão, muito conhecido no Amazonas, no programa de notícias que comanda no início da noite, não vou detalhar o dito mas basicamente vai na linha do “Que absurdo, querer “forçar” as pessoas a conhecer a linguagem LGBT, isso é inútil e perigoso, querem “transformar” as pessoas em que?, temos direito a não querer que nossos filhos sejam expostos à isso e direito de expressão para repudiar” . OK, então também usando do meu direto de expressão vou respeitosamente repudiar e contrapor a fala posta.

Primeiro porque a virtual totalidade dos que como ele pensam não são educadores, nesse ponto e em outros podem ser considerados néscios, logo, opinam sem base e validade.

A ideia da questão era óbviamente verificar dentro das habilidades de linguagem, a capacidade de interpretação em contexto. Sim poderiam ter sido utilizadas outras linguagens, e ninguém reclamaria…, mas o ENEM sempre prezou pelo respeito e conhecimento da diversidade, o pajubá é derivado do yorubá dos terreiros de Candomblé, ou seja, “coisa de preto”, “para piorar também é coisa de gay”… e isso, o racismo, intolerância religiosa e homofobia dos néscios não pode admitir…. .

É claro que não era preciso de fato conhecer previamente os termos, mas “intuir” pelo contexto o seu significado, por outro lado, “descobrir” 4 ou 5 palavras em qualquer “língua” não faz ninguém falante dela e principalmente não apresenta “perigo”algum de mudança de orientação sexual, ou seja, tremenda besteira a reação contra a questão.

A crença que a orientação sexual é “opção”, que as pessoas “viram” gays, que isso pode ser influenciado, o temor que isso ocorra, que gay é uma coisa negativa e a ser evitada ou que “não temos que falar nisso” tem nome, é HOMOFOBIA… .

E como todo preconceito e discriminação, a homofobia vem da ignorância, do medo e do mau caratismo em não acolher ou ao menos tolerar o “diferente”.

É isso, quem fala o que quer para milhares, tem que estar disposto a ouvir crítica por milhares, ou ao menos dos mais dispostos .


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Manaus, 24 de outubro é aniversário ou não ?

Imagem timeline primórdios de Manaus (Fonte: http://vivamanaus.com/historia/)

Todo ano no “aniversário” da cidade lá vem polêmica, igual a da “UFAM centenária”. Especialmente entre os historiadores.

Como sou um historiador neófito e não convencional, dada a minha formação multidisciplinar e holística, vejo as coisas de forma um pouco diferente.

Entendo que só a técnica histórica não dá conta de definir a idade de um lugar, é preciso considerar outros pontos como as noções de lugar vindas da geografia por exemplo. O grande geógrafo Milton Santos dedica um tópico todo à essa discussão chamado “A idade de um lugar” (pag. 56-59) no livro “A natureza do espaço”, basicamente ele nos diz que a idade de um lugar não tem como critério válido único, a sua data de fundação de acordo com o levantado pela técnica histórica convencional, o lugar, pode ser definido inclusive pela sua história natural e pelas diversas técnicas utilizadas nos processos de ocupação humana como a produção, comunicação, controle, política, sociabilidade e subjetividade.

Isso fica claro na passagem “É o lugar que atribui às técnicas o princípio de realidade histórica, relativizando o seu uso, integrando-as num conjunto de vida, retirando-as de sua abstração empírica e lhes atribuindo efetividade histórica”.

A polêmica se dá porque vários eventos se misturam, a idade é contada à partir da suposta instalação da fortificação portuguesa em 1669 (349 anos atrás)e da interação com as ocupações indígenas no seu entorno, mas há quem defenda com fontes que na realidade essa não é a idade da fortificação, mas de um marco deixado na passagem de uma tropa de resgate 20 anos antes. Nesse ínterim o “Lugar da Barra” foi inclusive sede da capitania de S. José do Rio Negro (1791), a condição de vila só é reconhecida em 1832 (186 anos atrás) com o nome de Vila de Manaós, já a data de aniversário utilizada hoje é a da elevação da então Vila ao status de cidade, trocando de nome para cidade da Barra do Rio Negro em 1848 (170 anos atrás), a cidade volta a assumir o mesmo nome (Com alteração no acento) da antiga vila e passa se chamar Manáos em 1856 (162 anos atrás), alterada para a grafia atual Manaus em 1937 (vide “Manaós, Manáos e Manaus: Como se escreveu o nome da cidade ao longo do tempo“)

Não fui à fontes primárias para saber se de fato a data de 24 de outubro de 1848 reflete a elevação ao status de cidade, mas acho difícil ter resistido tanto tempo ao arrepio de historiadores com acesso à elas. Isso porém realmente não é o que importa, mas sim o costume (vide Hobsbawm, “A Invenção da tradição”). Não sei qual data era a referência de “idade do lugar” antes de 1848, mas é razoável entender que a data comemorativa do lugar ( pelo menos nos últimos 170 ) anos se tornou um costume, e não será modificada tão facilmente, assim como a noção popular de que a cidade e o lugar são a mesma coisa… .

Numa perspectiva meramente tempo/política, a técnica histórica tradicional faz um monte de “caixinhas” para a história da cidade, já em uma perspectiva menos ortodoxa e mais interdisciplinar, o história do lugar que hoje chamamos Manaus é um continuum e cujos registros remontam a 349 anos.

Portanto, mesmo que a data de fundação “real” do nosso lugar não seja de fato 24 de outubro, assim como o natal não seria 25 de dezembro, PARABÉNS Manaus dos meus amores e das minha paixões!


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“Bandido bom é bandido morto” e suas consequências.

Não é a primeira vez que trato do assunto. Correndo o risco de ser lido como “inoportuno”, “desrespeitoso”, “não solidário” é até “cruel”, já inicio lamentando o ocorrido e pedindo desculpas em avanço à quem assim entender, inclusive à amigos e família da vítima. É que certas coisas são melhores entendidas na comoção e nos momentos extremos, e é esse o caso.

Tempos atrás, os formandos de um Colégio Militar da PM em Manaus prestaram homenagem ao “mito” das classes militar e policial, classes em que igualmente boa parte da população de baixa instrução ou mesmo das endinheiradas, grassa o metafascismo e a ideia infeliz de “Bandido bom é bandido morto”. Que ironia, agora um dos muitos estudantes desses colégios perdeu a vida por conta dessa ideia estúpida de justiciamento, tempos atrás dois policiais a paisana da cidade passaram pelo mesmo.

O grande problema dessa ideia estúpida e do rechaço aos Direitos Humanos, é que se estimula uma polícia violenta no geral, mas não apenas, também a uma população “de bem” adepta do justiciamento sumário. Até esse ponto tem gente aplaudindo e dizendo que “é isso ai mesmo, tem que descer a lenha, se morrer é um bandido a menos”, porém muda quando o “justiceiro” descobre (em geral do pior modo) que ele próprio e seus entes queridos também podem de um minuto para o outro serem tratados da forma que tão imbecilmente defendem, principalmente se são “periféricos”, pretos e pardos e/ou visivelmente pobres.

Eventualmente algum branco com pinta de remediado/rico pode até se tornar “suspeito”, mas a esses sempre assiste o benefício da dúvida, estatisticamente a chance de “ser confundido” e de morrer violentamente nas mãos, pés, paus, pedras e balas de uns ou outros é 200% maior para os de outros perfis, ou seja, se não notou há chances de você ter um enorme alvo nas costas … .

É o ponto de “não se enxergar”, achar que não é negro, ou que é claro, remediado, “de bem” ou “temente a Deus” o bastante para não ser confundido…, uma ilusão que atinge muita gente, principalmente os que julgam que a sua virtuosidade é refletida por um paletó, uma bíblia debaixo do braço, um uniforme militar, um carro bom… que uma hora ou outra não estarão envergando… .

Finalizando, se você é destes que defendem “linha dura” e “detesta direitos humanos”, mude enquanto é tempo e ajude a enfraquecer essa situação que coloca você e os seus em constante risco, compartilhe com quem você sabe que pensa assim, se não é destes compartilhe também, uma hora chega em alguém que precisa refletir e mudar.


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O Negro e o Boi-Bumbá 2018, Caprichoso ou Garantido, qual o melhor ?😉

Chegou o fim de semana mais esperado no Amazonas. Seguindo uma tendência dos últimos anos, de reconhecimento e valorização da presença negra na formação da cultura e população amazonense, os dois bois lançaram toadas sobre o tema (o Caprichoso inclusive com participação da cantora Alcione na gravação oficial).

Veja nos links que seguem:

Garantido

https://youtu.be/NoYxeuNxRWE

Caprichoso

https://youtu.be/fjmipTfIzfk

E ai ? na sua opinião, foco na música, arranjos e pertinência temática qual toada ficou melhor ?


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Manaura desconhece infraestrutura e logística da cidade e tumultuou postos de combustível antes da necessidade

A greve nacional dos caminhoneiros por conta do preço e política atual de combustíveis está parando (em algumas partes já parou) o país. Com a paralisação do transporte os combustíveis não chegam aos postos, isso provocou longas filas e o estoque acabou em muitas cidades. E Manaus ?, as vezes é vantagem ser praticamente uma “ilha”.

Manaus com seu tradicional isolamento terrestre, hoje semi-isolamento, já que apesar de precário há tráfego na BR-319, tem uma estrutura logística diferenciada de praticamente todas as outras capitais, o abastecimento é multi-modal, ou seja, a grande maioria das mercadorias chegam aqui por rio ou de avião, os caminhões com carga gastam dias nas balsas vindo de Belém-PA ou de Porto Velho-RO.

Isso significa que pelo fato das coisas demorarem mais para chegar, já se trabalha com estoques maiores naturalmente. Manaus tem uma refinaria de petróleo, que chega de navio, produzindo combustível que abastece o estado e o estado vizinho de Roraima, ou seja, não há transporte intermunicipal para o abastecimento da capital, e a distribuição é feita em veículos das próprias distribuidoras e não autônomos como em boa parte do país. Como não havia paralisação da produção nem do transporte, não haveria desabastecimento dos postos, ao menos não ontem ou hoje, a menos que caminhoneiros de outros setores ou outros motoristas resolvessem bloquear a refinaria, o que não parecia iminente. Resultado a acorrida precipitada fez o combustível em muitos postos acabar antes do que seria esperado.

O Governador disse que os estoques estavam normais e durariam mais alguns dias, o do aeroporto por exemplo duraria 4 dias… quando o de Brasília se esgotou ontem.

Só hoje é que se tem notícias de tentativa de bloqueio à refinaria, que não se sabe se será efetivo, preocupante mesmo seria a paralisação dos petroleiros, que também só hoje foi aventada. Agora estamos sendo afetados, porém mais pela precipitação do que pela real escassez.