Blog do Juarez

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Quando negr@ é má ideia…

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Ontem me deparei novamente com uma nada nova e original discussão acalorada, gerada por uma postagem em que se utilizou a expressão “página negra da História” . Nela tinha gente incomodada com o termo e indicando vínculo do termo com racismo e gente na mão contrária, alegando que tinha “nada a ver” e que a reclamação era “exagero e mimimi”.

Então, vamos por partes entender a questão.

Sim, os termos, escuridão, trevas, negro e negra, representam negatividade e “mal” na cultura ocidental muito antes da intensificação dos contatos entre europeus, africanos e o novo mundo, com o advento das “grandes navegações” (européias…,  bem dito, pois outros povos como os chineses já faziam circunavegação muito antes, africanos chegaram as Américas  muito antes também…, mas isso é outra história) da instituição da escravidão negra e tráfico transatlântico, antes da própria  “invenção da raça” por Linnaeus no XVII, logo, não são exclusivamente de cunho racista.

Ocorre porém, que aproveitando essa estigmatização tradicional do escuro e negro na cultura ocidental, é que foram escravizados e nomeados NEGROS, tanto africanos quanto os indígenas americanos…, esses últimos chamados “Negros da terra”, ou seja, existe sim uma forte ligação e tributo entre racismo e a estigmatização via a “negrificação” de “coisas ruins”.

A própria mentalidade racista introjetada, não é percebida pela grande maioria das pessoas, especiamente no nosso contexto brasileiro, que adota o metaracismo (racismo cínico, velado, e que não se admite como existente, por vezes posando de antiracismo), logo, também não percebem que manter e reforçar as estigmatizações com base na ideia generalizada de coisas negras como “ruins” e brancas como “boas”, é também um dos fatores de manutenção da estigmatização racista.

Não se trata de “riscar do vocabulário” o termo negro(a), inclusive apropriado e resignificado pelos próprios negros, mas de “se educar” para não utilizar o termo em construções negativadoras e depreciativas…, pois assim agindo se está colaborando para manter na sociedade a ideia geral de “branco é bom, negro é ruim”, o que no fim acaba refletindo na mesma visão em se tratando de pessoas, ou seja, ajuda a preservar a mentalidade racista e consequentemente as atitutudes e atos racistas. Simples assim… .

Apesar de não haver estigmatização e negatividade tradicional no termo branco e derivados, imagine-se enquanto pessoa branca ouvindo as seguintes frases: ” o lado branco da força, não pode triunfar” , “precisamos apagar essa página branca de nossa história”, ” branco destino da pobre mulher”, ” a política nos atinge como uma peste branca”, “Você está DEBRANQUEANDO a minha reputação” (denegrir significa, tornar negro, enegrecer, e não por coincidência também manchar ou sujar…) , desconfortável não ?, ver sua identificação e “cor” tão associada ao negativo.

Portanto, antes de acusar quem reclama da utilização negativadora  do termo negro, de “mimimi”, “exagero” ou “paranóia”, pare e pense na etimologia do termo, no seu uso histórico, que hoje pode e deve ser evitado, no desconforto “do outro” e principalmente no seu papel para tornar esse mundo menos preconceituoso, discrimatório e  desigual.

As línguas evoluem conforme as sociedades e as consciências evoluem, não há motivos para continuarmos usando coloquialmente termos e expressões como há 3 séculos passados, principalmente se hoje as entendemos verdadeiramente em sentido e esse sentido não é bom… .


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EXEMPLAR ! (ou quando ignorar ou minimizar não é a opção)

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Quando aconteceu 13 dias atrás o repercutido fato do xingamento racista ao goleiro Aranha do time do Santos, não escrevi  nada, idem quando ocorreu o julgamento no STJD – Superior Tribunal de Justiça Desportiva na semana passada ( não tive muito tempo, nem muita disposição para escrever nos últimos dias ), mas isso foi muito bom…, pois com o desenrolar dos acontecimentos, posso fazer hoje um texto mais amplo e mostrar a@ car@ leitor@ mais nuances da questão toda.

Já que o caso  já está bem conhecido vamos direto ao que interessa:

Primeiro ao resultado do julgamento no STJD; que foi EXEMPLAR, a punição ao clube (desclassificado do campeonato e condenado a pagar multa) é “pedagógica”, muita gente não entende ou acha “injusto” punir o clube por um ato de uma simples torcedora…, ocorre que o clube lucra com o torcedor (na venda de camisas, artigos, ingressos, etc…) além de estimular uma relação “quase étnica” com a torcida (note que coloquei entre aspas, OK ?, tem gente que não entende metáforas…), ou seja, o clube/time estimula o torcedor e o torcedor estimula o clube/time, e os torcedores do time X se estimulam entre si e contra os “outros”,  o sentimento de pertencimento é semelhante ao dos membros de uma tribo (dai eu ter falado em ” quase étnica” ), cabe portanto ao clube EDUCAR e CONTER  sua torcida contra todo tipo de atitudes e atos negativos (e principalmente criminosos em função dos jogos ou  mesmo fora deles…), ao não fazer isso e não desestimular tais práticas, ele se torna CÚMPLICE; por outro lado, o torcedor tem que entender que seus atos também pesam contra o clube;  quer ser racista, violento, etc ??? “tudo bem !”, mas o time vai pagar por isso…  (e o resto da torcida vai se voltar contra você), e é ai que entra a “pedagogia” da punição do clube.

A punição à arbitragem também foi exemplar…., um dos grandes problemas com o racismo é a complacência, o “não vi nada” , o “deixa para lá” e os “panos quentes” dos que deveriam se indignar e reprovar cabalmente os atos racistas (principalmente quando por questão profissional, não tendo o real poder de evitar, tem a obrigação de ao menos coibir e tomar as providências necessárias com relação ao já ocorrido),  é um exemplo que deveria ser aplicado também a testemunhas, autoridades policiais  e outras, que fazem “corpo mole” e “vista grossa” quando a questão é racismo.

A punição aos agressores, dispensa maiores comentários, simplesmente perfeita…, mas ainda tem a punição criminal, afinal, racismo é crime dentro e fora dos campos, já a execração pública é uma coisa que acontece com criminosos de todos os tipos (pelo menos em geral acontece), é claro que ela tem que ter limites, mas não deve ser “afogada”  nem “reprimida” quando dentro do legal e do razoável, retorna ai o “efeito pedagógico”…, vale a pena “estragar a vida” por preconceitos e práticas irracionais ????, o exemplo é necessário e vai fazer muita gente pensar três vezes antes de arriscar… .

 Segundo,  o tal “Não sou (somos) racista(s)”,  é preciso ficar claro e massificado que  a maioria dos “brancos” brasileiros  TEM SIM MENTALIDADE RACISTA (muito embora não o percebam ou não admitam), assim como há negros que inconscientes se deixam ser afetados placidamente por reflexos de tal mentalidade e os que ainda colaboram com os que a tem;  não vou discorrer aqui um “tratado” sobre o que é racismo e o que é ser racista… (é muito mais complexo do que a maioria imagina ser), porém uma coisa é óbvia no mundo todo, associar pessoas negras a macacos (diretamente, via bananas, ou o que o valha) é um dos mais descarados e conhecidos ato de racismo, não tem “outra intenção”, nem tem “justificativa”, MACACO sempre foi e é uma ofensa racial e especialmente direcionada a negros (há raras exceções como o “gorila” aplicado à “brutamontes” em geral), e tem como intenção NEGAR ao outro a condição de humano, coloca-lo em uma situação de inferioridade, a história mostra a questão dos “macaquitos” (das guerras cisplatina e do Paraguai) e a própria questão dos gremistas se referirem aos “colorados”  como “macacos” (por ser um time que teve negros pioneiramente), depois da série de casos recentes de racismo no futebol, dizer que “não teve intenção racista”  ou que “desconhecia” a possibilidade de ser assim vista é um grande exercício de “cara-de-pau” .

A movimentação de parte da imprensa  em “amenizar” as coisas, demonstra o quanto é forte a intenção de escamotear o racismo brasileiro e “proteger” os que por desventura sejam apanhados na sua prática, afinal, o racismo mantém práticas efetivas e simbólicas que favorecem o grupo hegemônico, inclusive de forma psicológica ao manter sua ilusão de “superioridade”  e de a mesma lhe garante também impunidade.

Terceiro, a atitude do goleiro Aranha em reclamar do ato racista da torcedora e depois não querer se encontrar com a moça  para que fossem pedidas “desculpas esfarrapadas” revelam um nível de consciência bem maior que de alguns outros jogadores que passaram por situação semelhante, ele entendeu que a coisa ia muito além dele…, fazer parte do circo midiático que se preparava para tentar “limpar a barra” da agressora, não foi uma opção; ele bem o sabia que para o bem do esporte e para o combate ao racismo em geral, a punição e a execração pública tinham uma finalidade mais pragmática e nobre.

Quarto, os comentários das notícias e as redes sociais, um “conhecido” muito culto e que vive majoritariamente fora do país, sempre diz que que são neles que mais aparece o racismo do brasileiro, que vem em forma de justificativas e argumentações estapafúrdias no afã de defender o Status Quo, reacionarismo contra avanços efetivos para as populações não-brancas (em nome de uma “igualdade” meramente formal e desconsiderando ou minimizando a desigualdade material e efetiva), através de relativizações e minimizações dos casos de racismo e não raro em uma técnica meta-racista que é “inverter as coisas” , ou seja,  defendendo e “limpando a barra” dos reais agressores e acusando os indignados e antiracistas de estarem “exagerando”, promovendo “ódio”, “racismo as avessas” e ainda aproveitando para atacar conquistas das populações indígena e negra, como as cotas universitárias e no serviço público, demarcação de terras indígenas e quilombolas e outras ações afirmativas, ou mesmo a própria existência dos movimentos representativos  e datas como o dia da Consciência Negra, etc… .

Por fim, espero que esse episódio e desdobramentos inaugurem uma era de maior efetividade no combate e punição ao racismo, não apenas no futebol, mas em todos âmbitos da vida.


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A revista People elegeu Lupita Nyong’o como a mulher mais bonita do mundo em 2014

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Lupita Nyong’o ganhadora do Oscar 2014 de melhor atriz coadjuvante .

Notícia que bombou na semana passada…, aposto que deve ter deixado muito brasileiro “não-racista” revoltado com a “flexibilidade” do padrão de beleza admitido no “primeiro mundo”, já que apesar de não se darem conta, como herança do processo de colonização mental tem afixado na mente que “o único” padrão de beleza com “mérito” para tal tipo de destaque é o eurocêntrico (ou seja, cor branca, cabelos lisos ou ondulados e o tal do “nariz afiladinho”), quem sabe com isso reflitam mais sobre a sua própria mentalidade racista (que teimosamente não conseguem enxergar) ?

Para além disso, Lupita  que é uma negra, mexicana e criada no Quênia, quebrou de uma só vez ao ganhar o Oscar, pelo menos três “tabus”….

A polêmica que estão tentando criar com relação ao fato da publicação ter “photoshopado” a foto de Lupita e clareado sua pele, é a típica tentativa de retirada de foco da questão principal, pois a indústria da moda e publicações sobre celebridades faz isso com todo mundo (inclusive pessoas de brancura européia), é uma “tara estética” ?, com certeza… vindo de um subliminar “ideal de brancura extrema” ? muito provável…, mas por mais photoshop que se utilizasse, não retirou a negritude para lá de óbvia de Lupita, muito menos a permeabilidade e nível de oportunidade,  que permitiram a ela a dupla conquista…, coisa difícil de imaginar em um contexto brasileiro por exemplo.

Outro ponto está na comparação com caso da MISS UNIVERSO 2011, mas tem algumas diferenças na questão, a primeira é que a Lupita conseguiu uma consagração mundial prévia… pelo talento artístico e não apenas pela beleza, a segunda é que beleza da Leila Lopes (que é angolana) representa uma beleza negra sim, mas é uma beleza “mulatizada” (o termo é horrível, mas não tem outro melhor para me fazer entender) que na “escala de beleza” brasileira e ocidental é até “tolerada” apesar de ser tão raro as vezes em escala global que a “beleza mulatizada” “superou” o padrão eurocentrado, tão raro que conseguimos contar nos dedos de uma mão e ainda sobra… .

O caso da Lupita vai além… a beleza dela é típica da PRETA ( o fenótipo africano “natural” , cor muito escura, sem ‘traços finos” e sem “cabelos longos e balançantes”) que via de regra é super desqualificado e discriminado, do “tipo Lupita” no Brasil o exemplo mais próximo de beleza reconhecida foi o da Pina (aquela que embasbacou o Príncipe Charles), mas veja o caso da última Globeleza (que “desagradou” muita gente, justamente por ser uma preta e não uma “mulata” como era a Valéria Valenssa), não sei se sabem, mas vejam o destino da Nayara Justino a Globeleza preta… (veja link no fim do texto), que acabou escondida pela Globo, e entrou em depressão devido a tremenda rejeição pública que recebeu, prestem atenção nos comentários… (e vejam se não tenho razão), é dessa questão que estou falando ao comparar o sucesso de Lupita com o problema brasileiro que ninguém quer enxergar…, “Com rejeição, Globeleza vira problema na Globo, que a proíbe de dar entrevistas”

 


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Ordem da PM determina revista em pessoas “da cor parda e negra” em bairro nobre de Campinas (SP)

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Ordem da PM determina revista em pessoas “da cor parda e negra” em bairro nobre de Campinas (SP)

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Reprodução do documento publicado nesta quarta-feira 23 pelo jornal Diário de São Paulo

Para falar a verdade essa é uma ordem não escrita desde sempre…, pessoas negras sempre foram automaticamente consideradas suspeitas mesmo sem os indivíduos observados terem dado qualquer motivo real para isso (basta a cor); seguida não apenas pela Polícia, mas por seguranças de shopping, supermercado, etc…, a grande novidade é que a tradicional desfaçatez dessa vez caiu por terra e a ordem foi parar no papel com todas as letras, timbre, carimbo e assinatura…, duvido que se os suspeitos de estarem aprontando na área fossem brancos a ordem iria dizer “principalmente brancos de 18 a 25 anos” , seria simplesmente ” jovens de 18 a 25 anos em grupos de 3 ou mais” (o que não retiraria a tradicional preferência pela abordagens a jovens negros, mesmo que os bandidos procurados fossem brancos…), podem tentar fazer mil malabarismos para dizer que não tem racismo embutido na questão, mas nessa não tem “desculpa que cole”…

Leia mais em: http://noticias.bol.uol.com.br/brasil/2013/01/23/ordem-da-pm-determina-revista-em-pessoas-da-cor-parda-e-negra-em-bairro-nobre-de-campinas-sp.jhtm


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O doidão da Noruega, Gilberto Freyre e os neo-democratas-raciais

Afinal, qual  seria a conexão entre figuras tão distintas ???? ; explico :

O extremista “templário” nórdico Anders Behring Breivik, responsável pelos atentados terroristas que chocaram o mundo no último dia 22/07 com a morte de quase uma centena de  pessoas na Noruega, escreveu antes dos ataques um vasto manifesto de mais de 1500 páginas, no qual cita por doze vezes as palavras  Brasil ou brasileiros.

Nesse ponto a ideia central de Breivik é a de que a multiculturalidade advinda da convivência multirracial e da miscigenação (a exemplo do caso brasileiro) é um importante  fator de atraso ao desenvolvimento e que tanto uma quanto outra deveriam ser evitadas e banidas de uma futura Europa “saneada” (entenda-se sem etnias não “arianas”), cristianizada e sob controle “fascista” (aliás nada de inédito nessa visão de Breivik, pois no sec. XIX o Conde francês Joseph Arthur de Gobineau, que foi um tipo de embaixador da França no Brasil e era amigo de D. Pedro II, dizia as mesmas coisas, tendo publicado um livro que seria a “pedra fundamental”  das premissas racistas dos eugenistas e dos nazistas) .

Entre outras ideias totalitárias, o terrorista cita a necessidade de  “seleção” e  redução da população mundial, bem como, de um repovoamento europeu a partir de matrizes genéticas  “puras”  do norte da Escandinávia (esse “filme” não é novo…), mas de maneira estranhamente controversa repudia Hitler e nem se afirma racista…  .

O interessante é que apesar de parecer  antagônico ao discurso dos neo-democratas-raciais brasileiros (os conhecidos anti-cotas e anti-movimentos-negros-e-indígenas); que se travestem de “anti-racistas” e cinicamente afirmam que o racismo e a desigualdade seriam causados pela admissão de que há diversidade  racial (do ponto de vista de construção social),  propondo a “desracialização” do debate da problemática social e das Ações Afirmativas brasileiras, apoiando inclusive a  “apologética” da miscigenação  (que eles preferem chamar de mestiçagem), como sendo o principal fator de agregação nacional e solução dos problemas raciais brasileiros;  a coisa não é bem assim, pois no fundo ambos os discurso tem exatamente a mesma finalidade e intenção “homogeneizante”  e anti-multiculturalista/multirracial.

E o Gilberto Freyre ?  onde é que entra nessa história ? ; acontece que é justamente ele o “ícone teórico”  dos neo-democratas-raciais (incluindo os ferrenhos defensores brazucas da “mestiçagem ideológica” ) que se valem de parte da sua  obra para também atacarem o multiculturalismo e a convivência multirracial com equilíbrio social ;   exemplo :

” A mestiçagem unifica os homens separados pelos mitos raciais.
 A mestiçagem reúne sociedades divididas pelas místicas raciais e grupos inimigos.
A mestiçagem reorganiza nações comprometidas em sua unidade e em seus destinos democráticos pelas superstições    sociais.”  (Gilberto Freyre) 

Agora releia o texto acima  apenas substituindo a palavra mestiçagem por nordificação (o desejo manifesto de Breivik para uma nova sociedade européia e mundial), apavorante não ?

Cabe lembrar que Freyre, também foi o teórico escolhido pela ditadura ultra-conservadora portuguesa (salazarista) para tentar defender o modo português de colonizar (apelando para a miscigenação/bastardização como forma de gerar mão de obra intermediária e população estanque  a serviço dos interesses da metrópole e sua ideologia) vide :

” Quanto a miscibilidade, nenhum povo colonizador, dos modernos, excedeu ou sequer igualou nesse ponto aos portugueses. Foi misturando-se gostosamente com mulheres de cor logo ao primeiro contato e multiplicando-se em filhos mestiços que uns milhares apenas de machos atrevidos conseguiram firmar-se na posse de terras vastíssimas e competir com povos grandes e numerosos na extensão de domínio colonial e na eficácia de ação colonizadora. A miscibilidade, mais do que a mobilidade, foi o processo pelo qual os portugueses compensaram-se da deficiência em massa ou volume humano para a colonização em larga escala e sobre áreas extensíssimas.” (FREYRE, 2004, p.70)

Na prática, por caminhos distintos tanto Breivik, quanto os neo-democratas-raciais (pseudo-embasados teoricamente por Freyre), pregam o desprezo pela diversidade e entendem que a solução da questão da desigualdade está na eliminação das diferenças raciais, simplesmente  eliminando as raças… de forma física ou conceitual  (faça uma busca pela teoria da fusão racial  e também por “racialização do Brasil” ),  não pela lógica e desejável convivência pacífica e socialmente justa de várias “raças” (socialmente falando) e culturas caldeadas.

A aproximação dos ideais de uma sociedade neofascista  e “sem  raças ” de Breivik , com a ideologia e métodos de direita-conservadora dos neo-democratas-raciais impressiona…, a começar pelo ódio destilado contra o partido dos trabalhadores  norueguês e o que ele chama genericamente de “marxistas”  (principais vítimas do atentado terrorista) , reproduzido na “versão tupiniquim”  pelos  ataques diuturnos e midiáticos movidos pelos neo-democratas-raciais contra o partido dos trabalhadores daqui do Brasil…;  impressiona mais ainda quando, como da forma costumeira e cínica se negam a admitir as similaridades ideológicas e inclusive a criticar os posicionamentos também ultra-reacionários do “doidão” norueguês.

Já disse no passado e repito :  Quem ainda não  percebeu que as verdadeiras “cruzadas” contra um Brasil diverso e justo (inclusive com Ações Afirmativas sócio-raciais), com direito à multiculturalidade e multirracialidade (incluindo a miscigenação natural e não ideológica nesse tipo de sociedade), possui uma raiz fascista (e por que não dizer patológica ? ); que abra os olhos… .


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Terremoto no Haiti fez cair prédios lá e máscaras aqui…

Fotomontagem blogdojuarez:   Arnaldo Jabor; o Cônsul do Haiti e a tragédia haitiana

Não bastasse a tragédia que atingiu o  Haiti, assistimos agora na TV  brazuca uma nova onda de abalos, dessa feita não sísmicos, mas sim de falas estúpidas, preconceituosas e racistas …  .

O conhecido comentarista Arnaldo Jabor  e o até então desconhecido Cônsul Honorário do Haiti em São Paulo, o brasileiro George Samuel Antoine, protagonizaram duas cenas que com certeza demonstram o "modus-pensandi" preconceituoso e racista não apenas da elite brazuca, mas de muita gente que nunca parou para pensar no seu próprio racismo introjetado.

Bem próximo ao final de seu comentário no Jornal da Globo de quarta-feira(13), Jabor soltou a seguinte pérola : " Como democratizar um país miserável analfabeto com raízes tribais africanas bárbaras ? " 

Jabor falou com todas as letras que "o problema" do país é a origem majoritariamente africana do povo, além de "classificá-la" de bárbara (não civilizada), saibam que no séc. XIX o Conde de Gobineau, que foi "embaixador" da França no Brasil imperial (era amigo e "conselheiro" de D. Pedro II), disse praticamente a  mesma coisa do Brasil…, detalhe, Gobineau foi o "pai da EUGENIA" (filosofia que pregava a necessidade de  "pureza racial" e eliminação dos não-brancos), ele foi a base para toda a "loucura ariana" cometida pelos nazistas … .
 
Já o inacreditável Cônsul Honorário do Haiti soltou  em entrevista ao SBT no dia 14 (sem perceber que estava sendo gravado) as duas  seguintes "pérolas"  sobre a tragédia : 
 
"A desgraça de lá está sendo uma boa pra gente aqui, fica conhecido"
 
"Acho que é de tanto mexer com macumba, não sei o que é aquilo… O africano em si tem maldição. Todo lugar que tem africano lá tá f…"
 
O Cônsul, já ocupou N cargos de prestígio junto à representatividade da comunidade Libanesa no Brasil, foi presidente da Associação Nacional dos Cônsules, tem uma série de condecorações incluindo a "Medalha do Pacificador" (a mais alta condecoração do Exército brasileiro), fica a pergunta, como alguém "assim" conseguiu tudo isso ???? .
 
Enquanto isso…, tem gente lendo e concordando com "Não somos Racistas" de Ali Kamel e "Uma gota de Sangue" de Demétrio Magnoli… , mas o terremoto do Haiti mais que derrubar prédios por lá, tem feito cair máscaras por aqui…
 
Links para os vídeos : 
 
 


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A ideologia reacionária por trás das "piadinhas inocentes"

imagem cascavilhada da web tuga

 

Recebi  no trabalho um email com uma daquelas tradicionais piadinhas aparentemente inocentes ou com viés de crítica irônica a alguma situação  generalizada;   mas não é a primeira  do tipo que recebo nos últimos tempos (sinal que não é um fato isolado…) que  aparentemente inocente ou de crítica irônica a determinada situação real,  mas ao fiinal ataca as ações afirmativas… .

Não é a toa nem de hoje, que se sabe que uma das formas mais nocivas de propagar e perpetuar preconceitos e instigar discriminação são as "piadinhas" politicamente incorretas de vários naipes: tem as racistas, as homofóbicas, as sexistas, as regionalistas, as anti-deficientes, etc…

Agora o objeto de ataque são as AA, mas a quem de fato interessaria esse tipo de "propaganda" anti-AA, obvio… a aqueles grupos reacionários encarapitados no "topo da sociedade", interessado em espalhar e manter os preconceitos que grantem a discriminação dos "outros" e consequentemente sua virtual maioria no topo… homens, brancos, heteros, sulistas/sudestinos, não-deficientes, ricos…  é claro que contam para isso com o pronto apoio do "aspirantado do andar de baixo" (a classe média) e outros alienados…

 

Vamos a "piadinha" :

 

"A Evolução da Educação.
Antigamente se ensinava e cobrava tabuada, caligrafia, redação, datilografia…
Havia aulas de Educação Física, Moral e Cívica, Práticas Agrícolas,
Práticas Industriais e cantava-se o Hino Nacional, hasteando a
Bandeira Nacional antes de iniciar as aulas..

Leiam relato de uma Professora de Matemática:

Semana passada comprei um produto que custou R$15,80. Dei à balconista
R$ 20,00 e peguei na minha bolsa 80 centavos, para evitar receber
ainda mais moedas. A balconista pegou o dinheiro e ficou olhando para
a máquina registradora, aparentemente sem saber o que fazer.

Tentei explicar que ela tinha que me dar 5,00 reais de troco, mas ela não se
convenceu e chamou o gerente para ajudá-la. Ficou com lágrimas nos
olhos enquanto o gerente tentava explicar e ela aparentemente
continuava sem entender. Por que estou contando isso?

Porque me dei conta da evolução do ensino de matemática desde 1950, que
foi assim:

1. Ensino de matemática em 1950:
Um lenhador vende um carro de lenha por R$ 100,00. O custo de
produção é igual a 4/5 do preço de venda. Qual é o lucro?

2. Ensino de matemática em 1970:
Um lenhador vende um carro de lenha por R$ 100,00. O custo de produção
é igual a 4/5 do preço de venda ou R$80,00. Qual é o lucro?

3. Ensino de matemática em 1980:
Um lenhador vende um carro de lenha por R$ 100,00. O custo de
produção é R$80,00. Qual é o lucro?

4. Ensino de matemática em 1990:
Um lenhador vende um carro de lenha por R$ 100,00. O custo de produção
é R$80,00. Escolha a resposta certa, que indica o lucro:

( )R$ 20,00 ( )R$40,00 ( )R$60,00 ( )R$80,00 ( )R$100,00

5. Ensino de matemática em 2000:
Um lenhador vende um carro de lenha por R$ 100,00. O custo de
produção é R$80,00. O lucro é de R$ 20,00.

Está certo?
( )SIM ( ) NÃO

6. Ensino de matemática em 2009:
Um lenhador vende um carro de lenha por R$100,00. O custo de produção
é R$ 80,00.Se você souber ler coloque um X no R$ 20,00.
( )R$ 20,00 ( )R$40,00 ( )R$60,00 ( )R$80,00 ( )R$100,00

7. Em 2010 vai ser assim:
Um lenhador vende um carro de lenha por R$100,00. O custo de produção
é R$ 80,00. Se você souber ler coloque um X no R$ 20,00. (Se você é
afro descendente, especial, indígena ou de qualquer outra minoria
social não precisa responder)

( )R$ 20,00 ( )R$40,00 ( )R$60,00 ( )R$80,00 ( )R$100,00

E se um moleque resolve pichar a sala de aula e a professora faz com
que ele pinte a sala novamente, os pais ficam enfurecidos pois a
professora provocou traumas na criança. 
"

 

Do jeito que a coisa é colocada, subliminarmente passa 3 ideias  completamente equivocadas sobre AA :

1- Relaciona AA e potenciais grupos beneficiários com uma questão  de capacidade intelectual, quando na realidade a questão é de oportunidades prejudicadas cultural e históricamente.

2- Passa a falsa impressão que beneficiários de AA não precisam fazer avaliação para acesso…, quando na realidade fazem sim , mas concorrendo a vagas reservadas e dentro de  grupo com características de oportunidades prévias semelhantes (ou eventualmente com um bônus  extra para equalizacão na classificação quando em concurso universal).

3- Induz a acreditar que a Educação básica está ruim para todo mundo e que AA seria um jeito de "burlar" e diminuir ainda mais o nível de exigência; quando na realidade o que está ruim é a educação básica pública (na qual as "minorias" citadas são maioria absoluta) o que torna desleal a competição universalizada com oriundos de escolas particulares ( cuja esmagadora maioria pertence a grupos étnico-raciais e sociais diferentes das "minorias").

 

E ai   " o estrago  está feito."…