Blog do Juarez

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Racismo na antiguidade sim..

Capa do livro “A invenção do racismo na antiguidade clássica “

No campo da História tem muita gente que entende “racismo” como uma categoria aplicável somente a situações ocorridas após a chamada instalação do racismo científico do séc. XIX, sendo anacrônica a aplicação para o anterior.

Sobre anacronismo prefiro me basear em ensinamento de D’Assunção Barros, É importante já antecipar que frentemente encontramos palavras de hoje (e que não existiam em outra época) e que funcionam perfeitamente bem para descrever uma situação em um passado histórico. Ou seja, o uso de uma palavra de hoje para analisar o passado não produz necessariamente anacronismo. Pode produzir, mas pode também não produzir. , parte de texto apontado pelo link acima e no qual se afirma que o historiador pode trabalhar com duas categorias, as utilizadas nas fontes (usadas em citaçoes literais e referências ao primário) e as que utiliza ao fazer a análise, ou seja, ao fazer observações próprias pode usar categorias presentes para o fenômeno ou referência, para o melhor entendimento por seus leitores. O que não se pode fazer é levar à boca de personagens do passado termos/conceitos de hoje.

Quanto ao racismo científico, começo discordando até pelo marco, penso que a ideia “científica” de raça (o racialismo) e o racismo (a ideia de superioridades e inferioridades atávicas entre elas) começa ainda no XVIII com o Carolus Linnaeus estabelecendo a classificação Homo Sapiens e dividindo-a em subespécies (raças), com a respectiva “descrição moral” de cada uma delas.

Por outro lado, o racismo (essencialmente falando) desde a antiguidade clássica, mesmo que se tenha o cuidado de usar eventualmente termo de especificação como “proto-racismo”, é reconhecível e reconhecido por alguns autores a partir de argumentos robustos. Por exemplo, para quem acha que a cultura védica, base do hinduísmo é pura “paz e amor” e “elevação”, deveria dar uma lida em texto do Carlos Moore sobre o Rig-Veda, racismo é pouco… .

O resultado do ódio de Indra aos “Anashas” e a dominação ariana deu nisso:

Os Dalits, pretos de cabelo “liso” ou encaracolado, os “párias” “intocáveis” , o que restou dos dravídicos odiados por Indra.

Não tem muito para onde correr…, o que vemos hoje é consequência e reprodução da mesma estrutura discriminatória vista na longa duração. Difícil trabalhar com racismo sem um perspectiva “braudeliana” . Em qual categoria presente você encaixaria para tecer análise, os trechos védicos expostos acima e a realidade atual ? 🤷🏿‍♂️


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“De um historiador para outro”, ou jornalistas que escrevem história popular.

Com o jornalista/escritor de história Eduardo “Peninha” Bueno, em Florianópolis.

Aproveitando a data histórica do 7 de setembro e os já tradicionais “chororôs” de historiadores acadêmicos contra jornalistas históricos, vou dar meu pitaco.

Eu acho que independente de ser jornalista ou não, o desconhecimento de História é que é problema. Por outro lado, não creio que apenas historiadores acadêmicos tenham “lugar de fala” sobre questões históricas , tem muita gente que gosta de História, pesquisa independentemente e tem muita moral para dar pitaco, aliás, as vezes com muito mais propriedade e sucesso.

O povo até gosta de História, mas na perspectiva popular os acadêmicos são “de dar sono”, não tem estilo, não se valem de truques literários, não tratam de passar a ideia principal fluidamente, se travam nos detalhes e nas “citações a cada linha”. Por tal, não é raro que historiadores acadêmicos (parece redundante mas de fato não é) reclamem que livro histórico de jornalista e outros os deixa ricos e famosos porque vendem muito mais que o de historiadores… . Pela lógica não é difícil imaginar o porque da vantagem né ? 🤷🏿‍♂️ .

Cabe observar que jornalistas históricos ou outros escritores sobre História, exercem ofícios distintos do historiador, embora muitos não entendam assim, os primeiros não estão limitados pelo mesmo compromisso com paradigmas, rigores e métodos que o ofício de historiador exige. Com isso podem criar uma narrativa menos densa, mais fluida e agradável ao grande público, com o consequente guindamento à categoria de “best-sellers” e autores “pop”.

Enquanto historiadores desejamos atingir o povão, mas ficamos em geral “travados” pela episteme e mesmo certa arrogância acadêmica…, logo, nossa produção, é nato-científica, voltada essencialmente para a própria academia e não literatura no sentido estrito da narrativa recreativa. Mesmo quando abrandada para o formato livro ou produzida já com intenção popular, não tem condições de competir nas prateleiras e no gosto popular com o tipo de narrativa realizada com o “estilo pop” dos best-sellers.

Eu particularmente gosto de Jornalismo histórico, desde que conte as histórias com bom nível de honestidade e base… a exemplo do Eduardo “Peninha” Bueno… . Ontem tive a oportunidade de assistir uma palestra dele em Florianópolis, gente… simplesmente sensacional 🤷🏿‍♂️ não à toa ele sempre lembra:

” ‘Istoriador’ com I maiúsculo era minha piada preferencial sobre mim mesmo, só que ela acabou. E me apresentei assim em uma palestra em Parati e, ao terminar, o Eric Hobsbawm falou: ‘A piada é boa, mas você não vai mais poder usá-la porque o autógrafo que vou te dar é um rito de passagem’. E escreveu: ‘De um historiador para outro’. Eu também não me acho historiador, mas não é o que diz o Hobsbawm” (Eduardo Bueno)….🤷🏿‍♂️


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Monteiro Lopes, a real história da iguaria paraense

Trata-se de um biscoito muito apreciado e presente na memória afetiva dos paraenses, principalmente os da capital, Belém, pois, é presença certa nas festas familiares e vem marcando várias gerações, existe em duas versões.

Porém a origem da iguaria e o seu nome vinham sendo alvo de controvérsias. Como pesquisador trabalhei 150 anos da história da família Monteiro Lopes e acabei topando com a verdadeira história do biscoito.

Há uma versão “romântica a la Romeu e Julieta” onipresente na web que fala que o biscoito surgiu no século XIX, a partir da união dos filhos de famílias rivais (uma negra e outra portuguesa) que possuiam padarias no ver-o-peso e produziam biscoitos distintos, ao casarem, juntaram os nomes das famílias e as receitas formando então o biscoito e nomeando-o Monteiro Lopes.

Isso porém é falso, não há qualquer registro, ao menos ainda não foi encontrado, da existência do biscoito de fins do séc. 19 até meados do séc. 20, e as pessoas que referem a versão não são memorialistas nem de fato publicaram sobre, é portanto um caso típico de “lenda urbana”.

Há uma segunda versão, menos popular, de que o doce e o nome seriam uma homenagem ao falecido Desembargador Agnano Monteiro Lopes, belenense negro nascido em 1910, que foi presidente do Tribunal de Justiça do Pará entre fins dos anos 60 e meados dos 70. A “homenagem” seria pelo fato do mesmo ser visto como “preto por fora e branco por dentro”, uma referência que durante muito tempo se pretendeu elogiosa à pessoas negras extraordinárias, mas na verdade de grande carga racista, o famoso termo “preto de alma branca”.

Essa versão é meia verdade, sim, o nome tem a ver com o Desembargador Monteiro Lopes, mas não pelo motivo aludido. A história real é outra e parece óbvio ter inspirado a primeira versão “romântica”.

Muito jovem Agnano se formou em Direito, aos 20, foi em seguida nomeado Juiz substituto no interior, depois fez concurso para Promotor, trabalhou em Breves, interior do Pará. Lá, o negro Agnano conheceu Laura, então uma adolescente, branca, de família portuguesa e se apaixonaram. A família da jovem, por preconceito e desgosto a expulsou de casa, sendo que a mãe de Agnano, D. Júlia a amparou. Quando do casamento, uma doceira amiga de D. Júlia, inspirada na história do jovem casal de apaixonados criou o doce preto e branco e o batizou com o nome que os jovens compartilhariam ao se casar em 1931, ou seja o o sobrenome de Agnano, Monteiro Lopes. Foram 56 anos de casamento, com 4 filhos.

Essa história foi levantada por mim, combinando pesquisa em fontes bibliográficas, webbgrafia e por meio de entrevista com a filha do Desembargador Agnano, Vera Lúcia Monteiro Lopes Leite. Foi apresentada em evento científico-acadêmico de História e publicada como capítulo de livro resultante dos anais do evento.


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Voto negro no Brasil

Escala proporcional de tempo – Maria Vitória di Bonesso

O assunto aqui é rápido. Fizeram uma ilustração para dar uma dimensão da história e avanços legais dos negros no Brasil, logo apareceu um monte de gente (especialmente branca) reclamando que o gráfico estava errado e que “nunca houve” lei que impedisse o voto dos negros, principalmente após a abolição e o início da República.

Entendam que o racismo no Brasil sempre foi eficiente e nem sempre aberto… quando se fala em voto negro em 34, se está falando do voto realmente livre e generalizado. Muito embora desde a Constituição de 1824 em tese homens livres fossem iguais , a coisa não era bem assim:

1- Escravos não votavam, todos eram negros…

2- Ex-escravos, ou seja, os libertos não tinham direito ao pleno voto, só ao voto primário, nem podiam ser votados.

3- Os negros nascidos livres podiam em tese votar e serem votados, mas o voto censitário colocava uma barreira de renda que eliminava praticamente todos eles.

4- Com o fim da escravidão e o início da República enfim todos pareciam em tese livres e eleitores, mas o voto ainda era proibido aos menores, aos soldados, as mulheres e aos analfabetos (cuja esmagadora maioria era negra) em 1890 o Brasil tinha coisa de 12,2 milhões de habitantes maiores de 5 anos, pouco mais de 9 milhões eram pretos e pardos, os analfabetos coisa de 10 milhões (82%), fácil concluir que entre os pouco mais de 2 milhões de alfabetizados poucos eram negros… . Em 1940 o Brasil tinha 23,7 milhões de habitantes, os analfabetos eram coisa de 13,2 milhões (61%), enquanto negros eram 14,7 milhões (62%) da população. Percebe-se que mesmo após 1934 a população negra supera em pouco mais de um ponto percentual a analfabeta e não eleitora, não quer dizer que não houvessem negros alfabetizados e eleitores e não-negros analfabetos e não eleitores, mas que sob o critério do analfabetismo praticamente se excluia eleitoralmente quase toda a população negra. Assim é a desigualação racial no Brasil, o motivo é sempre “outro” que não o racial, mas os alvejados…

(Dados do IBGE)

5- Isso permaneceu durante toda república velha até os anos 30, quando as mulheres ganham o direito ao voto, mas os analfabetos não… . Até então havia também outro dispositivo que dificultava a participação política negra, a necessidade que os políticos eleitos fossem “confirmados” pelas casas legislativas, isso excluiu vários candidatos negros vencedores de assumirem mandatos, na prática “anulando” os votos de seus eleitores óbvia e majoritariamente negros… . Foram embarreirados nomes como Eduardo Ribeiro, eleito Senador pelo Amazonas em 1897 e Manoel da Motta Monteiro Lopes, eleito e não confirmado duas vezes seguidas, só logrando tomar posse como Deputado Federal pelo então Distrito Federal em 1909, após mover uma campanha nacional e internacional pelo seu reconhecimento. Monteiro Lopes foi objeto da minha dissertação de mestrado.

Depois da CF de 1934 o voto se “universaliza”, apesar de ainda excluir os analfabetos cuja maioria era negra, já não se restringia e “anulava” a posteriori a vontade do negros com status de eleitor.

É importante ao se discutir e principalmente antes de negar a histórica obstaculização negra brasileira e “corrigir” as manifestações de pesquisadores e ativistas, entender de onde vem seus argumentos e critérios, simplesmente dizer que “nunca houve lei” ou “impedimento explícito” é desconhecer e menosprezar a realidade.

P.S Sei que alguns vão reclamar que o título remete à uma análise não apenas histórica da evolução do direito de voto, mas à uma análise de como se deu e dá a construção e alcance do voto negro. Tudo bem, é possível, mas em outra ocasião… .


24 Comentários

Isso é histórico ?

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Talvez tenha passado desapercebido para muita gente, mas salvo enorme engano, hoje aconteceu um fato inédito na TV brasileira, pela primeira vez tivemos a interação direta de dois negros na tela do mais importante noticioso televisivo nacional, o âncora substituto do Jornal Nacional, Heraldo Pereira e a “moça do tempo”, Jornalista Maju Coutinho.

Para quem tem naturalizado ver essa ação exclusivamente entre brancos por décadas e mais recentemente com interações entre brancos e negros, ou deve ter sido um choque, ou pela inconsciência sobre  as características do racismo brasileiro, não deve ter percebido o momento singular (que poderia ser uma coisa banal e natural em uma população que é praticamente metade branca e metade negra, mas não é… ).

O JN tem 46 anos, o que significa cerca de 11 mil edições diárias, pela lógica estatística, considerando as características populacionais brasileiras isso poderia ter ocorrido naturalmente pelo menos 5.500 vezes, mas não, a razão real é de 1/11000, não deveria ser motivo para “comemoração”, porém apesar do número completamente desfavorável é sim um avanço a registrar e um passo a mais no caminho de uma efetiva igualdade.

Realmente as coisas começam a mudar… .


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Dica de filme : Chico Rei (1985)

O rei do Congo, Galanga (Severo d’Acelino), é aprisionado e vendido como escravo em meados do século XVIII e trazido num navio negreiro para o Brasil e vai trabalhar nas minas de ouro em Vila Rica. Chico Rei, como agora é chamado, vai escondendo pepitas no corpo e nos cabelos e consegue comprar sua alforria, assim como adquirir a mina Encardideira, tornando-se o primeiro negro proprietário. Chico Rei acaba associando-se a uma irmandade para ajudar outros negros na compra de sua liberdade, desafiando, assim, a ordem na sociedade brasileira do século XVIII.

Assista aqui:  https://www.youtube.com/watch?v=CKwzGFiSBHw  (qualidade não muito boa, mas dá para assistir bem fora de tela cheia)

VERSÃO EM QUADRINHOS da mesma história : http://mobonatto.pbworks.com/w/file/70728620/HQ%20-%20Chico%20rei.pdf

 


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Momento Histórico – Registro

foto-históricaSeguindo a minha “neoveia” de Historiador, aproveito para dar uma “facilitada” na vida de futuros pesquisadores (provavelmente “arqueólogos e historiadores digitais”), reproduzindo o registro de um momento histórico, até aonde sei  tal  reunião e registro  é extremamente peculiar,  o encontro e registro fotográfico das altas autoridades dos três poderes estaduais nem tanto, somado o Arcebispo local, mais raro, mas tudo junto e somado a um “Pai de Santo” (Sacerdote de Matriz Africana) militante LGBT e Negro e ainda na Catedral metropolitana, tem 99,99% de  probabilidade de  NUNCA  ter ocorrido antes…, um indicativo forte de que o respeito à diversidade pelo menos nas altas esferas do Amazonas está bem encaminhada…, e um “tapa na cara” dos intolerantes e ignorantes (é redundante mas não custa frisar) que passam dia e noite falando em “Diabo”, demonizando os cultos e praticantes das religiões afrobrasileiras e com atitudes e discursos homofóbicos, ou racistas;  bom seria se em todas as camadas da sociedade e situações sucedesse o mesmo nível de tolerância e respeito mútuo.