Blog do Juarez

Um espaço SELF-MEDIA


Deixe um comentário

Jornalistas premiadas co-fundadoras da Agência Amazônia Real ganham vídeo antológico

Desde fins de 2018 colaboro como colunista, na agência de notícias Amazônia Real (AR), de jornalismo independente, premiada nacional e internacionalmente e focada como o nome diz em mostrar as realidades da região amazônica.

A afinidade deste  blog aqui, que mantenho desde 2004, com a Agência AR, começa pelo nosso slogan, “Da Amazônia para o mundo”, assim também é a visão e missão da AR. Importante frisar que há óbvia diferença, enquanto a agência faz jornalismo profissional e independente, o blog é apenas um espaço pessoal de reflexão e manifestação pública, que mantenho desde antes do advento das redes sociais, e também obviamente o blog é de muitíssimo menor alcance.

Mesmo assim aproveito o espaço para parabenizar as queridas jornalistas Kátia Brasil e Elaíze Farias e agradecer por toda a consideração que sempre tiveram para com a minha pessoa, inclusive em momento crítico.

Feita a contextualização da minha relação com a agência e consequentemente com suas co-fundadoras, que receberam homenagem no 16º Congresso da Abraji (Associação brasileira de jornalismo independente), vamos ao que interessa, o vídeo antológico… https://vimeo.com/592137565


Deixe um comentário

VAMOS BRINCAR DE ENEM

A proposta é testar se você sabe de onde vem a noção política de “esquerda” e “direita”, então vamos lá:

Exercício resolvido

(Enem) “Em nosso país queremos substituir o egoísmo pela moral, a honra pela probidade, os usos pelos princípios, as conveniências pelos deveres, a tirania da moda pelo império da razão, o desprezo à desgraça pelo desprezo ao vício, a insolência pelo orgulho, a vaidade pela grandeza de alma, o amor ao dinheiro pelo amor à glória, a boa companhia pelas boas pessoas, a intriga pelo mérito, o espirituoso pelo gênio, o brilho pela verdade, o tédio da volúpia pelo encanto da felicidade, a mesquinharia dos grandes pela grandeza do homem.”

HUNT, L. Revolução Francesa e Vida Privada. In: PERROT, M. (Org.) História da Vida Privada: da Revolução Francesa à Primeira Guerra. Vol. 4. São Paulo: Companhia das Letras, 1991 (adaptado)

O discurso de Robespierre, de 5 de fevereiro de 1794, do qual o trecho transcrito é parte, relaciona-se à qual dos grupos político-sociais envolvidos na Revolução Francesa?

a) À alta burguesia, que desejava participar do poder legislativo francês como força política dominante.

b) Ao clero francês, que desejava justiça social e era ligado à alta burguesia.

c) A militares oriundos da pequena e média burguesia, que derrotaram as potências rivais e queriam reorganizar a França internamente.

d) À nobreza esclarecida, que, em função do seu contato com os intelectuais iluministas, desejava extinguir o absolutismo francês.

e) Aos representantes da pequena e média burguesia e das camadas populares, que desejavam justiça social e direitos políticos.

Resolução: LETRA E

Maximilien Robespierre era o líder dos jacobinos no período em que eles estiveram à frente da Revolução Francesa. A ascensão dos jacobinos foi impulsionada pelo apoio do povo, sobretudo dos sans-culottes. Contavam com o apoio da pequena e média burguesia e desejavam ampliar as reformas sociais na França revolucionária. Durante o domínio dos jacobinos, aconteceu o período conhecido como Terror, no qual os opositores dos jacobinos eram sumariamente guilhotinados.

|1| HOBSBAWM, Eric. A Era das Revoluções 1789-1848. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2014, p. 114.
|2| Idem, p. 119.

OK, então já sabemos na revolução francesa quem eram os Jacobinos, era o povão que junto com a pequena e média burguesia se opunha à aristocracia, ao clero aliado e aos conservadores, generalizados então como Girondinos.

Na Assembleia Jacobinos ficavam no lado esquerdo e Girondinos no lado direito. Resumindo, quem defendia liberdade, igualdade e o lado dos mais pobres era da esquerda, os que defendiam a desigualdade e os interesses dos mais ricos era direita…

Karl Marx, o teórico do socialismo moderno e dos comunistas só iria nascer em 5 de maio de 1818, em Tréveris, Alemanha, ou seja, 24 anos depois da ideia de esquerda e direita ter sido implantada e na França…, portanto nada a ver, limitar hoje o que é ser esquerda ao campo socialista e direita ao que não é socialista. A questão é de “lado dos pobres” e “lado dos ricos”, lado dos avanços sociais ou lado da desigualação e privilégios, lado da solidariedade ou lado do egoísmo, simples assim…

Por isso é que a melhor definição de esquerda hoje é a do Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai, que vai na raiz da ideia.


4 Comentários

Djamila e a bolsa da Prada, problema para você? Para mim não…

Postagem de rede social

Só vendo a geral criticando a Djamila Ribeiro, negra formada em Filosofia, Professora, Ativista e que fez sucesso como escritora e editora na temática do racismo e feminismo. Bora se atualizar gente… A luta negra não é uma luta socialista, ela é integracionista…, não defendemos resumir a pirâmide de Maslow apenas ao seu centro, embora a redução da sua base com o aumento da mobilidade social e redução drástica da pobreza e miséria, independente de recortes, seja uma luta compatível e embutida. A luta negra é pelo direito de não ser limitado em nenhum aspecto pela cor/origem, assim como a luta do feminismo, não é em essência uma “luta contra o capital” mas sim contra a hegemonia excludente.

Não dá para deixar de observar que as críticas tem um viés também racista, mesmo que inconsciente, muita gente acha que negro e luxo são coisas incompatíveis, e quando se juntam atraem questionamento e atenção que não é dada quando não se trata de pessoa negra. Outro ponto é a crítica socialista, que não consegue desvencilhar ativismo de luta de classes segundo paradigmas marxistas, o que está longe de ser um real enquadramento do que é ativismo.

Já cantavam os Titãs… em “Comida”

“A gente não quer só comida
A gente quer comida, diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída para qualquer parte

A gente não quer só comida
A gente quer bebida, diversão, balé
A gente não quer só comida
A gente quer a vida como a vida quer”

Se você é millenial e não conhece o sucesso do rock brasileiro dos 80 segue o link do clipe: https://youtu.be/hD36s-LiKlg

Para fechar esse primeiro bloco lógico, o que quero marcar é que a maioria da crítica tem fundo na verdade em uma observação que já foi sistematizada faz tempo:

Segundo (Blumer, 1939) “São quatro os sentimentos que estarão sempre presentes no preconceito racial do grupo dominante: (a) de superioridade; (b) de que a raça subordinada é intrinsecamente diferente e alienígena; (c) de monopólio sobre certas vantagens e privilégios; e (d) de medo ou suspeita de que a raça subordinada deseje partilhar as prerrogativas da raça dominante.

Sigamos, não fulanizar a questão portanto é importante, pois não é iniciativa pessoal nem só a Djamila a entrar nessa, é um fenômeno mundial. A publicidade do luxo é que mudou a linguagem para se adaptar aos valores dos millenials, que sim, ainda gostam de luxo, mas querem equilibrar isso com algum link com justiça social. (Paradoxal ? pode ser, mas é a realidade que o mercado enxergou, e não vai se desviar dela 🤷🏿‍♂️)

⬆️Chamada de matéria sobre o assunto na Veja

Alguém lembra da posse do Biden? Teve uma jovem ativista e poetisa negra que “roubou a cena”, Amanda Gorman, formada em Harvard e que estava vestida de Prada dos pés à cabeça… vide: https://youtu.be/zzPl4TXMK0g

Tem gente “temendo” que em breve Djamila apareça fazendo publicidade de plataforma de investimento, como se isso fosse um “pecado imperdoável”, o que é uma grande bobagem. Eu sou negro, ativista tem quase 35 anos, sou investidor na bolsa americana, nacional e em criptmoedas… e não teria problema nenhum em fazer publicidade para uma plataforma de investimento (alô mercado publicitário estamos aí viu ? 😉)

O problema da geral é não entender que lutar por igualdade é lutar pelo direito de não ficar só no gueto, de poder fazer e usufruir o que a capacidade de cada um possibilitar, sem ser limitado por preconceito, discriminação e desigualdade… .

Ativista não faz voto de pobreza, nem vive só de ativismo, a gente só quer a mobilidade social sem impedimentos artificiais… Afinal “A gente não quer só comida, a gente quer saída para qualquer parte, a gente não quer só dinheiro, a gente quer inteiro e não pela metade” 😉.


Deixe um comentário

AINDA SOBRE A QUESTÃO DO FETICHE BANDEIRANTE DE SP .

Vendo o jornal hoje, que tem o mesmo ponto que eu, repito que não é uma “questão com CPF” (se bem que CPF não existia na época, é um metáfora para a “fulanização” do caso), na realidade é uma questão de classe.

Borba Gato estátua não é uma biografia estrita, é no caso uma representação de classe,  classe essa historicamente responsável por crimes contra a humanidade, classe que funda e é resgatada pela elite paulista ( e suas “linhas auxiliares) que de uma forma ou de outra segue em várias instâncias, não apenas no estado mas em todo o país, produzindo opressões, explorações, genocídios… .

É contra tudo isso a revolta de uma periferia (do sistema) que cansou de uma narrativa distorcida e que modernizada continua a lhes matar e oprimir.  Vide Racionais MC’s:


“Desde o início, por ouro e prata
Olha quem morre, então
Veja você quem mata
Recebe o mérito a farda que pratica o mal
Me ver pobre, preso ou morto já é cultural
Histórias, registros e escritos
Não é conto nem fábula, lenda ou mito” (Negro drama)


Deixe um comentário

TOBY NÃO ! KUNTA KINTÊ!!!

Um dos problemas do neoativismo negro é a ideia romantizada e irreal de que somos africanos ou afrakanos como preferem alguns. A verdade é que nós diaspóricos produto do tráfico negreiro transatlântico temos raiz, mas africanos não somos, e essa é uma das primeiras coisas que descobrimos ao ter a oportunidade de viver um tempo por lá (principalmente os obviamente miscigenados que aqui se chamam de pretos e lá destoam na paisagem, já que a miscigenação por lá comparada com as diaspóricas foi mínima)… .

A história e os séculos nos transformaram em “outra coisa”, por mais que pelas regras do racismo estrutural até sejamos vistos como estrangeiros em nossa própria terra, pelo que paradoxalmente tanto racistas quanto “afrocentristas” ou “panafricanistas desse lado do Atlântico” concordam e lutam.

É até compreensível a busca por uma identidade que tenta reafirmar essa ligação ancestral por meio do viés cultural, estético etc, mas tem gente que exagera… . Os que tem religiosidade de matrizes africanas, tem o seu nome afro interno, que as vezes também tem uso social que remete à tradições do continente africano, outros adotam apelidos ou nomes fakes que nada tem à ver com a sua real origem ( étnicamente falando, em termos familiares ou mesmo de regiões africanas ancestrais) mas lhes proporcionam um sentimento de insurgência anticolonialista e pertencimento afro, até aí tudo bem.

A grande questão é quando a utopia vai além do razoável, e quando digo razoável é entender que gostando ou não, tanto nós quanto muitas gerações da nossa ancestralidade fomos formados nesse caldo de cultura cheio de expropriações e apropriações do novo mundo. Eu até admirava no épico filme “Raízes” baseado no livro de Alex Hailey, quando o escravizado Kunta Kintê obstinadamente tentava preservar o próprio nome e identidade, não aceitando o “Toby” do colonizador, mas ele era um verdadeiro africano recém retirado de sua cultura, o que é bem diferente de alguém que não tem um africano na família a provavelmente pelo menos 7 gerações, das quais a esmagadora maioria mal tem referência das 3 anteriores a si mesmo… .

Somos afro-brasileiros com tudo que isso significa, nada vai mudar isso, nem um nome africano arbitrário num pedaço de papel…, precisamos é de respeito e justa integração social, identidade até faz parte, mas não é a única nem mais útil demanda.


Deixe um comentário

“Questão Netto”, mais um pouco de Luiz Gama

Matéria na BBC dá conta de uma ação coletiva de alforria pouco conhecida, na qual Gama foi Patrono. A “Questão Netto”

Marcando aqui a hiperligação direta para o texto.

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-57014874


Deixe um comentário

1° de maio, Monteiro Lopes, pioneiro do trabalhismo no Brasil

Foto publicada no Jornal Correio do Norte,
de Manaus, em 1910

Em 1° de maio de 1909 tomava posse como Deputado Federal pelo então DF, o Advogado pernambucano Manoel da Motta Monteiro Lopes, primeiro deputado federal preto e com discurso afirmativo. Talvez não por coincidência também o primeiro a propor o 1° de maio como Dia do Trabalhador.

Abaixo a transcrição de sua atuação pró-trabalhadores em uma sessão na Câmara:

Pronunciamento do Dep. Monteiro Lopes – julho de 1909

O Sr. Presidente – Dos três Deputados
inscritos, restam apenas dois: o Sr. Dunshee de Abranches, que está
ausente, e o Sr. Monteiro Lopes, a quem vou dar a palavra, depois do que
ficam extintas as inscrições, devendo inscrever-se no próprio dia da
sessão o Deputado que pretender falar na hora do expediente.

Tem a palavra o Sr. Monteiro Lopes.

O Sr. Monteiro Lopes- Sr. Presidente, permitam V. Ex. e os meus ilustres colegas que as minha primeiras palavras interpretem com a maior fidelidade os mais solenes protestos de gratidão e de carinho a uma parte do eleitorado independente e incorruptível, que desde 1903 vem sufragrando o meu humilde nome nas urnas livres republicanas da capital da minha pátria. E que esta gratidão, Sr. Presidente, se estenda à imprensa do norte ao sul do país, que, após o pleito eleitoral de 30 de janeiro do corrente ano, esposou a minha causa, defendendo a legitimidade de meus direitos, quando se vociferava lá fora que a circunstância de meu nascimento era uma condição que impossibilitava a minha entrada nesta Casa do Congresso.

Não venho, Sr. Presidente, discutir o caso, que se me afigura haver passado em julgado diante das manifestações eloqüentes e inequívocas desta Câmara (Muito bem.), recebendo-me em seu seio pelo voto unânime dos Srs. Deputados presentes à sessão.

Conheço o Regimento, Sr. Presidente, e sei que uma das atribuições privativas
da Mesa é a distribuição do serviço para a ordem do dia.

Mas a Câmara também conhece as grandes e extraordinárias dificuldades que dia a dia assoberbam a vida das classes menos favorecidas da fortuna.

Entrei nesta Casa com uma eleição fortemente amparada pelas classes laboriosas.

De todas elas tenho recebido nos difíceis e acidentados transes de minha
carreira política, inigualáveis provas de confiança, verdadeiros pronunciamentos de dedicação exemplar, de modo a não ser possível divorciar-me da grande família operária, do homem do trabalho, do homem da oficina. (Aplausos das galerias.)

É por isso, que desde muito me constituí seu advogado na ininterrupta série dos seus sofrimentos, procurando na razão direta de minhas forças diminuir-lhe os seus inenarráveis sacrifícios. (Muito bem.)

Há nesta Casa dois projetos que constituem as mais justas e nobres aspirações do operariado.

O primeiro e o de nº 166, de 1906, que uniformiza as horas de trabalho e os vencimentos das diversas classes de operários.

Parece-me ter o projeto percorrido todos os turnos regimentais.

Apresentado à Câmara em 24 de agosto de 1906, a Comissão de Constituição e Justiça, pelo seu relator, o Sr. Justiniano Serpa, nobre Deputado pelo Estado do
Pará, adotou-o, havendo um voto divergente, do nosso ilustre ex-colega,
Dr. João Luiz Alves, então Deputado pelo Estado de Minas.

Remetido o projeto à Comissão de Finanças, em data de 3 de novembro do mesmo ano, foram os papéis distribuídos ao eminente Sr. Dr. Homero Baptista, nobre Deputado pelo Estado do Rio Grande do Sul, que, mais uma vez pondo
em destaque o seu amor e intransigência aos princípios republicanos e democráticos, adotou-o em um luminoso parecer em que eu não sei mais o que admirar, se a opulência dos seus conhecimentos científicos na matéria, se a elevação dos sentimentos de justiça de que procurou cercar o problema operário.

Do que não resta a menor dúvida, e está na consciência da Nação, é a grande
injustiça que até hoje se tem feito ao operariado de blusa, ao homem que, exposto às ardências do sol e às inclemências do frio, dá a sua atividade, nas oficinas do Estado ou nas empresas particulares, somente em troca de um salário, sem uma lei, sem uma medida que lhe garanta o seu esforço, que o imunize da miséria, no caso de acidente. (Apoiados.)

Por que este projeto, cuja justiça fora proclamada pelas duas comissões respectivas, não veio ainda à ordem do dia, para entrar em debate?

Aumento de despesa?

Mas esta é pequena, segundo afirmação do nobre Deputado por São Paulo, o honrado Sr. Dr. Galeão Carvalhal, autor do substitutivo, que assim conclui o seu minucioso trabalho:

                       
“As despesas a cargo do Tesouro sofrem um pequeno aumento, mas em regra são conservados os vencimentos dos operários.”

O segundo projeto, a que acima me referi, é o de nº 273, de 1908.

Não preciso assinalar aqui a grande importância e utilidade que traria ao
próprio país a aprovação de semelhante projeto, cuja sanção seria ao mesmo tempo um verdadeiro ato de humanidade.

Ao projeto nº 273 pode-se adicionar ou ajuntar um outro, apresentado pelo
eminente Sr. Medeiros e Albuquerque, o polemista emérito, o jornalista cívico, cuja pena vale por um jornal. (Aplausos das galerias.)

S. Ex. apresentou o seu trabalho nos mesmos moldes liberais do projeto nº 273.

Eu vi, Sr. Presidente, em torno deste projeto se levantarem mais de vinte mil operários bendizendo o nome do glorioso marinheiro, Sr. almirante Noronha, quando S. Ex., na simplicidade de marinheiro, prometia ao operariado da União o seu concurso livre e desinteressado na vitória do direito das classes laboriosas

Peço licença à Câmara para afirmar que no dia da sanção da lei uniformizando a
hora de trabalho, o vencimento do operário, regulamentando os acidentes
e riscos do mesmo trabalho, será definitivamente celebrado o legítimo
consórcio da República e o povo.

Sr. Presidente, não há país nenhum, ainda mesmo de civilização mediana, em que não se encontre lei protetora do operariado.

Conheço, por exemplo, a Dinamarca.

Lá foi promulgada a lei de 6 de julho de 1891, modificada em 1898, na parte em que instituía a fiscalização direta do Estado nos casos de acidentes de trabalho.

Na Inglaterra, nós temos a lei de 6 de agosto de 1897, que contém disposições
francamente liberais, disposições que podem se qualificadas como verdadeiras garantias dos interesses do operariado.

Na Alemanha, temos a lei de 1900, que por sua vez também foi modificada, consolidando as leis de 7 de julho de 1871 e mais ainda a lei de 8 de julho de 1884.

Na Áustria, existe a lei de 28 de setembro de 1887, alterada em algumas das suas disposições em 1893, e mais tarde modificada em 1894.

Na França, por exemplo, nós conhecemos a lei de 9 de abril de 1898,
alterada em 22 de março de 1902, modificada a 21 de junho de 1902, e
ainda ultimamente reformada em 17 de abril de 1906.

Tais modificações da legislação operária  em França atestam eloqüentemente a conduta dos poderes públicos diante do grande problema que interessa às classes laboriosas, e o desejo de acautelar os interesses do operariado, de modo que os princípios republicanos sejam uma realidade e não uma ficção.

E como fossem insuficientes as garantias da lei de 9 de abril de 1898, com as suas
modificações de caráter liberal, o telégrafo nos anuncia, há cinco dias, ter o presidente do gabinete francês, Jorge de Clemenceau, declarado que o parlamento adiaria a discussão do projeto que reforma a lei eleitoral, contanto que fosse aprovado o projeto instituindo uma pensão para o operário maior de 61 anos,

Enquanto vemos destes exemplos, eu pergunto à Câmara, que está reservado ao operariado no nosso país?

Dir-se-ia, talvez, que o ministério Clemenceau, agindo do modo aqui descrito, estava influenciado pelas idéias socialistas de Millerand.

Mas, a verdade é que Millerand entrou para o gabinete francês, já no governo
de presidente Dr. Armando de Falliéres, isso há cerca de dois anos, e a lei a que acima me referi da de 1898.

Sr. presidente, o meu objetivo na tribuna é dirigir um carinhoso apelo a V. Ex., para mandar imprimir e dar para a ordem do dia a discussão do projeto nº 166, de 1906, apelo que também torno extensivo às comissões respectivas que estão estudando o projeto n] 273, de 1908.

Venho pedir à Câmara justiça republicana para os humildes, para os operários de minha terra. (Apoiados.)

Sr. Presidente, nós republicanos precisamos nos desobrigar dos grandes e
extraordinários compromissos que contraímos com o povo nos difíceis tempos da propaganda. (Palmas no recinto.)

Nós, os republicanos, precisamos dizer lá fora e provar no recinto desta Casa, ser a República o regímen da ordem, da paz, da justiça…. e do trabalho. (Muito bem, muito bem. Palmas nas galerias e no recinto. O orador é abraçado e  cumprimentado.)

(Anais da Câmara dos Deputados. Sessão em 17 de julho de 1909, PP.
460-463.CEDI/ CELEG/SEDOP. Atualização ortográfica feita pelo Ìrohìn.)


Deixe um comentário

LGBTFOBIA NÃO É RACISMO…

Ornitorrinco é um animal bizarro, mamífero que vive na água, tem bico e nadadeiras semelhante um pato e põe ovos. Tão exótico quanto certas combinações conceituais e teóricas que as vezes se insiste em tentar “validar”.

Que dificuldade ! Mania essa a de fazer malabarismos que não se respaldam semântica, conceitual e lógicamente…

As palavras não existem à toa… RACISMO é discriminação por motivo de “raça”, LGBT* e HÉTEROS simplesmentee não são e nunca foram considerados “raça”, mas sim grupos de orientação sexual e gênero diversa. O preconceito e discriminação contra LGBT*s NÃO É RACISMO, para isso existe o termo LGBTFOBIA…, hoje apenas se utiliza para criminalização a mesma lei antirracista (e nada contra) ENQUANTO NÃO VOTAREM UMA ESPECÍFICA…

Por outro lado, falar em “racismo reverso” é falsa simetria…, racismo é uma estrutura de preconceitos e discriminação HISTÓRICA e CULTURALMENTE construída e aplicada pelos grupos hegemônicos contra os tidos como estigmatizados. Não tem “mão dupla”, o que pode ter são vítimas patéticas do racismo tentando reproduzir comportamentos racistas, ou mesmo sendo INSURGENTES, isso não é racismo, são efeitos e consequências dele.

Racismo é um fenômeno social identificado e sistematizado. Não se limita ao interpretado de forma positivista da lei… .


Afinal o que é então o racismo ? (segundo definições de alguns estudiosos renomados (brasileiros e estrangeiros):

“O racismo, como construção ideológica incorporada em e realizada através de um conjunto de práticas materiais de discriminação racial, é o determinante primário da posição dos não-brancos nas relações de produção e distribuição” (Hasenbalg, 1979, p. 114).

“(a) discriminação e preconceito raciais não são mantidos intactos após a abolição mas, pelo contrário, adquirem novos significados e funções dentro das novas estruturas e (b) as práticas racistas do grupo dominante branco que perpetuam a subordinação dos negros não são meros arcaísmos do passado, mas estão funcionalmente relacionadas aos benefícios materiais e simbólicos que o grupo branco da desqualificação competitiva dos não brancos.” (Hasenbalg, 1979, p. 85)

Segundo (Blumer, 1939) “São quatro os sentimentos que estarão sempre presentes no preconceito racial do grupo dominante: (a) de superioridade; (b) de que a raça subordinada é intrinsecamente diferente e alienígena; (c) de monopólio sobre certas vantagens e privilégios; e (d) de medo ou suspeita de que a raça subordinada deseje partilhar as prerrogativas da raça dominante. “

“Considera-se como preconceito racial uma disposição (ou atitude) desfavorável, culturalmente condicionada, em relação aos membros de uma população, aos quais se têm como estigmatizados, seja devido à aparência, seja devido a toda ou parte da ascendência étnica que se lhes atribui ou reconhece. Quando o preconceito de raça se exerce em relação à aparência, isto é, quando toma por pretexto para as suas manifestações os traços físicos do indivíduo, a fisionomia, os gestos, o sotaque, diz-se que é de marca; quando basta a suposição de que o indivíduo descende de certo grupo étnico, para que sofra as conseqüências do preconceito, diz-se que é de origem. (Nogueira, 1985, p. 78-9)

“Surgiu, então, a noção de “preconceito de cor” como uma categoria inclusiva de pensamento. Ela foi construída para designar, estrutural, emocional e cognitivamente, todos os aspectos envolvidos pelo padrão assimétrico e tradicionalista de relação racial. Por isso, quando o negro e mulato falam de “preconceito de cor”, eles não distinguem o “preconceito” propriamente dito da “discriminação”. Ambos estão fundidos numa mesma representação conceitual. Esse procedimento induziu alguns especialistas, tanto brasileiros, quanto estrangeiros, a lamentáveis confusões interpretativas.” (Fernandes, 1965, p. 27)

Portanto a coisa não é tão simples como quem usa termos e conceitos de forma equivocada, interpreta a lei de modo positivista, ou acha que racismo tem “mão dupla” e não oferece nada além de um “EU acho…”. Não é que um “ornitorrinco” seja absolutamente inviável, prova é que eles são reais, mas convenhamos, é esquisito e raro tipo de combinação esdrúxula que funciona, no mais das vezes é uma improbabilidade lógica.

Referências

BLUMER, (Herbert). “The nature of racial prejudice”. Social Process in Hawaii, 1939, 11-20.

FERNANDES (Florestan) . — A integração do Negro na sociedade de classes. Dominus Editora. São Paulo, 2 vols. 655 págs., 1965. 1° Vol. “O legado da raça branca” . 2° Vol. “No limiar de uma nova era” .

HASENBALG, Carlos. Discriminação e Desigualdades Raciais no Brasil. Rio de Janeiro, Graal, 1979.

NOGUEIRA (Oracy) – Tanto preto quanto branco – Estudos de relações raciais. São Paulo, T. A. Queiroz, 1985.


Deixe um comentário

Gato que nasce no forno…, ou o terraplanismo panafricanista de facebook

Na temporada que passei lecionando em Moçambique anos atrás, aprendi um ditado que era usado pelos portugueses e seus descendentes nos tempos coloniais, que no caso foi até meados dos anos 70 do século passado, portanto “recente”. O ditado dizia “Gato que nasce no forno não é biscoito, é gato”, ou seja, não importa o local de nascimento, mas sim de quem se descende. Era uma forma de “proteger” os filhos e “proteger-se”, no caso dos nascidos na colônia, da identificação estigmatizante como africanos, apenas por terem nascido no continente.

Era uma utilização obviamente racista e negacionista. Racista por entender que ser africano, mesmo que de origem européia era “ofensivo” e segundo por negar uma condição óbvia chamada NATURALIDADE.

Fiz a introdução para demonstrar o quão tortas e falaciosas são as premissas de “panafricanistas de facebook” que se identificam como “Afrikanos” ou “Afrakanos” não o sendo. Usando a mesma lógica, do “não importa onde nasça só seus ancestrais é que te definem”, acabam por repetir a mesma barbaridade que unia os racistas da Klu Klux Klan, que viam os negros que ajudaram a construir os EUA como alienígenas africanos (enquanto não se viam como invasores alienígenas da América) e desejavam mandar os negros para “o seu lugar, a África” e os seguidores de Marcus Garvey, que pretendiam se apossar da África por se considerarem “africanos”, apenas pela descendência.

Não é à toa que são tão agressivos, renitentes e fascistóides como os terraplanistas e outros tipos de negacionistas que se agrupam ou sobrepõem. Por mais que se apresentem argumentos e evidências nada os demovem da “fé cega” e da negação das evidências.

Quando topo com um desses ai pela web, lembro dos neonazistas brasileiros que escreveram para um grupo neonazi alemão e foram esculhambados, rechaçados e chamados de “cucarachas”, ou mais recentemente dos “brancos do sul” que foram mortos pelos gringos no filme Bacurau. Exemplos de percepção fantasiosa e identidade falaciosa.

Vou dar um exemplo, é comum no Brasil as vezes se referir ou apelidar às pessoas por sua ancestralidade, “Alemão”, “Japonês”, “Turco”, “Portuga”, quando há um fenótipo ou informações que apontem para essas origens nacionais… . Isso porém não ocorre com todo brasileiro dito “branco”. Por outro lado, diga sinceramente se você já viu algum branco brasileiro, mesmo os descendentes de imigrantes mais “recentes” se dizendo “EUROPEU” ou assim sendo referenciado ??? . Ser branco não é necessariamente ser europeu, no mais das vezes é ser eurodescendente, o que é coisa distinta. Então por que raios, alguns afrodescendentes, afrodiaspóricos querem insistir em se dizer “Afrikanos” ou “Afrakanos” quando NÃO SÃO ???. Qual é a dificuldade de entender que africano é quem nasce em África e que quem descende de africanos é afrodescendente. ? As palavras não existem e são diferentes à toa.

Não venham brigar comigo, vão brigar com os livros, dicionários, com a ONU…, que diz claramente em seu glossário que afrodescendente “é uma pessoa de descendência africana subsaariana, mas NÃO É ele(a) mesmo(a) africano(a).”

Na terraplana panafricanista de facebook, evidências e referências não contam, anos de estudos sobre África, africanos e diáspora não contam, experiências reais em África não contam…, só o que conta é usar a mesma lógica racista e estapafúrdia, do “não sou biscoito só por ter nascido no forno”, se fantasiarem de afrakanos (com coisas que nem os próprios africanos usam) e saírem bradando mecânica e insistentemente “Sou Afrikano”, além é claro de atacar quem por N motivos não concorda.

Enquanto isso, depois de 3 décadas de estudos, alguma grana gasta com livros, incontáveis horas de pesquisa em N meios, cursos sobre História e Cultura africana e afrobrasileira, temporada em África para uma experiência real, seminários, congressos, vivências culturais, artigos, capítulos de livro publicados, reconhecimento público e acadêmico na temática, lá vem aquela meninada que não consegue se contrapor a um argumento no mesmo nível, gastar sua agressividade, arrogância e soltar emojis com risadinhas… . Se a gente após todo esse trabalho “não pode” nem opinar no que conhece, fico imaginando o que é que os autoriza sem nada disso.


Deixe um comentário

Contas digitais X racismo e desigualdade

Faz tempo, vira e mexe, escrevo sobre  tecnologia e as vantagens democratizantes da sua utilização, inclusive no “drible ao racismo”.

A exclusão bancária foi até pouco tempo difícil de contornar. O capitalismo só se mexe para incluir quando ele mesmo ganha com a inclusão. A questão é que antes não se visualizava as classes D e E como fatia de mercado. Parte por preconceito, parte por uma real e maior desigualdade que fazia o consumo e movimentação financeira básicas ao mínimo, e finalmente por falta de tecnologias que permitissem não apenas mudanças de formas de renda e hábitos de consumo nas citadas classes, bem como, uma massificação da oferta de serviços pelo mercado financeiro.

Com a internet, a telefonia celular e uma infinidade de serviços eletrônicos e online, como o comércio eletrônico, as redes sociais, o teletrabalho e a automação bancária, muita coisa mudou. Me lembro quando uma década e meia atrás, morando em Moçambique, vi as pessoas transformando seus celulares em máquinas de pagamento e recebimento pela transferência livre de créditos de celular de uma linha para outra, usados então como moeda eletrônica. Isso dava um certo “bypass” no sistema bancário.

No Brasil, a grande maioria das classes C, D e E é negra, boa parte dela na informalidade, porém participante ativa da economia e mercados.  Ter uma conta bancária, poder fazer transferências, receber e pagar sem ser em dinheiro vivo era para uma minoria, em geral empregada e com uma conta salário aberta pela empresa. Mesmo quem tinha condições privilegiadas não estava livre de sofrer discriminações e até violências nas agências bancárias ao buscar serviços ou resolver simples questões de suas contas. Exemplos de travamento de porta-giratórias, descasos de atendimento, “mata-leões” e até tiros recebidos dos seguranças da sua própria agência bancária não faltam… .

As contas digitais permitiram à esses historicamente excluídos bancários, acessarem até mais que os serviços básicos que normalmente necessitam. E principalmente permitem que se evitem as agências bancárias e todos os problemas já citados, praticamente tudo que se fazia nas agências hoje pode ser resolvido a partir do smartphone, o que também já não é “luxo” e está muito espraiado mesmo nas classes mais desfavorecidas (obviamente não estou falando do “under class” os “pobres dos pobres inatingíveis”).

Já ouvi, principalmente vindo de uma esquerda branca marxializada que nunca foi barrada na porta giratória, nem se sentiu na iminência de um tratamento discriminatório racial, que meu posicionamento é de “integração ao capitalismo” e “fuga de luta” pelo tratamento isonômico e antirracista no sistema, ou que o digital é uma forma de apartheid que cria uma classe que fica distante das agências.   Vou dizer, estou nem aí para isso…, não pretendo “fazer a revolução”, tomar os meios de produção e o sistema financeiro, tampouco insistir em escaramuças evitáveis com o racismo institucional e ficar perdendo tempo, “gastando bílis”e ainda por cima arriscando minha integridade física e moral em atendimento presencial, isso não é de fato necessário nem vantagem.

Sou da prática. Vivemos em um sistema que pode sim ser contestado, alterado com muita luta, mas convenhamos, assim como no judô as vezes é melhor se adaptar ao adversário e usar sua própria força para derruba-lo, ou ao menos apanhar menos dele… .

No fim o que importa é ver um monte de gente que vivendo no capitalismo e em um ecosistema tecnológico era extremamente excluída, e hoje muitíssimo menos.