Blog do Juarez

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O paradoxo Maju X Globo “antiracista”

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Passado um primeiro momento e após a inusitada ação do JN fazendo uma manifestação ao vivo inclusive com palavra da “moça do tempo” a jornalista Maria Júlia Coutinho (Maju), por conta de ataques racistas no facebook do JN, algo de “estranho no ar” (para quem acompanha há tempos a relação Globo/racismo), já começa a estabelecer reflexões e questionamentos diversos, contextualizando para quem não está muito “por dentro” :

1- A Globo sempre foi cobrada por práticas consideradas racistas ou fomentadoras de racismo, que vão desde invisibilização, passando por  estereotipação /  blackface, negação do racismo e linha editorial anticotas para negros no ensino superior e serviço público, e antes que alguém se exaspere achando que racismo é só o que é criminalizável, é preciso lembrar que racismo tem várias formas, e no Brasil principalmente as veladas, não diretas/violentas e de difícil criminalização devido à subjetividade.

2- O jornalismo da empresa é comandado por Ali Kamel, que publicou o livro “Não Somos Racistas”, basicamente uma obra que tenta negar a existência de racismo no Brasil, a palavra racismo sempre foi sistematicamente silenciada nos noticiários, exceto em  casos rumorosos de repercussão internacional que não poderiam ser noticiados sem a referência, caso das agressões aos jogadores Daniel Alves e ao Goleiro Aranha, ou o Caso Januário: Seguranças que agrediram vigilante em supermercado são indiciados,  já em outros casos em que era possível tergiversar, o elemento racismo sempre foi escamoteado. (vide: Ator preso por engano é solto no RJ depois de passar 16 dias na cadeia ou ainda Carioca é liberada pela Justiça para deixar Fortaleza ).

3- Vários casos rumorosos de racismo sequer foram pautados pelo jornalismo Global (pelo menos o televisivo) mesmo se tratando de “gente da casa”, bom exemplo é o caso da Globeleza hostilizada pelas redes sociais e que além da não “defendida” foi “desaparecida” da telinha e não teve o contrato renovado.

4- O caso do eventual âncora do JN, Heraldo Pereira, não é exatamente um exemplo de que o jornalismo da emissora sempre teve  preocupação anti-racista e de “desagravo aos seus” profissionais negros, esse caso sui generis  envolveu um ex-contratado da casa (o Jornalista Paulo Henrique Amorim, ou simplesmente PHA, pelo qual “não morro exatamente de amores”, porém considero, por ter sido um dos poucos jornalistas de massa a ter feito defesa veemente das Ações Afirmativas para negros),  foi  óbvio caso de interesse direto e egos feridos, envolvendo o Diretor de Jornalismo Ali Kamel, autoridades judiciárias e o próprio Heraldo, o resultado do imbróglio foi a condenação judicial de PHA por injúria racial, pois cobrando e discutindo a baixa presença de negros na platinada, se referiu a Heraldo como “Negro de alma branca”; salvo engano esse deve ter sido o primeiro e único caso na História em que alguém foi condenado pelo uso da expressão, que durante séculos tem sido usada por brancos quando querem “elogiar” um negro, óbvio que hoje se percebe que a expressão parte de um pressuposto racista, mas originalmente não tinha intencionalidade injuriadora/ofensiva, pelo contrário; somente hoje em dia devido à interpretação dada pelo Movimento Negro, é vista como politicamente incorreta, entretanto sua utilização por alguém que está cobrando igualdade racial e em contexto de crítica à atitude de negros bem-colocados e tolerados em altas esferas porém silentes contra o Status Quo racista, e por vezes servindo aos interesses negacionistas desse, não pode nem deveria ser vista como “ofensa racial” (quando ao termo de referência “racial” a um indivíduo se anexa um outro termo de sentido exclusivamente depreciativo),  além do termo tradicionalmente não ter sentido ofensivo, no caso, hoje é mera constatação de “inação antiracista e colaboração com o sistema racista”,  não chega a ter sequer o mesmo potencial ofensivo (não necessariamente racial) de por exemplo um “capitão-do-mato”, clique aqui para entender melhor a evolução histórica e conceituação do termo”negro de alma branca”.

5- Antes quando se fazia uma busca na web utilizando as tags “Globo” e “racista”, o que se recebia em retorno eram diversos artigos criticando a política da emissora com relação à questão racial, hoje, depois do evento racismo contra a Maju, se repetir a pesquisa mesmo com a tag “Globo racista” , o que retorna são cerca de 409 mil links, praticamente todos tratando do assunto Maju, as críticas se diluíram tanto nessa massa que é preciso boa paciência para encontrar alguma…, coincidência?, teoria da conspiração não é meu forte, mas que esse evento (“coincidentemente” no esvaziado “dia nacional de combate ao racismo (pirata)”, data referente à criação da lei Afonso Arinos e que alguns tentam impor fora do reconhecido e prezado pelos movimentos sociais ) foi excelente para a Globo e o JN, que de uma tacada só mimetizam as críticas cibernéticas, aparecem bem na telinha como antiracistas e ainda aumentam a empatia e audiência de um noticioso que perdeu vertiginosamente audiência nos últimos anos .

Enfim, não se está questionando (tanto) a indignação popular com os ataques, nem o desagravo feito no ar pelos colegas de Maju (teria sido uma “rebelião” contra a “política editorial” ditada ? perceba neste texto anterior ao grande ataque que realmente houve um descompasso global: Atenção dada a Maju do Jornal Nacional causa ciumeira na Globo em http://naofo.de/5kgu ), porém, dado todo o exposto, o estranhamento e desconfiança são legítimos, algumas manifestações nesse sentido feitas por gente que acompanha e questiona a política global na questão,  já estão sendo colocadas:

O racismo contra Maju. E a Globo com isso? em http://www.esquerdadiario.com.br/O-racismo-contra-Maju-E-a-Globo-com-isso

Vocês não são todos Maju! em http://www.geledes.org.br/voces-nao-sao-todos-maju/#gs.809ce3753eb44a74aeddb9236c11fbb3

Somos todos Maju ? em http://www.geledes.org.br/somos-rodos-maju/#gs.6fa3190d82494ac0a072ee8379d2b83e

Gerson Carneiro: A hipocrisia da Globo ao “combater” o racismo em http://www.viomundo.com.br/denuncias/gerson-carneiro-a-hipocrisia-da-globo-ao-combater-o-racismo.html

A influência de Danilo Gentili no caso de racismo contra Maju Coutinho em http://www.redebrasilatual.com.br/blogs/blog-na-rede/2015/07/a-influencia-de-danilo-gentili-no-caso-de-racismo-contra-maju-coutinho-4137.html

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1º aniversário da vitória das cotas universitárias para negros

julgamento-cotas-stf-1-anoParece que foi ontem…, clichê, mas é  exatamente essa a impressão, 26 de abril  de 2012 estava eu em um quarto de hotel na cidade de Humaitá, interior do nosso Amazonas, atento nos tweets dos companheiros de causa, que acompanhavam pelos recursos possíveis a sessão final do julgamento no STF sobre a constitucionalidade das cotas para negros nas universidades públicas brasileiras, a partir de uma ADIN provocada pelo DEM (especificamente contra negros, os Índios foram “poupados”  desta vez).

Estava tranquilo, sem maiores dúvidas quanto a aprovação (até por confiar na coerência do STF e por ter visto ao vivo, o “banho” argumentativo dos pró-cotas em cima dos anti-cotas nas audiências públicas chamadas pelo relator Min. Ricardo Lewandowsky) , mas ansioso por ver o placar (que acabou dando unânimidade dos votos, descontado o Ministro Tóffoli que se julgou impedido de votar) e a derrocada oficial dos com  quem durante anos (junto com valorosos e arraigados companheiros de causa) travei combate ideológico/argumentativo em milhares de horas de debates virtuais, presenciais ou utilizadas pesquisando e escrevendo a favor das cotas.

No dia seguinte nova derrota imposta aos “neo-democratas-raciais”, a confirmação da validade de utilização do critério também no PROUNI,  e algum tempo depois a  aprovação da lei de cotas pelo legislativo e a sanção pela  Presidente Dilma e até parte da “mídia má” (que passou anos criticando as cotas), acabou fazendo um “mea culpa” (vide matéria clicando na imagem).

Isto é- Capa- cotasAinda hoje se encontra “um ou outro” contra-cotas “esperneando” por ai, porém discutir com “causa ganha”, além do peso da realidade constituída e da despreocupação com  qualquer efeito prático do “xororô” adversário, ainda faz sentido para o fim de tentar  “acordar” os inconscientes  e anacrônicos, não apenas para o acerto da medida em sí, como para outras “pendências” na questão sócio-racial brasileira.

A batalha foi vencida, mas ainda temos um longa “guerra” , logo…  a luta continua.


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Cotas no Serviço Público, entendendo o porque…

O negro frente ao serviço público

A discussão sobre as cotas universitárias para negros (pretos+pardos) levou anos, amadureceu e a ideia finalmente teve manifestação favorável nos três poderes da república, hoje as cotas universitárias são uma realidade implantada, em crescimento e perfeitamente legal.

Será porém que apenas elas bastariam para resolver toda desigualdade entre negros e brancos que impera em todos os níveis e esferas da sociedade brasileira (notadamente nos mais elevados) ? , não é necessário um grande exercício de observação e lógica para perceber que não.

Os processos seletivos que excluem os negros (principalmente os pretos) estão por toda a sociedade, aquém e além da mera graduação superior, portanto apenas as cotas universitárias não dão conta de eliminar ou reduzir drasticamente esse bastião da desigualdade.

Assim como no caso do vestibular ou outras formas de acesso universitário, muitos irão arguir que o acesso ao serviço público (principalmente o por concurso) não faz distinção de cor, quem estuda e passa entra… (o que de fato ocorre), a questão é quando, como e para quê ? .

Se você olha para as funções públicas mais subalternas, verá muitos negros (até mais que brancos, vejamos por exemplo os garis, a cota nesse nível seria desnecessária), mas essa concentração vai rareando cada vez mais à medida em que se avança rumo ao topo das carreiras públicas (por exemplo Oficiais das Forças armadas, Magistrados, Servidores de alto escalão), como diria o grande antropólogo Kabengele Munanga,  nesse nível “são sempre os primeiros e/ou os únicos”, como resolver tal desequilíbrio ?

Quais são os motivos para isso ?

São muito parecidos com os  motivos que tornam o acesso à graduação muito mais penoso para os negros, mas envolvem alguns itens extras e muito peculiares, ou seja, ainda mais complicadores.

1- A esmagadora maioria dos negros que chegam a uma universidade, são também trabalhadores, em geral trabalham de dia e estudam à noite, em geral em faculdades privadas, já no nível médio a maioria estuda na rede pública.

2- Por virem de faculdades privadas (em geral com foco no ensino, sem privilegiar a pesquisa e a iniciação científica), de estudo noturno conciliado com trabalho, e a óbvia ausência do “networking pessoal” adquirido na graduação pelos que cursam universidades públicas, tem muito maior dificuldade de acesso as pós-graduações stricto sensu (em geral disponíveis nas universidades públicas, sem contar o corporativismo em tais instituições, ainda há a famigerada entrevista, que subjetivamente alija do processo a maioria que se habilita), isso reverte em menores pontuações nas provas de títulos dos concursos públicos.

3- Pelo perfil de estudante/trabalhador, o negro chega mais tarde à universidade e tão logo se forma, busca o mercado de trabalho com urgência (em geral o privado), encontrando ai uma das piores barreiras…, quando consegue se encaixar, tem que priorizar o trabalho ao invés da continuidade da qualificação acadêmica, isso faz com que também chegue muito mais tarde à pós-graduação, ao mesmo tempo em que apenas atuando profissionalmente se distancie dos novos ou atualizados paradigmas teóricos/tecnológicos da academia (que são justamente os que pautam os concursos públicos), ou seja, apesar de mais velhos e experimentados na prática, tem grande desvantagem em relação aos candidatos mais jovens e brancos que se formam mais cedo e podem privilegiar a continuidade dos estudos, ao invés da prática de mercado.

4- Por tais motivos os negros que logram êxito em aceder ao serviço público, em geral tem idade bem mais elevada que a de seus pares brancos.

5- Até então falamos da questão dos concursos públicos, mas ocorre que nem todo o serviço público é feito de efetivos (concursados), aliás os melhores cargos públicos são os comissionados ou “de confiança”, que teoricamente tem a seleção baseada em curriculum, mas na prática são preenchidos de acordo com as relações pessoais, de parentesco ou profissionais estabelecidas com autoridades do poder público e do meio político; por razões óbvias, mesmo que o negro possua curriculum mais que satisfatório para determinado cargo, ele está muito mais “distante” das tais “relações” que favorecem as nomeações, do que um candidato branco (como a maioria das autoridades que influenciam as nomeações ).

Voltamos então ao princípio de todas as ações afirmativas, dar oportunidade justa aos que “concorrem igualmente”, mas sem as mesmas condições competitivas de fato, não se trata da capacidade pessoal, mas de uma conjuntura que faz uma pessoa negra precisar ter muito mais capacidade e esforço que uma pessoa branca para poder se “igualar” a ela (o que obviamente não é justo).

O desequilíbrio entre brancos e negros no serviço público é evidente, tão evidente que é possivel destacar fácil e nominalmente os negros de alguma proeminência na maioria das carreiras públicas, coisa que não ocorre com os brancos, ou seja, não são os casos excepcionais que “provam” uma “democracia racial” no serviço público, de forma contrária demonstram que, a maioria dos negros no serviço público (principalmente nos melhores cargos) são ” ILHAS de excepcionalidade cercadas de brancos por todos os lados” .

É justamente por todo o exposto e visando corrigir de forma rápida essa distorção (que não se corrigirá rápida e naturalmente), que se fazem necessárias medidas impositivas que garantam a presença negra proporcional em todas esferas do serviço público,  a ferramenta para isso se chama COTA.


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Nadando contra a corrente… (sempre)

Que os anti-ações afirmativas com recorte “racial”  (ex. cotas universitárias) sempre foram avessos a estatísticas e qualquer outro instrumento sério e científico que  demolisse suas argumentações baseadas em “achismos”  e  distorção da realidade, não é novidade; o interessante é que  “A Folha” (que sempre fez parte do grupo de mídias com linha editorial  anti-AA) , logo depois do “1º banho”  no STF (que julgou por unanimidade a constitucionalidade das cotas, o segundo “banho” foi no julgamento relativo a utilização do critério “racial”  como bônus na classificação do PROUNI ) talvez na esperança de “provar ”  que  a decisão do STF  “não  batia”  com a  visão da “sociedade”, apelou justamente para uma pesquisa estatística (enquete)  e acabou vendo “o tiro sair pela culatra” … ;  novo “massacre ”  dos pró-cotas em cima dos anti-cotas na  enquete promovida pela versão online do jornal… (95% a  favor e apenas 5% contra), êita pessoal que não importa o tsunami de evidências continua a nadar contra a corrente… (vide a notinha de rodapé na enquete ) 🙂

Clique na imagem para ampliar


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STF- Julgamento das cotas raciais: voto do relator é pela constitucionalidade das mesmas

Começou com gosto de vitória para os defensores das cotas universitárias para negros (pretos e pardos), o julgamento da ADPF 186 ajuizada pelo DEM contra o sistema de cotas da UnB (e por conseguinte de todas as demais).

O relator, Min. Ricardo Lewandowski,  após extenso voto de cerca de duas horas considerou “completamente descabida” a arguição do DEM, considerando portanto perfeitamente constitucional o sistema de cotas com recorte racial.

Após a abertura, leitura do relatório e a sustentação oral pela Advogada do DEM e Amicus Curiae contrários as cotas (como a representante  do Movimento pardo-mestiço brasileiro) e antes do voto do relator, também fizeram sustentação oral favoravelmente às cotas, o advogado-geral da União, Luís Inácio Adams, a vice-procuradora-geral da República, Deborah Duprat, o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Ophir Cavalcante; o Defensor Público-Geral da União, Haman Tabosa Córdova; Édio Silva Jr., da Conectas; Humberto Adami Santos Junior, do Instituto de Advocacia Racial e Ambiental; Sílvio Cerqueira, do Movimento Negro Unificado;  Thiago Lopes, da ONG Educação e Cidadania; e Márcio Thomaz Bastos, representando a Associação Nacional dos Advogados Afrodescendentes.

Após o voto do relator o julgamento foi suspenso e continuará amanhã na parte da tarde .


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O doidão da Noruega, Gilberto Freyre e os neo-democratas-raciais

Afinal, qual  seria a conexão entre figuras tão distintas ???? ; explico :

O extremista “templário” nórdico Anders Behring Breivik, responsável pelos atentados terroristas que chocaram o mundo no último dia 22/07 com a morte de quase uma centena de  pessoas na Noruega, escreveu antes dos ataques um vasto manifesto de mais de 1500 páginas, no qual cita por doze vezes as palavras  Brasil ou brasileiros.

Nesse ponto a ideia central de Breivik é a de que a multiculturalidade advinda da convivência multirracial e da miscigenação (a exemplo do caso brasileiro) é um importante  fator de atraso ao desenvolvimento e que tanto uma quanto outra deveriam ser evitadas e banidas de uma futura Europa “saneada” (entenda-se sem etnias não “arianas”), cristianizada e sob controle “fascista” (aliás nada de inédito nessa visão de Breivik, pois no sec. XIX o Conde francês Joseph Arthur de Gobineau, que foi um tipo de embaixador da França no Brasil e era amigo de D. Pedro II, dizia as mesmas coisas, tendo publicado um livro que seria a “pedra fundamental”  das premissas racistas dos eugenistas e dos nazistas) .

Entre outras ideias totalitárias, o terrorista cita a necessidade de  “seleção” e  redução da população mundial, bem como, de um repovoamento europeu a partir de matrizes genéticas  “puras”  do norte da Escandinávia (esse “filme” não é novo…), mas de maneira estranhamente controversa repudia Hitler e nem se afirma racista…  .

O interessante é que apesar de parecer  antagônico ao discurso dos neo-democratas-raciais brasileiros (os conhecidos anti-cotas e anti-movimentos-negros-e-indígenas); que se travestem de “anti-racistas” e cinicamente afirmam que o racismo e a desigualdade seriam causados pela admissão de que há diversidade  racial (do ponto de vista de construção social),  propondo a “desracialização” do debate da problemática social e das Ações Afirmativas brasileiras, apoiando inclusive a  “apologética” da miscigenação  (que eles preferem chamar de mestiçagem), como sendo o principal fator de agregação nacional e solução dos problemas raciais brasileiros;  a coisa não é bem assim, pois no fundo ambos os discurso tem exatamente a mesma finalidade e intenção “homogeneizante”  e anti-multiculturalista/multirracial.

E o Gilberto Freyre ?  onde é que entra nessa história ? ; acontece que é justamente ele o “ícone teórico”  dos neo-democratas-raciais (incluindo os ferrenhos defensores brazucas da “mestiçagem ideológica” ) que se valem de parte da sua  obra para também atacarem o multiculturalismo e a convivência multirracial com equilíbrio social ;   exemplo :

” A mestiçagem unifica os homens separados pelos mitos raciais.
 A mestiçagem reúne sociedades divididas pelas místicas raciais e grupos inimigos.
A mestiçagem reorganiza nações comprometidas em sua unidade e em seus destinos democráticos pelas superstições    sociais.”  (Gilberto Freyre) 

Agora releia o texto acima  apenas substituindo a palavra mestiçagem por nordificação (o desejo manifesto de Breivik para uma nova sociedade européia e mundial), apavorante não ?

Cabe lembrar que Freyre, também foi o teórico escolhido pela ditadura ultra-conservadora portuguesa (salazarista) para tentar defender o modo português de colonizar (apelando para a miscigenação/bastardização como forma de gerar mão de obra intermediária e população estanque  a serviço dos interesses da metrópole e sua ideologia) vide :

” Quanto a miscibilidade, nenhum povo colonizador, dos modernos, excedeu ou sequer igualou nesse ponto aos portugueses. Foi misturando-se gostosamente com mulheres de cor logo ao primeiro contato e multiplicando-se em filhos mestiços que uns milhares apenas de machos atrevidos conseguiram firmar-se na posse de terras vastíssimas e competir com povos grandes e numerosos na extensão de domínio colonial e na eficácia de ação colonizadora. A miscibilidade, mais do que a mobilidade, foi o processo pelo qual os portugueses compensaram-se da deficiência em massa ou volume humano para a colonização em larga escala e sobre áreas extensíssimas.” (FREYRE, 2004, p.70)

Na prática, por caminhos distintos tanto Breivik, quanto os neo-democratas-raciais (pseudo-embasados teoricamente por Freyre), pregam o desprezo pela diversidade e entendem que a solução da questão da desigualdade está na eliminação das diferenças raciais, simplesmente  eliminando as raças… de forma física ou conceitual  (faça uma busca pela teoria da fusão racial  e também por “racialização do Brasil” ),  não pela lógica e desejável convivência pacífica e socialmente justa de várias “raças” (socialmente falando) e culturas caldeadas.

A aproximação dos ideais de uma sociedade neofascista  e “sem  raças ” de Breivik , com a ideologia e métodos de direita-conservadora dos neo-democratas-raciais impressiona…, a começar pelo ódio destilado contra o partido dos trabalhadores  norueguês e o que ele chama genericamente de “marxistas”  (principais vítimas do atentado terrorista) , reproduzido na “versão tupiniquim”  pelos  ataques diuturnos e midiáticos movidos pelos neo-democratas-raciais contra o partido dos trabalhadores daqui do Brasil…;  impressiona mais ainda quando, como da forma costumeira e cínica se negam a admitir as similaridades ideológicas e inclusive a criticar os posicionamentos também ultra-reacionários do “doidão” norueguês.

Já disse no passado e repito :  Quem ainda não  percebeu que as verdadeiras “cruzadas” contra um Brasil diverso e justo (inclusive com Ações Afirmativas sócio-raciais), com direito à multiculturalidade e multirracialidade (incluindo a miscigenação natural e não ideológica nesse tipo de sociedade), possui uma raiz fascista (e por que não dizer patológica ? ); que abra os olhos… .