Blog do Juarez

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Entendendo finalmente a diferença de preto para negro.

Não é a primeira vez que escrevo sobre isso, mas dadas as circunstâncias veio a calhar fazer um novo texto com exemplos mais significativos e práticos.

Primeiro é importante deixar claro que estamos falando dos usos no contexto das relações raciais.

Os termos preto e negro tem sentidos distintos, o primeiro é cor, tem a ver com a aparência característica de um africano aparentemente não miscigenado, já o segundo se referia antigamente a uma situação de escravização, hoje apenas de origem africana de qualquer forma perceptível no fenótipo, produto do tráfico negreiro.

Os mais antigos diziam “Preto é cor, Negro é raça”, na verdade ORIGEM, já que diferentes raças não é uma realidade biológica entre humanos, hoje sabe-se apenas uma construção social.

Para entender melhor conclua a leitura dos tópicos.

ESCRAVIDÃO NEGRA

Do princípio… a escravidão negra é assim chamada por conta dos espanhóis no XVI, que introduziram a palavra negro com sentido de escravizado, influenciando portugueses e ingleses, que passaram a usar exatamente da mesma forma. Na verdade foram eles, os espanhóis, os introdutores e durante bom tempo, os principais operadores do tráfico transatlântico, chamado por isso de tráfico negreiro, logo, a escravidão negra é inescapavelmente a fomentada e da qual se beneficiaram as metrópoles européias e colônias. A servidão tradicional em África e a mercantilista árabe em África, pre-existentes não são a “escravidão negra”, assim como a praticada entre os indígenas das américas também não, muito embora a escravização dos indígenas pelos europeus e descendentes também os tenha colocado na condição de “Negros da terra”, igualmente não é chamada de “escravidão negra”. Por isso que se encontra na bibliografia o termo “escravidão negra africana”, parece redundante, mas é, justamente para não confundir com os outros tipos de servidão e escravização em África… .

NEGRO

Como visto, o termo negro estava ligado inicialmente à condição de escravizado e não um sinônimo perfeito para preto, ou para africano. Os índios, os primeiros escravizados pelos europeus nas Américas, também eram tratados por “negros”, mais especificamente “negros da terra”, e não eram pretos, muito menos africanos (que no Brasil colonial eram então chamados “negros da guiné”).

Por tal é, que em países de língua espanhola, é comum ainda hoje se chamar ou apelidar indígenas e seus descendentes de “negro(a)”, caso da famosa e falecida cantora argentina Mercedes Sosa.

Pode-se perguntar, -“Então por que não é assim no Brasil também?”. Simples, porque foi proibido, quando da abolição da escravidão indígena em 1755 na segunda colônia portuguesa nas Américas, o Estado do Pará e Maranhão (que abrangia toda a região da atual Amazônia brasileira e parte do nordeste), abolição depois estendida para o então Estado do Brasil (que anexou a outra colônia do norte após a independência), veja o texto do ato:

“Diretório que se deve observar nas Povoações dos Índios do Pará, e Maranhão, enquanto Sua Majestade não mandar o contrário

1 Sendo Sua Majestade servido pelo Alvará com força de Lei de 7 de Junho de 1755, abolir a administração Temporal, que os Regulares exercitavam nos Índios das Aldeias deste Estado; mandando-as governar pelos seus respectivos Principais[..]
10 Entre os lastimosos princípios, e perniciosos abusos, de que tem resultado nos Índios o abatimento ponderado, é sem dúvida um deles a injusta, e escandalosa introdução de lhes chamarem Negros; querendo talvez com a infâmia, e vileza deste nome, persuadir-lhes, que a natureza os tinha destinado para escravos dos Brancos, como regularmente se imagina a respeito dos Pretos da Costa da África. E porque, além de ser prejudicialíssimo à civilidade dos mesmos Índios este abominável abuso, seria indecoroso às Reais Leis de Sua Majestade chamar Negros a uns homens, que o mesmo Senhor foi servido nobilitar, e declarar por isentos de toda, e qualquer infâmia, habilitando-os para todo o emprego honorífico: Não consentirão os Diretores daqui por diante, que pessoa alguma chame Negros aos Índios, nem que eles mesmos usem entre si deste nome como até agora praticavam; para que compreendendo eles, que lhes não compete a vileza do mesmo nome, possam conceber aquelas nobres idéias, que naturalmente infundem nos homens a estimação, e a honra. ”

Prova inconteste que além da alta carga estigmatizante do termo negro, deixa clara a vinculação entre o negro e a escravização, da qual os indígenas estavam sendo liberados, mas os africanos e descendentes não…, continuaram sendo negros por mais de 130 anos.

NEGRO EM INGLÊS

Como dito, os espanhóis introduziram o sentido de “Negro” enquanto escravizado, termo que foi adotado pela língua inglesa, nos EUA, a palavra escrita da mesma forma e falada como “Nigro” foi correntemente utilizada para os escravizados africanos e descendentes desde o século XVI até os anos 60 do XX, como demonstra o dicionário OXFORD em inglês:

Como se pode visualizar, apesar de haver uma palavra própria para a cor, em inglês, “black”, o que vigorou foi Negro em seu sentido de escravizado/descendente. Em português essa distinção de uso é menos percebida pois as vezes se utiliza negro como sinônimo de preto, mas no geral o termo negro não é utilizado para cor das coisas, mas como adjetivo e em geral negativo, não falamos por exemplo “carro negro”, “cortina negra”, “óculos negro”, “caneta negra”, “camisa negra”, “pulseira negra”, “bola negra” por outro lado… “alma negra”, “magia negra”, “livro negro”, “viúva negra”, “nuvens negras”, “negra sorte”, “peste negra”, “denegrir” (enegrecer, sujar) são expressões bem comuns, mas todas em tom negativo… não à toa Negro foi um sinônimo atribuido a escravizados .

O CENSO

O termo negro não aparece nas opções do Censo pois apesar do quesito ser “Cor/raça” e haver certa sobreposição a maioria das opções trata da cor da pele

As opções são branca, preta, parda, amarela e indígena. Não há “cor negra”.

REGISTRO CIVIL

Anteriormente a Constituição de 1988, a cor era quesito obrigatório nas certidões de nascimento e alguns outros registros civis e deveria seguir o padrão censitário. Não havia ou deveria haver registro com cor “negra” já que não é opção censitária desde 1872, mas sim “preta” quando fosse o caso. Hoje alterada a lei retornou a possibilidade de registro da cor.

REGISTRO MILITAR

A cor da cútis é dado comum na documentação militar, por exemplo, no meu certificado de reservista (de 1987), está lá a minha cor, PRETA e não negra…

LEGISLAÇÃO

Negro é quem faz parte da população negra, o Estatuto da Igualdade Racial, que norteia toda questão jurídica relacionada, define quem faz parte da População Negra, ou seja, os autodeclarados pretos e pardos.

AFRODESCENDENTE

Claro fica que afrodescendente é sinônimo de Negro e o substitui, igualmente, fica claro que assim como Negro, é aplicável apenas aos diaspóricos não aos africanos, que apesar der terem COR preta NÃO SÃO NEGROS ou mais atualizadamente afrodescendentes.

CONCLUSÃO

Hoje o termo negro foi resignificado e apropriado pelo movimento negro, serve como um aglutinador da população afrodescendente, tem um sentido político, que não é alcançado pelo termo preto, aplicável realmente a coisa de 10% da população, enquanto negro atinge cerca de 54% dos brasileiros.

No Brasil todo preto é negro, mas nem todo negro é necessariamente preto…


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Movimentos Negros ou Movimentos Pretos ? : a abrangência X a radicalização

“Degradê” Afrobrasileiro

Antes de iniciar o desenvolvimento do tema em si, é preciso que o leitor tenha consigo alguns conceitos :

1- O termo negro não é sinônimo de preto (pelo menos não quando tratamos da temática étnico-racial),  negro foi o termo utilizado para designar os escravos (inclusive em inglês e da mesma forma que grafamos) no “novo mundo”  a partir do séc. XVI.   Inicialmente era aplicado tanto a indígenas escravizados (negros da terra) quanto aos africanos traficados, passando depois a definir apenas os africanos escravizados e seus descendentes.  Não sendo portanto termo definidor de cor, mas sim de origem,  tal termo também foi associado à  já ultrapassada ideia de diversas raças entre humanos.

2- Do ponto de vista sociológico/antropológico foi e é observado que praticamente em todas as culturas mundiais sempre se aplicou o conceito da hipodescendência, ou seja, os elementos produzidos pela  miscigenação étnica ou “racial” sempre foram automaticamente alocados no grupo de ascendência menos privilegiada socialmente. No caso particular de brancos e negros, os miscigenados (principalmente os óbvios) sempre foram considerados negros (mesmo que alguns insistissem em uma “providencial coluna do meio” que na prática pouca ou nenhuma diferença representou) e como tal compartilham as mazelas do racismo e  indicadores sociais muito próximos entre si e igualmente distantes  da população branca. Portanto, de acordo com tais premissas e também oficialmente através do IBGE, entende-se como POPULAÇÃO NEGRA (descendentes de escravizados africanos)   todos que se auto-declaram como pretos e pardos. Então negro é todo aquele que faz parte da população negra, e não apenas os que parecem africanos (os pretos). Mais recentemente a ONU passou a adotar em sua redação oficial o termo AFRODESCENDENTE  em substituição a NEGRO. O termo retira a carga “racializante” e elimina as confusões entre cor e origem bem como contempla a situação da alta miscigenação na  diáspora africana.

Isso posto e compreendido, permite avançarmos no tema central, os movimentos de resistência e combate ao racismo e as desigualdades sociais e econômicas advindas do processo sócio-histórico baseado no mesmo.

Grupos negros de resistência e ação contra a escravidão e vilipêndio das coisas da cultura trazida pelos diversos povos africanos escravizados e traficados para cá sempre existiram (vide a história dos mocambos e quilombos, dos capoeiras, da religiosidade de matriz africana).  Mais tarde viriam a se juntar (pelo menos parcialmente) a esses insurgentes  naturais, outros grupos majoritariamente não-negros como os abolicionistas. Houve também uma movimentação dos chamados “homens de cor” (em geral miscigenados livres e libertos bem posicionados socialmente) contra o preconceito e a discriminação contra eles ( no entanto sem maiores preocupações com relação aos ainda escravizados…).  O aparecimento do que entendemos hoje por “movimentos negros” começou a se dar após a abolição,  com paradigmas e demandas que foram evoluindo ao longo do tempo .

Iniciou-se com a “guarda negra” que era uma organização paramilitar criada entre a abolição e o final do império para “defender” a Princesa Isabel “a redentora”  e a monarquia, em uma situação um tanto quanto paradoxal…  . Na sequência começaram a surgir os “clubes negros”, cujo paradigma era mais sócio-recreativo, bem como a imprensa negra. Nos anos 30 do séc. XX na esteira dos movimentos influenciados pelas ideologias totalitaristas surgia a FNB – Frente Negra Brasileira, cujo paradigma era baseado na  auto-disciplina, emponderamento,  melhora do conceito do negro na sociedade e participação política (foi proscrita por Vargas em 1937). Na década de 30 também surgia uma movimentação acadêmica (praticamente toda branca) em torno de estudos afrobrasileiros e o início da organização política dos afro-religiosos.

Nos anos 40 ocorreram experiências como o TEN – Teatro Experimental do Negro, criado por Abdias do Nascimento, ou ainda o I Congresso do Negro Brasileiro em 1949/1950. Nos anos 60 e 70 em plena ditadura militar (obviamente com a repressão as atividades políticas não interessantes ao regime)  o que se tinha era um movimento estético, musical e de agrupamento social muito forte influenciado sobretudo pelos movimentos norte-americanos de afirmação. É apenas em 1978 com o início da abertura que surgiram os primeiros movimentos negros  “modernos” .

A partir do centenário da abolição em 1988 houve uma grande disseminação de grupos de “Consciência Negra”, bem como iniciou-se uma forte integração entre as diversas vertentes de resistência e negritude (Cultural, Política & Conscientização e Afro-religiosa).

Movimentos negros,  a abrangência

É portanto a partir desse contexto e premissas, que temos os atuais movimentos negros. Que são grupos de estudo, conscientização e atuação prática, podendo ser entidades formalizadas ou grupos informais. Além disso há os ativistas independentes (também conhecido por “negros em movimento”) que apesar de partilharem a causa e as premissas, não estão vinculados a uma entidade formalizada ou grupo.

Mais recentemente, na esteira da INTERNET, surgiram os ativistas e os grupos virtuais.  A noção da abrangência dos movimentos negros fica mais nítida quando ampliamos o conceito para movimentos de negritude. Isso inclui as vertentes de resistência negra que normalmente não se colocam como “movimento negro”  mas dentro de suas especificidades lutam pela preservação e valorização de elementos da cultura negra e se aliam em mão dupla, sobrepondo e sendo sobrepostos por integrantes dos movimentos negros .

Conscientização & Política                Cultura                      Religiosidade

  • Consciência negra                   Capoeira                  Matriz africana
  • Mulheres negras                      Folclore                    Negritude Cristã  ecumênica
  • Acadêmica                                 Blocos afro              Pastorais de negritude
  • Quilombola                                Hip-Hop                   Movimento negro evangélico
  • Imprensa negra                        Samba
  • Movimentos partidários

Em praticamente todos esses grupos  há o entendimento generalizado que o objetivo principal da causa é a justa integração do negro na sociedade (sócio-econômica, estética e cultural). O foco é o combate às discriminações e a desigualdade motivada por racismo e intolerância.  Entende-se por negro o amplo espectro afrodescendente exposto no início. Via de regra a integração e as alianças com brancos são bem-vindas e se crê  que o racismo e a intolerância são um problema de toda a sociedade e não apenas dos negros.  Sendo assim,  tais grupos (a exeção de parcelas dos movimentos de mulheres que defendem a “endogamia compulsória”, de alguns blocos afros que até coerentemente exigem visível afrodescendência dos integrantes e de alguns   grupos de RAP “de raiz” que tem uma crítica mais ácida), são  menos utópicos, menos radicais e mais pragmáticos.

Nesse sentido, há a  consciência generalizada de que formamos um país multi-racial e multi-cultural.  Em que pese o contexto histórico negativo, a alta miscigenação física e cultural é uma realidade (embora não tenha alterado significativamente os indicadores sociais da população negra, nem a discriminação). Miscigenação essa que hoje ocorre naturalmente, sendo vistas como inviáveis ou desnecessárias, as movimentações massivas no sentindo contrário (repudiada obviamente a apologia à miscigenação como “meta” e ferramenta de branqueamento nacional, ou  o uso meta-racista dado pelos neo-democratas-raciais).

Temas como endogamia (relacionamento exclusivo dentro do mesmo grupo “racial”) são vistos pelos ativistas de movimentos negros como DIREITO, não OBRIGAÇÃO. O afrocentrismo (foco extremado na África antiga como principal contribuidora para a civilização mundial), panafricanismo (a necessidade ou visão de uma natural fraternidade mundial entre os africanos e entre africanos e afrodescendentes), enfrentamentos vigorosos (ao estilo dos “panteras negras”) apesar de considerados, não são assumidos como de “vital importância”  ou prioritários para a causa negra brasileira. O que se busca é basicamente a integração social justa em todos os aspectos  e sem radicalismos.

Movimentos pretos, e a radicalização 

Apesar de geralmente não se identificarem como “movimentos pretos”  e seus   adeptos por vezes estarem “dentro” de movimentos autointitulados negros, os termos preto/preta  são muito recorrentes no discurso dos que apesar de também partilharem da causa geral, que é o combate ao racismo,  o fazem a partir de uma  visão muito menos abrangente e de forma particularmente radicalizada .

Os adeptos de “movimento preto” tem o fenótipo padrão africano como delimitador e a base de suas ideologias e atuações,  reforçam a confusão entre os conceitos de negro e preto, em geral atribuindo a condição de negro apenas aos pretos, abominam a miscigenação (tanto a passada quanto a presente e futura). O tratamento dispensado aos companheiros de luta é “irmão/irmã”, em seus discursos, elementos como a endogamia como obrigação, “família preta”,  “nenhum branco é amigo”,  “povo preto”. Afrocentrismo extremado e panafricanismo se ligam  à  admiração por lideranças internacionais  mais radicais como Malcolm X,  os ” Black Panthers” , Marcus Garvey… . Para os mais ligados ao Reggae Roots, linkado à filosofia/religião Rastafári, são sempre lembrados  o Imperador Hailé Selassié  e Bob Marley (e é interessante destacar mais um paradoxo,  já que Bob Marley era filho de um marinheiro inglês branco e gostava de dizer que “não era preto nem branco”).

Outro ponto recorrente é a aspiração por um “Partido negro” (ou melhor…, preto). Várias foram as tentativas frustradas em se criar um partido assim. Das recentes,a mais notória  é a do PPPomar – Partido Popular Poder Para a Maioria (2001),  iniciativa do Rapper MV Bill  e de Celso Atahyde, que com o amadurecimento, flexibilizaram o discurso, retirando o foco direto da “questão preta” e redirecionando de forma mais abrangente e prática para a questão das favelas e “guetos” negros criando a CUFA-Central Única das Favelas, alcançando espaço na mídia e reconhecimento público.

Nos “movimentos pretos”, há também quem mova campanhas contra a utilização do termo negro (pela sua origem depreciativa) e a favor da sua substituição pelo termo preto (aplicável pelo menos no contexto brasileiro à menos de 10% da população…). “Tiro no pé”, pois desconsidera assim a vantagem estratégica do agrupamento político enquanto negros ou para usar termo mais recente e apropriado, afrodescendentes, formando maioria estatística da população, coisa de 52%.

Do ponto de vista religioso, para tais coletivos “pretos” é visto como preferível a adoção de vias minoritárias extremas e não raro autosegregantes, a partir de paradigmas afrocentristas que remetem as origens hebraicas (Rastafári, Igreja preta, etc…) ou mesmo pela conversão à fé islâmica (opção afirmativa popular entre os afroamericanos na época de Malcolm X e de seus admiradores). Por diversos motivos, a opção pela religiosidade de matriz africana como o Candomblé ou a Umbanda não é em geral considerada interessante, um deles é por não serem vistas como politizantes, aguerridas/revolucionárias, além da questão do sincretismo da umbanda e da grande adesão de pessoas “brancas” (incluindo muitos sacerdotes) .

Nesse contexto, a endogamia, o discurso anti-miscigenação, o de “emponderamento preto” nos moldes mais radicais, o protagonismo exclusivo do “povo preto” na luta (com a declaração de desconfiança generalizada e a não visualização/aceitação de brancos ou miscigenados como aliados de valor), auto-determinação e auto-representação, bem como, o “amor afrocentado”, e a luta contra a “apropriação cultural”  se tornam “bandeiras” prioritárias para os que  enxergam a questão por tal viés.

Ainda na questão da endogamia (inclusive econômica), muitos se apoiam nas práticas norte-americanas como exemplos “desejáveis”, mas esquecem de contextualizar a questão,  a história afroamericana  tem muitas diferenças da afrobrasileira…, lá a miscigenação não foi usada como instrumento de colonização e portanto pouco ocorreu.  O racismo violento e declarado também a estigmatizou para os dois lados. Outro fato é que eles tiveram emancipação e não abolição pura e simples como no Brasil, o que fez com que a evolução sócio-econômica tomasse outro rumo. Finalmente, por lá tiveram por muito tempo um regime oficial de segregação, com o pretenso  “separated but equal” (separados mais iguais), faculdades , igrejas, empresas, bairros “nobres”, etc… completamente negros, lá existem desde o séc. XIX.

Tudo isso resultou em uma endogamia inicialmente forçada e a criação de uma cultura e condições que conduziram a uma “naturalização”  do comportamento,  mesmo assim, não impediu que após o  fim da segregação oficial e o inicio da convivência “igualitária”  entre negros e brancos em todas as camadas sociais, alguma miscigenação e fim de nichos econômicos ocorresse, afinal ela é normal em sociedades multi-raciais (principalmente quando não há restrições oficiais ou sócio-econômicas).

Por tal não é possível simplesmente desejar transpor essa situação e cultura endogâmica norte-americana para o Brasil, há que se relativizar e entender que  as diferenças são plenamente justificáveis.

Não totalmente mas com grande influência no discurso de boa parte das integrantes dos movimentos de mulheres negras (e das “independentes”), surge a questão da endogamia e  “família preta” como bandeira de luta.

É importante frisar que essa demanda e questionamento das ativistas dos movimentos de mulheres negras, é vista como legítima pela maioria dos ativistas dos movimentos negros, se entendida como coisa a ser fomentada e realizável de forma  natural  ou  mesmo como “opção política”  para os que assim desejarem e tiverem as condições favoráveis,  deixa de sê-lo quando colocada como “obrigação” ou “imposição”  que se não seguida ou não absolutamente apoiada, “transforma” os divergentes em “inimigos” , “vendidos”, “não-irmãos” e uma série de outros adjetivos nada positivos.

As reclamações sobre a “solidão” da mulher negra (em especial a preta), a “vilanização” dos homens negros não-exclusivamente-endogâmicos (em especial os ativistas), são via de regra emocionalmente carregadas, baseadas majoritariamente em experiências e mágoas  pessoais ou de observação “empírica” em seu campo de visão limitado, raramente admitindo visões mais amplas, sistematizadas ou relativizadas de toda a questão .

Tais posicionamentos tem causado grandes polêmicas e “fogo amigo” entre as ativistas de pensamento mais radical ( apoiadas pelos alinhados ao “movimento preto”) e  os homens ativistas dos movimentos negros,  que em geral  discordantes da ideia de “endogamia compulsória” .

Conforme o lógico e esperado, o discurso radicalizado e nada diplomático, além de não sensibilizar quem poderia ser conscientizado, provoca reações contrárias, que de maneira geral são extremamente desinteressantes para a causa negra, dando margem para acusações por parte dos “brancos” , principalmente dos  meta-racistas e ne0-democratas-raciais com alto apoio da mídia reacionária,  de “racismo ao contrário”,segregacionismo,”fascismo”, desequilíbrio, “complexo”, etc.  Isso tudo fechando portas de oportunização e diálogo, além das desgastantes escaramuças entre “negros” e  “pretos” que fatalmente acabam descambando para os ataques pessoais entre os defensores das correntes antagônicas.

Principalmente o novo ativista deve pesar bem, quais são os seus objetivos e qual linha vai  majoritariamente adotar, a fim de se tornar produtivo em sua missão de conscientização e busca de resultados efetivos para a verdadeira emancipação da população afrobrasileira,  parcimônia  e equilíbrio podem ser o grande diferencial.


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Deu no CBN Manaus…

Assim como muita gente, é meu costume ouvir diariamente todas manhãs  o programa  noticioso  de rádio capitaneado pelo Ronaldo Tiradentes  e  Marcos Santos, sempre ao estilo característico e bem-humorado da dupla.

Hoje porém, duas notícias (e comentários) me chamaram a atenção…, e como de praxe não poderia deixar de dar meu pitaco e recadinho aqui pelo blog (já que nesses tempos de comunicação bidirecional, os caros radialistas eventualmente também “acompanham” ou visitam as mídias dos ouvintes 🙂 ).

A primeira notícia tratou do assasinato em assalto de um policial civil que fazia “bico” como segurança de transporte de valores (aproveitamos para nos solidarizar com a família e colegas pela fatalidade) ;  na matéria o repórter ao perguntar para o irmão da vítima sobre as visitas ao velório e o apoio que a família estava recebendo das autoridades etc…, inquiriu se “os Direitos Humanos” tinha aparecido ou se manifestado…; obvia e compreensivelmente dado o contexto , recebeu entre as informações o velho discurso anti-DH e que “se fosse um bandido” etc…  .

Não sei se foi ingenuidade ou “marronzismo” do repórter, mas só para esclarecer:  DIREITOS HUMANOS, não é Polícia, não é  Ministério Público, não é Judiciário, não é Corregedoria/ouvidoria,  não é Defensoria pública,  não é Defesa Civil,  Conselho Tutelar,  muito menos  SERVIÇO SOCIAL …;  não faz parte de suas atribuições (mesmo quando instância instalada em estrutura pública, como um Conselho Estadual) se manifestar ou “apoiar” familiares ou vítimas de todo e qualquer crime comum… (muito menos  “apoiar bandido” como costumam dizer) ;  a ação dos ativistas e orgãos dos Direitos Humanos  é de fiscalização  e mediação no cumprimento do previsto  na DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS,  é esperada ou exigida nos casos em que :

a) Agentes do estado exorbitam ou se abstem de seus poderes ou deveres e descumprem o previsto na Declaração Universal dos Direitos Humanos (e  nos limites legais de sua atuação) .

b) A ação criminosa ocorre por motivações relacionadas diretamente a questões de Direitos Humanos (Intolerâncias diversas como a religiosa, xenofobia, racismo, sexismo, homofobia, perseguição política e/ou ideológica, etc  )

c) Há necessidade de mediação de conflitos em que se apresente riscos à vida e dignidade humana.

Seria portanto compreensível a manifestação/atuação “dos Direitos Humanos”  em rebeliões carcerárias, crimes contra minorias e ativistas sociais, ações contra a vida e dignidade humana praticados por agentes do estado em desconformidade com a previsão legal,  fiscalização de condições de encarceramento,  mediação de conflitos agrários, acompanhamento/apoio  à  refugiados  e coisas do gênero;  para outras situações (como no caso  do assasinato do policial em crime praticados por bandidos comuns) a intervenção esperada é a das instâncias citadas anteriormente (que em geral também podem (ou devem) ser acionadas nos casos de violações aos Direitos Humanos), o direito à vida faz parte dos Direitos Humanos,  porém bandido não respeita isso…  e justamente por isso é que são bandidos…; coisa que não deve ocorrer com quem em tese tem  consciência e obrigação de defender a lei e a vida (seja de quem for).

Quanto a segunda notícia se tratava da vitória da Miss Angola no concurso Miss Universo; nos comentários os nossos caros radialistas  com seu humor azeitado, aproveitaram para levantar a questão da dúvida com relação ao termo a utilizar para a referência “etnico-racial”  da bela africana;  se  era negra, afrodescendente ou africana ? ;  pois bem,  a diferença de termos existe não por modismo ou hipocrisia…, para esclarecer vai aqui a dica:

1- O termo Negro(a) passou a ser utilizado pelos portugueses (copiando os espanhóis, que não tem a palavra preto) a partir da conquista do “novo mundo”  com o sentido de ESCRAVO,  era aplicada tanto aos africanos quanto ao indígenas escravizados (no Brasil colônia os índios eram chamados NEGROS DA TERRA);  mais tarde o termo passou a definir  apenas os africanos escravizados e seus descendentes desde então,  se aplica corretamente apenas à diáspora,  não aos africanos (que em maioria são apenas pretos (que é cor da pele) , não negros (origem escrava)) .

2- O termo AFRODESCENDENTE foi adotado na redação oficial da ONU, a partir de 2003 para substituir a palavra NEGRO, traz como vantagens a eliminação do equívoco recorrente de utilizar preto e negro como sinônimos; eliminar a questão da  confusão por matiz de pele (é aplicável a negros de cor preta  e  aos miscigenados), retira o antigo e equivocado viés  biológico de “raça”  (branco, negro, amarelo e vermelho) substituindo-0 pela ancestralidade geográfica .

As pessoas com padrão fenótipico africano “padrão” e nascidas na África, são corretamente referenciadas por  pretas ou simplesmente africanas (obs. os angolanos em especial e ao contrário dos outros africanos preferem ser referidos por negro, ao invés de preto,  assim como os brasileiros) .

Para finalizar…, “pelamordedeus” Ronaldo, quando for para falar sobre questão negra, etc,  por favor !   esqueça tudo que o Agnaldo Timóteo disser .. dali só sai bobagem… :-).