Blog do Juarez

Um espaço SELF-MEDIA


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Capitães do Mato tinham patente…

Em uma descoberta da minha emérita orientadora sobre patentes militares no Pará colonial, onde o foco era uma de “Alferes dos Índios”, notei na fonte exibida também uma outra de “Capitão do Mato”. Não sou muito fã de Colônia e Império, embora tenha até pesquisado sobre militares negros nos ditos períodos, nunca me ocorreu porém que “Capitão do Mato” fosse um “posto” de fato e obtido por patente, imaginava ser só uma referência de ofício e um tratamento popular dado aos caçadores de escravizados fugidos. Com a atenção chamada fui pesquisar e de fato, no Brasil colonial os capitães do mato tinham patentes, emitidas pelos governadores das capitanias ou mesmo pelo Rei. Outros pontos interessantes são que, diferente do senso comum, o capitão do mato não necessariamente era um “profissional liberal” que trabalhava sozinho, como sugere o famoso quadro de Rugendas ou como vemos nas novelas de época da TV. Na verdade existiram milícias chamadas “Corpos de homens do mato”, aonde não apenas atuavam em grupos organizados, como havia uma hierarquia ao estilo militar, com Soldados do mato, Cabos do Mato, Capitães do Mato, Sargentos-mor do Mato e Capitães-mor do Mato.
Por mais que a gente estude, sempre “come mosca” em algum sub-assunto e todo dia a gente aprende… ☺️, então bora compartilhar.


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Endogamia é majoritária no Brasil

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Desmistificando a ideia de que o Brasil é um país miscigenado (ao invés de multirracial e miscigenado) e que tende a ficar cada vez mais miscigenado e correndo o risco de “desaparecimento” de qualquer um de seus grupos étnico-raciais por conta da miscigenação (aliás malogrando a teoria defendida pelos racistas científicos na década de 20 do século passado, de que por meio das sucessivas miscigenações o elemento negro desapareceria visualmente do país antes da virada do século, se tornando o país de aparência branca).

Observem no gráfico acima, que homens pretos unidos com pretas são 50,3% e com pardas outros 22,9%, ou seja, 73,3 % dos pretos estão com mulheres Negras (pretas ou pardas), apenas 25,5% estão com brancas, no caso dos pardos é semelhante, ao final permanecem em 74,9% unidos a negras (pretas e pardas) e similarmente 24,4% com brancas,  quando visualizados os brancos não é muito diferente, 73,7% são endogâmicos mas 26,6 (até um pouquinho mais que os negros)  não o são…, porém mesmo ai percebe-se uma proporção equilibrada de coisa de 2/3 de endogâmicos tanto em brancos quanto negros (lembrando novamente Negros=pretos+pardos).

Já os indígenas por incrível que pareça são um pouco menos endogâmicos que brancos e negros, conseguem manter 68,1 % de endogamia,  porém a “supresa maior” está com os “amarelos”, ou melhor, com os asiáticos (que o senso comum imaginava serem os mais endogâmicos, mas é justamente ao contrário) que mantém-se apenas 38,8% endogâmicos e proporcionalmente só não se unem a negras mais que os próprios homens negros, no quesito “desencalhe” para as negras em geral são bem mais promissores que brancos e de indígenas.

Conclusão, destruídos vários argumentos falaciosos de uma vez só, a saber :

1- O de que “negros preferem as brancas”

2- Que brancos “não casam com negras”

3- Que asiático-brasileiros são extremamente endogâmicos

4- Que índios pela etnicidade tendem a se “preservar” mais com a endogamia.

Ah ! e obviamente que nenhum, absolutamente nenhum outro homem se une mais à mulher preta que o próprio homem preto, portanto cobrem a “solução” da “solidão da mulher negra” também dos outros grupos masculinos e das próprias mulheres que apostam na fórmula “endogamia ou celibato”, as estatísticas comprovam que é possível ser feliz  no amor para além da cor… .

Tem mais um detalhe… esses dados são de Uniões estáveis/CASAMENTOS…,  é preciso visualizar que não reflete necessariamente todos tipos de relacionamentos…

Não deixem de seguir o link para  matéria jornalística sobre o assunto:

http://exame2.com.br/mobile/brasil/noticias/brasileiros-preferem-casar-dentro-da-propria-etnia


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De volta ao velho “Homens negros só querem brancas e a Solidão da mulher negra”

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Vira e mexe me vejo envolvido na discussão fratricida “Homens negros só querem brancas e a Solidão da mulher negra” promovida em especial pelas ativistas negras vilanizando os homens negros. Não ignoro que há uma questão envolvendo relacionamentos interraciais e que isso pode e deve ser motivo de estudo e reflexão, mas não faço “história única”, não ignoro que há de fato muitas mulheres negras em “celibato”,  só acho que a coisa invariavelmente é direcionada para que a análise não contemple TODA a questão… .

Por exemplo, se falamos de livros sobre o tema, indico um que trata da mulher negra e homem branco… mas é como se eu não o tivesse feito, só se quer discutir o que atende a visão que satisfaz a  ideia do homem negro como “vilão”…, demonstro que mulheres negras até se organizam na busca de relacionamentos com brancos, mas o assunto é solenemente ignorado e torna-se a questionar negros com brancas…, coloco que os relacionamentos negro/branca não são uma busca de mão única, as brancas buscam os negros enquanto as negras sabotam relacionamentos com negros e buscam brancos, mas novamente se evade da questão.

Torna-se então ao pressuposto que o homem negro “só quer branca”, é quando chamo a atenção para o contexto histórico de séculos de rapinagem sexual de brancos contra negras e índias (coisa que aliás permanece acontecendo), mas qual o que ?,  só vamos ouvir  um absurdo “desde sempre os homens negros deixaram a negra na solidão e ficaram com as brancas…”, e tome exemplo de pagodeiros, jogadores de futebol, celebridades… .

Ai aparece uma pesquisadora que fez um trabalho com quase dois mil casais envolvendo pessoas negras e 600 desses casais eram formados por negros/negras (mas isso não interessa, abstrai-se…) foca-se apenas nos casais inter-raciais (todos de negros com brancas) Êpa! mas não tem negras com brancos ????, esqueça-se!, fiquemos só nos negros com brancas… .

Ninguém pergunta por que é que o número de miscigenados no Brasil é enorme e secular…, nem se questiona que o acesso de homens negros à mulheres brancas é historicamente muito recente…, não se leva em consideração que oficialmente o percentual de pessoas PRETAS no Brasil é de 8% (dividido entre homens e mulheres). Alguém já se perguntou por qual motivo um universo de 4% de homens pretos  e 20% de homens pardos deveria se limitar  a encontrar parceiras nos 4% de mulheres pretas e 20% de pardas quando a estas somam-se quase outros 25% de “brancas” ???? (Opa ! desculpem o esquecimento da questão de gênero e que nem sempre homens estão buscando mulheres e vice-versa… ;)) em estatística simples sem considerar “ideologias” etc…,  qual é a probabilidade de um preto se relacionar com uma branca ou uma negra ?, aonde está a maior e a menor “oferta” ???.

Tudo isso são questões que simplesmente não se discute nem considera…, o que importa é a “solidão da mulher negra” e culpar exclusivamente o homem negro por isso…, ninguém sequer cogita que o Brasil não é Angola que tem 95% de Pretos, 2% de miscigenados e o restante de não-negros… e que o relacionamento inter-racial é inescapável e “natural” em uma conjuntura como a brasileira….,  porém nada disso importa. Só importa culpar os homens negros pela solidão da mulher negra… .

Eu acho que se é para discutir a questão, que seja feito de forma séria, com TODAS as variáveis que cientificamente deveriam entrar nessa “Equação social”…, não apenas com mágoas e ressentimentos e uma vontade de apontar apenas um “culpado” (que ironicamente também faz parte do rol de vítimas do processo secular de racismo) por um problema que tem tantos envolvidos igualmente responsáveis.

Com tantos problemas que a população negra tem que ainda superar e tantas demandas, há quem prefira ficar fazendo “fogo-amigo”, ai é que se perde tempo e a coisa não anda, esse comportamento belicoso não leva à nada… ou pior, nos atrasa imensamente.


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Adoção: levantamento do CNJ indica “preferência racial” como fator complicador.

Segundo levantamento recente (maio de 2012) o Cadastro Nacional da Adoção (CNA criado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ)), o Brasil tem 5.240 crianças e adolescentes  à espera de uma nova família e um número de pretendentes cinco vezes maior que o de crianças e adolescentes aptos à adoção (28.041 inscritos em todo o país).

O perfil das crianças e jovens  exigido pelos inscritos no cadastro é a principal barreira para a adoção por uma  nova família.

Pelo cadastro, 77,16% dessas crianças disponíveis para a adoção têm irmãos, 33,8% brancas, 45,92% são pardas,  e 19,06% pretas. (a soma dos percentuais de crianças pardas e pretas ( i.e Negras) é de aproximadamente 64%,ou seja, quase o dobro do de crianças brancas) ; por outro lado, o relatório dos interessados em adotar,  mostra que apenas 18,08% estão dispostos a adotar irmãos (a  maioria dos cadastrados (82,45%) deseja apenas uma criança) quanto a cor/”raça”, 90,91% dos interessados adotariam crianças e adolescentes brancos, 61,87% pardos e  apenas 34,99%  se interessam por crianças e adolescentes de cor preta. 

Observando os percentuais diretos de candidatos/aceitação pela cor  (33,8%/90,91% brancas, 45,92%/61,87% pardas e 19,06%/ 34,99% pretas)  se constata que em tese haveria quantidade suficiente de interessados para “zerar” qualquer grupo, mas isso não é uma realidade prática, fica claro que há uma precedência por cor e uma tendência de interesse de quase 3/1 por crianças brancas enquanto  para as negras seria menos da metade disso.  Se observada a “não aceitação” verifica-se que a “procura e oferta” é diretamente inversa, ou seja, quanto mais escura a criança/adolescente maior o nível de “não-interesse” para adoção (cerca de 9% por crianças e adolescentes brancos, 38% para os pardos e 75% para pretos).

Outros fatores como ter irmãos (maioria das crianças negras tem), sexo (77% preferem meninos) e idade (76 % preferem menores de 3 anos), complicam a adoção de maneira geral, mas com efeito mais obvio para as crianças e adolescentes negros  (pretos+pardos) .

As autoridades envolvidas nos processos de adoção afirmam que pretendem e e estão revertendo o quadro a partir de instrumentos de conscientização junto aos interessados cadastrados .


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Bancos brasileiros “descobrem” que tem clientes negros e a existência das famílias miscigenadas

O título pode parecer bizarro em um país que se gaba de ser uma “democracia racial”  e  altamente miscigenado, mas até muito pouco tempo atrás, assim como na publicidade em geral , na publicidade e sites  dos bancos não se via imagens de pessoas negras e muito menos “famílias felizes”  multi-raciais/ miscigenadas, parece que os bancos estão começando a perder o ” Complexo de Suiça”  que até bem pouco tempo reinava na sua publicidade e mostrando uma “cara mais brasileira e realista”; já não era sem tempo… , como todo mundo já estava “acostumado” com a “publicidade suiça”  nem notava ou se questionavam  que “faltava algo”  na representatividade populacional.   Na verdade deve é ter gente “estranhando” os novos anúncios… :-), de qualquer forma é uma boa notícia .


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Movimentos Negros ou Movimentos Pretos ? : a abrangência X a radicalização

“Degradê” Afrobrasileiro

Antes de iniciar o desenvolvimento do tema em si, é preciso que o leitor tenha consigo alguns conceitos :

1- O termo negro não é sinônimo de preto (pelo menos não quando tratamos da temática étnico-racial),  negro foi o termo utilizado para designar os escravos (inclusive em inglês e da mesma forma que grafamos) no “novo mundo”  a partir do séc. XVI.   Inicialmente era aplicado tanto a indígenas escravizados (negros da terra) quanto aos africanos traficados, passando depois a definir apenas os africanos escravizados e seus descendentes.  Não sendo portanto termo definidor de cor, mas sim de origem,  tal termo também foi associado à  já ultrapassada ideia de diversas raças entre humanos.

2- Do ponto de vista sociológico/antropológico foi e é observado que praticamente em todas as culturas mundiais sempre se aplicou o conceito da hipodescendência, ou seja, os elementos produzidos pela  miscigenação étnica ou “racial” sempre foram automaticamente alocados no grupo de ascendência menos privilegiada socialmente. No caso particular de brancos e negros, os miscigenados (principalmente os óbvios) sempre foram considerados negros (mesmo que alguns insistissem em uma “providencial coluna do meio” que na prática pouca ou nenhuma diferença representou) e como tal compartilham as mazelas do racismo e  indicadores sociais muito próximos entre si e igualmente distantes  da população branca. Portanto, de acordo com tais premissas e também oficialmente através do IBGE, entende-se como POPULAÇÃO NEGRA (descendentes de escravizados africanos)   todos que se auto-declaram como pretos e pardos. Então negro é todo aquele que faz parte da população negra, e não apenas os que parecem africanos (os pretos). Mais recentemente a ONU passou a adotar em sua redação oficial o termo AFRODESCENDENTE  em substituição a NEGRO. O termo retira a carga “racializante” e elimina as confusões entre cor e origem bem como contempla a situação da alta miscigenação na  diáspora africana.

Isso posto e compreendido, permite avançarmos no tema central, os movimentos de resistência e combate ao racismo e as desigualdades sociais e econômicas advindas do processo sócio-histórico baseado no mesmo.

Grupos negros de resistência e ação contra a escravidão e vilipêndio das coisas da cultura trazida pelos diversos povos africanos escravizados e traficados para cá sempre existiram (vide a história dos mocambos e quilombos, dos capoeiras, da religiosidade de matriz africana).  Mais tarde viriam a se juntar (pelo menos parcialmente) a esses insurgentes  naturais, outros grupos majoritariamente não-negros como os abolicionistas. Houve também uma movimentação dos chamados “homens de cor” (em geral miscigenados livres e libertos bem posicionados socialmente) contra o preconceito e a discriminação contra eles ( no entanto sem maiores preocupações com relação aos ainda escravizados…).  O aparecimento do que entendemos hoje por “movimentos negros” começou a se dar após a abolição,  com paradigmas e demandas que foram evoluindo ao longo do tempo .

Iniciou-se com a “guarda negra” que era uma organização paramilitar criada entre a abolição e o final do império para “defender” a Princesa Isabel “a redentora”  e a monarquia, em uma situação um tanto quanto paradoxal…  . Na sequência começaram a surgir os “clubes negros”, cujo paradigma era mais sócio-recreativo, bem como a imprensa negra. Nos anos 30 do séc. XX na esteira dos movimentos influenciados pelas ideologias totalitaristas surgia a FNB – Frente Negra Brasileira, cujo paradigma era baseado na  auto-disciplina, emponderamento,  melhora do conceito do negro na sociedade e participação política (foi proscrita por Vargas em 1937). Na década de 30 também surgia uma movimentação acadêmica (praticamente toda branca) em torno de estudos afrobrasileiros e o início da organização política dos afro-religiosos.

Nos anos 40 ocorreram experiências como o TEN – Teatro Experimental do Negro, criado por Abdias do Nascimento, ou ainda o I Congresso do Negro Brasileiro em 1949/1950. Nos anos 60 e 70 em plena ditadura militar (obviamente com a repressão as atividades políticas não interessantes ao regime)  o que se tinha era um movimento estético, musical e de agrupamento social muito forte influenciado sobretudo pelos movimentos norte-americanos de afirmação. É apenas em 1978 com o início da abertura que surgiram os primeiros movimentos negros  “modernos” .

A partir do centenário da abolição em 1988 houve uma grande disseminação de grupos de “Consciência Negra”, bem como iniciou-se uma forte integração entre as diversas vertentes de resistência e negritude (Cultural, Política & Conscientização e Afro-religiosa).

Movimentos negros,  a abrangência

É portanto a partir desse contexto e premissas, que temos os atuais movimentos negros. Que são grupos de estudo, conscientização e atuação prática, podendo ser entidades formalizadas ou grupos informais. Além disso há os ativistas independentes (também conhecido por “negros em movimento”) que apesar de partilharem a causa e as premissas, não estão vinculados a uma entidade formalizada ou grupo.

Mais recentemente, na esteira da INTERNET, surgiram os ativistas e os grupos virtuais.  A noção da abrangência dos movimentos negros fica mais nítida quando ampliamos o conceito para movimentos de negritude. Isso inclui as vertentes de resistência negra que normalmente não se colocam como “movimento negro”  mas dentro de suas especificidades lutam pela preservação e valorização de elementos da cultura negra e se aliam em mão dupla, sobrepondo e sendo sobrepostos por integrantes dos movimentos negros .

Conscientização & Política                Cultura                      Religiosidade

  • Consciência negra                   Capoeira                  Matriz africana
  • Mulheres negras                      Folclore                    Negritude Cristã  ecumênica
  • Acadêmica                                 Blocos afro              Pastorais de negritude
  • Quilombola                                Hip-Hop                   Movimento negro evangélico
  • Imprensa negra                        Samba
  • Movimentos partidários

Em praticamente todos esses grupos  há o entendimento generalizado que o objetivo principal da causa é a justa integração do negro na sociedade (sócio-econômica, estética e cultural). O foco é o combate às discriminações e a desigualdade motivada por racismo e intolerância.  Entende-se por negro o amplo espectro afrodescendente exposto no início. Via de regra a integração e as alianças com brancos são bem-vindas e se crê  que o racismo e a intolerância são um problema de toda a sociedade e não apenas dos negros.  Sendo assim,  tais grupos (a exeção de parcelas dos movimentos de mulheres que defendem a “endogamia compulsória”, de alguns blocos afros que até coerentemente exigem visível afrodescendência dos integrantes e de alguns   grupos de RAP “de raiz” que tem uma crítica mais ácida), são  menos utópicos, menos radicais e mais pragmáticos.

Nesse sentido, há a  consciência generalizada de que formamos um país multi-racial e multi-cultural.  Em que pese o contexto histórico negativo, a alta miscigenação física e cultural é uma realidade (embora não tenha alterado significativamente os indicadores sociais da população negra, nem a discriminação). Miscigenação essa que hoje ocorre naturalmente, sendo vistas como inviáveis ou desnecessárias, as movimentações massivas no sentindo contrário (repudiada obviamente a apologia à miscigenação como “meta” e ferramenta de branqueamento nacional, ou  o uso meta-racista dado pelos neo-democratas-raciais).

Temas como endogamia (relacionamento exclusivo dentro do mesmo grupo “racial”) são vistos pelos ativistas de movimentos negros como DIREITO, não OBRIGAÇÃO. O afrocentrismo (foco extremado na África antiga como principal contribuidora para a civilização mundial), panafricanismo (a necessidade ou visão de uma natural fraternidade mundial entre os africanos e entre africanos e afrodescendentes), enfrentamentos vigorosos (ao estilo dos “panteras negras”) apesar de considerados, não são assumidos como de “vital importância”  ou prioritários para a causa negra brasileira. O que se busca é basicamente a integração social justa em todos os aspectos  e sem radicalismos.

Movimentos pretos, e a radicalização 

Apesar de geralmente não se identificarem como “movimentos pretos”  e seus   adeptos por vezes estarem “dentro” de movimentos autointitulados negros, os termos preto/preta  são muito recorrentes no discurso dos que apesar de também partilharem da causa geral, que é o combate ao racismo,  o fazem a partir de uma  visão muito menos abrangente e de forma particularmente radicalizada .

Os adeptos de “movimento preto” tem o fenótipo padrão africano como delimitador e a base de suas ideologias e atuações,  reforçam a confusão entre os conceitos de negro e preto, em geral atribuindo a condição de negro apenas aos pretos, abominam a miscigenação (tanto a passada quanto a presente e futura). O tratamento dispensado aos companheiros de luta é “irmão/irmã”, em seus discursos, elementos como a endogamia como obrigação, “família preta”,  “nenhum branco é amigo”,  “povo preto”. Afrocentrismo extremado e panafricanismo se ligam  à  admiração por lideranças internacionais  mais radicais como Malcolm X,  os ” Black Panthers” , Marcus Garvey… . Para os mais ligados ao Reggae Roots, linkado à filosofia/religião Rastafári, são sempre lembrados  o Imperador Hailé Selassié  e Bob Marley (e é interessante destacar mais um paradoxo,  já que Bob Marley era filho de um marinheiro inglês branco e gostava de dizer que “não era preto nem branco”).

Outro ponto recorrente é a aspiração por um “Partido negro” (ou melhor…, preto). Várias foram as tentativas frustradas em se criar um partido assim. Das recentes,a mais notória  é a do PPPomar – Partido Popular Poder Para a Maioria (2001),  iniciativa do Rapper MV Bill  e de Celso Atahyde, que com o amadurecimento, flexibilizaram o discurso, retirando o foco direto da “questão preta” e redirecionando de forma mais abrangente e prática para a questão das favelas e “guetos” negros criando a CUFA-Central Única das Favelas, alcançando espaço na mídia e reconhecimento público.

Nos “movimentos pretos”, há também quem mova campanhas contra a utilização do termo negro (pela sua origem depreciativa) e a favor da sua substituição pelo termo preto (aplicável pelo menos no contexto brasileiro à menos de 10% da população…). “Tiro no pé”, pois desconsidera assim a vantagem estratégica do agrupamento político enquanto negros ou para usar termo mais recente e apropriado, afrodescendentes, formando maioria estatística da população, coisa de 52%.

Do ponto de vista religioso, para tais coletivos “pretos” é visto como preferível a adoção de vias minoritárias extremas e não raro autosegregantes, a partir de paradigmas afrocentristas que remetem as origens hebraicas (Rastafári, Igreja preta, etc…) ou mesmo pela conversão à fé islâmica (opção afirmativa popular entre os afroamericanos na época de Malcolm X e de seus admiradores). Por diversos motivos, a opção pela religiosidade de matriz africana como o Candomblé ou a Umbanda não é em geral considerada interessante, um deles é por não serem vistas como politizantes, aguerridas/revolucionárias, além da questão do sincretismo da umbanda e da grande adesão de pessoas “brancas” (incluindo muitos sacerdotes) .

Nesse contexto, a endogamia, o discurso anti-miscigenação, o de “emponderamento preto” nos moldes mais radicais, o protagonismo exclusivo do “povo preto” na luta (com a declaração de desconfiança generalizada e a não visualização/aceitação de brancos ou miscigenados como aliados de valor), auto-determinação e auto-representação, bem como, o “amor afrocentado”, e a luta contra a “apropriação cultural”  se tornam “bandeiras” prioritárias para os que  enxergam a questão por tal viés.

Ainda na questão da endogamia (inclusive econômica), muitos se apoiam nas práticas norte-americanas como exemplos “desejáveis”, mas esquecem de contextualizar a questão,  a história afroamericana  tem muitas diferenças da afrobrasileira…, lá a miscigenação não foi usada como instrumento de colonização e portanto pouco ocorreu.  O racismo violento e declarado também a estigmatizou para os dois lados. Outro fato é que eles tiveram emancipação e não abolição pura e simples como no Brasil, o que fez com que a evolução sócio-econômica tomasse outro rumo. Finalmente, por lá tiveram por muito tempo um regime oficial de segregação, com o pretenso  “separated but equal” (separados mais iguais), faculdades , igrejas, empresas, bairros “nobres”, etc… completamente negros, lá existem desde o séc. XIX.

Tudo isso resultou em uma endogamia inicialmente forçada e a criação de uma cultura e condições que conduziram a uma “naturalização”  do comportamento,  mesmo assim, não impediu que após o  fim da segregação oficial e o inicio da convivência “igualitária”  entre negros e brancos em todas as camadas sociais, alguma miscigenação e fim de nichos econômicos ocorresse, afinal ela é normal em sociedades multi-raciais (principalmente quando não há restrições oficiais ou sócio-econômicas).

Por tal não é possível simplesmente desejar transpor essa situação e cultura endogâmica norte-americana para o Brasil, há que se relativizar e entender que  as diferenças são plenamente justificáveis.

Não totalmente mas com grande influência no discurso de boa parte das integrantes dos movimentos de mulheres negras (e das “independentes”), surge a questão da endogamia e  “família preta” como bandeira de luta.

É importante frisar que essa demanda e questionamento das ativistas dos movimentos de mulheres negras, é vista como legítima pela maioria dos ativistas dos movimentos negros, se entendida como coisa a ser fomentada e realizável de forma  natural  ou  mesmo como “opção política”  para os que assim desejarem e tiverem as condições favoráveis,  deixa de sê-lo quando colocada como “obrigação” ou “imposição”  que se não seguida ou não absolutamente apoiada, “transforma” os divergentes em “inimigos” , “vendidos”, “não-irmãos” e uma série de outros adjetivos nada positivos.

As reclamações sobre a “solidão” da mulher negra (em especial a preta), a “vilanização” dos homens negros não-exclusivamente-endogâmicos (em especial os ativistas), são via de regra emocionalmente carregadas, baseadas majoritariamente em experiências e mágoas  pessoais ou de observação “empírica” em seu campo de visão limitado, raramente admitindo visões mais amplas, sistematizadas ou relativizadas de toda a questão .

Tais posicionamentos tem causado grandes polêmicas e “fogo amigo” entre as ativistas de pensamento mais radical ( apoiadas pelos alinhados ao “movimento preto”) e  os homens ativistas dos movimentos negros,  que em geral  discordantes da ideia de “endogamia compulsória” .

Conforme o lógico e esperado, o discurso radicalizado e nada diplomático, além de não sensibilizar quem poderia ser conscientizado, provoca reações contrárias, que de maneira geral são extremamente desinteressantes para a causa negra, dando margem para acusações por parte dos “brancos” , principalmente dos  meta-racistas e ne0-democratas-raciais com alto apoio da mídia reacionária,  de “racismo ao contrário”,segregacionismo,”fascismo”, desequilíbrio, “complexo”, etc.  Isso tudo fechando portas de oportunização e diálogo, além das desgastantes escaramuças entre “negros” e  “pretos” que fatalmente acabam descambando para os ataques pessoais entre os defensores das correntes antagônicas.

Principalmente o novo ativista deve pesar bem, quais são os seus objetivos e qual linha vai  majoritariamente adotar, a fim de se tornar produtivo em sua missão de conscientização e busca de resultados efetivos para a verdadeira emancipação da população afrobrasileira,  parcimônia  e equilíbrio podem ser o grande diferencial.


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“jornalismo” com j minúsculo

"jornalismo de esgoto", imagem "pinçada" do excelente blog do Celso Jardim

Na blogosfera encontramos de tudo, conteúdo bom, conteúdo ruim, ideologias das mais diversas e práticas idem, amadores com mídia própria e profissionais da comunicação livres da “mordaça editorial”  a que estão sujeitos nos grandes meios de comunicação  e outros que apenas “assinam”  blogs atrelados,  em que continuam a fazer o jogo dos patrões midiáticos.

Porém, o que mais causa ojeriza, é quando profissionais que se intitulam Jornalistas (e por formação ou realidade profissional até o são), não aplicam ou respeitam as regras mais elementares de publicação noticiosa ou mesmo de opinião…, afinal, o blog (queira ou não) é um canal de comunicação, que em tese está sujeito a regras  básicas de publicação (como por exemplo  o direito de resposta) e tanto faz que seja um blog “pessoal”  ou “de opinião”,  sendo inclusive  passível de responsabilização legal .

Todo esse preâmbulo foi para poder comentar um caso de “jornalismo com j minúsculo” ocorrido recentemente e ao qual testemunhei e interagi  enquanto reclamante ;  o  jornalista  Paulo Roberto Lopes,  “ateu militante” (e até ai nada de mais) possui um blog “pessoal” e  que tem aparentemente a principal função de perseguir e divulgar notícias que de alguma forma sejam negativas à religiões e religiosos (e nisso é “democratico”, pois todas e todos são atacados indistintamente);  resolveu variar um pouco e mudou “o alvo” para a causa negra e seus ativistas,  publicando matéria em que uma modelo negra, se diz vítima de preconceito e  ameaças por parte de pessoas e ativistas negros de todo o Brasil, após ter obtido destaque em matéria em publicações negras de alcance e grande repercussão  nacional (Revista Raça Brasil e  Portal Geledés) alegando que o motivo é o fato de ser casada com um homem branco e por ser contra cotas raciais… e que tais ativistas seriam contra a miscigenação e casamentos interraciais  (o que é um argumento claramente falacioso para quem conhece minimamente as premissas dos movimentos de negritude, dos ativistas  e a sua configuração majoritária).

Acontece que,  toda a reação contra a modelo (e sem qualquer conotação “racista” vinda justamente de quem combate o racismo), se deu na realidade após o acesso massivo de pessoas negras e ativistas ao seu site divulgado na matéria, e a constatação pelas mesmas que a modelo expunha ideias equivocadas sobre a temática negra, racismo e ações afirmativas,  se colocando completamente na contra-mão das premissas dos movimentos de negritude e pessoas engajadas independentemente na causa negra; contribuiu para isso, manifestações e o comportamento  arrogante e antipático  da mesma em grupos de discussão temática no facebook, como ao se intitular nas palavras dela ” a UNICA e Guerreira MULHER NEGRA que vai vencer todos os males e preconceitos sociais que existem no Brasil e fora dele !! ”  .

Além dos protestos diretos contra os posicionamentos da modelo, ocorreram também protestos contras as publicações que lhe deram amplo espaço midiático sem verificar antes o seu conteúdo  ideológico e as conseqüências negativas para a causa negra, de tal divulgação.

O jornalista, alheio ao meio e à temática (bem como ao contexto), se “solidarizou” com a versão exposta exclusivamente pela jovem,  publicou trechos de protestos com pessoas identificadas… e não satisfeito, do alto de seu total desconhecimento na temática, ainda publicou : “As manifestações de racismo contra Livia estão sendo feitas a propósito de uma reportagem sobre ela no site da revista Raça Brasil. ” (prática “inversionista” comum as pessoas contrárias  às ações afirmativas de recorte racial ) ; não bastante, acrescentou inadequado “lembrete” sobre a lei caó (que trata do crime de racismo) e bloqueou comentários na matéria, impedindo assim o contraditório.

Instado por email, continuou inarredável em oferecer a oportunidade do contraditório, ora solicitando detalhamentos e exposições completamente desnecessárias para tal,  ora reclamando falta de “concisão” e objetividade (uma forma de tentar “justificar” e manter seu posicionamento obviamente travado com a questão); penso que seria excelente a manifestação da COJIRA (Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial), de veículos da imprensa negra e de todos que desaprovam esse tipo de comportamento vindo de um jornalista; bem, está dado o recado.

link para a matéria citada: http://www.paulopes.com.br/2011/09/negra-casada-com-branca-diz-ser-vitima.html