Blog do Juarez

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Anacronismo & “anacrofobia”

Essa fobia é instalada na mente dos jovens estudantes de história ainda na graduação, por professores “old school” muito aferrados a episteme ortodoxa e circunscrita ao campo. Não se está retirando a importância de evitar o anacronismo, mas sim clamando um real entendimento do que vem a ser de fato anacronismo e os seus limites na escrita historiográfica.

O anacronismo é categoria tomada do campo das artes, consiste basicamente em inserir em uma representação recortada do passado, elementos que eram estranhos ao recorte. Isso migrado para a história, inclui “levar ao passado” termos e categorias de pensamento do presente   ou somente a partir deles realizar as análises cabíveis.

José D’Assunção Barros, grande estudioso da teoria historiografica afirma sobre anacronismo :

Muitas vezes os historiadores de nosso tempo, que aprendem desde cedo na Academia que o maior pecado para um historiador é o do anacronismo, quase se sentem tentados a mandar confeccionar um manto medieval para depois se encerrarem nos seus gabinetes de estudo com uma roupa apropriada para iniciar uma investigação sobre a ordem medieval dos templários. Não é isto o que os libertará dos riscos do anacronismo, e nem um eventual horror a utilizar categorias teóricas contemporâneas na hora de analisar uma fonte histórica. [..]
O que o historiador não deve fazer de modo algum, com vistas a evitar os riscos do anacronismo, é inadvertidamente projetar categorias de pensamento que são só suas ou de outros homens de sua própria época nas mentes das pessoas de determinada sociedade ou de certo periodo.  [..]

Dito de outra forma, é preciso não confundir o “nivel da análise” com a “realidade das fontes”. O historiador lida, obviamente, com estas duas coisas: com os instrumentos
conceituais de análise, e com uma realidade histórica que ele analisa (o nivel das fontes). Será importante partirmos destas considerações sobre os “dois níveis de conceitos” se quisermos ter uma maior clareza sobre o que é efetivamente o “anacronismo”, sem recairmos inadvertidamente no seu extremo oposto, que é o das distorções causadas pela “fobia do anacronismo”. Há uma diferença de níveis e de natureza teórica entre o uso do conceito de “sistema” ou de “feminismo” para a análise de sociedades antigas, da qual é preciso nos conscientizarmos.
O que é anacronismo? Em primeiro lugar, é preciso não esquecer o já mencionado fato de que o historiador, ao examinar determinada sociedade localizada no passado, está sempre operando (também) com categorias de seu próprio tempo (mesmo que ele não queira). Dai aquela célebre frase de Benedetto Croce, que dizia que “toda história é contemporânea”.
Isto quer dizer que mesmo a História Antiga e a História Medieval são de certo modo histórias contemporâneas, porque são elaboradas pelos historiadores de nosso tempo (e voltadas para leitores de nosso tempo)”. Há uma tensão muito delicada que envolve esta inarredável característica do trabalho historiográfico: por um lado o historiador deve conservar vivamente a consciência de que trabalhará com as categorias de seu próprio tempo, ao nível da análise, mas, por outro lado, deverá evitar que algumas destas categorias ameacem deturpar as suas possibilidades de compreender os homens do passado, seres humanos históricos que tinham as suas próprias categorias de pensamento e de sensibilidade. Estas últimas, obviamente, também serão trabalhadas pelo historiador, mas não como instrumentos para desenvolver a análise, e sim como aquilo mesmo que se analisa. Por exemplo, da mesma forma que os métodos que um historiador emprega serão sempre métodos seus, desenvolvidos na sua própria época, já que ele poderá empregar os recursos da análise semiótica, só desenvolvidos recentemente, para examinar fontes da História Antiga ou Medieval, de igual maneira este mesmo historiador poderá elaborar ou trabalhar com novos conceitos, somente tornados possíveis no seu tempo, para iluminar uma época anterior a sua. Menor problema nestes precisamente os usos de novas técnicas, conceitos e modos de ver uma realidade passada que asseguram que a história de uma determinada época deverá ser sempre recontada. A questão do anacronismo é muitas vezes mal-interpretada, se nos deixamos enredar pelas distorções causadas pela “fobia do anacronismo”. (BARROS, 2018)

Em resumo, o historiador trabalha com as categorias do passado ao nível das fontes, mas pode com razoabilidade em sua análise e para a melhor compreensão dos seus leitores, utilizar categorias atuais que se acoplem ou aproximem em sentido ao que se observa do passado. Por exemplo, não vamos “colocar na boca” de um personagem do passado o termo “hanseníase” quando a categoria corrente no recorte e nas fontes aparece como “lepra”, mas também não vamos usar só esse termo nas nossas análises e observações próprias, pois era a categoria na época.

Referência

BARROS, D’Assunção José. A construção da teoria nas ciências humanas. Vozes. 2018. disponível em < https://books.google.com.br/books?id=FJZNDwAAQBAJ&printsec=frontcover&hl=pt-BR&source=gbs_ge_summary_r&cad=0#v=onepage&q&f=false >


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Os “super parágrafos”

Faz tempo que isso ocorre. Eventualmente, ao revisitar antigos textos meus, me dá angústia e acabo repontuando tudo. O motivo é que até meados de 2015 eu simplesmente não tinha percebido que escrevia mais ou menos como falava, ou seja, em grandes blocos de pensamento concatenado, sem parágrafos intermediários. O “parágrafo” para mim era todo o “grande bloco lógico”…, que podia ultrapassar fácil as 14 linhas, quando muito usava ponto e vírgula quando entendia que havia uma pequena quebra de fluxo dentro do “blocão”.

Não sei se muita gente percebia e “relevava”, pois sempre me foi dito que eu “escrevia bem”, ou se igual a mim, muita gente lia “de carreirinha” em “blocões”, não fazendo muita diferença a divisão do bloco de texto em parágrafos “mais contidos”. Isso foi até a minha qualificação do mestrado, quando um dos membros da banca, não sei se incumbido pelos demais, o Prof. Júlio Claudio, hoje um bom amigo, com muita elegância, inclusive me comparando à grande escritor que “estilosamente” também abusava de “super parágrafos”, me alertou sobre o problema.

E ai entra uma outra figura de suma importância, o Prof. Odenildo Sena, emérito da UFAM e autor do livro abaixo, ao qual recorri:

O livro tem 4 capítulos, 3 deles dedicados ao parágrafo…, ou seja, fica claro que a boa escrita passa pela sua compreensão e boa utilização. O que não atrapalha em nada o “estilo” peculiar de cada escritor, mas facilita a vida do leitor, e muito… .

O que posso dizer é que é nítida a diferença entre meus textos antigos e os atuais. Se ainda conservo alguns vícios estruturais e ortográficos e dou algum trabalho para revisores, ao menos para os que lêem meus textos “crus”, como esse, a coisa parece ter melhorado.

Interessante é que a nova versão do WordPress, essa que estou utilizando, incluiu a “escrita em blocos”, pela qual se faz a escrita em blocos de ideias, o que seria o “grande parágrafo”, que se encerra com um “enter”. O bloco pode ser mudado integralmente de posição no texto, subindo ou baixando. Isso também ajuda bastante.

Grato aos mestres pelas dicas. E lembrem-se caros leitores que também escrevem, atenção aos parágrafos…


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DIA DO JORNALISTA

Um dia já quis ser jornalista, era junto com engenharia eletrônica uma das minhas intenções vestibulares. Ambas faculdades diurnas, impossíveis para o militar da época, acabaram perdendo para a “nascente” e noturna processamento de dados.

Quase viro pai de jornalista, mas esse destino também foi desviado… Ao longo do tempo ao invés de “noticieiro” acabei virando “noticiado”, sempre às voltas com esses profissionais. Em comum o gosto pela escrita e divulgação, as vezes praticada no meu blog, que não é noticioso, apenas pessoal/reflexivo, outras vezes, ai sim em um verdadeiro veículo de imprensa, se não na atividade fim jornalística, bem ali do lado, nas tradicionais colunas que compartilham o mesmo leitor das notícias.

Por tudo isso e por ávido consumidor e admirador do trabalho desses importantes profissionais da comunicação social, do presente e do passado, afinal, enquanto historiador as notícias do passado, são para mim matéria prima…, felicito à tod@s jornalistas no seu dia, especialmente aos meus conhecidos e conhecidas. PARABÉNS! (Não vou marcar ninguém pois é muita gente, sintam -se tod@s virtualmente abraçad@s)


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A palavra, a leitura e a briga

É impressionante como surgem verdadeiras brigas por conta de palavras mal colocadas ou gente que não conhecendo todos os sentidos que uma palavra pode ter variando o contexto em que é empregada, faz “leitura equivocada” do que o interlocutor está dizendo, chegando ao cúmulo de se entender exatamente o contrário, até partindo para a “briga”.

O uso da palavra errada em tese é um descuido mais fácil de identificar, pois ou a palavra não faz sentido no assunto ou conduz a um entendimento que “não bate” com o perfil de quem a está utilizando. Daí a grande importância de “saber com quem se está falando” pois se conhecendo o histórico ou perfil (o lugar de fala) de quem está dizendo algo, facilita ver que houve apenas algum equívoco no termo empregado, o que deu margem para interpretação igualmente equivocada da mensagem.

Reforçando, antes de se “indignar loucamente” e partir para uma furiosa contestação de algo dito, veja quem é a pessoa que está dizendo aquilo, se for uma discussão virtual em rede social, veja o perfil e o tipo de postagens, isso pode poupar umas vergonhas e principalmente injustiças.

O “vocabulário pobre” é outro grande problema que amplifica a dificuldade de interpretação. Ele vem da falta de leituras e principalmente da falta de leituras de forma mais multidisciplinar, ou seja, fora da área de atuação profissional ou de interesses diretos.

Daí que é importante ter alguma noção de jargões outros, ou ter a paciência e prudência de ir ao velho dicionário ou ao Google ver se há algum outro entendimento possível para aquela palavra ou expressão que lhe causou estranheza ou “indignação”, antes de partir para qualquer resposta. Cuidado idêntico na hora de escrever ao pintar aquela dúvida se o termo que se está empregando é o correto e não dá grande margem para má interpretação.

Há porém uma outra questão, pessoas com dificuldades cognitivas, em geral também tem “preguiça” de ler, de buscar outras interpretações possíveis para além do próprio repertório. Com isso ficam limitadas as próprias interpretações da realidade e impermeáveis à argumentações outras.

Paradoxalmente essa característica leva a uma certa “arrogância”, um “autoritarismo da ignorância”, que não apenas dificulta diálogos, como direciona para uma manifestação belicosa, agressiva e intransigente. Dificilmente se consegue fazer com que esse tipo pare, respire e busque ou leia alguma referência que esteja sendo oferecida. A “autoestima brucutu” aliada à dificuldade cognitiva e preguiça não permitem.


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Convergências, divergências e comunicação.

Ontem, em um desses papos de bar com gente engajada, coloquei que costumo sofrer nas redes e as vezes em papos não virtuais, incompreensão e até hostilidade desnecessária e desproporcional, principalmente vindo de ativistas mais radicais ou simpatizantes de pautas e causas em que não sou do recorte.

Na minha visão, isso vinha ocorrendo não por divergir ou me opor às ideias centrais (o que rarissimamente é o caso) ou desconhecer/minorar dados oferecidos por tais pessoas, muito menos por “ser anticausas” quaisquer, e sim por pedir ampliação dos espectros de problematização e por repudiar declarações com “verdades únicas e absolutas”, entendendo que a essa relativização e concessões elas não estão abertas. Ou seja, o que venho defendendo é a também consideração do não hegemônico e uma mínima relativização, já que nada de fato é 100% como as vezes insistem em declarar.

É preciso deixar claro que vejo como óbvio que exceção não é regra, nunca pretendi e nem vejo como isso possa ser possível colocar honestamente, apesar que, omiti-la ou desconsidera-la na sua proporção, completamente em favor de uma visão “monolítica” sobre a questão, não me parece honesto nem justo.

Bem, voltando à conversa, o “diagnóstico” foi de uma questão estrutural de comunicação equivocada. Ou seja, que a forma como normalmente coloco a divergência parcial, apesar da grande convergência e não intenção de minoração das premissas alheias, faz as pessoas enxergarem as manifestações como se eu estivesse tentando “negar”,”destruir”, “desconsiderar” e “inverter” a lógica do majoritário, pretendendo usar a “exceção” como se regra fosse.

O entendimento geral foi de que as interpretações e reações negativas vem do uso inadequado das partículas de conexão entre a questão hegemônica observada (e não negada, mas assim entendido por quem lê ou ouve) e a proposta de ampliação que coloco. A utilização por exemplo do “mas”, “só que”, “no entanto”, que no entendimento da geral configuraria uma fala de “invalidação” ou “exclusão” da grande premissa.

Em primeira mão admito e concordo que o problema de fato está bem ai mesmo. Colocando aqui inclusive para socializar com quem tem ou quer evitar o mesmo problema. Vejamos:

Fica de fato claro que a conjunção “mas” indica uma oposição ou contraste da ideia contida no pós partícula em relação à prévia. Do mesmo modo o “Só que” ou outras similares:

Correto portanto o colocado pelos colegas de papo, aliás, uma coisa básica da norma culta…. Temos então sintaticamente definida uma oposição, que tende a ser primariamente entendida pelo interlocutor como uma real “contrariedade plena” às suas premissas, mesmo que não se tenha de fato essa plena oposição, apenas o desejo de uma não limitação a tais premissas.

Então o que fazer para não se expressar em sentido contrário ao que se pretende ? Talvez a forma mais imediata seja cambiando para a conjunção concessiva, que opõe contraste, sem contudo definir “impedimento” à primeira ideia, pelo contrário, indicando um complemento pela segunda:

Cabem além dessas, por exemplo, o “apesar que”, “apesar de” ou “ainda que”… , as quais passarei a priorizar o emprego.

Por outro lado, seria interessante que quem expõe uma problematização ou defende uma ideia EVITASSE colocá-la de forma ABSOLUTA, como se não houvesse exceções ou contradições possíveis, isso se dá pela utilização de construções utilizando especialmente dois pronomes indefinidos, TODO(A)(S) e NENHUM(A):

Essas “totalidade afirmativas” são as famigeradas GENERALIZAÇÕES, o que é essencialmente IMPRECISO, pois podem levar a afirmações falaciosas, já que no mais das vezes não existe a INFALIBILIDADE da afirmação, ou seja, mesmo que majoritariamente seja verdade, não reflete todas as possibilidades dela.

Se for para usar pronomes indefinidos que se use “VÁRIO(A)(S)” “MUITO(A)S” “ALGUM(A)(S)” ou “POUC(O)S” .

Enfim, é sempre bom trocar ideias RESPEITOSAMENTE, ouvir críticas, acatá-las quando pertinentes, buscar fundamentação e quando for o caso rever conceitos e práticas.