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O retorno dos anticotas: agora contra as mulheres no parlamento

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A nova frente de combate dos anticotas, a reserva de vagas para mulheres no poder legislativo.

Depois de mais de uma década de acaloradas discussões e após a acachapante derrota impingida pelos defensores das cotas e o STF aos anticotistas e sua argumentação falaciosa, “desapareceu” (ou pelo menos se arrefeceu por um tempo) a disposição dos mesmos em externar seus argumentos antinclusivos, porém…, eis que retornam com força total por conta da campanha nacional por mais mulheres na política.

Repetindo exatamente os mesmos argumentos (e alguns novos, como “interesses individuais oportunistas” e “campanha casuística” ), e talvez imaginando se tratar de “outra coisa” ou “outra causa”, os anticotas demonstram não terem entendido realmente os princípios que norteiam as Ações Afirmativas (AA), a saber:

a) Corrigir distorções e desigualdades históricas e culturalmente arraigadas na sociedade

b) AA não tem nada a ver com “capacidade” pessoal ou coletiva, mas com oportunidades efetivas

c) Cotas são apenas uma das formas de AA, e visam corrigir a SUBREPRESENTAÇÃO dos recortes tradicionalmente prejudicados, em toda e qualquer situação em que se fizerem necessárias.

Ao julgar as ações relacionadas as cotas raciais e sócio-raciais e considerá-las constitucionais, o STF entendeu procedente a ideia geral de Ação Afirmativa por recorte (desbancando de vez o surrado bordão do “todos são iguais perante a lei” do art. 5o da CF, privilegiando o art. 3o “Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: I – construir uma sociedade livre, justa e solidária; II – garantir o desenvolvimento nacional; III – erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; IV – promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.”), o que significa que apesar do amparo legal direto para negros e indígenas na questão universitária, o mesmo princípio básico é válido para outras Ações Afirmativas, em outras áreas e para outros grupos em situação análoga de subrepresentação, isso é exatamente o caso das mulheres no parlamento, bem como de outros recortes afirmáveis.

O ressurgimento do discurso anticotas (encampado inclusive por algumas mulheres, assim como o foi também por alguns negros no caso das cotas universitárias) é anacrônico e  “zumbi” (está morto, porém continua se movimentando, como se parte da vida ainda fizesse), vai fazer algum barulho pelos próximos tempos, mas está fadado a mais uma magnífica derrota… .

Apesar de em contexto diferente, apropriado lembrar uma frase do primeiro discurso de posse de Barack Obama ” O que os cínicos não entendem é que o chão se moveu sob eles”,  não será portanto fácil manter por muito tempo os privilégios e desigualdades de nossa sociedade.


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Quando os Antropólogos enxergam além de índios…

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Quero de antemão esclarecer que a presente postagem não é um libelo contra os antropólogos em geral,  nem uma crítica negativa, muito pelo contrário,  é uma manifestação de reconhecimento  de que alguns (talvez muitos), não estejam “travados” nos temas comuns e majoritários da classe e  estejam verdadeiramente imbuídos da essência não apenas da Ciência Antropológica, mas das ciências em geral…, que é grossus modus, entender o homem em toda a sua diversidade e complexidade e os ambientes e conjunturas no qual está ou esteve inserido, relacionado ou pode vir a se inserir, devolvendo isso em forma de sistematizações, tecnologias, e estímulo a reflexões e práticas que venham a beneficiar e desenvolver a humanidade (e obviamente todo o sistema envolvente em que ela está inserida e necessita para sobreviver).

O motivo da postagem é  devido a uma bela entrevista que li há pouco, sob o título de A escravidão venceu no Brasil. Nunca foi abolida, do reconhecido Antropólogo brasileiro, Eduardo Viveiros de Castro ( com o qual nunca tive contato através de suas obras, nem dos canais acadêmicos, mas através  dessa maravilha democratizadora que coloca “in touch” gente “comum” com sumidades e celebridades antes pouco acessíveis, que são as redes sociais, acompanhando e eventualmente interagindo pelo Twitter não apenas com ele, mas diversos outr@s intelectuais respeitadíssimos que se manifestam em rede aberta ).

Importante também frisar que apesar do título do post, aparentemente um tanto generalizante e até mesmo “belicoso”, reconhecemos que há sim muitos antropólogos (não obstante estar havendo inclusão de pesquisadores indígenas) que escapam da tradicional tendência de estudar quase que exclusivamente o homem fora da própria sociedade do pesquisador (branco), aquela coisa meio “Indiana Jones” ou “Hiram Bingham” de estar sempre atrás de povos “exóticos”, “distantes”, quiça “alienígenas” apesar de muitas vezes nativos; em missão que na observação leiga (pelo menos do senso comum e dos que estão extramuros da academia especializada) por vezes parece “inconciliavelmente” oposta à atribuída aos Sociólogos e outros ramos das Ciências Sociais, que seriam então os incumbidos de “olhar para dentro” da própria sociedade do pesquisador (imaginando também de acordo com o senso comum que as “sociedades envolvidas” seriam então um “universo completamente à parte” da sociedade envolvente, o que obviamente é falacioso) . Este último bloco de observações leva em conta também o fato de eu estar situado na região amazônica…, obviamente não é uma realidade absoluta que os antropólogos amazônidas não enxerguem nada além de indígenas e questões ambientais (em um universo de questões tão diversas), mas que parece, parece… .

Preâmbulo longo para um texto que deve se encerrar pouco depois do mesmo, o que queria dizer mesmo, é que é muito interessante ver um Antropólogo moderno e que não está no reduzido rol dos popularmente conhecidos por suas intervenções midiáticas em debates recentes da temática racial [notadamente a afrobrasileira e cotas universitárias], apenas para citar os mais conhecidos como Munanga, Carvalho, Segato, Sansone  de um lado e Fry,  Maggie, Schwarcz, Lewgoy ,Durham do outro), trabalhando em texto questões fundantes como a relação D. Pedro II/ Gobineau, a política nacional de branqueamento, mentalidade/cultura escravocrata, bem como manifestações populares, juventude, nova classe média, redes sociais… e inclusive índios (mas não tão somente). Aproveito para indicar no seguinte link  um artigo bem interessante sobre essa questão da “má vontade antropológica”  para com algumas questões nacionais também relevantes.

Como acompanho Viveiros de Castro no Twitter, sei que é prática comum dele refletir  e se manifestar sobre outros assuntos de relevância social, política, nacional e internacional, seria muito bom que outros Antropólogos (menos famosos) e principalmente os amazônidas, se colocassem nos debates e questões de forma mais ampla e diversa (fomentando isso inclusive dentro das linhas de pesquisa de seus PPGs), enxergando TAMBÉM para além (das importantes, justas  e muito válidas, mas não únicas) questões indígenas.


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UFAM inova e lança cotas raciais em Mestrados.

vitória-cotasPelo menos dois dos programas de pós-graduação da UFAM – Universidade Federal do Amazonas  (História e Antropologia Social), lançaram editais que contemplam ações afirmativas para pretos, pardos e indígenas, seguindo uma tendência que já vinha sendo adotada há tempos  nas graduações de algumas universidades federais (mesmo antes de se tornar lei apenas no caso da graduação, com a decisão do STF e a aprovação e sanção de Projetos que ficaram em discussão por quase uma década).

O pioneirismo se deve a serem programas de áreas altamente envolvidas com o estudo das temática étnico-raciais, incluindo ai as desigualdades em todas as esferas da sociedade, na realidade a cota para indígenas já existia em um dos cursos, a novidade foi a inclusão de pretos e pardos;  no Mestrado em História há apenas a solicitação de autodeclaração e de interesse em concorrer pela Ação Afirmativa no formulário de inscrição,  já no curso da Antropologia há ainda a exigência de uma declaração de comunidade ou entidade representativa (a intenção parece ser mais  que fazer “reconhecimento” da pertença do candidato,  obter um reconhecimento do compromisso e reconhecimento social do grupo que representa, e que provavelmente se refletirá no retorno em pesquisas que favoreçam e emponderem  a diversidade) .

A pós-graduação stricto sensu, tem sido tradicionalmente para os afrodescendentes um gargalo ainda pior que o acesso à graduação, convém nesse sentido ler o excelente artigo de CUNHA JUNIOR sobre isso ,  portanto essa iniciativa é muito importante e significativa em se tratando do mês da consciência negra…

Abaixo trechos dos editais :

AA-na-pos-UFAM2AA-na-pos-UFAM1AA-na-pos-UFAM3PS. as inscrições de História se encerraram hoje 04/11 e a de Antropologia amanhã cedo.