Blog do Juarez

Um espaço SELF-MEDIA


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“De um historiador para outro”, ou jornalistas que escrevem história popular.

Com o jornalista/escritor de história Eduardo “Peninha” Bueno, em Florianópolis.

Aproveitando a data histórica do 7 de setembro e os já tradicionais “chororôs” de historiadores acadêmicos contra jornalistas históricos, vou dar meu pitaco.

Eu acho que independente de ser jornalista ou não, o desconhecimento de História é que é problema. Por outro lado, não creio que apenas historiadores acadêmicos tenham “lugar de fala” sobre questões históricas , tem muita gente que gosta de História, pesquisa independentemente e tem muita moral para dar pitaco, aliás, as vezes com muito mais propriedade e sucesso.

O povo até gosta de História, mas na perspectiva popular os acadêmicos são “de dar sono”, não tem estilo, não se valem de truques literários, não tratam de passar a ideia principal fluidamente, se travam nos detalhes e nas “citações a cada linha”. Por tal, não é raro que historiadores acadêmicos (parece redundante mas de fato não é) reclamem que livros históricos de jornalistas e outros os deixam ricos e famosos porque vendem muito mais que o de historiadores… . Pela lógica não é difícil imaginar o porque da vantagem né ? 🤷🏿‍♂️ .

Cabe observar que jornalistas históricos ou outros escritores sobre História, exercem ofícios distintos do historiador, embora muitos não entendam assim, os primeiros não estão limitados pelo mesmo compromisso com paradigmas, rigores e métodos que o ofício de historiador exige. Com isso podem criar uma narrativa menos densa, mais fluida e agradável ao grande público, com o consequente guindamento à categoria de “best-sellers” e autores “pop”.

Enquanto historiadores desejamos atingir o povão, mas ficamos em geral “travados” pela episteme e mesmo certa arrogância acadêmica…, logo, nossa produção, é nato-científica, voltada essencialmente para a própria academia e não literatura no sentido estrito da narrativa recreativa. Mesmo quando abrandada para o formato livro ou produzida já com intenção popular, não tem condições de competir nas prateleiras e no gosto popular com o tipo de narrativa realizada com o “estilo pop” dos best-sellers.

Eu particularmente gosto de Jornalismo histórico, desde que conte as histórias com bom nível de honestidade e base… a exemplo do Eduardo “Peninha” Bueno… . Ontem tive a oportunidade de assistir uma palestra dele em Florianópolis, gente… simplesmente sensacional 🤷🏿‍♂️ não à toa ele sempre lembra:

” ‘Istoriador’ com I maiúsculo era minha piada preferencial sobre mim mesmo, só que ela acabou. E me apresentei assim em uma palestra em Parati e, ao terminar, o Eric Hobsbawm falou: ‘A piada é boa, mas você não vai mais poder usá-la porque o autógrafo que vou te dar é um rito de passagem’. E escreveu: ‘De um historiador para outro’. Eu também não me acho historiador, mas não é o que diz o Hobsbawm” (Eduardo Bueno)….🤷🏿‍♂️


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A Semana da Consciência Negra e os Jornalistas

jornalismo e consciencia-negra

Apesar de existir desde a década de 80 (acanhada e lembrada apenas pela militância negra), há coisa de 10 anos a semana da Consciência Negra é pauta notória em toda a imprensa nacional, ganhou força com a lei 10.639/2003 e a inclusão da data comemorativa do 20 de novembro no calendário oficial e em mais de mil municípios e alguns estados com a adoção de feriado.

A ideia central da semana da Consciência Negra é levar as pessoas em geral a visualizar e tentar compreender a questão afrobrasileira em seus mais diversos recortes, História, Presença Demográfica e Cultural, o preconceito e a discriminação sofridos em suas diversas formas (o racismo) e a consequente desigualdade social de origem racial. Também as reivindicações, conquistas e avanços dessa parcela considerável da população e nisso o papel da imprensa e em especial dos jornalistas é crucial.

Ocorre que, entra ano e sai ano, a imprensa (sempre aparentemente interessada e solícita em fazer a cobertura e pautas relacionadas) continua incorrendo em erros primários no trato com os conceitos, terminologia, interpretação de dados e até de direcionamento das entrevistas/matérias.

Em outras palavras, a impressão que se tem é que essas são matérias sempre entregues a novatos, que sem contato prévio com a temática ou o cuidado de tentar buscar informações preliminares confiáveis que os livrem das “armadilhas” comuns ao tratar do tema, acabam por perpetuar os “cacoetes” e “vícios” que retiram precisão ou enfraquecem o objetivo que é informar corretamente os leitores/espectadores.

Para constar segue uma listinha das armadilhas mais comuns…

1- Utilizar o termo negro como sinônimo de preto…, as categorias oficiais de “Raça/Cor” do IBGE são 5 a saber : BRANCA, PRETA, PARDA, AMARELA, INDÍGENA, ou seja, ninguém se autodeclara NEGRO, mas sim PRETO (ou PARDO), ocorre que a soma dos autodeclarados PRETOS e PARDOS forma a chamada POPULAÇÃO NEGRA, é portanto NEGRO(A) todo integrante dessa população (seja preto ou pardo). É um ERRO CRASSO falar em “NEGROS E PARDOS” uma vez que pardos também são negros… o correto portanto é utilizar “PRETOS e PARDOS”.

Outro ponto é a insistência no termo “RAÇA”, quando ele por motivos óbvios é um termo em desuso, uma vez que o conceito de raça biológica caiu e a construção social de raça deve ser desconstruída…, melhor substituir por população ou grupo étnico-racial, apesar disso o termo “RACIAL” permanece válido e não deve ser substituído automaticamente por “ÉTNICO” (Raça e Etnia são conceitos distintos).

2- Ao se cometer o erro acima se inicia uma “bola de neve” de má interpretação em especial das estatísticas…, que vai desde de uma redução da representatividade populacional, até o mascaramento do descompasso da desigualdade ao se visualizar os indicadores relacionados… .

Exemplo prático, a edição de domingo (16 de novembro 2014) do jornal AMAZONAS EM TEMPO, dá praticamente toda a primeira página com manchete “RACISMO, COMO O AMAZONENSE TRATA A QUESTÃO” em arte com destaque e enorme foto. Segue a manchete o que no meio jornalístico é chamado de “LIED” (um pequeno texto que “detalha” um pouco mais a manchete e “adianta” o que esperar do texto principal), em parte desse “LIED” aparece “NO AMAZONAS, DOS 3,82 MILHÕES DE HABITANTES, APENAS 151 MIL SE IDENTIFICAM COMO NEGROS.” .

Ocorre que esses 151 mil ao qual se faz referência é na verdade apenas o número de autodeclarados PRETOS (4,3% da população) no último Censo (2010), para se falar em NEGROS teria que somar esse número ao de PARDOS… ( que no caso do Amazonas se configura aproximadamente 69% da população), ou seja, somando dá coisa de 73%, tecnicamente a população negra do Amazonas seria então de +- 2,9 milhões… .

Bem verdade, que no Amazonas por uma peculiaridade, a grande maioria desses autodeclarados pardos são na realidade de origem indígena, não afro (como de praxe na maioria do país), mas não todos… . O IBGE ainda não distingue “pardos indígenas” de “pardos afros”, mas é possível por extrapolação imaginar que como em todo o Brasil esse percentual seja em média 5 vezes a autodeclaração preta, ou seja, 20% que somados aos 4,3% de pretos autodeclarados no AM daria uma população Negra (ou afrodescendente para usar termo mais moderno e apropriado) equivalente a 1/4 da população total (igual a de brancos e metade da de origem indígena) .

3-Ainda se tratando de Amazonas, outro problema é a insistência em “reduzir” (e as vezes até negar) essa presença negra e sua relevância… . É comum se ver referências ao AM como o estado “mais indígena do Brasil”, ou sobre a “grande população indígena” do estado (lembrando que só é considerado indígena quem possui registro de nascimento indígena da FUNAI, o RANI, não quem meramente tem ancestralidade indígena). “Ninguém nota” porém que essa população que representa 4,84 % da geral do estado é estatisticamente empatada com a de pretos (4,13%)…, não estamos falando nem da população negra (como explicado no item anterior).

É preciso portanto que os jornalistas parem de colaborar com essa “invisibilização” ou noção generalizada de irrelevância da população afroamazonense.

4- Ao escrever ou conduzir entrevistas, muitos jornalistas a partir da sua falta de conhecimento, de pressupostos introjetados por uma crença na falaciosa “democracia racial” brasileira, preconceitos de que são possuidores mas não percebem, ou ainda no afã de tentar “dourar a pílula” acabam por ir na contramão do que se espera com a matéria… .

Um exemplo, escrevendo “Indiferente ao preconceito, xxxxx segue”, como é que alguém pode ser indiferente a algo que lhe prejudica diretamente, prejudicou pais, avós, bisavós… e prejudica também sua descendência ????. Talvez o termo mais apropriado fosse “apesar de” ao invés de “indiferente” .

5- No mesmo ponto do item anterior é comum em entrevistas o entrevistador “atalhar” o entrevistado com afirmações de senso comum que obrigariam o entrevistado a dar uma resposta “indelicada” ou fazer uma “correção constrangedora” ao entrevistador, sendo que para evitar isso acaba-se “deixando passar”, o que ao fim e ao cabo repassa uma informação equivocada e aparentemente com o “aval” do entrevistado .

O ideal é que o entrevistador pergunte, mas não faça afirmações, nem interpretações que não possam ser confirmadas ou não pelo entrevistado.

6- Os clichês, as matérias vem recheadas deles, as tradicionais fotos de contraste “preto + branco” em “união”, fotos de capoeira para ilustrar matérias que não tratam diretamente do assunto…, ilustrações que remetem a escravidão ou abolição (correntes se quebrando, etc…) frases feitas que não se aplicam ao contexto específico, enfim.

7- O uso equivocado de dados, é preciso verificar a confiabilidade da fonte e sua reconhecida competência para prove-los, bem como verificar com quem está mais familiarizado com o tema antes de publicar.

8- Limitar a questão negra apenas ao “cultural” (folclore, religiosidade, capoeira, música e dança…), a questão é muito mais ampla e envolve aspectos sociológicos, econômicos, históricos, etc… .

9- Exagerar nos destaques negativos, as situações negativas existem, mas devem ser repassadas na sua exata medida e relevância, também não devem ser misturados “alhos com bugalhos”, é comum ver situações e dados sendo confundidos ou associados erroneamente.

10- As “correções” do que foi dito pelo entrevistado, é comum nas matérias escritas ou nas narrações em vídeo, o jornalista substituir os termos ditos pelo entrevistado por outros que ele julga mais apropriados, ocorre que ao fazer tais alterações ele pode mudar totalmente a precisão do que foi dito ou a intenção (já falamos sobre a substituição de “preto” por “negro” por exemplo).

Bom, essas são algumas dicas para que as matérias alcancem o resultado esperado e com maior precisão.

Seria também interessante que os sindicatos locais dos jornalistas seguissem o exemplo do Sindicato do Rio de Janeiro e oferecessem à categoria workshops para que se compreendesse e trabalhasse melhor as temáticas relacionadas à questão negra no Brasil : http://jornalistas.org.br/index.php/sindicato-realiza-debate-sobre-racismo-no-jornalismo-nesta-terca-1811-as-18h/, aliás seria importante que isso fizesse parte do currículo dos cursos de comunicação social…


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Nomes aos bois: os sicários da mídia má.

Poderia escrever algo mais detalhado sobre esse acontecimento, mas o texto de Paulo Nogueira, que reproduzo parcialmente abaixo, já o faz com maestria…, é essa mesma gente de quem ele fala, que não por coincidência também foram os “grandes gurus” da “campanha” (felizmente perdida) da turma anti ações afirmativas (AA) para a população negra (notadamente as cotas universitárias) aos quais “batizei” de “neo-democratas-raciais”.

O desabafo de Trajano

por Paulo Nogueira, no Diário do Centro do Mundo

E eis que José Trajano, da ESPN Brasil, viralizou.

Um vídeo em que ele cita quatro colunistas que instigam ódio circula freneticamente pela internet nestes dias.

Ele enxergou, com razão, uma relação espiritual entre os que xingaram Dilma no estádio e os colunistas que mencionou.

Trajano falou de Demetrio Magnolli, Augusto Nunes, Mainardi e Reinaldo Azevedo, mas poderia falar de muitos outros.

Outro dia li uma expressão do Nobel de Economia Paul Krugman e pensei exatamente no tipo de jornalista da pequena lista de Trajano.

São os “sicários da plutocracia”. São pagos, às vezes muito bem pagos, apenas para defender os interesses de seus patrões.

Os Marinhos, ou os Frias, ou os Civitas, ou os Mesquitas, não podem, eles mesmos, assinar artigos em defesa de suas próprias causas. Então contratam pessoas como as de que Trajano trata.

Muitos leitores, em sua ingenuidade desumana, vêem alguma coragem nos “sicários da plutocracia”.

É o oposto. Ao se alinhar aos poderosos – aqueles que fizeram o Brasil ser um dos campeões mundiais da desigualdade – eles têm toda a proteção que o dinheiro é capaz de oferecer.

Não correm risco de ficar sem emprego, por exemplo. Podem cometer erros grosseiros de avaliação, de prognóstico, de estilo, do que for.

Mesmo assim, estarão seguros porque cumprem o papel de voz dos que podem muito.

Texto integral em : http://www.viomundo.com.br/denuncias/os-que-promoveram-caca-as-bruxas-agora-reclamam-de-lista-negra.html