Blog do Juarez

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Por quê os Orixás se comportam diferente e se apresentam distintamente em África, Caribe e Brasil ?

Yemanjá em terra, na Nigéria, Brasil e Cuba.

Logo de início deixo claro que é apenas uma reflexão minha, uma hipótese levantada a partir do meu conhecimento sobre as religiões de matrizes africanas enquanto estudioso/ acadêmico e praticante neófito (há alguns anos), não a partir dos “segredos” e fundamentos que só pertencem aos sacerdotes e sacerdotisas.

Orixás nas américas e caribe vieram nos oris dos traficados de África. Assim como os nossos ancestrais tiveram que se adaptar ao novo mundo as formas de culto também… .

Não são os Orixás feitos dos Orixás dos Babas e Yas ? Não conformariam linhagens com características “hereditárias” ? de quantos “oris originais” saíram os santos afrobrasileiros ? Isso explicaria o “padrão” que temos aqui ? diferente dos africanos ou mesmo dos caribenhos, sobretudo os cubanos, cujas características são parecidas entre si, mas um tanto diferente dos que vem à terra no Brasil ??? .

Outra questão que se coloca ante algumas afirmações “puristas” que visam colocar as práticas em África como “preferenciais e verdadeiras tradições a serem seguidas” é : As formas de culto em África permanecem as mesmas de 500 anos atrás ? de certo não, inclusive algo do perdido por lá, aqui foi preservado, mas como lá, também aqui ocorreram mudanças circunstanciais… .

Não existe “pureza” em se tratando de cultura mas sim tradições e isso inclui as relações e práticas do místico-sagrado, no entanto é bom lembrar que toda tradição é uma invenção, uma construção ao longo do tempo e do espaço, que agrega, abandona e substitui elementos além de mesclas com elementos de outras culturas que com o tempo passam a ser vistos como parte natural da tradição sem maiores questionamentos.

A natureza é forte mas até ela muda ou é mudada, por vezes em alguns aspectos “controlada”. Todo fogo é incontrolado/ incontrolável ?, toda água só vai aonde quer e como quer ? não se pode “obrigar” uma nuvem a fazer chuva ?, o vento não pode levar um barco a um destino ? não pode ser produzido em forma de jato ? não existem “quebra-ventos” ?, o ar não pode ser resfriado, aquecido, canalizado? então…

Isso não quer dizer que a natureza seja absolutamente controlável e sabemos muito bem que não, tampouco as forças naturais ou sobrenaturais.

Se partirmos do pressuposto que “nada se controla” das forças ou energias da natureza ou que nada funciona fazendo um pouco ou mesmo medianamente diferente, então teríamos um grande paradoxo, pois não existiria nem tecnologia, muito menos mística… nem aqui, nem no Caribe, nem em África… 🤷🏿‍♂️


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IEMANJÁ TEM COR ?

Debate necessário. Eu particularmente entendo que a reapresentação antropomórfica das divindades africanas já é por si fruto do processo de apropriação da cultura europeia, em África não era assim e mesmo hoje nas religiões de matrizes africanas (desconto para a Umbanda que é essencialmente sincrética) nos assentamentos religiosos a divindade é representada por algo da natureza, um otá (pedra) por exemplo. Porém como nossa cultura envolvente de maneira tradicional faz representação “santeira” do sagrado, somado ao antigamente necessário sincretismo, acho válido para fins não estritamente litúrgicos.

É o caso das representações simbólicas afirmativas (como as estátuas públicas, estatuetas domésticas, representações em moda e midiáticas) a representação antropomórfica ligada à origem, ou seja, fenótipicamente africanas, até porque os itans/patakins (narrativas sobre as divindades) colocam essas forças na forma humana e contextos africanos).

Sempre digo que a apropriação cultural é normal em uma sociedade caldeada, o que não é bom é a EXPROPRIAÇÃO CULTURAL, e a “Iemanjá Ivete Sangalo” (com todo respeito à artista, inclusive adepta da matriz africana) é uma representação oriunda do hoje desnecessário sincretismo, mas também de um processo de EXPROPRIAÇÃO CULTURAL, em que ocorre a retirada de contexto da estética afro e prol de um branqueamento eurocentrado. Sou negro e filho de Yemanjá, para mim é importante que uma divindade africana seja representada em seu contexto original e não de forma expropriada.