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Campanha anti-EAD “Educação não é fast-food”, por que sou contra

Não é de hoje que o Conselho Federal do Serviço Social (CFESS) e vários profissionais da área de Serviço Social tem se manifestado contra os cursos de graduação a distância em Serviço Social, mas a partir de maio passado começou a ser veiculada uma campanha intitulada “Educação não é fast-food – diga não à graduação a distância em Serviço Social”. Feita principalmente a partir de um hotsite que concentra os esforços de campanha e “linka” vários recursos utilizados como 13 filmes no YouTube, spots de rádio e material gráfico, adesivos e cartazes nos quais se faz a associação do ensino a distância com alimentação de baixa qualidade (vide matéria no site do CRESSPR) : http://www.cresspr.org.br/noticias/campanha-educacao-nao-e-fast-food/ ) .

Naturalmente a campanha acendeu uma grande polêmica, provocando a reação tanto de profissionais e entusiastas da EAD (Educação a Distância) quanto dos próprios estudantes de graduação em Serviço Social a distância. Porém de forma inusitada alguns profissionais de EAD (inclusive da alto peso na área) acolheram e apoiaram a campanha, enquanto alguns profissionais de Serviço Social se posicionaram contra a mesma. Também ” entrou na briga” a Associação Nacional dos Tutores de Ensino a Distância (Anated), movendo uma ação cautelar contra a campanha, culminando (até agora) com uma liminar da Justiça Federal proibindo a veiculação.

Enquanto profissional com décadas na área de Educação, com título de Especialista em EAD e atuante na área, não poderia me furtar de me manifestar (e de forma mais ampla aqui no blog , apesar dos comentários já feitos ai pela web).

Após ver a maior parte do material da campanha, as argumentações e posicionamentos de colegas da área de EAD ( que com toda honestidade intelectual apresentaram visões críticas e referencial teórico que legitimam vários dos questionamentos referentes à EAD. Bem como, alguns fatos que não podem ser desconsiderados em uma análise séria sobre Educação a Distância (em contexto geral e/ou específico), além de diversos posicionamentos prós e contra. Não tenho dúvidas que as verdadeiras intenções e razões por trás de todo discurso META-MODALISTA (termo cunhado por mim a partir dessa questão, para definir uma ação dissimulada de preconceito e discriminação de MODALIDADE de ensino) encerrado nessa campanha, seja sim reacionarismo, preconceito e discriminação contra a modalidade a distância, porém devidamente camuflado em “preocupação com a qualidade” e com os “efeitos profissionais e sociais” .

Digo isso a partir da experiência adquirida em anos de leituras, escritas e debates na minha militância principal que é o movimento negro… .

Identifiquei na campanha “Educação não é fast-food”, exatamente o mesmo método de tentar “embarreirar” a democratização do acesso ao que a “elite” do Serviço Social (notadamente a acadêmica e “reguladora profissional” ) considera “seus domínios”, e que encontro diariamente nos discursos METARRACISTAS da elite brasileira (e dos seus “aspirantes” da classe média) contra as Ações Afirmativas no acesso universitário. E em outras esferas sociais para as populações historicamente prejudicadas e excluídas.

Não obstante o curso de Serviço Social fazer parte dos chamados “cursos de pobre” (aqueles que não garantem muito grande mobilidade social, não interessando portanto aos “filhos de rico”…, o que abre espaço para os “filhos de pobre” alcançarem com maior facilidade uma carreira de nível superior), fica evidente que depois do processo de formação ideológica característica das ciências sociais e correlatas (alinhadas à esquerda), o que muitas vezes acaba se formando é uma “casta nobre” de origem proletária (vide “A Revolução dos bichos” de George Orwell). Aguerridamente “politizada” mas que precisa encontrar “causas de interesse interno” para mobilizar a classe e manter viva a chama da ilusão que agora estão “do lado de cima da sociedade”, sendo necessário “primar” pela “qualidade e mérito” do acesso à “ORDEM” …

O maior paradoxo se dá quando se observa os valores dispostos no seu próprio código de ética profissional :

  • Empenho na eliminação de todas as formas de preconceito, incentivando o respeito à diversidade, à participação de grupos socialmente discriminados e à discussão das diferenças;
  • Garantia do pluralismo, através do respeito às correntes profissionais democráticas existentes e suas expressões teóricas, e compromisso com o constante aprimoramento intelectual;
Definitivamente, me parece que algum código de ética está sendo “rasgado” e substituído por uma “elitização cínica” e travestida de “preocupação com a qualidade e bem coletivo”.

Tal qual no METARRACISMO, no META-MODALISMO o discurso é “bonito”, sempre com citações à defesa da qualidade de ensino, mérito pessoal, reformas de base, evitar conflitos futuros, garantir ganhos para a sociedade etc… . Porém no fundo ( e nem tão fundo…) tem com real motivação os velhos preconceitos e como meta principal (mas nunca declarada), preservar os recursos do grupo dominante e “já bem instalado” do compartilhamento com os “diferentes” que graças à democratização do acesso começam a chegar em maior número. Nesse caso a diferença ao invés da “raça” é a modalidade historicamente discriminada. A retórica não é difícil de “encantar” pessoas bem intencionadas, mas alheias as reais motivações , interesses e métodos de preservação do Status Quo.

Pode parecer “paranóia” mas não é … ao ler o trecho abaixo, trocando a palavra “raça” por “modalidade” e racismo por modalismo, se percebe a impressionante justaposição conceitual.

“São quatro os sentimentos que, segundo (Blumer, 1939), estarão sempre presentes no preconceito racial do grupo dominante: (a) de superioridade; (b) de que a raça subordinada é intrinsecamente diferente e alienígena; (c) de monopólio sobre certas vantagens e privilégios; e (d) de medo ou suspeita de que a raça subordinada deseje partilhar as prerrogativas da raça dominante. ” ; soa familiar ?

Pode-se fazer o mesmo exercício com o texto abaixo :

(Zizek 1995), “vivemos um novo tipo de racismo, um racismo pós-moderno, um“meta-racismo”, que pode perfeitamente assumir a forma de um combate contra o racismo. Essa resistência cínica pode ser encarada como uma das vicissitudes da atual abertura proposta pelo liberalismo e seu projeto de re-invenção da democracia e do discurso dos direitos humanos”, porém como a diferença entre o meta-racismo e o racismo direto, tradicionalmente de forma aberta e declarada, é nula ( já que não existe metalinguagem…), faz com que o cinismo com o qual se apresenta o meta-racismo o torne muito mais perigoso.

Trincheiras diferentes, mas as armas dos inimigos da democratização e inclusão parecem ser as mesmas…

Na prática ao fazerem uma campanha contra a EAD na graduação em Serviço Social (afirmando peculiaridades e incompatibilidades), acabam por fazer uma campanha contra a EAD de forma geral… . Contra uma modalidade que tem respaldo legal para ser aplicada em todos os níveis de ensino e tem efetivamente colhido muito bons resultados nos mais variados cursos (inclusive superando no desempenho, a modalidade presencial em mais da metade dos cursos comparados). Somos sim contra os cursos EAD mal elaborados e conduzidos (e os há) , mas se há problemas em determinados cursos a distãncia, a solução é aumentar a fiscalização e exigir que se adequem a um bom padrão, não simplesmente criar campanhas e lutar para que sejam eliminados.

Ao agir do modo atual, estão fazendo como fariam racistas dissimulados ao dizer : ” Não temos nada contra negros em geral, a legislação até permite que eles existam aqui e em outros lugares…, mas bem aqui no “nosso pedaço” por suas dificuldades no estilo do seu processo de aprendizagem, não achamos que sejam ou possam vir a ser tão bons quanto nós e por isso também achamos melhor que parem de nascer aqui “. Não somos racistas, mas reivindicamos isso apenas para preservar e garantir que nosso povo tenha a melhor qualidade possível…” .

Bom é isso, estou terminando de fazer a atualização e revisão do meu primeiro livro (na realidade uma “versão livro” da minha monografia da especialização em EAD em 2006) “A EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA (EAD) COMO INSTRUMENTO DE TRANSFORMAÇÃO SOCIAL E DESENVOLVIMENTO. ”. Pretendia apresentar para uma editora e ver se conseguia lançar no CIAED aqui em Manaus no fim do mês, mas atrasou e não há mais tempo hábil… . Talvez consiga estar com uma edição independente (daquelas por demanda) pronta até lá, vou tentar incluir essa questão da campanha do CFESS no tópico sobre resistências a EAD… .