Blog do Juarez

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SOBRE RACISMO E RACIALISMO

Por anos debatendo a questão das Ações Afirmativas (AA), sobretudo as cotas universitárias com recorte racial, me deparei muito com gente classificando de “racialistas” os que defendiam o recorte racial nas AA.

Ainda hoje vejo o uso de “racialista” como se fosse um racista com “sinal invertido”, nada mais errôneo e injusto. O racialismo é a crença em diversas raças humanas no sentido BIOLÓGICO, instituído por Carolus Linnaeus no XVIII ao criar a classificação homo sapiens e dividi-la em subespécies relacionadas à cor de pele e características fenotipicas prevalentes nas populações de cada continente. No mesmo ato Linnaeus também cria o racismo “científico” ao atribuir características atávicas (determinantes e hereditárias) à cada um dos grupos “raciais”, reservando apenas para os brancos as positivas e para os demais negativas.

Hoje o entendimento de “raça” ou “racial” só é admitido em sentido de construção social a ser superada com relação às desigualdades e determinismos preconceituosos e discriminatórios. Isso não quer dizer no entanto que se pretenda uma homogeneização étnico/cultural e a desconsideração das peculiaridades históricas, culturais e sociais dos diversos grupos.

Portanto, admitir tais peculiaridades e diferenças sociais construídas por milênios e séculos recortados de experiências culturais e sociais coletivas diferenciadas, e principalmente os prejuízos e necessidade da correção das desigualdades decorrentes, não é racialismo, muito menos “racismo as avessas” .

Os entendimentos partidos de dentro de um grupo tradicionalmente prejudicado, sobre sua realidade social, condições efetivas, valores civilizatórios, igualmente a sua memória coletiva e percepções não podem ser desconsiderados na sua totalidade, tampouco cerceado o direito ao ressentimento e as demandas por respeito, autodeterminação e “propriedade” de seus bens culturais.

Se existe uma CULTURA NEGRA, produto do contato e do amálgama secular das culturas africanas traficadas junto com os escravizados e as nativas e européias, isso não quer dizer que deixa de ser peculiarmente negra e diferentemente vivenciada a partir de diferentes origens e perspectivas.

Não há problema algum em qualquer pessoa de qualquer cor ou origem se imiscuir na cultura negra e vivencia-la, mas é importante que entenda que antes de mais nada ela é um bem cultural ao qual se adere, do qual se pode apropriar mas não deturpar, muito menos expropriar o negro, “retirando” dele o direito de controlar primariamente os seus bens culturais ou de se manifestar sobre eles a partir da própria perspectiva.

Quando uma pessoa negra (e não apenas que assim se assuma por realidade e pertença remota ou não, mas que principalmente assim seja vista socialmente e assim se relacione com a sociedade) se insurge contra apropriações indébitas ou questiona a forma de participação não negra na cultura negra, ela não está sendo racialista muito menos racista, ela está apenas chamando a atenção para a diferença de viver a cultura negra sendo efetiva e socialmente negro e não sendo… .

Não precisa ser negro para ser capoeirista ou de religião de matriz africana, mas é preciso conhecer as motivações históricas, reconhecer a essência, as premissas cosmogônicas, filosóficas e principalmente aceitar as regras da tradição e ter alteridade e empatia com quem tem a cultura como herança natural e coletiva… .

É o que não entendem o que dizia o Mestre Pastinha, e dizem hoje muitos praticantes e ativistas negros da cultura negra em suas perspectivas negras.


2 Comentários

A cara-de-pau meta-racista dos neo-democratas-raciais

Antes de iniciar …, um lembrete :

  • Constituição Federal de 1988  – Art. 5º, IV – é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato; [..] IX – é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença .
  • A LEI Nº 9.610, DE  19  DE FEVEREIRO DE 1998 (Lei do direito autoral) – Art. 46. Não constitui ofensa aos direitos autorais:  I – a reprodução: a) na imprensa diária ou periódica, de notícia ou de artigo informativo, publicado em diários ou periódicos, com a menção do nome do autor, se assinados, e da publicação de onde foram transcritos;[..] III – a citação em livros, jornais, revistas ou qualquer outro meio de comunicação, de passagens de qualquer obra, para fins de estudo, crítica ou polêmica, na medida justificada para o fim a atingir, indicando-se o nome do autor e a origem da obra;

Isso posto… vamos ao que interessa .

Imagem "Lobo em pele de cordeiro" linkada de gifbn.com

Impressionante a desfaçatez  meta-racista dessa turma que se diz "preocupada" com o direito à igualdade,  com o respeito à Constituição, com  a democracia e em evitar "racialismo", "racialização", "racismo as avessas" ou "divisões perigosas", a quem tenho costumeiramente me referido como neo-democratas-raciais.

Abaixo  parte da descrição e "regras" do blog "contra a racialização do Brasil "   que abriga alguns dos "expoentes" da luta contra as Ações Afirmativas para o equilíbrio da histórica e comprovada desigualdade social com recorte "racial" brasileira.  :

" Quem somos

.
Este é um blog destinado à defesa de duas ideias inseparáveis. A primeira: o racismo é uma chaga intolerável, que diminui e desumaniza os seres humanos. A segunda: a doutrina racialista, expressa no projeto de criação de leis raciais, degrada a democracia, oficializa o mito da raça e, voluntariamente ou não, estimula o racismo.

Nossas ideias estão expostas em dois documentos que inspiraram a criação deste blog: a Carta Pública ao Congresso Nacional de 30 de maio de 2006 (veja aqui) e a carta ao STF intitulada Cento e Treze Cidadãos Anti-racistas Contra as Leis Raciais, de 21 de abril de 2008 (aqui).

Este é um blog coletivo e aberto a adesões e contribuições. É feito por cientistas políticos, antropólogos, sociólogos, juristas, historiadores, geneticistas, biólogos, médicos, intelectuais e ativistas de movimentos sociais. Coletivo não significa anônimo. Nossos nomes aparecem nos posts que não têm links para fontes externas.  1(grifo nosso)

Este é um blog apartidário. As duas ideias gêmeas que ele sustenta encontram expressões em todo o espectro político brasileiro. Por esse motivo, aqui se acolhem manifestações oriundas de pessoas e instituições de variadas posturas ideológicas, sem que isso implique simpatias do blog por qualquer uma dessas posturas 2(grifo nosso)  Eis a razão pela qual não abrigamos uma lista de sites e blogues “preferidos”.

Este é um blog de caráter essencialmente informativo, voltado para a difusão dos argumentos contrários à racialização oficial do Brasil. Não é um espaço para a exposição de doutrinas racistas ou racialistas. O direito à difusão de nossos argumentos realiza-se pela moderação de posts e comentários. Nada há de anti-democrático nisso, pois a internet tem espaços para a difusão de argumentos divergentes.
3(grifo nosso)

Este blog rejeita a violência verbal. Não aceitamos posts ou comentários que deslizem para a desqualificação gratuita de pessoas, correntes, partidos ou instituições. Não abrigamos difamação, injúria ou calúnia. Controlamos a publicação de inverdades factuais e assumimos o compromisso inegociável de retificar inverdades publicadas involuntariamente. 4(grifo nosso)

Nosso email: norace.br@gmail.com  "

 

Bem, agora vamos analisar os grifos :

1- Padrão…, anti-AA tem pavor de referências externas em discussões…, ignoram  as oferecidas e quase nunca oferecem qualquer tipo de embasamento científico ou factual para suas idéias (primeiro porque realmente pouco estudam ou estudaram a temática e segundo porque tal embasamento não existe ou é falacioso) , as "verdades" são todas suas ou no máximo de algum dos "correligionários", nunca de fonte neutra ou de consenso e reconhecimento acadêmico generalizado.

2- "Selecionam" ou fomentam autores e material de acordo com sua visão, mas descaradamente "negam simpatia" por eles…, um paradoxo com o próximo item onde afirmam  categoricamente que o blog é "voltado para a difusão dos argumentos contrários à racialização oficial do Brasil." (sic), haja incoerência (ou seria mais uma forma de disfarce ? ) .

3- Não se consideram "anti-democráticos" mas se reservam o direito de não abrir espaço para o contraditório… , quem quiser se manifestar contrariamente que vá para "outros espaços" .

4- Mesmo que deixem "escapar por engano" algo que contrarie  a sua "verdade"  se reservam o direito de retificar… , a idéia é claramente de "OPOSICÃO 0" (incluindo a discordância parcial "amiga") .

É assim  que pensa e age  o tipo de pessoas que se declaram "defensores" do justo e  da igualdade formal  e que não enxergam racismo no Brasil… , que dizem que não há vínculação social entre "raça" e classe no Brasil,  que alardeiam que qualquer reconhecimento ou ação afirmativa oficial contra tal desigualdade é "eleitoreira" ou gerará o ódio, que "invertem"  as coisas chamando de "racialistas" e "racistas" justamente os que históricamente sofrem ou lutam contra o racismo.

O bom de tudo isso é, que seus posicionamentos equivocados e cínicos , estão sendo largamente registrados e divulgados por eles mesmos… , será esse "cabedal" de inconsistência, falácia e hipocrisia mal disfarçada, que afundará suas pretensões de manter o Status Quo inalterado…  ;  é possível enganar muitos algum tempo, alguns muito tempo, mas não todos o tempo todo…

Lembrei de um desenho animado dos anos setenta, em que apesar das incansáveis tentativas e disfarces utilizados pelo "vilão"  era sempre descoberto pela ovelha que dava o alarme :  "É o lobo , é o lobo , é o lobo !!!! "   .