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A polêmica do banheiro público e as novas resoluções pro LGBT

Assistimos ultimamente no rastro do reacionarismo e antipetismo radical (e porque não dizer majoritariamente irracional ? ),  que assola o país, e em especial as redes sociais, um sem número de postagens e publicações que descaradamente deturpam notícias e fatos e forjam factóides, com a clara intenção de causar indignação e açodar o sentimento reacionário e principalmente antigovernista; o grande problema é para isso se utilizam de meias-verdades, completas-mentiras, conceitos errôneos e absurdização terrorista,  tudo prontamente reproduzido integralmente e sem maiores análises críticas,, por quem está ideologicamente afinado com o “antipetismo incondicional’,  afinal o que interessa é “atirar no PT e no Governo”, se por motivo justo e baseado em verdades ou  mentiras e deturpações pouco importa… .

Dessa vez o mote são as resoluções recentemente assinadas pela Presidente da República, relativas a população LGBTT,  uma delas determinando que estudante pode usar banheiro de escolas e universidades públicas ou privadas segundo sua identidade de gênero, garantindo também à  comunidade trans o  uso de nomes sociais e uniformes de acordo com sua identidade.

A deturpação começa ao desconsiderando o conceito de gênero, levar as pessoas a crer que isso institui o uso indistinto dos banheiros, ou o compartilhamento dos banheiros femininos por mulheres e toda sorte de gays, ou de quem assim se declare ao acessar e ser questionado pela presença. vide (http://www.cabralarrependido.com.br/2015/05/agora-e-lei-lgbt-podem-escolher-qual.html?spref=fb ), continua ao sugerir que seria uma nova regra geral extensível a todo tipo de banheiro público, apelando para uma sensação de “insegurança que se instalará” pondo em perigo mulheres e filhas… ..

Obviamente que a coisa não é por ai…, algumas mulheres compreensivelmente a partir dessa deturpação demonstram preocupação em ter sua privacidade e “segurança” ameaçada por “homens” em seus banheiros, o que não se justifica, pois a resolução fala em acesso conforme identidade de gênero e não “livre para todo homossexual” (que são coisas distintas…), ou seja, não se concebe ter “marmanjos” que por simplesmente se declararem “gays” (ou até o serem verdadeiramente) “pre-autorizadamente invadiriam” os banheiros femininos…, do que se está falando aqui é de pessoas TRANS, ou seja, que possuam “feminilidade” (ou masculinidade no caso dos trans masculinos) tão alta, a ponto de nem serem percebidas de forma “diferente” ou em geral deixando boa “dúvida”, abaixo alguns exemplos femininos:

Trans

É muito provável que a maioria das mulheres já tenha estado com um Trans no banheiro sem nem perceber…, é claro que nem todas as trans “passam” facilmente (não são identificáveis como, à primeira vista ou contato), as travestis por exemplo, são bem mais óbvias, mas o “nível de feminilidade” não se confunde com o de alguém meramente “se fazendo passar por” ou verdadeiramente gay,  para quem se preocupa com “ataques sexuais”, “casquinhas” e “eventuais constrangimentos”, sem querer ser generalizador é bom lembrar que é muito mais provável que isso aconteça vindo de uma lésbica (que como mulher frequenta normal e sem maiores problemas o banheiro feminino…) do que vindo de uma trans…, portanto argumentar “perigo” ou “inconveniência” no acesso de trans é no mínimo falacioso .

As reivindicações dos movimentos LGBTTs não são novas e a legislação relativa não é “novidade” nem “invenção ou exclusividade” do PT…, no Amazonas (que nunca foi governado pelo PT) por exemplo existe a Lei N. 3.079, de 02 de agosto de 2006 que DISPÕE sobre o combate à prática de discriminação em razão de orientação sexual do indivíduo, a aplicação das penalidades decorrentes e dá outras providências,  outro ponto é a confusão que normalmente se faz nos conceitos relacionados a temática, como a mera orientação sexual e a identidade de gênero, entre Gay e Transgênero/transexual, conceitos claros para quem tem alguma entrada nos estudos de gênero, mas não para todo mundo…, o banheiro comunitário é cultural e historicamente separado por gênero (que em um paradigma tradicional e binário é masculino ou feminino), ocorre que gênero nem sempre coincide com o sexo biológico, não se trata de “unificar” banheiros mas de garantir o acesso por gênero sem discriminação pelo sexo…, uma pessoa trans feminina por exemplo, não é “gay” (pessoa que se atrai por pessoa do mesmo sexo) ela na realidade tem um sexo biológico desconforme com sua real identidade de gênero, em outras palavras, é uma mulher psicologicamente, mas tem uma configuração anatômica de homem e vice-versa… .

Nem mesmo nos ambientes GLS é comum a ideia de “banheiros únicos”, porém é convenção que as pessoas do gênero feminino (independente do sexo biológico) utilizem o mesmo banheiro…  idem no caso do banheiro masculino porém com menor ocorrência, está franqueado para pessoas trans de gênero masculino.

A questão portanto, está no perfeito entendimento do que é gênero e o que é sexo…, a ideia de  que “o costume consolidado é que evolui para a aprovação da norma jurídica” não é plena, as vezes é o estabelecimento da norma, que determina a alteração no costume generalizado, e estamos vivenciando o momento em que tais alterações de costumes em relação a população LGBTT estão em consolidação, porém devido a uma resistência que na realidade se baseia mais no preconceito que na razoabilidade e tolerância, se exige que por via da norma jurídica, seja garantido o direito social de quem apesar de psicologicamente pertencer a determinado gênero, está “aprisionado” em uma conformação sexual distinta… .

A ideia de segregar  LGBTTs a um banheiro específico, também não se mostra justa, uma vez que em um paradigma tradicionalmente binário de gênero (feminino ou masculino) privar uma pessoa de vivenciar (ou ao menos tentar) plenamente o seu real gênero (o psicológico), é impedir um Direito Humano, portanto não faria sentido fazer “serviço pela metade”, reconhecer o direito a auto-identificação de gênero, ao nome social relativo, à não discriminação pelo gênero, mas negar o acesso a um espaço gênero-relacionado… .

Para visualizar  a notícia em termos mais precisos: http://oglobo.globo.com/sociedade/aluno-pode-usar-banheiro-de-escola-segundo-sua-identidade-de-genero-diz-diario-oficial-15572473


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Adeus Marina !

adeus-marina

Todos sabemos que a pressão é grande, os compromissos e as alianças firmados vão para além do campo moral,  também para pontos pragmáticos, há que se considerar ainda que em questões de consciência cada um tem seus motivos.

Por outro lado,  a relação passional de Marina com o PT, tal qual toda separação motivada por preterimentos, traições, incompatibilidades, etc…;  gerou mágoas pessoais, orgulhos feridos, dificuldades de interação, desejo de ver o outro “se dar mal”, “provar valor”, enfim… coisas que podem suceder a qualquer um, e não raro provocando também atos “pouco racionais”,  não estou me referindo apenas pelo lado de Marina mas também do PT.

A “solução” de  sair de “consciência limpa” pelo fato de Aécio ter se “comprometido” com pontos programáticos colocados com condição, “justificando” o seu apoio, parece ser mesmo apenas mais uma forma de tentar atingir o PT  “dando um gás” à campanha de Aécio, penso que nem ela mesma acredita que tais compromissos seriam cumpridos em caso de vitória, simplesmente por em nada baterem com as práticas e mentalidade PSDBistas… .

Portanto a decisão de Marina em apoiar Aécio no segundo turno é o “tudo ou nada” dela, terá alguma sobrevida caso Aécio ganhe, mas já perdeu a legitimidade para ser “terceira via” nas próximas eleições, posso arriscar que com esse simples ato perdeu pelo menos 50% de sua densidade eleitoral, mesmo com o PT apeando do governo, o partido continuará sendo grande força política e não será agora que acabará a polarização com o PSDB, sua única chance futura (para a presidência) seria se tornar a candidata do PSDB ou por ele apoiada desde o primeiro turno em 2018 (política é caixinha de surpresas mas convenhamos isso é bem improvável…), portanto, mesmo que o PSDB ganhe, no longo prazo Marina perde ( tal qual ex-esposas magoadas,  seu único gosto será ver o ex-amado prejudicado, mesmo que isso não lhe ajude em nada, muito pelo contrário)

Agora alterando o cenário com vitória de Dilma,  nesse caso  Marina vai junto com Aécio para o semi-ostracismo…, uma vez que  Minas já “se livrou” dele, retomar o poder lá será complicado (ainda mais em um cenário com o novo governo mineiro do PT alinhado com um governo federal idem), por sua vez, todos sabem a guerra que ocorre dentro do PSDB todas a vezes que tem que escolher candidato à presidência, essa foi a chance de Aécio, se perder agora  e já tendo perdido o governo de Minas… “já era” para ele, e tendo  Marina perdido a “independência”, acaba também o grande trunfo que  a sustentou nas suas duas campanhas.

É certo que se boa parte de seus eleitores optará por Aécio no segundo turno, outra grande parte não a seguirá (eu inclusive), não apenas no segundo turno, como também em outra eventual candidatura à presidencial.

Outro sinal forte é que a amiga e apoiadora Neca Setúbal (isso mesmo, a herdeira do Itaú, de quem tanto injustamente falaram), já havia anunciado logo após o primeiro turno, que  se retirava completamente da campanha presidencial, voltando a se dedicar à Educação (seu real e principal campo de atuação), ou seja, não acompanha Marina no segundo turno, para bom entendedor… .

Se o caro leitor ou leitora  sabe do que se trata a tal “relação perde-perde” já deve ter percebido que seja qual for o resultado, para Marina é o que sucederá.

Adeus Marina !


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De onde é que vem esses votos ???

Aécio-Alckmin

Até entendo quem pelas mudanças no PT  após o poder, queira renovação e alternância e busque outra alternativa à esquerda… (quem escolheu Luciana Genro ou  Eduardo Jorge), entendo quem desconfia da Marina (ou arranje mil desculpas para que uma negra, amazônica, de aparência frágil e evangélica não chegue ao cargo máximo da república, afinal ainda estamos no Brasil… já se foi até longe dadas as circunstâncias…), entendo mais ainda quem por histórico social privilegiado, esperada insensibilidade social  e resistência egoísta e classista às mudanças que reduziram enormemente o fosso entre ricos e burgueses remediados e os tradicionalmente excluídos…  repudie PT e esquerdas e vote com os tucanos e aliados tradicionais; entendo até quem vota em sintonia com o pensamento retrógrado e destemperado dos “nanicos”.

Mas está difícil de entender de onde é que vem quase 35 milhões de votos para o PSDB (com o histórico negativo que tem para o país) e principalmente para o Aécio ( de histórico pouco positivo e único dos candidatos em que se pregou um escândalo direto e pessoal como o caso do aecioporto…).

Só das elites numericamente não pode ser…, quem só queria “alternância” descarregou em Marina…,  os maiores beneficiados pela duodécada petista (leia-se pobres)  e o pessoal de maior consciência social obviamente deram os  mais de 43 milhões de votos para Dilma…, mas tá difícil de identificar quem  são  e quais os “motivos” desses milhões e milhões que se aliaram às elites (mas obviamente não fazem parte dela) e renegaram os avanços sociais trazidos pelo PT e a expectativa de alternância trazida por Marina… .

Talvez tenha sido o mesmo pessoal que reelegeu Alckmin em SP (e no primeiro turno com  mais de 12 milhões de votos [57 %] )  a despeito de tudo de ruim que ocorreu nos 20 anos de dominação tucana no estado (e ainda vai ocorrer…, nem a iminência de acabar a água na maior capital do país  disparou o “voto da mudança”),  somando aos   12 milhões do maior colégio eleitoral do país… de Minas vem 4 milhões de votos para governador do PSDB, do RJ mais 3 milhões e tal… , ou seja menos de 20 milhões de votos de onde se esperaria que viriam majoritariamente, mas e esses outro 14,5 milhões espalhados por todo o restante do país ????,   desconfio que “no frigir dos ovos” pode ter sido a mesma turma que foi fazer “micareta sem causa” nas ruas em junho/13  (lembrando que alguns manifestantes até tinham causa definida e clara, mas era uma minoria…), outra coisa que causa estranheza é um estado em tese vanguardista como o RJ eleger (e com a maior votação) como Deputado Federal  Jair Bolsonaro (que defende claramente um pensamento semelhante ao de FIDELIX, sendo que esse último foi nacionalmente objetado ), vá entender…,  elocubrações meras elocubrações, mas  afinal quem é esse pessoal  que vota a partir de uma lógica que não é óbvia para a maioria das pessoas ??? .


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Como é que é ?, PT + Maluf ????

Imagine um cidadão que entrou em coma lá pelo começo da década de 90,  lendo ou ouvindo a notícia que está pululando na mídia nas últimas 48 horas…, não precisa tanto, qualquer um que esteve  bem acordado até ontem (menos as cúpulas do PT e do PP) também deve estar com o mesmo nível de perplexidade (penso então nos militantes petistas históricos de base…) .

Tal qual um “samba do crioulo doido”  misturando histórias infantis  tão desconexas quanto a de Ali Baba  e a do sapo encantado e a princesa…, o inusitado anúncio prova  que em política  toda lógica é absolutamente inexata (ou pelo menos “flexibilérrima”) .

Está ai “a foto que não quer calar ” :

Ah ! esse 2012 e seus sinais…


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Até que enfim o PT reage à "mídia-má"

(imagem cascavilhada da web)

Não é de hoje que a mídia-má (também conhecida como PiG- Partido da imprensa Golpista) "passou dos limites" na defesa de tudo que é ideia reacionária e "simpática" as elites herdeiras dos senhores de engenho e ao "aspirantado do andar de baixo" (a classe média alta).

Não sou Petista, mas fico feliz que até que enfim a "mídia-má" está sofrendo uma reação  à altura por parte do PT, essa revista e os "jornalões" alinhados há muito passaram dos limites do que seria uma imprensa livre e responsável.

Na contra-mão da verdadeira democracia e das mais elementares regras da ética e profissionalismo, os veículos tem "extrapolado" para muito além do que de bom tom caberia dentro do constitucional direito de liberdade de expressão, o que eles tem feito em vários assuntos chega a ser mesmo criminoso.

Por isso aplaudo a iniciativa do PT em finalmente se manifestar pesadamente e judicialmente contra dois dos principais veículos da "mídia-má" :

 

Nota do Partido dos Trabalhadores

É com perplexidade e absoluta indignação que o Partido dos Trabalhadores vem acompanhando a escalada de ataques mentirosos, infundados e caluniosos por parte de alguns órgãos da imprensa a partir de matéria sensacionalista publicada na última edição da revista Veja.

O mais absurdo desses ataques se deu hoje, terça-feira (9), quando o jornal O Estado de S.Paulo usou seu principal editorial para acusar o PT de ser “o partido da bandidagem” – extrapolando todos os limites da luta política e da civilidade sem qualquer elemento que sustente sua tese.

O PT tem uma incontestável história de lutas em defesa da democracia, da cidadania, da justiça e das liberdades civis. Nasceu dessas lutas, se consolidou a partir delas e, nos governos que conquistou, tem sido o principal promotor da idéia de um Brasil efetivamente para todos, com absoluto respeito às instituições democráticas, às regras do jogo político e ao direito fundamental à liberdade de opinião e expressão.

Para nós, a diversidade de opiniões é a essência não só da democracia, mas também do próprio PT. Devemos a essa característica, em grande parte, o sucesso de nosso projeto de país, cujo apoio majoritário da população se dá em oposição aos interesses da minoria que nos ataca.

Nem o PT nem a sociedade brasileira podem aceitar o baixo nível para o qual parte da mídia ameaça levar o embate político às vésperas de mais uma eleição presidencial. O Brasil não merece isso. A democracia não merece isso. A liberdade de imprensa, defendida pelo PT mais do que por qualquer outro partido, não merece que façam isso em nome dela.

O PT não entrará nesse jogo, no qual só ganham aqueles que têm pouco ou nenhum compromisso com a democracia. Mas buscará, pelas vias institucionais, a devida reparação judicial pelas infâmias perpetradas contra o partido e seus milhões de militantes nos últimos dias.

Acionaremos judicialmente o jornal o Estado de S.Paulo, pelo editorial desta terça, e a revista Veja, pela matéria que começou a circular no último sábado.Também representaremos no Conselho Nacional do Ministério Público contra o promotor José Carlos Blat, fonte primária de onde brotam as mentiras, as ilações, as acusações sem prova e o evidente interesse em usar a imprensa para se promover às custas de acusações desprovidas de qualquer base jurídica ou factual.

José Eduardo Dutra
Presidente Nacional do PT

 

Demorou…


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Acadêmicos amestrados

Seção cópia total…

Por acaso topei com este excelente texto do excelente Ildeber Avelar (com quem já troquei algumas figurinhas virtualmente e links em nossos blogs) do blog "O biscoito fino e a massa", não podia deixar de reproduzir aqui…, perfeito! 🙂

Acadêmicos amestrados

Por Idelber Avelar [Terça-Feira, 1 de Dezembro de 2009 às 15:31hs]

Se um marciano aterrissasse hoje no Brasil e se informasse pela Rede Globo e pelos três jornalões, seria difícil que nosso extra-terrestre escapasse da conclusão de que o maior filósofo brasileiro se chama Roberto Romano; que nosso grande cientista político é Bolívar Lamounier; que Marco Antonio Villa é o cume da historiografia nacional; que nossa maior antropóloga é Yvonne Maggie, e que o maior especialista em relações raciais é Demétrio Magnoli. Trata-se de outro monólogo que a mídia nos impõe com graus inauditos de desfaçatez: a mitologia do especialista convocado para validar as posições da própria mídia. Curiosamente, são sempre os mesmos.
 
 Se você for acadêmico e quiser espaço na mídia brasileira, o processo é simples. Basta lançar-se numa cruzada contra as cotas raciais, escrever platitudes demonstrando que o racismo no Brasil não existe, construir sofismas que concluam que a política externa do Itamaraty é um desastre, armar gráficos pseudocientíficos provando que o Bolsa Família inibe a geração de empregos. Estará garantido o espaço, ainda que, como acadêmico, o seu histórico na disciplina seja bastante modesto.
 
 Mesmo pessoas bem informadas pensaram, durante os anos 90, que o elogio ao neoliberalismo, à contenção do gasto público e à sanha privatizadora era uma unanimidade entre os economistas. Na economia, ao contrário das outras disciplinas, a mídia possuía um leque mais amplo de especialistas para avalizar sua ideologia. A força da voz dos especialistas foi considerável e criou um efeito de manada. Eles falavam em nome da racionalidade, da verdade científica, da inexorável matemática. A verdade, evidentemente, é que essa unanimidade jamais existiu. De Maria da Conceição Tavares a Joseph Stiglitz, uma série de economistas com obra reconhecida no mundo apontou o beco sem saída das políticas de liquidação do patrimônio público. Chris Harman, economista britânico de formação marxista, previu o atual colapso do mercado financeiro na época em que os especialistas da mídia repetiam a mesma fórmula neoliberal e pontificavam sobre a “morte de Marx”. Foi ridicularizado como dinossauro e até hoje não ouviu qualquer pedido de desculpas dos papagaios da cantilena do FMI.
 
 Há uma razão pela qual não uso aspas na palavra especialistas ou nos títulos dos acadêmicos amestrados da mídia. Villa é historiador mesmo, Maggie é antropóloga de verdade, o título de filósofo de Roberto Romano foi conquistado com méritos. Não acho válido usar com eles a desqualificação que eles usam com os demais. No entanto, o fato indiscutível é que eles não são, nem de longe, os cumes das suas respectivas disciplinas no Brasil. Sua visibilidade foi conquistada a partir da própria mídia. Não é um reflexo de reconhecimento conquistado antes na universidade, a partir do qual os meios de comunicação os teriam buscado para opinar como autoridades. É um uso desonesto, feito pela mídia, da autoridade do diploma, convocado para validar uma opinião definida a priori. É lamentável que um acadêmico, cujo primeiro compromisso deveria ser com a busca da verdade, se preste a esse jogo. O prêmio é a visibilidade que a mídia pode emprestar – cada vez menor, diga-se de passagem. O preço é altíssimo: a perda da credibilidade.
 
 O Brasil possui filósofos reconhecidos mundialmente, mas Roberto Romano não é um deles. Visite, em qualquer país, um colóquio sobre a obra de Espinosa, pensador singular do século XVII. É impensável que alguém ali não conheça Marilena Chauí, saudada nos quatro cantos do planeta pelo seu A Nervura do Real, obra de 941 páginas, acompanhada de outras 240 páginas de notas, que revoluciona a compreensão de Espinosa como filósofo da potência e da liberdade. Uma vez, num congresso, apresentei a um filósofo holandês uma seleção das coisas ditas sobre Marilena na mídia brasileira, especialmente na revista Veja. Tive que mostrar arquivos pdf para que o colega não me acusasse de mentiroso. Ele não conseguia entender como uma especialista desse quilate, admirada em todo o mundo, pudesse ser chamada de “vagabunda” pela revista semanal de maior circulação no seu próprio país.
 
 Enquanto isso, Roberto Romano é apresentado como “o filósofo” pelo jornal O Globo, ao qual dá entrevistas em que acusa o blog da Petrobras de “terrorismo de Estado”. Terrorismo de Estado! Um blog! Está lá: O Globo, 10 de junho de 2009. Na época, matutei cá com meus botões: o que pensará uma vítima de terrorismo de Estado real – por exemplo, uma família palestina expulsa de seu lar, com o filho espancado por soldados israelenses – se lhe disséssemos que um filósofo qualifica como “terrorismo de Estado” a inauguração de um blog em que uma empresa pública reproduz as entrevistas com ela feitas pela mídia? É a esse triste papel que se prestam os acadêmicos amestrados, em troca de algumas migalhas de visibilidade.
 
 A lambança mais patética aconteceu recentemente. Em artigo na Folha de São Paulo, Marco Antonio Villa qualificava a política externa do Itamaraty de “trapalhadas” e chamava Celso Amorim de “líder estudantil” e “cavalo de troia de bufões latino-americanos”. Poucos dias depois, a respeitadíssima revista Foreign Policy – que não tem nada de esquerdista – apresentava o que era, segundo ela, a chave do sucesso da política externa do governo Lula: Celso Amorim, o “melhor chanceler do mundo”, nas palavras da própria revista. Nenhum contraponto a Villa jamais foi publicado pela Folha.
 
 Poucos países possuem um acervo acadêmico tão qualificado sobre relações raciais como o Brasil. Na mídia, os “especialistas” sobre isso – agora sim, com aspas – são Yvonne Maggie, antropóloga que depois de um único livro decidiu fazer uma carreira baseada exclusivamente no combate às cotas, e Demétrio Magnoli, o inacreditável geógrafo que, a partir da inexistência biológica das raças, conclui que o racismo deve ser algum tipo de miragem que só existe na cabeça dos negros e dos petistas.
 
 Por isso, caro leitor, ao ver algum veículo de mídia apresentar um especialista, não deixe de fazer as perguntas indispensáveis: quem é ele? Qual é o seu cacife na disciplina? Por que está ali? Quais serão os outros pontos de vista existentes na mesma disciplina? Quantas vezes esses pontos de vista foram contemplados pelo mesmo veículo? No caso da mídia brasileira, as respostas a essas perguntas são verdadeiras vergonhas nacionais.

 Idelber Avelar

Essa matéria é parte integrante da edição impressa da Fórum de novembro.  Nas bancas ; (extraido de http://www.revistaforum.com.br/sitefinal/EdicaoNoticiaIntegra.asp?id_artigo=7809).



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Mulher, Negra,"Humilde", Nortista e Evangélica…

Sen. Marina Silva (com visual menos sisudo que o consagrado na mídia)

Sen. Marina Silva (com visual menos sisudo que o consagrado na mídia)

Esse é parte do perfil da virtual pré-candidata do PV à Presidência da República na campanha de 2010.

Em entrevista à revista Veja, a Senadora pelo Acre,  nascida nos seringais, alfabetizada pelo Mobral e formada em Universidade Federal,  companheira de lutas de Chico Mendes, co-fundadora histórica do PT e ex-ministra do meio-ambiente ;  deixou claro de maneira não costumeira, sua posição enquanto negra…,  seu apoio as ações afirmativas e cotas universitárias, de assuntos polêmicos como religião, diversidade, aborto, drogas… e claro…, meio-ambiente.

Apesar de não assumir abertamente a candidatura,  já adiantou que não será uma “candidata negra”  nem “candidata mulher”   ou  “candidata-alguma-de-suas-peculiaridades”,  ao que indica adotando uma postura muito semelhante a da adotada por Barack |Obama  na   última campanha norte-americana, será a candidata “do novo” e  “do ambiente” , outro indicativo é que focará a juventude como eleitorado base…

Dou destque para a parte da fala, em que a entrevistadora pergunta se ela é favorável as cotas raciais nas universidades públicas, após a resposta afirmativa da Senadora,  a entrevistadora ( cuja revista é declaradamente anti-cotas) “lembrou” que  a Senadora apesar de negra e de origem humilde conseguiu entrar e cursar uma universidade federal, sem  a “ajuda”  de cotas…; no que foi pronta e firmemente retrucada , “Sou uma exceção !, tenho sete irmãos que não chegaram lá…” .

Particularmente gostei do que li.

Quanto a descrença de alguns em um “PV atrelado” até então às forças políticas como DEM e PSDB, bem como a aposta de que os mesmos estariam imaginando a Senadora Marina como uma “inocente útil” no trabalho de detonar a candidatura do PT, creio que os PSDB/DEMOS estão fazendo o seguinte raciocínio : Marina vai tentar levar o PV sozinho (ou com partidos de pouca expressão) e assim vai dividir os votos que teoricamente seriam do PT; favorecendo assim a candidatura tucana… que teria mais chances de garantir o segundo turno contra um PT bem mais fraco do que seria em um primeiro turno sem Marina…

Mas como em política tudo pode ocorrer… , Marina pode “fechar” uma acordo com seu antigo partido e dependendo da situação ao final do primeiro turno unirem forças para o segundo…, mesmo com toda máquina do governo vai ser difícil emplacar a Dilma para um segundo turno, com a Marina na disputa… o mais provável é que a essa altura o PT já tenha começado a estruturar o PLANO B (fazer a campanha com Dilma para se impor como “força” mas já se preparando para apoiar Marina no segundo turno), afinal para o Pres. LULA, fazer palanque para qualquer uma das suas duas ex-ministras e camaradas históricas não deve ser nenhum grande problema…

Agora  falando da penetração popular que Marina pode obter com suas 4 características peculiares: Mulher, Negra,”Humilde”, Nortista e Evangélica… (sem contar o AMBIENTALISTA de renome internacional, experiência como Senadora e Ministra , “ficha limpa” e “novidade em eleição presidencial” ) é algo espantoso…, nem o Presidente norte-americano BARACK OBAMA teve contextualmente um perfil tão “renovador” e popular quanto o de Marina… .

Marina lembra que durante as prévias democratas norte-americanas da última eleição, um amigo brincou que os americanos estavam no impasse de ter de escolher entre um negro e uma mulher, e que se ela fosse  a candidata a presidente , o eleitorado não teria esse problema pois ela é mulher e negra…

Para um mundo “em xeque” com a questão ambiental o histórico e perfil dela em uma regra de 3 estaria igual a de um Che Guevara na revolução cubana de Fidel.