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Africanos na América muito antes de Colombo

Esse texto obviamente não se pretende de rigor e formatação científicos, é um texto popular e referencial que aponta para fatos reconhecidos na comunidade científica especializada, mas não muito divulgados ou consolidados, para o grande público.

Vários foram os reinos e impérios africanos antes do contato com os europeus, reinos e impérios ricos e poderosos. Um deles foi o Império do Mali, na região de Manden, por Isso também conhecido por Mandinga, durou entre 1235 e 1670, o território era o ocupado pelos atuais Mali, Serra Leoa, Senegal, Gâmbia, Guiné e sul do Saara Ocidental.

Nele governou no início do séc. XIV Abu Bakr II, também citado como Abubakari II, que foi sucedido em 1.311 por Mansa Musa, o “Leão do Mali”, tido como o homem mais rico que já existiu, mas a interessante história de Musa não é nosso objeto, está nas referências para quem se interessar, é importante aqui pelo relato que segue:

“Al-Umari, historiador e viajante árabe da Idade Média, afirma que, em sua estada no Egito, ouviu a seguinte estória, que havia sido ali contada por Mansa Musa, então senhor do Mali: O governante que me precedeu não acreditava que era impossível alcançar a extremidade do oceano que circunda a Terra, e queria chegar ao final dele. Assim, equipou duzentos barcos cheios de homens, e muitos outros cheios de água, ouro, e provisões suficientes para vários anos. Então, ordenou ao capitão que não voltasse até que eles chegassem ao outro lado do oceano, ou até que estivessem esgotadas provisões e água. Mas, apenas um barco retornou. Quando questionado, o capitão deste barco respondeu: “Navegamos por longo período, até que vimos, no meio do oceano, um grande rio que flui de forma maciça. Meu barco foi o último; os outros, que seguiam antes de mim, foram afogados num grande redemoinho, do qual não saíram de novo. Eu naveguei de volta para escapar da corrente.” Mas, o sultão não se deu por satisfeito: ordenou que se preparasse dois mil barcos para ele e seus homens, e mais mil para a água e provisões. Em seguida, conferiu a regência a mim durante sua ausência, e partiu com seus homens, para nunca mais voltar; nem para dar um sinal de vida. Assim sendo, há quem acredite que o governante desaparecido, Abu Bakr II, tio-avô de Musa, não retornou porque desembarcou nas Américas” (SANTOS, 2016)

Fonte: Mansa Musa: The Lion of Mali de Kephra Burns, ilustradores Leo e Diane Dillon (2001)

Relato histórico básico do fato realizado, as expedições, e corrigir um detalhe, na verdade Abu Bakr II era irmão de Mansa Musa, não Tio-avô, provável confusão com Abu Bakr I, cabe complementar com outros detalhes e fortes evidências de que as expedições mandingas atingiram as Américas.

São várias as fontes possíveis, mas vou me concentrar no interessante trabalho publicado por Elisa Larkin do Nascimento, pesquisadora reputadissíma, que por sua vez se apoia em outros renomados como Ivan Sertima, que revela testes feitos com modelos de antigas embarcações africanas provando a sua capacidade transatlântica. Elisa Larkin traz inclusive elementos de presença africana nas Américas anteriores à de Abu Bakr II, porém vamos manter o foco:

“Abubakari II manda construir uma frota de navios e embarca, em 1311, pelos “rios no meio do mar” que levam o navegante em direção às Américas. Trata-se do mesmo complexo de correntes marítimas que trouxe Pedro Alvares Cabral ao Brasil. Algumas dessas correntes partem da costa ocidental da Africa em direção à Península de lucatã, região do litoral mexicano onde floresciam naquela
época as civilizações clássicas maias e toltecas.

Exatamente em 1311, de acordo com a concepção cíclica do tempo no calendário maia, o Popol Vuh registra o retorno à sua terra do deus-serpente emplumado, Quetzalcoatl, na forma de um homem escuro, alto e barbado, vestido de branco. O retrato coincide perfeitamente com a figura do imperador africano islamizado, que trajava vestes brancas e usava barbicha.
Os historiadores árabes da época registraram o embarque de Abu bakari II. Levando em conta as correntes marítimas e as viagens de Heyerdahl e outros marinheiros, a viabilidade da chegada às Américas do imperador africano fica evidente. Práticas religiosas e rituais, complexos de traços culturais, elementos lingüísticos, deuses e divindades, mitos e símbolos compartilhados entre a cultura maia e as culturas africanas de Mali corroboram a tese. Quando consideramos o volume de evidências reunidas por Ivan Van Sertima e outros autores, fica difícil deixar de concordar que o único obstáculo à aceitação geral da tese da presença africana nas Américas antes de Colombo é o eurocentrismo, que não permite à ciência abalar sua convicção da inferioridade africana.”

E segue, agora com uma evidência muito forte.


“Desde sua primeira viagem às Américas, Colombo realizava trocas com os índios caribenhos, que lhe vendiam tecidos africanos (almayzars) e outras peças elaboradas por meio de tradições próprias à África ocidental. Em sua segunda viagem ao Caribe, Colombo obteve dos indígenas da ilha de Espanhola, que hoje compreende o Haiti e a República Dominicana, várias pontas de lança feitas de uma liga metálica cheirosa. Os índios afirmavam ter adquirido essas peças dos “homens negros e altos que vinham de onde nasce o sol”. Os índios chamavam essas pontas de lança de gua-nin. Em Portugal, após entrevista com Colombo, o rei mandou analisar a liga metálica. Descobriu, então, que
se tratava de uma liga utilizada na África ocidental cuja fórmula era: dezoito partes de ouro, seis partes de prata e oito partes de cobre. O nome dessa liga, em todas as línguas africanas do grupo mande, é gua-nin (Sertima, 1976, p. 11-3). Outros objetos africanos apareciam da mesma forma entre os índios.” (NASCIMENTO, 2008)

Ou seja, não deixa espaço para dúvidas que os africanos mandingas não apenas chegaram, como interagiram com os nativos do “novo mundo”, bem antes de Colombo.

Fonte: Mansa Musa: The Lion of Mali de Kephra Burns, ilustradores Leo e Diane Dillon (2001)

No Brasil também.

Como dito as expedições mandingas envolveram milhares de embarcações, a ideia de naufrágios, separação das frotas, com chegadas em pontos diversos não é desprezível, afinal as conhecidas correntes atlânticas levam à diversos pontos nas Américas.

Capa do livro Abu Bakr II: explorador mandinga de Diawara

Tiemoko Konate, da equipe de pesquisadores do autor de “Abu Bakr II, explorateur mandigue” Gaussou Diawara, diz que a frota de Abu Bakr II teria chegado também na costa brasileira, onde hoje é Recife, e estabelecido uma colônia, “Seu outro nome é Purnanbuco, o que acreditamos ser uma corrupção do Mande Boure Bambouk, os campos ricos em ouro que representavam grande parte da riqueza do Império do Mali”

outros textos, esses de referências menos sólidas, ou mesmo sem referências, de que Boure Bambouk ou Purnanbuco, teria sido uma bem sucedida experiência de colonização mandinga, pelo próprio Abu Bakr II com alta integração com os Tupis, e com conhecimento e contato com o Mali, que após duas gerações se desinteressou pelas colônias de além-mar.

Os comerciantes de Purnanbuco, sob o comando de Mohammed, fiho de Abu Bakr II, teriam atingindo por volta de 1340 a Península de Yucatán e estabelecido comércio com os Maias. De qualquer forma, são tantos detalhes e coincidências da narrativa, com outras melhor referenciadas, e conhecendo o histórico de apagamentos eurocêntricos dos protagonismos africanos e civilizações pré-colombianas, que tendo a ver grande plausibilidade.

Referências

SANTOS, Ademir Barros dos. Mansa Musa: o homem mais rico que o mundo já viu. 2016. Portal Por Dentro da África. Disponível em:   http://www.pordentrodaafrica.com/cultura/22885 . Acesso em: 12 set. 2020.

NASCIMENTO, Elizabeth Larkin. 2008. Sankofa: As civilizações africanas no mundo antigo. In: A matriz africana no mundo. São Paulo: Selo Negro Ed. Col. Sankofa I: Matrizes africanas da cultura brasileira, p.98-107.


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O "tsunâmi" nordestino

Impressionantes as imagens da destruição causada pelas chuvas e transbordamento de rios em Pernambuco e Alagoas, se assemelham muito a de regiões devastadas por tsunâmis.

Ao que me parece o governo federal está tratando a situação com muita seriedade e celeridade, as forças armadas, a força de segurança nacional e um comitê de gestão da crise estão mobilizados e empenhados não apenas no socorro imediato as vítimas, mas já visando também  a reconstrução da infraestrutura.

Coisas do nordeste…, quando não é a sêca é enchente…

A tragédia desta vez não foi no Ceará mas cabe a lembrança da famosa música  popularizada na voz de Luiz Gonzaga :

Súplica Cearense

Composição: Gordurinha e Nelinho

Oh! Deus, perdoe este pobre coitado
Que de joelhos rezou um bocado
Pedindo pra chuva cair sem parar

Oh! Deus, será que o senhor se zangou
E só por isso o sol arretirou
Fazendo cair toda a chuva que há

Senhor, eu pedi para o sol se esconder um tiquinho
Pedir pra chover, mas chover de mansinho
Pra ver se nascia uma planta no chão

Oh! Deus, se eu não rezei direito o Senhor me perdoe,
Eu acho que a culpa foi
Desse pobre que nem sabe fazer oração

Meu Deus, perdoe eu encher os meus olhos de água
E ter-lhe pedido cheinho de mágoa
Pro sol inclemente se arretirar

Desculpe eu pedir a toda hora pra chegar o inverno
Desculpe eu pedir para acabar com o inferno
Que sempre queimou o meu Ceará