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O “pardo de schrödinger” e a falácia metaracista.

O presente texto visa desconstruir mais uma das típicas argumentações metaracistas, para tal é preciso antes apreender alguns conceitos importantes para o entendimento pleno da questão.

O primeiro ponto, Schrödinger, foi um físico teórico austríaco muito vinculado à física quântica, prêmio Nobel de Física em 1933. Um de seus experimentos mais famosos é conhecido por “O gato de Schrödinger”, no qual basicamente tenta verificar o quanto uma situação é verdadeira ou não a partir de análises da realidade a partir de pontos de vista diversos, ou seja, algo um tanto subjetivo.

Pois bem, a partir disso algum metaracista ( logo adiante vamos trabalhar o conceito) resolveu fazer uma paródia tratando da visualização e atribuição da população e indivíduos de cor parda, que seriam ora tratados e incorporados à população negra, ora descartados ao sabor de “conveniências” dos movimentos e ativistas negros, chamando a paródia de “O pardo de Schrödinger” .

Metaracismo é conceito colocado por Joel Kovel e também tratado por outros intelectuais como Zizek, que trabalham o tema do racismo. Basicamente metaracismo é uma forma moderna de racismo aonde não se assume intenção supremacista, direta e claramente racista, pelo contrário, se diz “antiracista” ao mesmo tempo que trabalha no combate ao verdadeiro antiracismo, desse modo, cinicamente busca manter as desigualdades sociais de origem racial, mesmo considerando não haver de fato diversas raças entre a humanidade, ou seja é o racismo que prescinde da ideia de raça biológica mas atinge igualmente os mesmos grupos tradicional e socialmente expostos à subordinação e tenta manter o status quo.

Dai a afirmação de que a argumentação utilizando “Pardo de Schrödinger” tem finalidade metaracista, pois ataca não apenas a definição de população negra enquanto bloco formado por pretos e pardos, mas as críticas dos movimentos negros, seus ativistas e aliados e o critério utilizado nas políticas públicas de correção das desigualdades raciais.

A questão do pardo enquanto negro, tem base histórica, tanto no período da escravidão, a exemplo do censo de 1872 (o primeiro oficial de todo o país) que utilizava em geral o termo pardo para os negros livres e libertos (independente de cor/miscigenação) e o termo preto para os ainda cativos, quanto no pós-abolição, aonde o estado brasileiro sempre definiu como pessoas negras os membros da população negra, oficialmente formada pelos autodeclarados pretos e pardos, igualmente aos movimentos negros e a academia.

Se há dúvidas e divergências em situações pontuais de “fronteira extrema” é devido à subjetividade das visões dos envolvidos, não uma intencional e “matreira” utilização dos conceitos identitários pelos ativistas e movimentos. Matreiros são os argumentos dos metaracistas para sempre se colocarem contra toda e qualquer ação afirmativa de recorte racial e mesmo as denúncias do racismo cotidiano e estrutural.