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Monteiro Lobato, Negrinha e a boneca loura…

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Uma das facetas pouco conhecidas de Monteiro Lobato, famoso escritor que se notabilizou entre outras coisas pelos contos infantis, era o fato de ser um “eugenista de carteirinha”. Para quem não sabe, a Eugenia foi uma ideologia instalada em fins do XIX e persistente nas décadas iníciais do XX, para encurtar, basta dizer que as premissas ariano-nazistas tem a mesma origem, que remetem ao Conde de Gobineau, que foi um tipo de embaixador da França no Império brasileiro e amigo de Pedro II. Em outras palavras, racismo que se pretendeu inclusive “científico” .

A correspondência de Lobato com um amigo, acabou se tornando um livro, chamado “A barca de Gleyre”, aonde há uma passagem em que o mesmo diz que implantar tais ideiais no Brasil funcionava melhor de forma indireta, ou seja, subliminar. E com efeito utilizou de sua literatura para isso.

O livro “Negrinha” de 1920,  tinha vários contos inclusive o que dá nome ao livro e do qual abaixo apresentamos apenas a parte final:

Era de êxtase o olhar de Negrinha. Nunca vira uma boneca e nem sequer sabia o nome desse brinquedo. Mas compreendeu que era uma criança artificial.
— É feita?… — perguntou, extasiada.
E dominada pelo enlevo, num momento em que a senhora saiu da sala a providenciar sobre a arrumação das meninas, Negrinha esqueceu o beliscão,o ovo quente, tudo, e aproximou-se da criatura de louça. Olhou-a com assombrado encanto, sem jeito, sem ânimo de pegá-la.
As meninas admiraram-se daquilo.
— Nunca viu boneca?
— Boneca? — repetiu Negrinha. — Chama-se Boneca?
Riram-se as fidalgas de tanta ingenuidade.
— Como é boba! — disseram. — E você como se chama?
— Negrinha.
As meninas novamente torceram-se de riso; mas vendo que o êxtase da bobinha perdurava, disseram, apresentando-lhe a boneca:
— Pegue!
Negrinha olhou para os lados, ressabiada, como coração aos pinotes. Que ventura, santo Deus! Seria possível? Depois pegou a boneca. E muito sem jeito, como quem pega o Senhor menino, sorria para ela e para as meninas, com assustados relanços de olhos para a porta. Fora de si, literalmente… era como se penetrara no céu e os anjos a rodeassem, e um filhinho de anjo lhe tivesse vindo adormecer ao colo. Tamanho foi o seu enlevo que não viu chegar a patroa, já de volta. Dona Inácia entreparou, feroz, e esteve uns instantes assim, apreciando a cena.
Mas era tal a alegria das hóspedes ante a surpresa extática de Negrinha, e tão grande a força irradiante da felicidade desta, que o seu duro coração afinal bambeou. E pela primeira vez na vida foi mulher. Apiedou-se.
Ao percebê-la na sala Negrinha havia tremido, passando-lhe num relance pela cabeça a imagem do ovo quente e hipóteses de castigos ainda piores. E incoercíveis lágrimas de pavor assomaram-lhe aos olhos.
Falhou tudo isso, porém. O que sobreveio foi a coisa mais inesperada do mundo — estas palavras, as primeiras que ela ouviu, doces, na vida:
— Vão todas brincar no jardim, e vá você também, mas veja lá, hein?
Negrinha ergueu os olhos para a patroa, olhos ainda de susto e terror. Mas não viu mais a fera antiga. Compreendeu vagamente e sorriu.
Se alguma vez a gratidão sorriu na vida, foi naquela surrada carinha…
Varia a pele, a condição, mas a alma da criança é a mesma — na princesinha e na mendiga. E para ambos é a boneca o supremo enlevo. Dá a natureza dois momentos divinos à vida da mulher: o momento da boneca — preparatório —, e o momento dos filhos — definitivo. Depois disso, está extinta a mulher.
Negrinha, coisa humana, percebeu nesse dia da boneca que tinha uma alma. Divina eclosão! Surpresa maravilhosa do mundo que trazia em si e que desabrochava, afinal, como fulgurante flor de luz. Sentiu-se elevada à altura de ente humano. Cessara de ser coisa — e doravante ser-lhe-ia impossível viver a vida de coisa. Se não era coisa! Se sentia! Se vibrava!
Assim foi — e essa consciência a matou.
Terminadas as férias, partiram as meninas levando consigo a boneca, e a casa voltou ao ramerrão habitual. Só não voltou a si Negrinha. Sentia-se outra, inteiramente transformada.
Dona Inácia, pensativa, já a não atazanava tanto, e na cozinha uma criada nova, boa de coração, amenizava-lhe a vida.
Negrinha, não obstante, caíra numa tristeza infinita. Mal comia e perdera a expressão de susto que tinha nos olhos. Trazia-os agora nostálgicos, cismarentos.
Aquele dezembro de férias, luminosa rajada de céu trevas adentro do seu doloroso inferno, envenenara-a.
Brincara ao sol, no jardim. Brincara!… Acalentara, dias seguidos, a linda boneca loura, tão boa, tão quieta, a dizer mamã, a cerrar os olhos para dormir. Vivera realizando sonhos da imaginação. Desabrochara-se de alma.
Morreu na esteirinha rota, abandonada de todos, como um gato sem dono. Jamais, entretanto, ninguém morreu com maior beleza. O delírio rodeou-a de bonecas, todas louras, de olhos azuis. E de anjos… E bonecas e anjos remoinhavam-lhe em torno, numa farândola do céu. Sentia-se agarrada por aquelas mãozinhas de louça — abraçada, rodopiada.
Veio a tontura; uma névoa envolveu tudo. E tudo regirou em seguida, confusamente, num disco. Ressoaram vozes apagadas, longe, e pela última vez o cuco lhe apareceu de boca aberta.
Mas, imóvel, sem rufar as asas.
Foi-se apagando. O vermelho da goela desmaiou…
E tudo se esvaiu em trevas.
Depois, vala comum. A terra papou com indiferença aquela carnezinha de terceira — uma miséria, trinta quilos mal pesados…
E de Negrinha ficaram no mundo apenas duas impressões. Uma cômica, na memória das meninas ricas.
— “Lembras-te daquela bobinha da titia, que nunca vira boneca?”
Outra de saudade, no nó dos dedos de dona Inácia.
— “Como era boa para um cocre!…”

Talvez o leitor não conhecedor do conceito de metaracismo, até enxergue no conto um “libelo humanista” e de “compaixão antiracista”, mas quem conhece não deixará de notar a mensagem subliminar que se pretende passar  em “Jamais, entretanto, ninguém morreu com maior beleza. O delírio rodeou-a de bonecas, todas louras, de olhos azuis. E de anjos… E bonecas e anjos remoinhavam-lhe em torno, numa farândola do céu” .

A morte “redentora” de Negrinha se deu por em vida não poder mais alcançar a beleza loura da boneca, e no momento da morte foi “reconfortada” em seu desejo pela beleza branca, rodeada de bonecas louras e anjos (obviamente louros também), mais simbólico de uma apologia ao ideal ariano seria difícil… .

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É cada uma…; é pra rir, chorar ou chorar de rir ???

Quase 26 anos de ativismo e discussão temática (uns 15 na web), e vira e mexe me deparo com uns absurdos, que não sei se é para rir, para chorar, ou para chorar de rir… :-). Hoje tive um “papinho daqueles”, estava comentando em uma dessas  postagens dos outros que envolvia a temática racismo, quando surge na thread uma antiga conhecida do mundo real (com quem costumo ter virtualmente umas desavenças por conta das “coxinhisses” e reacionarismo histriônico), dizendo que na sua visão, o assunto não tinha nada a ver com “raça” ou racismo. Fui responder que na nossa sociedade se observar atentamente todo fato negativo envolvendo pessoas de cores distintas, tende a ter a cor como variável que influencia ou influenciou o quiprocó (ou boa parte dele…) .   A coisa virou uma “bola de neve” com ela negando e minimizando a questão racial e eu dando exemplos do reconhecimento internacional (pela ONU) e nacional (pelo estado brasileiro por meio de diversas instâncias, incluindo o governo federal) da estrutura racista e institucionalizada da sociedade brasileira ( já pensou ver alguém dizer que a ONU não tem credibilidade?, pois é… vivi para ver isso) , até a coisa ficar tensa.  A referência ao uso do termo “raça” vem de um comentário descabido um pouco antes do mostrado no fim da conversa, cujo print (com algumas intervenções, e o nome da interlocutora omitido pois estou discutindo a situação, não a pessoa…) ).

Segue abaixo… :

print-conversa-doida

E ai ? é para rir, para chorar, ou para chorar de rir… 🙂


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O rolezinho e a reação metaracista brazuca.

size_300_rolezinhoCom esse assunto disseminado neste final/inicio de ano, inicio as postagens de 2014, falando um pouco do  “rolezinho” (mobilização de jovens da periferia [leia-se pobres e majoritariamente negros] para “ocupação” de espaços tradicionalmente ocupados pelas classes mais abastadas e “brancas’, em especial os shopping centers).

A reação não apenas dos administradores dos shoppings (reprimindo a prática truculentamente, através das seguranças internas e com apoio de forças policiais) como o posicionamento solidário de lojistas e frequentadores e até manifestações claramente preconceituosas por parte da imprensa, desmascara completamente o que os “neo-democratas-raciais” insistem em tentar negar e “amenizar”,  o apartheid prático mas não declarado, estabelecido entre as classes hegemônicas e virtualmente brancas  e a “plebe” periférica, pobre e negra… .

Essa juventude que embalada pelo funk ostentação (que incita os excluídos do sistema a querer ser atores ativos no mundo do consumo supérfluo, a compartilhar dos espaços e símbolos dessa prosperidade acessível aos providos de “cidadania plena”), e mobilizada a partir das redes sociais (e muitos dirão: “maldita inclusão digital”) incomoda e assusta as  “pessoas de bem” que se julgam as naturalmente e  únicas habilitadas ao acesso aos templos do consumo e lazer… .

Os rolezinhos, apesar de “manifestações” pacíficas e dos jovens envolvidos e constrangidos por seguranças e policiais, até então não terem podido ser enquadrados em  nada de ilegal ou efetivamente danoso a segurança de lojistas e frequentadores,  são reprimidos baseados em… nada de concreto, apenas pelo preconceito, medo e incomodo com essa gente pobre e negra que resolveu coabitar os mesmos espaços de lazer .

Essa insurgência lembra um pouco a história de  Franklin McCain, um negro que ousou pedir café no balcão errado da América

Apenas para constar, essa aspiração ao shopping center antecede em muito ao funk ostentação, inclusive o termo “rolezinho” parece totalmente retirado do contextualizadíssimo sucesso do sinistrado grupo Mamonas assassinas, “Chopis Centis” do já longinquo 1995… :

Esse tal “Chópis Cêntis”
É muicho legalzinho,
Pra levar as namoradas
E dar uns rolêzinhos

Quando eu estou no trabalho,
Não vejo a hora de descer dos andaime
Pra pegar um cinema, do Schwarzenegger
“Tombém” o Van Daime.

Quanta gente,
Quanta alegria,
A minha felicidade
É um crediário
Nas Casas Bahia “

Como já expliquei em muitos dos meus escritos, o metaracismo é o racismo pós-moderno, cínico, velado e na maioria das vezes travestido de defesa da legalidade, da ordem, da igualdade…, sem a intermediação psicológica, violenta e declarada do racismo tradicional,  mas que na realidade nada mais é que uma tentativa de manter o Status Quo, de manter “a salvo” os recursos e espaços das classes tradicionalmente dominantes (leia-se ricas e/ou remediadas e  brancas), dos postulantes pobres e/ou não brancos a compartilhar tais recursos e espaços… .

Em tal sentido se comprova atualíssimo o que Blumer em 1939 já identificava : São quatro os sentimentos que, segundo Blumer, estarão sempre presentes no preconceito racial do grupo dominante: (a) de superioridade; (b) de que a raça subordinada é intrinsecamente diferente e alienígena; (c) de monopólio sobre certas vantagens e privilégios; e (d) de medo ou suspeita de que a raça subordinada deseje partilhar as prerrogativas da raça dominante. (GUIMARAES, 2004)

Nenhuma novidade no front…

Referências:

GUIMARAES, Antonio Sérgio Alfredo. Preconceito de cor e racismo no Brasil. Rev. Antropol.,  São Paulo ,  v. 47, n. 1,   2004 .   Available from . access on  14  Jan.  2014.  http://dx.doi.org/10.1590/S0034-77012004000100001.