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“Consciência Branca” ???, o que é isso “cara-pálida” ???

decrebranco

Ato oficial da Presidência da Câmara de Sertãozinho- SP

 

Que existam pessoas que por total falta de conhecimento e boa vontade ou mesmo por convicções ideológicas baseadas em uma mentalidade racista e excludente assumida ou não, se coloquem contra o Dia da Consciência Negra é até compreensível.

Muda de figura quando mesmo em tom de pilhéria se fala em “Consciência Branca” ai a coisa fica “complicada”…, e quando a “pilhéria” (isso se o for, pois mais parece uma “meta-insurgência” ) vai parar em um documento oficial de governo, se revela que não apenas ainda falta muito trabalho de conscientização, quanto punições exemplares para quem usando de suas funções públicas se coloca acintosamente contra o arcabouço legal e  as políticas públicas do estado brasileiro.

Não seria a primeira vez que um ente público, sem bases científicas (corroboradas pelas Ciências Sociais), sem atentar para a realidade e sem consultar especialistas ou mesmo realizar consultas populares, se arvora irresponsavelmente e na contra-mão do verdadeiro antiracismo em “inventar moda” nas questões que envolvem questões raciais, identitárias ou afirmativas.  Nós do Amazonas temos boas experiências para demonstrar isso.

São agentes públicos que não sabem a diferença de “étnico” para “racial”, não entendem nem tais conceitos separadamente, não conhecem nem compreendem o conceito de AFIRMAÇÃO, nunca se aventuraram seriamente pela leitura e discussão dos temas em abordagens acadêmicas, desconhecem legislação relacionada e formam opinião a partir de fontes reacionárias e/ou não validadas por quem conhece do assunto. Justamente por isso não tem condições de compreender a diferença entre “orgulho afirmativo” (pride) e “orgulho besta” (supremacista), entre “Consciência” e “Alienação/Evitamento” e muito menos entre “Consciência Negra” e “Consciência Branca” (sic)… .

Não vou me deter em tentar explicar no texto o que é Consciência Negra, quem ainda não sabe e tem boa vontade veja uma apresentação que fiz em Prezi sobre o assunto, já com relação a  tal “Consciência Branca”  vou me deter um pouquinho… .

1- Afirmação no jargão das discussões da temática quer dizer “Ato ou ação que visa corrigir e reparar injustiças, preconceitos, discriminações e desigualdades histórica e culturalmente colocadas e que não o seriam sem tal, pelo menos não em curto ou médio prazo, ela é aplicável à vários recortes (grupos) minoritários (sentido social) e tradicionalmente atingidos pelos prejuízos citados, e somente a esses recortes. ” 

2- Por motivos óbvios enquanto “população branca” em sentido geral, não há motivos históricos, culturais e sócio-econômicos que ensejem Afirmação, pois a mesma não é socialmente minoritária, não tem construído contra si um histórico de preconceito e discriminação pela cor/origem, não foi nem é vítima de subalternização social-estética-cultural histórica e culturalmente arraigada, não tem subrepresentação nos estratos sociais intermediários e altos, não tem prejuízo generalizado e persistente nos indicadores sociais,  muito pelo contrário, enquanto população e cultura civilizatória desde sempre manteve hegemonia e inclusive práticas exploratórias e subalternizadoras sobre os demais grupos (não-brancos).

3- Pelos motivos acima é que não existe uma “Questão Branca” (causa), não há “problemas” históricos e sociais, nem justas reivindicações de soluções para ajustes e instalação de igualdade com o grupo tradicionalmente dominante, porque esse grupo dominante é ele mesmo, o  grupo branco. Não havendo portanto qualquer real necessidade de Afirmação branca, muito pelo contrário, há uma real necessidade do grupo branco ceder verdadeira e igualitariamente a um compartilhamento efetivo e justo das posições e recursos disponíveis na sociedade. Resta então entender que reivindicar ou fazer apologia a uma “Consciência Branca” é tão dispensável ou absurdo quanto falar em “Orgulho branco” (que não sendo portanto afirmativo, cai na vertente do “Orgulho besta”) .

A existência da Consciência Negra (afirmativa) e de um dia para sua comemoração/reflexão sobre, não implica portanto na necessidade ou validade de um antônimo… . Não seria o caso também de se  falar em “Vergonha Branca” (muito embora a ação civilizatória européia e eurodescendente no mundo, também tenha deixado e deixe muitos e muitos motivos completamente válidos para tal sentimento…), porém o simples fato de entender e admitir a necessidade presente da Consciência Negra (afirmativa) e a desnecessidade de uma “Consciência Branca”(supremacista), já nos leva a todos humanos (independente de cor/origem) na direção de um mundo efetivamente melhor e igualitário.


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“Saem os índios, agora é a hora do povo brasileiro” (Galvão Bueno)

indioxpovobrasileiroAbertura da Copa 2014, o espetáculo não se pode dizer que não foi bonito, mas decididamente foi muito aquém do que poderia ter sido…, na terra do carnaval e do Boi-bumbá de Parintins (que aliás nem sequer tiveram qualquer menção estilizada), poderia se esperar (mesmo sob uma ótica belga) algo mais grandioso e representativo de TODAS regiões do país… (até se pode entender que uma apresentação sobre um tapete colocado para não prejudicar o gramado, tem suas limitações…, mas do mesmo modo que pode se representar o sul e o nordeste, poderia se representar o norte, o centro oeste, o pantanal e até o Rio de Janeiro…).

Agora, bem representado mesmo foi o espírito do racismo “inconsciente” que perpassa boa parte da nossa eurocentrada (leia-se “branqueada” e colonizada mentalmente) sociedade brazuca…, que apesar de sempre se valer do “mito das 3 raças” para apontar o Brasil como um país miscigenado e “livre” de preconceitos e discriminações em função de “raça”, repete em atos falhos a visão que se tem de índios e negros como “alienígenas” em seu próprio país…, interessante é que Herbert Blumer, sóciológo americano, já tinha cantando essa pedra em 1939… (BLUMER, Herbert ( 1 939). “The Nature of Racial Prejudice”) olha só que interessante :

“Os quatro tipos de sentimentos sempre presentes no preconceito racial:
a) um sentimento de superioridade;
b) um sentimento de que a raça subordinada é intrinsecamente diferente e alienígena;
c) um sentimento de monopólio sobre certas vantagens e privilégios;
d) medo ou suspeita de que a raça subordinada deseja partilhar as prerrogativas da raça dominante.” 

Ao dizer “Saem os índios, agora é a hora do povo brasileiro”, Galvão Bueno em ato falho, “excluiu” os índios do “povo brasileiro”, ou seja, apesar de estarem aqui e serem os  “brasileiros originais”  foram colocados como “alienígenas” (de fora / estrangeiros) ao “povo brasileiro”, o pior de tudo é que teve muita gente que por ter também essa visão naturalizada e introjetada na mentalidade, nem percebeu  a gravidade da fala…

Por isso é que nós ativistas, quando dizemos que o brasileiro é em geral insconsciente do seu racismo e denunciamos ações racistas ou realidades de desigualdade racial, ou somos ignorados, ou tachados de “chatos”  ou “procuradores de pelo em ovo”…, mas os fatos estão ai, não enxerga quem não quer… .