Blog do Juarez

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Refugiados

Interessante, tava imaginando aqui que ao se falar em acolhimento de refugiados sírios e tal, se faria apenas louvações à necessidade de acolher e/ou um grande silêncio (ao contrário das manifestações xenofóbicas e racistas disfarçadas de “preocupação com a estabilidade social e dificuldades já enfrentadas pelos brasileiros”), com certeza as manifestações negativas como esperado são modestíssimas já que o fato de não serem pretos os sírios indicava que a resistência seria menor e o “humanitarismo” maior, mesmo assim  dá para detectar que tem um povo por ai que é  xenófobo independente de ser ou não também racista, os comentários  das notícias como sempre revelam a verdadeira face do pensamento brasileiro.


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Vira e mexe, de novo os haitianos…

imigrantes-o-que-fato-sucedeApesar de não mais com o “entusiasmo” de alguns anos atrás, quando começaram a chegar os primeiros haitianos fugindo do caos  após a destruição causada pelo terremoto de 2010, vira e mexe alguém “lembra” que eles continuam vindo, não raro demonstrando alguma “preocupação” ou “dúvida” com relação a por que e como eles vem…, muito embora não tenha havido qualquer grande problema social (a exceção do grande acúmulo de imigrantes aguardando nas “cidades estanques” de entrada), nada de aumento de criminalidade, choques culturais, invasão de terras, moradia perigosa…, ou seja, nada do que ocorre normalmente com nossas próprias migrações internas, a única coisa que tem ocorrido é gente contente por poder estar trabalhando e ganhando o seu honestamente e patrões contentes com trabalhadores dedicados e  que “pegam rápido” as coisas.

Hoje temos no Brasil, cerca de 34 mil haitianos (podendo chegar a 50 mil no final do ano), 20% deles conseguem vistos no próprio país e desembarcam direto nos aeroportos de Belo Horizonte, Brasília ou  São Paulo;  pouco mais de 40% dos imigrantes haitianos têm escolaridade de nível médio completo ou incompleto, 30% do total  desses imigrantes são absorvidos pela construção civil os demais em outras ocupações em geral “indesejadas” ou não muito visadas pelos brasileiros (jardineiros, garçons, zeladores ou mesmo chão de fábrica). Como eles vem não é segredo, quem ficou com a casa em pé  hipoteca a casa em troca de algum dinheiro vivo, existe também as “vaquinhas familiares”, no médio prazo ter parentes trabalhando e enviando um fluxo constante de divisas a partir do Brasil é mais interessante que investir na destruída economia haitiana…, o custo dessa vinda é de cerca de 2,9 mil dólares por pessoa (~R$ 6.500) o que não é pouco, mas devido aos esquemas apresentados também não é nada “impossível”.

Apenas para ilustrar, no período da imigração massiva (de 1824 a 1969) tivemos  mais  de  250 mil  alemães entrando, sendo (76 mil) em um período de 10 anos(1920-1929), entre 1904 e 1972, desembarcaram um milhão e 240 mil portugueses, 505 mil espanhóis, 484 mil italianos, 248 mil japoneses, isso tudo em uma época em que a população brasileira era bem menor… , e para lembrar uma imigração mais recente (a dos coreanos) que hoje já são 50 mil no país,  sem contudo se ver “dúvidas ou questionamentos” quanto a qualquer uma delas (e muito pouco sobre os bolivianos escravizados em SP…),  a entrada maciça de imigrantes europeus na virada do século XIX para XX sob o argumento de que havia escassez de mão de obra com o fim da escravidão é totalmente falaciosa, já que segundo o historiador Petrônio Domingues, não havia escassez de mão de obra em finais do século XIX. Domingues calculou que havia no Brasil, naquela época, cerca de 4 milhões de brasileiros ociosos, entre negros e não negros. Entre 1851 e 1900, entraram no Brasil 2 milhões de imigrantes, ou seja, metade do total de nacionais fora do mercado de trabalho. Não existia, portanto, uma real necessidade de atrair esse contingente de imigrantes para o país, pois os próprios brasileiros poderiam ter suprido a demanda.

Logo, essa importação massiva de europeus e asiáticos fazia parte de uma política chamada “política nacional de branqueamento” , cuja intenção era óbvia…,

Citando José Honório Rodrigues, João Camilo de Oliveira Torres[2] documenta (p.90-91):

“Excluídos os chineses, começaram os defensores da branquidade, da europeidade de nossa gente, a opor-se à entrada de negros e amarelos. Foi a república que iniciou a discriminação. Já o Decreto nº 528, de 28 de junho de 1890, sujeitava à autorização especial do Congresso a entrada de indígenas da Ásia e da África, que não tinham assim a mesma liberdade de imigração que os outros.

Em 28 de julho de 1921, Andrade Bezerra e Cincinato Braga propuseram ao Congresso um projeto cujo artigo 1º dispunha: ‘Fica proibida no Brasil a imigração de indivíduos humanos das raças de cor preta. Dois anos depois, a 22 de outubro, o deputado mineiro Fidélis Reis apresentava outro projeto relativo à entrada de imigrantes, cujo artigo quinto estava assim redigido: ‘É proibida a entrada de colonos da raça preta no Brasil e, quanto ao amarelo, será ela permitida, anualmente, em número correspondente a 5% dos indivíduos existentes no país.(…)

No campo especificamente jurídico, essa ideologia pode ser constatada, emblematicamente, no Decreto-lei nº 7.967/1945. Cuidando da política imigratória, dispôs que o ingresso de imigrantes dar-se-ia tendo em vista “a necessidade de preservar e desenvolver, na composição étnica da população, as características mais convenientes da sua ascendência européia.” (artigo 2º).

Para encurtar a conversa, não havendo qualquer problema real causado pela entrada dos refugiados haitianos e sendo o seu número muito menor que a maioria das entradas históricas de imigrantes, só nos resta concluir que “o problema” continua sendo o mesmo introjetado pela política de branqueamento…, por tal motivo é que insistimos que por mais que as pessoas não se enxerguem como racistas, e nem tenham essa intenção consciente, permanecem reproduzindo e perpetuando visões preconceituosas e discriminatórias, só o conhecimento pode despertar uma mente embotada  pelo nevoeiro eurocentrista (base do racismo), esse é o nosso trabalho, não é sair por ai acusando uns e outros de “racistas”, mas sim despertar consciências a partir de fatos e dados claros e inequívocos (mas que nem sempre estão reunidos ou são de interesse de quem não estuda a temática seriamente), só assim as coisas mudam…


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Nova onda de ataque aos haitianos

cuidado-com-compartilhaDepois de algum tempo sem notícias envolvendo preconceito e discriminação contra haitianos, eis que surge uma onda de boatos com clara intenção de causar uma reação popular generalizada contra a presença dos mesmos.

O Hoax (boato na rede)  parece ter se originado no Acre, iniciou pelo facebook mas se concentrou e espalhou principalmente pelo Whatsapp e rapidamente,  e associa haitianos com um suposto surto do vírus ebola…,  a partir de uma mensagem que fala em 7 ônibus com haitianos doentes vindos de Brasília e mantidos em um parque de exposições (em Manaus não seria pois como viriam de ônibus de Brasília ????, mas ninguém para para pensar) diferentes  a que vão se agregando outras com adaptações para Manaus.

Os deflagradores contam com a ignorância das pessoas e apostam em uma mistura explosiva de preconceito com histeria em função de uma suposta muito próxima epidemia com o vírus mais temido da atualidade, sendo que o Ebola está restrito e contido em partes de países do centro-leste-oeste africano como Uganda, Congo e mais recentemente na Libéria e Guiné (onde já foram constatadas mais de 400 infecções e 150 mortes), ou seja, que não tem absolutamente nada a ver com o Haiti, a única semelhança está na cor das pessoas… (e com certeza absoluta ai reside novamente a motivação maior para o ataque).

Não há um só caso conhecido de Ebola fora do continente africano e ainda assim restrito as áreas citadas, a própria SUSAM já negou qualquer situação relacionada a Manaus: http://www.d24am.com/noticias/saude/susam-nega-caso-de-haitianos-com-virus-ebola-em-manaus/110799 .

Triste o mau uso que se faz dos modernos recursos de comunicação, mas isso só grassa devido a ignorância e preconceito das pessoas… .


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“Liberdade de opinião” para quem ???

Depois de toda a reação ao texto  xenófobo/racista de Mazé Mourão ” O Haiti não é aqui”, como era de se esperar veio a tentativa de “se limpar com a opinião pública” e escapar das consequências, através de uma manjada tática muito utilizada pelos meta-racistas, apelar para a “liberdade de expressão/opinião” e tentar desviar o foco através do discurso ” eu fiz pelo bem geral de todos ou dos nossos”;   desculpas públicas e o reconhecimento do erro nem pensar… .

A tentativa que veio através da postagem “Liberdade de Opinião” (http://blogs.d24am.com/blogdamaze/2012/02/02/liberdade-de-opiniao/comment-page-1/#comment-998) parece no entanto não ter dado certo ( muito pelo contrário), 3 dias depois o baixíssimo número (tendo em vista o blog estar no portal de um jornal muito lido e o nível da polêmica no ar) de comentários “favoráveis” (grande parte de parentes e amigos), demonstra claramente o posicionamento da opinião pública… (além de indicar que toda a oposição está obviamente sendo censurada, pois ninguém é besta…), não adianta vir com a velha desculpa da “liberdade de expressão” (liberdade essa negada aos outros pela própria autora ao censurar os comentários alheios, eu mesmo tive dois comentários censurados, e o que publico aqui originário de comentário postado lá não espero que seja diferente).

Cabe lembrar que a “Liberdade de expressão/opinião” também tem limites, quando a “opinião” possui elementos que afrontem ou desconsiderem a lei (o que foi o caso na “opinião infeliz” em “o Haiti não é aqui”) o responsável deve estar preparado para enfrentar não apenas o repúdio das pessoas de bom senso, quanto os rigores da lei… .

Ah! um outro detalhe, não “perder a pose” é fundamental na retórica da jornalista, ao tentar puxar para si o pionerismo e o deflagramento da reflexão sobre a questão, o que é obviamente MENTIRA !;  antes de seu texto, outros “locais” menos evidenciados (e alguns mais…),  já haviam iniciado seus “ataques” contra os haitianos, o contra-ataque idem (basta ver aqui no blog mesmo os posts anteriores ao infeliz artigo de 26/01  da jornalista ), se houve algum “mérito” na ação da mesma foi incendiar e amplificar o debate da questão devido à sua inegável ampla visibilidade jornalística, e só.

Sorry, Sorry, Sorry ! , decididamente o assunto não acabou (e nem vai terminar em pizza e olvidamento…).


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Ainda sobre a questão da imigração haitiana

A polêmica e a discussão acalorada do tema (pelo menos aqui pela Amazônia e especialmente no Amazonas) não dão sinais de arrefecimento, fatos novos e um número crescente de manifestações diversas na imprensa e nas redes sociais continuam e continuarão alimentando o debate e trazendo à luz da questão, novos e “requentados” prismas  .

Depois de N manifestações preconceituosas e discriminatórias mais ou menos veladas (culminadas  com o incendiário e nada velado artigo da  colunista Mazé Mourão (se ainda não está a par da questão leia aqui meu artigo anterior) ), vieram as reações e contra-reações (muitas também questionáveis, mesmo quando aparentemente anti-discriminatórias).

Como não poderia deixar de ser na nossa meta-racista sociedade,  a tentativa e “propostas” de retirar o foco da questão racial embutida no ” imbróglio” tem aparecido recorrentemente , sendo o rebate desse viés  específico o motivo do post atual.

O brasileiro “não-negro” possui  o tradicional costume  de tentar camuflar a sua mentalidade e práticas racistas, remetendo tudo para a “questão social”…; ela existe sim, mas no caso brasileiro nunca se dissocia completamente da questão racial, é uma variável real e indispensável tanto para a análise do nosso contexto histórico-social passado quanto presente e expectativas futuras.

A imigração maçica de europeus (e depois japoneses) no final do séc. XIX e por todo século XX, mais do que inserir mão de obra qualificada para a era industrial e substituição da mão-de-obra escrava na lavoura ( e não sei o “porque” de tamanha necessidade de “substituição”, já que os ex-escravos nem haviam se “extinguido” muito menos se negavam a trabalhar e receber por um trabalho que feito de graça “serviu bem” ao Brasil por mais de 350 anos), tinha na realidade o “componente racial” como base (vide “Política nacional de branqueamento” : http://amazonida.orgfree.com/movimentoafro/branqueamento.htm), hoje muito mais que antes tenta-se dissimular que a a imigração de negros não é bem-vinda, mas ainda em pleno meados do século XX , isso era descaradamente colocado inclusive na LEI : vide Decreto-lei nº 7.967/1945. cuidando da política imigratória, dispôs que o ingresso de imigrantes dar-se-ia tendo em vista “a necessidade de preservar e desenvolver, na composição étnica da população, as características mais convenientes da sua ascendência européia.” (artigo 2º) .

Pouco conhecido fora do círculo dos estudiosos da temática  é  também o caso  do Brazilian-American Colonization Syndicate,  descrito por (Tiago de Melo Gomes) em 1921 manifestou  seu desejo de adquirir terras no interior do Mato Grosso, visando colonizá-las com afro-americanos. Quando a notícia chegou aos ouvidos dos habitantes do “paraíso”(racial, grifo nosso) as reações foram instantâneas, e imediatamente os deputados Andrade Bezerra e Cincinato Braga apresentaram à Câmara dos Deputados um projeto impedindo “a importação de indivíduos de raças negras”. O projeto não se transformou em lei, mas isso não impediu o governo brasileiro de utilizar diversas artimanhas para negar vistos de entrada a afro-americanos, provocando com isso diversos protestos nos Estados Unidos.” ,  ou seja, o argumento de que toda “preocupação” e “reservas” à imigração massiva haitiana é meramente com as “consequências sociais” ou de priorização dos nacionais e regionais  em situação de pobreza, não é plenamente verdadeiro…,  há registros inequívocos na nossa história relacionada a imigrações, da faceta anti-negro; é portanto certo, que o velho e hipócrita META-RACISMO brasileiro também se faz presente na atual questão.