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BRANQUEAMENTO, GENOCÍDIO E NECROPOLÍTICA

Penso que muita gente sofre demais para admitir algo óbvio e histórico e fica tentando formas eufemizadas de negar um identificado e histórico projeto de branqueamento nacional, que hoje chamamos NECROPOLÍTICA (política da morte).

1- Quando o Brasil já se encaminhava para a abolição da escravidão tivemos a guerra do Paraguai, para ela foi enviado grande número de negros, que no mais das vezes funcionavam como “bucha de canhão”, termo utilizado para os que morriam primeiro por estarem à frente, a população negra sofreu grande redução… . Não por coincidência ao fim da anterior Guerra dos Farrapos, foram entregues para morrer desarmados e emboscados os “lanceiros negros”, como parte do armistício. Caxias estava envolvido nas duas situações, nos Farrapos, em 1844 escreve ao chefe militar da campanha no sul ordenando que avance com suas tropas para massacrar os negros desarmados em Porongos (aonde havia outras unidades, mas apenas o acampamento dos negros foi atacado), a carta também dizia: “No conflito, poupe o sangue brasileiro o quanto puder, particularmente da gente branca da Província ou índios, pois bem sabe que essa pobre gente ainda nos pode ser útil no futuro”. Já na Guerra do Paraguai (1864-1870) os poucos negros que sobraram, eram os que sabiam manejar as armas do Exército. Caxias escreve para o imperador demonstrando temor sobre o fato:

“[..] à sombra dessa guerra, nada pode livra-nos de que aquela imensa escravatura do Brasil dê o grito de sua divina e humanamente legítima liberdade, e tenha lugar uma guerra interna como no Haiti, de negros contra brancos, que sempre tem ameaçado o Brasil e desaparece dele a escassíssima e diminuta parte branca que há!”. O processo de ELIMINAÇÃO negra começa pelo medo de revoltas internas e avança para um projeto ideológico.

2- Entre 1869 e 1870 Arthur de Gobineau foi Ministro da França no Brasil (Embaixador) amigo de Pedro II. Segundo ele, o país apresentava raças inferiores e não tinha futuro, a miscigenação entre diversas etnias que ocorria na região originaria pardos e mestiços estéreis e degenerados. De acordo com suas teorias raciais, o Brasil estaria fadado ao fracasso e ao desaparecimento de toda a população, sendo que a única solução para o país seria a imigração de europeus, que, para ele, faziam parte de uma raça superior.

3- Em 28 de julho de 1921 Andrade Bezerra e Cincinato Braga, propuseram ao Congresso um projeto cujo artigo 1º dispunha: ‘Fica proibida no Brasil a imigração de indivíduos humanos das raças de cor preta.’ , ou ainda o apresentado a 22 de outubro de 1923, no qual o deputado mineiro Fidélis Reis apresentava outro projeto relativo à entrada de imigrantes, cujo artigo quinto estava assim redigido: ‘ É proibida a entrada de colonos da raça preta no Brasil e, quanto ao amarelo, será ela permitida, anualmente, em número correspondente a 5% dos indivíduos existentes no país.(…).” Alguns na mesma época chegaram a prever que em 70 anos não haveria mais negros no Brasil, como Carvalho Neto ao declarar: ‘Na fusão das duas raças vence a superior: o negro, no Brasil, desaparecerá dentro de setenta anos.’

4- Em 1944 em “A barca de Gleyre”, Monteiro Lobato, eugenista de carteirinha e que havia escrito um livro chamado “O Presidente negro ou O Choque” em que propunha eliminar a população afroamericana esterilizando as mulheres negras via um componente em alisante de cabelos dizia em carta à Renato Khell: “Renato, tu és o pai da eugenia no Brasil e a ti devia eu dedicar meu Choque, grito de guerra pró-eugenia. Vejo que errei não te pondo lá no frontispício, mas perdoai a este estropeado amigo. (…) Precisamos lançar, vulgarizar estas idéias. A humanidade precisa de uma coisa só: póda. É como a vinha. Esse era o espírito de boa parte da intelectualidade brasileira, que perpassava os políticos e governantes.

5- Essa intenção de ter um Brasil “branco”, ou seja, “livre” de negros (e o que seria isso senão o efeito de um etnocídio/genocídio persistente e “silencioso”) entra discretamente para o ordenamento jurídico nacional via o Decreto-lei nº 7.967/1945. cuidando da política imigratória, dispôs que o ingresso de imigrantes dar-se-ia tendo em vista “a necessidade de preservar e desenvolver, na composição étnica da população, as características mais convenientes da sua ascendência européia.” (artigo 2º), tal tipo de visão, oficializada em 1945, já fazia estragos de formas mais sutis antes e se reflete no projeto necropolítico atual.

É puro desconhecimento, ingenuidade ou má fé mesmo, tentar se valer APENAS de uma definição “dicionarística” para negar que o evidente e REGISTRADO extermínio resultante da violência policial e que atinge notadamente a população negra, não é resultado de uma aspiração e práticas históricas de ELIMINAÇÃO SISTEMÁTICA da população negra.

Isso fica muito claro, quando se vê quem morre mais pelas balas das polícias, mesmo quando não são “bandidinhos negrinhos” (como se referiu racista e recentemente o deputado federal bolsonarista Daniel Silveira ) nem estão “em confronto” com ninguém… . Aí vem do governo aonde se aumentou generalizadamente a letalidade policial, um “pacote anticrime” que visa aumentar a impunidade policial, o que na prática é uma “carta branca” para o projeto necropolítico, no qual quem mais morre são os negros… .