Blog do Juarez

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Antirracismo e lugar de fala

A reflexão que divido aqui é sobre antirracismo, mas com as devidas vênias tem princípios que podem ser aplicados de forma comum aos outros recortes de ativismo social.

O primeiro ponto é que todo ativismo tem vários temas relacionados à sua causa e problemática, porém, em geral tem um tema principal no qual estão encampados boa parte dos subtemas mais relevantes. Por motivos óbvios a agência e discussões do principal tema e seus subtemas de cada recorte social são hegemonicamamente conduzidos pelos respectivos movimentos e ativistas. Hegemonia no entanto não significa, nem deve significar exclusividade, ou “autorização de absoluto sequestro temático”.

E ai entra o “lugar de fala”, que parte entende como todo o “espaço natural” de atuação ativista de determinado movimento social, bem como o de “vivências” que permitiriam um discurso “privilegiado” e “autorizado” ao qual “o outro” não teria “direito” por falta de pertença e vivência. Para outros, o lugar de fala nada mais é que uma “posição discursiva” elaborada a partir não apenas das próprias vivências, mas também de conhecimentos adquiridos formal ou informalmente sobre o tema, ou ao contrário por suas ausências. Sendo assim o “lugar de fala” seria um hierarquizador da fala, um fator de menor ou maior legitimidade, credibilidade ou autoridade atribuida à quem se expressa sobre determinada questão.

De um modo ou de outro, o lugar de fala NÃO É um autorizador ou “desautorizador” de manifestação.

Então voltando ao antiracismo e já finalizando, o tema racismo tem vários subtemas e todos suportam diversos “lugares de fala”, ou seja, pontos de vista, quer internos ao movimento negro, que hegemonicamente estuda, debate e agencia o combate ao racismo, quer externos, afinal um problema social é problema de toda sociedade e por toda ela deve ser debatido e resolvido. Isso não retira protagonismo, pautamento e lugar privilegiado de fala da hegemonia, não ofende nem desmobiliza , o mesmo princípio serve para TODOS os outros movimentos.

O uso de “lugar de fala” como cerceador de manifestação dentro da razoabilidade e do diverso aceitável é antidemocrático e fascista, tiro no pé das causas mesmo.


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Chimamanda Adichie: o perigo de uma única história

Uma de minhas frases favoritas é um ditado Yoruba que diz:  "Enquanto os leões não puderem contar suas histórias, as histórias serão sempre as dos caçadores" .

Em uma das áreas de comentários do Blog Viomundo.com.br (do Jornalista Luiz Carlos Azenha) sobre postagem intitulada  Demétrio (Magnoli ),"especialista recente em navios negreiros" ; fiz um comentário sobre a importância exagerada que se dá a determinados "negrólogos" que não sendo negros (descendentes de escravos africanos) muito menos africanos,  insistem em se arvorar (ou são vistos como) "conhecedores" dos negros e sua história ou problemática mais e melhor que os próprios negros e africanos… ( até ai é um fato relativamente "aceitável", já que há sim  casos de pesquisadores e especialistas coerentes e que merecem respeito.., (e a lista não é pequena , como exemplo cito, "da antiga" : Pierre Verger, Oracy Nogueira, Florestan Fernandes, entre tantos, não vou nem falar da "nova geração") ) .

O problema é quando algum "neo-negrólogo"  indo na "contra-mão do bom senso", desconsidera a visão e versão dos próprios negros ou dos africanos (como se não houvesse entre eles pesquisadores renomados…, apenas como exemplo: Franz Fanon, Cheik Anta Diop, Kabengele Munanga, Carlos Moore, Clóvis Moura, Henrique Cunha Jr., Nei Lopes… entre tantos outros "da antiga" e da nova geração  ), o "imaginário branco"  tanto dentro da academia quanto fora, parece não saber ou "esquecer" que temos voz própria e qualificadíssima para contar nossa própria história…

Mas parece que o mesmo não ocorre ao se dar extrema importância e referenciar "negrólogos" não-negros "tendentes" a distorcer os fatos e análises, contando uma "única história", imprecisa, unilateral, "romanceada" e não raro deturpada e completamente sintonizada com os interesses eurocêntricos de desvalorização e desconsideração da versão da história do "outro" e ai encaixo (Nina Rodrigues, Gilberto Freyre e muitos outros da "nova geração"…, vou deixar o "bem-intencionado" Darcy Ribeiro no "meio do caminho" entre bons e maus "negrólogos" …)

Voltando ao assunto principal…, recebi de uma das pessoas participantes do "debate" no Viomundo (Jussara)  o link para um maravilhoso vídeo de uma fala da escritora Nigeriana Chimamanda Adichie, que vai justamente de encontro ao que defendi; não sou muito fã de videos da web (ainda mais com essa internet lenta de Manaus), mas esse eu vi e RECOMENDO TREMENDAMENTE, toda pessoa que gosta de ler, escrever, de História, Educação e conhecer processos de formação de idéias, imagem e opinião, deveria assistir, simplesmente MAGNÍFICO, clique na imagem abaixo (vai abrir em outra janela)

 RECOMENDADO, indique aos amigos.