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Sobre o IFÁ

Texto de Juarez Awofakan Oshe Di, iniciado em Ifá, vertente afrocubana

As religiões de matrizes africanas são várias e fortes nas Américas central, sul e no Caribe. Foram introduzidas pelos africanos de várias partes do continente, trazidos pelo tráfico negreiro por quase 4 séculos e mantidas por seus descendentes, com as naturais e inescapáveis adaptações ao contexto afrodiaspórico. Em todas elas é basilar a necessidade de consulta a oráculos não apenas para os interesses particulares de praticantes e clientes, mas para a própria estruturação e práticas religiosas.

É através dos oráculos que se dá a maior parte da comunicação entre o “mundo de cá” (o ayé, o mundo físico e a vida) e o “mundo de lá” (Orum, o mundo espiritual) e é através deles, os oráculos, que se pode alcançar a comunicação com as divindades, o que é diferente da comunicação com espíritos.

Na cultura Yorubá, grande grupo étnico predominante na região da atual Nigéria e vizinhanças, do qual boa parte dos traficados para a escravidão no novo mundo provinha, os cultos a Orixá tem como o grande sábio e conhecedor do destino o Orixá Orunmila.

Orunmila é testemunha quando antes de virmos ao Ayé (nascer) nos ajoelhamos junto a Olódùmarè para escolher nosso destino, objetivos e com quais odús (também dito oduns) chegaremos à terra, coisas que esquecemos entre a conversa com Olódùmarè e o nascimento, e cuja consciência do conteúdo só pode ser resgatada via a iniciação em Ifá.

Importante esclarecer que o conceito de destino em Ifá não é de coisa absoluta, inalterável, mas sim potencialidades e linhas mestras que podem sofrer alterações em função do livre arbítrio e da influência de outros atores da vida. Não dá portanto para escapar da verdadeira data da partida desse mundo, mas dá para não ser levado antes da hora e para cumprir o destino da vida de forma mais proveitosa, corrigindo os desvios, buscando os melhores caminhos e evitando os percalços e armadilhas que se colocam, reduzindo a atuação da divindade Elenini, cujo objetivo é fiscalizar nosso caráter e merecimentos justamente ao fazer-nos cair nesses desvios e recebendo por isso as famosas “peias”.

Orunmila é portanto não apenas o conhecedor do destino e detentor dos conhecimentos para que o cumpramos bem. Orunmila é também quem interage com os demais Orixás e ancestrais que atuam em nossas vidas e possibilita a comunicação entre eles e nós através do Ifá. O culto à ele, o acesso pleno e privilegiado à essa comunicação oracular, seus segredos, métodos para alcança-la e tomar as medidas cabíveis via cerimônias, obras e condutas indicadas é o chamado IFÁ.

Apesar de no meio de religiões de matrizes africanas, muita gente utilizar o termo Ifá genericamente para se referir aos subsistemas oraculares para práticas divinatórias de raizes iorubanas, ou seja, os métodos de consulta aos Orixás, na verdade Ifá é muitíssimo mais que isso. Ifá é o culto especializado e sistematizado à Orunmila, aos 4 Orixás guerreiros que também se recebe na iniciação para assentar em casa (Eleguá, Ogum, Oxóssi e Ozun, representado pelo galinho, não confundir com Oxum) e é o detentor do sistema oracular mais complexo e preciso.

Os cultos “Lesse Orixá”, caso de alguns cultos africanos ainda praticados por lá, do candomblé no Brasil e do “Lucumi-Osha” cubano (que foi espraiado para outros paises latino-americanos, caribenhos e mesmo aos EUA e Europa), utilizam subsistemas menos complexos do Ifá, como os dilogún, a exemplo do jogo de búzios.

O Ifá apesar de também ser culto a Orixá, como já dito, é o culto que se dedica especialmente ao Orixá Orunmila, ao conhecimento e manutenção dos destinos, diferente dos cultos lesse Orixá, cujo principal objetivo é cuidar dos filhos de Orixá e de suas relações com eles, como a “feitura de santo”, os toques para Orixá, ebós, e o transe.

No Ifá pode eventualmente haver toques de tambor, mas não é cotidiano, não há nem “se trabalha transe”, portanto Babalawos não se ocupam de “feitura de santo”, isso fica para os Oriatés e para Babalorixás e Yalorixás do Lesse.

Ifá, é um caminho muito propício para os que querem cultuar Orixás, ter o axé em suas vidas mas que “não dão santo”, apesar de não haver impedimento para iniciar os que dão, exceto no caso dos Babalawos, que não podem ser pessoas de incorporação ou transe.

Apenas os sacerdotes de Ifá, os Babalawos, conhecem e são autorizados a utilizar todo o sistema de oráculos de Ifá e seus subsistemas mais complexos, através do opon-ifá (um “tabuleiro” especial, junto com outros elementos acessórios) o opele-ifá (um “rosário” de plaquetas côncavas/convexas e um lado claro e outro escuro) e com ikins (os caroços do dendezeiro). Tudo isso combinado com um grande “corpus” literário de patakins (historietas, parábolas) versos, ditados, signos, rezas, saudações, cânticos e procedimentos litúrgicos.

Os Babalawos na tradição afrocubana, não podem jogar búzios, isso é feito pelos sacerdotes e sacerdotisas dos cultos “lesse orixá”, ou iniciados em ifá que não sejam Babalawos, após um rito de consagração ao serviço do oráculo.

Segundo o respeitado site do “Proyecto Orunmila” que reúne o melhor da literatura temática do sistema religioso afrocubano de base yorubá, o ifá-santeria-osha, alguns outros subsistemas oraculares de Ifá como o biange (bianwé) e o aditoto, também podem eventualmente ser manipulados pelos omoifás, aqueles iniciados e iniciadas na primeira mão em Orunmila-ifá, os chamados de Apetebis (as mulheres) e de Awofakans (os homens), assim como por “santeros” que tenham igualmente recebido em iniciação os Orixás guerreiros. Porém isso depende das orientações internas de cada rama de Ifá, algumas permitem, outras não.

O ifá inicialmente introduzindo no Brasil por meio de Babalawos que vieram entre os escravizados, não foi sistematizado e constituido literariamente.

Por um processo peculiar de “matriarcalização” dos cultos afro no país, em meados do século XX acabou por praticamente desaparecer junto com os últimos Babalawos do que teria sido uma “tradição brasileira”, deixando apenas algumas referências utilizadas nos sistemas oraculares manejados por Yalorixás e Babalorixás, destacadamente o jogo de búzios.

Desde meados dos anos 90, o culto de Ifá está sendo reintroduzido no país a partir dos aportes primeiro dos afrocubanos e mais recentemente dos nigerianos. Apesar da base teológica ser comum à toda cultura yorubá, tanto na Nigéria, quanto na preservada em Cuba ou no cultos brasileiros de matrizes africanas, obviamente existem diferenças e evoluções distintas, o que causa divergências e certo “distanciamento” principalme entre “africanos” e “cubanos”.

Particularmente vejo a tradição afrocubana como muito mais próxima da realidade brasileira por ser igualmente diaspórica, e foi essa que escolhi como caminho em Ifá.


1 comentário

Blogosfera

blogosfera1Sexta-feira… \o/ !!! :-), vamos encerrando os posts da semana comentando dois episódios relacionados à blogosfera que marcaram os últimos dias.

O primeiro foi o passamento do Editor do ” Blog da Floresta” ,  Jornalista Orlando Farias, na terça (19); o blog profissional (ativo desde 2009) é uma referência noticiosa não apenas local mas para toda a região norte, e sendo profissional, não parou… assumiu interinamente a chefia editorial o jornalista Mário Dantas (sócio e co-fundador do blog junto com Orlando Farias e o Gerente de TI, Marcio Lopes), nossos sentimentos aos amigos, familiares e leitores do finado.

O segundo é a tumultuada visita da Blogueira Cubana Yoni Sánchez, ao Brasil;  mundialmente conhecida por sua oposição cibernética ao regime cubano, seu blog “Geração Y” (hospedado na europa)  tem mais de 12 milhões de acessos mensais (isso só na versão em espanhol, o blog é também traduzido por voluntários em dezenas de outras línguas), como em Cuba não é permitido ao cidadão comum ter INTERNET em casa, ela posta de cybers cafés, hotéis… e “as cegas” pois não é possível acessar o frontend do blog em Cuba, por conta de um bloqueio feito pelo regime.

 A blogueira recebeu vários prêmios internacionais, que lhe renderam uma boa grana (que obviamente ela não pode usar em Cuba…) , também não podia sair de lá…, agora pode sair e está em visita ao Brasil, o tumulto fica mais por conta do assédio da grande  mídia e de manifestações feitas por simpatizantes do regime cubano, que “acusam” a blogueira de “mercenária” e de ser agente/fantoche de forças “anti-cubanas e anti-socialistas”… (o que convenhamos, é um tipo de perseguição muito paradoxal, já que parte de esquerdistas brasileiros que “malham” a finada ditadura brazuca que “barbarizou e cerceou os seus dissidentes, mas apoiam uma outra ditadura ainda mais cerceadora… ), não tem muito mais o que dizer, está na mídia e com certeza foi o assunto da semana.  (será que um dia vou ter ao menos um milhãozinho de acessos ao mês ????, deveria…, afinal eu tenho “pinta de cubano” e também não sou “fã” de “los comandantes”   🙂 )

Bom fim de semana !


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Preso Líder do Movimento Negro Cubano

O Dr. Darsi Ferrer (um dos três principais líderes do movimento negro cubano) está preso na prisão de Valle Grande, em La Lisa, na periferia de Havana (Cuba), destinada a presos comuns, não a presos políticos . Segundo notícias a parte da prisão em que foi encarcerado Ferrer é a destinada aos prisioneiros com tuberculose e infectados por HIV, o que demonstra a clara intenção do governo cubano.

O regime implantado por Fidel Castro e agora conduzido por seu irmão Raul, sempre negou a existência do racismo em Cuba pois o mesmo não é condizente com a imagem de um país socialista em que a desigualdade tenta ser combatida; para tanto, ao invés de combater o racismo na sociedade, o regime optou por reprimir os ativistas e movimentos que o denunciam; lançando mão de expedientes da mais baixa torpeza a fim de incriminar dirigentes por crime comum e “dar um recado” sobre o tipo de tratamento a ser dispensado aos que insistirem em lutar pelos direitos humanos em “la Isla” .

Hoje o Movimento Negro Cubano já conta com mais de 35 entidades em toda ilha , o mundo todo precisa saber disso e da atrocidade que está sendo cometida pelo governo cubano, mais que isso, forçar o mesmo a parar tal atrocidade, para tal está na web um abaixo-assinado que todas as pessoas comprometidas com o senso de justiça, direitos humanos e principalmente com o combate ao racismo não podem deixar de assinar : http://www.petitiononline.com/drferrer/petition.html

O Prof. Carlos Moore (reconhecido intelectual cubano dissidente e ativista negro que vive no Brasil) , da conta da situação:

20 de octubre de 2009

Queridos hermanos y hermanas:

Yo se que muchos de ustedes nunca oyeron hablar del activista anti-racista Afro-Cubano, Dr Darsi Ferrer. Sin embargo, se trata de una de las figuras mas importantes en la lucha por los derechos civiles del pueblo cubano y el mas valiente luchador contra la exclusión social. El Dr Ferrer fue detenido, hace algunas semanas, y encarcelado bajo absurdos e mentirosos cargos de “robo de material” del estado. Hace semanas que está en prisión.

El Dr Ferrer dirige varios programas independientes de ayuda a la población cubana discriminada, marginada y pobre (éstos son, en su inmensa mayoría, de origen africano). Por esa razón, las autoridades cubanas lo consideran como un elemento altamente subversivo, pues según el gobierno, en Cuba no hay ni pobreza, ni racismo ni marginación poblacional.

Aquí les envío, por lo tanto, un documental producido por el Dr Ferrer que muestra las condiciones de esas personas (los moradores de albergues), a los que el presta ayuda desde hace años. Vean el trabajo del Dr Ferrer en el documental que conseguirán en el enlace de Cuba Encuentro AQUI

Aclaro que es la primera vez, en toda mi vida de militante antirracista, que elevo la voz para reclamar apoyo a un disidente cubano; lo hago porque la magnitud de la injusticia que ha cometido el gobierno cubano ya llegó a límites que nadie puede tolerar sin convertirse en cómplice de la opresión de aquellos que no tienen voz en Cuba.

Apelo al sentido de justicia de cada uno de ustedes para que ayuden a movilizar la opinión pública mundial sobre este caso de detención política de un ciudadano cubano negro, honrado, valiente y dedicado a la causa de los mas humildes en Cuba.

Pido ayuda para liberar al dirigente negro, Dr Darsi Ferrer.

Agradezco su ayuda con el corazón.

Carlos MOORE

Pois é companheir@s vamos nos movimentar, já fizemos a notícia do caso Januário X Carrefour correr mundo… agora é a vez do Ferrer …

Cuba libre, negros iguales !!!!


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Preso Líder do Movimento Negro Cubano

O Dr. Darsi Ferrer  (um dos três principais líderes do movimento negro cubano) está preso na prisão de Valle Grande, em La Lisa, na periferia de Havana (Cuba), destinada  a presos comuns, não a presos políticos . Segundo notícias a parte da prisão em que foi encarcerado Ferrer  é a  destinada aos prisioneiros com tuberculose e infectados por HIV, o que demonstra a clara intenção do governo cubano.

O regime implantado por Fidel Castro e agora conduzido por seu irmão Raul, sempre negou a existência do racismo em Cuba pois o mesmo não condiziria com a imagem de um país socialista em que a desigualdade tenta ser combatida;  para tanto, ao invés de combater o racismo na sociedade, o regime optou por reprimir os ativistas e movimentos que o denunciam; lançando mão de expedientes da mais baixa torpeza a fim de incriminar dirigentes por  crime comum e "dar um recado" sobre o tipo de tratamento a ser dispensado aos que insistirem em lutar pelos direitos humanos em "la Isla" .

Hoje o Movimento  Negro Cubano já conta com mais de 35 entidades em toda ilha , o mundo todo precisa saber disso e da atrocidade que está sendo cometida pelo governo cubano, mais que isso, forçar o  mesmo  a parar tal atrocidade, para tal está na web um abaixo-assinado que todas as pessoas comprometidas com  o senso de  justiça, direitos humanos e principalmente com o combate ao racismo não podem deixar de assinar :  http://www.petitiononline.com/drferrer/petition.html

O Prof. Carlos Moore (reconhecido intelectual cubano dissidente e ativista negro  que vive no Brasil) , da conta da situação:

20 de octubre de 2009

Queridos hermanos y hermanas:

Yo se que muchos de ustedes nunca oyeron hablar del activista anti-racista Afro-Cubano, Dr Darsi Ferrer. Sin embargo, se trata de una de las figuras mas importantes en la lucha por los derechos civiles del pueblo cubano y el mas valiente luchador contra la exclusión social. El Dr Ferrer fue detenido, hace algunas semanas, y encarcelado bajo absurdos e mentirosos cargos de "robo de material" del estado. Hace semanas que está en prisión.

El Dr Ferrer dirige varios programas independientes de ayuda a la población cubana discriminada, marginada y pobre (éstos son, en su inmensa mayoría, de origen africano). Por esa razón, las autoridades cubanas lo consideran como un elemento altamente subversivo, pues según el gobierno, en Cuba no hay ni pobreza, ni racismo ni marginación poblacional.

Aquí les envío, por lo tanto, un documental producido por el Dr Ferrer que muestra las condiciones de esas personas (los moradores de albergues), a los que el presta ayuda desde hace años. Vean el trabajo del Dr Ferrer en el documental que conseguirán en el enlace de Cuba Encuentro AQUI

Aclaro que es la primera vez, en toda mi vida de militante antirracista, que elevo la voz para reclamar apoyo a un disidente cubano; lo hago porque la magnitud de la injusticia que ha cometido el gobierno cubano ya llegó a límites que nadie puede tolerar sin convertirse en cómplice de la opresión de aquellos que no tienen voz en Cuba.

Apelo al sentido de justicia de cada uno de ustedes para que ayuden a movilizar la opinión pública mundial sobre este caso de detención política de un ciudadano cubano negro, honrado, valiente y dedicado a la causa de los mas humildes en Cuba.

Pido ayuda para liberar al dirigente negro, Dr Darsi Ferrer.

Agradezco su ayuda con el corazón.
Carlos MOORE

 

Pois é companheir@s vamos nos movimentar, já fizemos a notícia do caso Januário X Carrefour  correr mundo… agora é a vez do Ferrer …

 

Cuba libre, negros iguales !!!!