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Manaus não está enterrando em “vala comum”

Ao menos não por enquanto… . Sei que o assunto é delicado e pode até aparecer polêmica pelo texto, mas eu não poderia a bem da boa informação e sua precisão deixar de fazer essa observação.

Primeiro vamos ao significado de “vala comum” :

Valas comuns também são frequentemente empregadas para enterrar um grande número de vítimas de desastres naturais, tais como terremotos e furacões.Vala comum é uma cova normalmente localizada nos cemitérios onde um conjunto de cadáveres que não podem ser colocados em sepultura individual, ou que são de origem desconhecida ou ainda não reclamados são enterrados sem cerimônia alguma. Na maioria das vezes os mesmos não são registrados nos locais onde foram enterrados. A ONU define como vala comum a cova que contém três ou mais vítimas de uma execução/massacre. (Wikipedia)

Bem, moro em Manaus e estou acompanhando atentamente as notícias sobre a pandemia e seus desdobramentos. Tem gente aqui e fora visualizando e se referindo, inclusive imprensa, aos enterros coletivos por conta da Covid-19 como em “vala comum”, mas conforme visto acima, o emprego do termo e visualização para o contexto de Manaus estão equivocados. Imagens de epidemias e pandemias passadas, podem lembrar, mas nem sempre refletir “ipsis litteris” as imagens e situações do presente. Não estou falando de uma possível ilação entre situações caóticas, questões de gestão pública e colapsos hospitalar e funerário que perpassam situações separadas no tempo, mas de um importante detalhe semântico e técnico.

Por enquanto, aqui em Manaus não se está enterrando em “vala comum”, apesar das imagens poderem lembrar uma… . O sistema adotado aqui foi o de “trincheira”, ou seja, apesar de ser cavado com retroescavadeira como uma vala ou cova comum, os caixões são colocados respeitosamente lado a lado com espaçamento padrão, sendo suas posições marcadas na beira da trincheira.

Com isso ao serem cobertos de terra é possível identificar a posição exata de cada um e fazer os caixilhos individuais e futuros túmulos. Não se perde a referência individual e a ligação familiar. Ademais, em enterramentos em vala, como dito, não há qualquer cerimônia e no mais das vezes nem cuidado, muito menos presença de familiares, mesmo que poucos, a vala comum em seu sentido e forma literal é uma medida sanitária extrema, por enquanto não atingida aqui, apesar de uma tentativa frustrada de uma versão um pouco mais digna, o empilhamento em 3 níveis para otimizar espaço, como se está fazendo em Nova Iorque.

É portanto um importante diferencial entre uma situações e outra…, aqui ao menos há uma tentativa de manter alguma dignidade frente ao colapso que estamos passando. Até quando será possível manter isso só sabe Deus, a coisa está aumentando assustadoramente e de forma exponencial, muitos rostos e nomes conhecidos partindo… .


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EaD – Educação a Distância e a pandemia

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O lugar de fala

Acho importante quem se manifesta, seja no que for, colocar logo de início o seu “lugar de fala” a fim de que os interlocutores possam melhor avaliar e entender a partir do que foi formada a opinião do manifestante, e assim “rankear” a pertinência e “confiabilidade” do falado, ou se for o caso “relevar” informações e atitudes. Já escrevi sobre o tema “lugar de fala”, então deixo apenas link para quem quiser um pouco mais de detalhamento.

Bem, meu interesse por EaD vem desde o final dos anos 90 com estudo informal, porém em 2006, após dois anos de curso pela Universidade Católica de Brasília, recebi o título de Especialista em EaD, tendo feito diversas atualizações, participado de eventos na área e atuado profissionalmente. Apesar de profissionalmente ter me afastado um pouco da área, sigo acompanhando a sua evolução e emprego. Daí que não confundam com mera “arrogância” a minha “firmeza de posição” ou o “tom professoral”, por motivos óbvios eu “tenho um lado” e o defendo, não esperem de mim “frouxidão” ao falar do tema, ou muita “paciência” ao discutir o tema com leigos preconceituosos e renitentes.

A EaD

As vezes referida no masculino ao se falar em Ensino, não é coisa nova, no século XIX já era praticada, o que mudou grandemente foram o alcance e a eficiência, conquistados com as novas tecnologias que se sucederam. A popularização dos dispositivos computacionais e de comunicação conectados pela INTERNET permitiram um grande salto nesse sentido, com um grande aumento de estudantes pela modalidade e a adesão de prestigiosas instituições de ensino mundo afora.

Aliás, já em 2006, minha monografia da Especialização tratava da Educação a Distância como Instrumento de Desenvolvimento Social e Regional (PDF) , uma pesquisa sobre como se visualizava a modalidade e sua potencialidade e como estava sendo empregada, especialmente nos países em desenvolvimento, incluindo o Brasil. Aqui no blog mesmo tenho muitos escritos sobre o tema ao longo dos anos . Em basicamente todos eles é recorrente a crítica ao ainda grande desconhecimento geral das potencialidades da modalidade e preconceitos contra seu emprego.

A resistência

Quer por profissionais da Educação, quer por estudantes , o que se reflete em posições reacionárias também de escolas, fez com que muitos, se não a maioria, não estivessem preparados para se valer da modalidade, de forma paralela à presencial, ou emergencialmente como agora se faz, frente à pandemia do Covid-19.

São cerca de 776,6 milhões de crianças e adolescentes fora das escolas, por conta das medidas de combate ao vírus. Justamente aí está o maior desafio, já que apesar do grande avanço da EaD no ensino superior, na Educação continuada e corporativa, muita gente ainda entende como “inaplicável” a modalidade no ensino básico, sobretudo no fundamental. Coisa que diversas experiências ao longo do mundo (inclusive aqui no Amazonas vide matéria no JN, com a atuação premiada do Colégio Militar de Manaus) já demonstraram falaciosa. É possível o emprego da EaD em todos os níveis, desde que se tenha o DESENHO INSTRUCIONAL CORRETO para cada nível, o erro dos resistentes é achar que EaD só se faz de uma ou duas formas, de maneira absoluta (sem conexões com o presencial) e apenas utilizando a ANDRAGOGIA (condução voltada para adultos), o que é uma inverdade.

Em tempos e condições normais o “HOME SCHOOLING” (escolarização em casa) sofre também forte resistência, e a partir de argumentos válidos, como a necessidade de socialização das crianças, o que se torna difícil na modalidade, a dificuldade de pais para lidar com o conteúdo e o ensino, ou ainda o evitamento da diversidade que há na escola.

No entanto, em tempos de distanciamento social, essa é a forma possível…, só que com a ajuda da EaD, esse processo é bem menos traumático e não se desconecta da escola, ou seja, os pais não tem que ocupar o papel de professores, mas de facilitadores pois se pode contar com a atuação remota dos professores, conteúdo padronizado, etc… . A própria UNESCO já balizou que esse é o caminho e os estados assumiram o mesmo, portanto, “lutar contra” na atual conjuntura é como “nadar conscientemente contra a maré” pode equivaler a um “atestado de anacronia e inadaptabilidade” e em muitos casos a um “suicídio profissional” , não adianta correr da vida a distância, a pandemia veio para mudar hábitos, com efeitos no futuro .

Teletrabalho

Vale lembrar, é uma tendência mundial e em muitas áreas, tanto no setor privado quanto público, a pandemia ampliou isso de forma emergencial e enormemente. Para os profissionais de Educação teletrabalho é EaD …, infelizmente muitos estão tendo que aprender a lidar com ele de maneira trágica e apressada, mas olhando de forma otimista, muitos estarão rompendo barreiras psicológicas e limitações tecnológicas e se preparando para o futuro.

Há uma questão de gênero embutida ai ? sim, também, mas ao contrário de algumas argumentações, mais pautadas pelo preconceito contra a EaD do que pelos fatos. Não se ignora a jornada dupla ou tripla que pesa sobre mulheres, tampouco o papel de cuidadoras culturalmente alocado, muito menos que na epidemia o isolamento amplifica as demandas domésticas/familiares com todo mundo preso em casa ao mesmo tempo. Porém mesmo nessa situação, é muito mais vantajoso poder fazer teletrabalho, do que passar por todos os problemas e limitações que o trabalho presencial já oferece normalmente, agora acrescido com os riscos de contaminação.

Aliás, o teletrabalho se não é a “panaceia”, em tempos normais tem ganhado cada vez mais a adesão feminina, justamente pela sua capacidade de conciliação e abrandamentos nas múltiplas jornadas, já que culturalmente não é tão fácil se livrar delas, como em um caso bem emblemático de uma teletrabalhadora do TJMG .

Última questão

A moral , enquanto educadores e educadoras, faz parte dos esforços coletivos, tal qual os profissionais de saúde que estão fazendo sua parte no pior front dessa guerra, não deixar seus alunos absolutamente interrompidos em relação ao processo educacional. Enfim, o certo é que após essa crise, muita coisa vai mudar, espero sinceramente que um melhor aproveitamento da tecnologia a serviço da educação seja visualizado como estratégico.