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O Negro e o Boi-Bumbá 2018, Caprichoso ou Garantido, qual o melhor ?😉

Chegou o fim de semana mais esperado no Amazonas. Seguindo uma tendência dos últimos anos, de reconhecimento e valorização da presença negra na formação da cultura e população amazonense, os dois bois lançaram toadas sobre o tema (o Caprichoso inclusive com participação da cantora Alcione na gravação oficial).

Veja nos links que seguem:

Garantido

https://youtu.be/NoYxeuNxRWE

Caprichoso

https://youtu.be/fjmipTfIzfk

E ai ? na sua opinião, foco na música, arranjos e pertinência temática qual toada ficou melhor ?

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O neoativismo do sudeste X o Boi Bumbá amazonense

Não é a primeira vez que escrevo sobre os excessos e “tiros no pé” dos que chamo neoativistas, neo não necessariamente pela idade ou tempo de ativismo, mas pelas características de um ativismo pós-internet e predominantemente virtual, entre elas o método agressivo/fascista de debate e as demandas quando não bizarras, ao menos pouco ou nada prioritárias, fora a centralidade no “fogo-amigo” aos ativistas menos radicais e mais conformes com os reais objetivos e abordagens tradicionais.

Também não é a primeira vez que falo de blackface, que é basicamente uma caracterização negra estereotipada e ridicularizante feita por pessoas brancas sob pretexto de “humor”, coisa vinda do teatro, que atingiu o nascente cinema e chegou à TV. Comum também no carnaval a exemplo da conhecida fantasia “nega maluca”.

Black face

O blackface porém nem sempre visa a mera ridicularização, já foi usado por outros motivos racistas, impedir atores negros de assumir como protagonistas de produções importantes como na famosa novela de TV do final dos 60, “A cabana do Pai Tomás”, no qual o protagonista foi o ator branco Sérgio Cardoso em um blackface “utilitário”, não humorístico mas de impersonação substitutiva. Obviamente tal caso é coisa negativa, já que impediu não apenas um maior realismo cênico, mas como já dito, também um ator negro de se beneficiar de tudo que um papel desses poderia lhe render.

Há porém situações em que o “blackface” ou caracterização negra se distancia da intenção racista, atuando ao contrário, como um marcador ou afirmador da presença negra, bom exemplo ocorre no carnaval colombiano com as “negritas puloy” ou “palenqueras” em que o estilo “nega maluca” se dá tanto sem pintura mas com perucas, ou seja, por mulheres negras de verdade, como através de máscaras, perucas e “collants” por não negras e homens.

Negritas puloy do carnaval de Barranquilla

Negritas puloy estilizadas do carnaval de Barranquilla

A caracterização negra estereotipada ou exagerada as vezes acaba ocorrendo por mera falta de pessoas negras para fazer um personagem negro, ou mesmo havendo, como forma de obter mais efeito em âmbito cênico mais aberto, ou seja, em espetáculo com platéia maior e mais distante, buscando uma visualização mais marcante, mesmo que exagerada ou fantástica. Como já dito isso se faz não apenas por pintura como as vezes por máscaras estilizadas, por sinal tradição em várias culturas da África, o que acabou introduzido por herança na nossa cultura popular.

Mascarados divinos da Costa do Marfim

Mascarados festa popular no Mato Grosso

Mateus e Catirina versão pernambucana derivada das figuras do boi maranhense

São João, também tem inclusive “whiteface”

Portanto, antes de sair por ai acusando toda caracterização negra de blackface e racista é preciso contextualizar, há as de fato racistas e desnecessárias e há as de contexto cultural e inclusive afirmativas.

BUMBA MEU BOI & BOI BUMBÁ

O boi bumbá, é festejo popular amazonense e derivado do bumba meu boi maranhense, por sinal introduzido no estado do Amazonas por negros vindos de lá do Maranhão, e que aqui ganhou peculiaridades ante ao peso cultural indígena e caboclo que o diferenciaram bastante do boi maranhense. É uma festa de muitas representações fantásticas, tem negros, índios e brancos, além de outros elementos da cultura amazônica.

PAI FRANCISCO E CATIRINA

Personagens comuns às festas nordestinas e amazônicas, o casal de negros escravos fugitivos do auto do boi, Pai Francisco e Mãe Catirina, são representados tanto com pintura como máscaras, e em vários estilos, no boi amazonense apenas com pintura.

Boi no Maranhão

Boi no Maranhão

Boi maranhense

No boi bumbá amazonense (Garantido)

No boi bumbá amazonense (Caprichoso)

A forma e intensidade da pintura tem variado no boi bumbá ao longo dos anos, do mais caricato ao menos carregado, cabendo lembrar que no Amazonas o boi é uma festa popular centenária…, no Maranhão mais antiga ainda. Devemos pois, se for o caso de lutar, lutar pela valorização do reconhecimento da presença negra via tais personagens e por uma “caracterização mais respeitosa” não pela sua exclusão.

Aproveito para lembrar uma outra festa amazonense, essa menos conhecida, que se dá em São Paulo de Olivença, região do alto Solimões, a dança do africano .

A história dessa dança está no link acima, importante no entanto é destacar que a sua origem e intenção é de preservação e afirmação de presença negra na região desde tempos idos.

Isso tudo posto e explicado, voltemos ao motivo real da postagem. Recentemente grupo amazonense viajou com muitas dificuldades para o sudeste a fim de apresentar em atividade cultural o nosso boi bumbá, e eis que uma vez lá, foram impedidos de se apresentar acusados por neoativistas de “blackface”, situação piorada com a perseguição e linchamento virtual, bem ao estilo neoativista, aos organizadores da incursão amazonense.

Tais “Neos”, óbvios desconhecedores da cultura popular do próprio país e da diáspora, atuam como arrogantes ditadores do “correto”, sem contudo se darem ao trabalho de tentar entender do que realmente se trata algo, partindo precipitadamente de suas concepções rasas e descontextualizadas para o ataque insano. Mais um DESSERVIÇO prestado à causa negra e mais um “tiro no pé”, envergonhando esses “neotreteiros” à nós, velhos ou novos combatentes equilibrados da causa.

Se há desculpas a apresentar não é por parte amazonense… .


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Festival de Parintins 2016

Parintins 2016

Começa hoje  os 3 dias da  maior festa popular do Brasil depois do Carnaval,  a 51ª edição do Festival folclórico de Parintins, no interior do Amazonas e televisionado para o mundo todo…

A disputa dos boi-bumbás Garantido (boi branco com um coração na testa, representado pela cor vermelha)  e Caprichoso ( boi preto com uma estrela na testa, representado pela cor azul)  em apresentações magníficas atrai visitantes do Brasil e do mundo todo.

Para saber mais: http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/index.php?option=com_content&view=article&id=879:bois-bumbas-de-parintins-amazonas-caprichoso-e-garantido&catid=37:letra-b


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REDUÇÃO DE DANOS, o que é isso ?

É um “novo” (não tão novo na realidade, em países mais desenvolvidos tem já uns 30 anos) paradigma adotado nas políticas de saúde pública com relação a patologias, etc… motivadas principalmente por questões comportamentais, a exemplo de consumo de drogas, alcoolismo e mesmo DSTs.

A ideia é simples, se não é possível eliminar de imediato a dependência ou o comportamento de risco, que se reduzam os danos  (à família e a sociedade em geral) bem como para o próprio adoecido ou potencial adoecido, isso pode ocorrer através de uma abordagem diferente ao público alvo das ações, com atendimento externo (ir até ele ao invés de esperar que ele venha em busca da ajuda) e sem uma posição “acusatória” , mas de compreensão da realidade e mesmo de respeito e valorização de quem precisa da ajuda.

Um dos primeiros exemplos desse paradigma foi a distribuição gratuita de preservativos, para grupos de alto risco (como os envolvidos com prostituição ou alta promiscuidade por exemplo ) ou ainda nos eventos em que as possibilidades de sexo casual “epidêmico”  está altamente relacionado, como as festas do carnaval, boi-bumbá, etc… , a ideia foi :  já que não é possível eliminar a prática sexual, que pelo menos ela se torne mais segura e por conseguinte com menores consequências sociais (como DSTs, gravidez indesejada, e todos os posteriores problemas que se originam dai ).

No caso das drogas, a ideia não é distribui-las gratuitamente (pois são ilegais), mas tentar  reduzir problemas advindos por exemplo do uso compartilhado de seringas (essas sim podem ser distribuídas para os grupos de risco),  favorecer a integração adicto/família a fim de aumentar a auto-estima e facilitar o tratamento e evitar eventuais furtos para manter a dependência, ao mesmo tempo em que se realiza uma desintoxicação paulatina (sem uma abstinência radical, que em geral tem alta reincidência), a descriminilização do simples  usuário, também evita que o problema se agrave ainda mais por prisões e convivência com a “bandidagem” de alta periculosidade, ao mesmo tempo em que se fomenta no usuário o cuidado com outros elementos importantes para a manutenção geral de sua saúde, como boa alimentação, etc… .

No caso do alcoolismo,  o conceito e ações seguem com os devidos ajustes a mesma linha, estuda-se por exemplo também aplicar o paradigma na questão dos abortos ilegais.

A redução de danos é um paradigma  realista e que  pode também ser aplicado  a outras questões sociais, para além das questões de saúde pública.

Exemplos de programas de redução de danos:

http://www.brasil.gov.br/enfrentandoocrack/cuidado/reducao-de-danos

http://www.proad.unifesp.br/reducao_de_danos.htm

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/1100945-governo-estuda-adotar-medidas-de-reducao-de-danos-para-aborto-ilegal.shtml


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O fim das “cornetinhas”, o boi-bumbá de verdade voltou !!!

Demorou, mas parece que finalmente o pessoal do boi-bumbá resolveu resgatar a preciosidade da cadência, temática e instrumental da melhor fase do boi-bumba de Parintins (antes dos “parararás”, da introdução dos metais (sopro) e da cadência e arranjos que pareciam retirados de trilhas de antigos filmes norte-americanos de bang-bang ( em que aliás o índios sempre levavam a pior), ou acelerada como a de uma sessão de ginástica aeróbica ).

O disco de 2012 do Caprichoso, traz a cadência bem marcada e forte que diferenciou o boi-bumbá (e agora incluiu alguns elementos do parente ancestral maracatu) ; o charango e a flauta andina (que inserem o boi em um contexto pan-amazônico) foram reintroduzidos, as grandes histórias e a divulgação dos povos amazônidas (sejam indígenas, ribeirinhos, caboclos urbanos de todos os tons e até dos negros que por muito tempo tiveram sua importância na demografia e cultura amazônica invisibilizadas), os termos indígenas que resgatam uma memória coletiva ancestral e comum à maioria dos amazônidas, voltaram com força  .

Das 20 faixas, na minha opinião 10  são de “boi bom” praticamente sem as “cornetinhas” (aliás a toada mais votada no site do Caprichoso, é justamente a “FARINHADA”  que é a única toada em que não identifiquei os horríveis “papapará ” dos metais, um excelente sinal que indica que o caminho é esse,  o retorno ao limite “pré-pararará”;  além de “Farinhada” e dos tradicionais rituais  (Morceganjo, Mai Marakã, Ritual Tariana, Paikisés Munduruku), destaque para a ” Mística Xinguana” , “ Sabedoria Ancestral” e  “ Filhos da Mundurukania“.

Além do imponente vozeirão do inquestionável “Rei David” Assayag (que independente do boi que esteja é “a voz da Amazônia”),  “Viva a Cultura Popular” resgata o orgulho (afirmativo, não besta…) dos amazônidas nativos ou “aderidos” (como é meu caso) e a beleza ,  força e magia de um ritmo sem similar em todo o mundo.

Ao ouvir esse disco, tive a mesma sensação de quando ainda turista em 1991, e subindo a sete de setembro no centro de Manaus, ouvi impressionado um som forte e mágico em uma antiga loja de discos que já não existe mais, era o primeiro vinil do Caprichoso, na época comprei e virei azul…,  já tinha deixado de ter tribo, mas agora voltei a ser azul.

Mais detalhes e ouvir e baixar as faixas no site oficial do Caprichoso : http://boicaprichoso.com/toadas.asp?Ano=2012&Sessao=Toadas#TITULO_CD

P.S ( Ainda tem muitas  “cornetinhas” no disco, mas pelo jeito estão com os dias contados no boi,  já vão tarde… 🙂 )