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O neoativismo do sudeste X o Boi Bumbá amazonense

Não é a primeira vez que escrevo sobre os excessos e “tiros no pé” dos que chamo neoativistas, “neo” não necessariamente pela idade ou tempo de ativismo, mas pelas características de um ativismo pós-internet e predominantemente virtual, entre elas o método agressivo/fascista de debate e as demandas quando não bizarras, ao menos pouco ou nada prioritárias.  Fora a centralidade no “fogo-amigo” aos ativistas menos radicais e mais conformes com os reais objetivos e abordagens tradicionais.

Também não é a primeira vez que falo de blackface, que é basicamente uma caracterização negra estereotipada e ridicularizante feita por pessoas brancas sob pretexto de “humor”, coisa vinda do velho teatro, principalmente norte-americano, que atingiu o nascente cinema e chegou à TV.  Comum também no carnaval a exemplo da conhecida fantasia “nega maluca”.

Black face

Há que se entender , que a caracterização negra nem sempre é o tradicional blackface, muito menos visa a mera ridicularização, já foi usado por outros motivos racistas, por exemplo impedir atores negros de assumir como protagonistas de produções importantes como na famosa novela de TV do final dos 60, “A cabana do Pai Tomás”, no qual o protagonista foi o ator branco Sérgio Cardoso em um “blackface utilitário”, não humorístico mas de impersonação substitutiva. Obviamente tal caso é coisa negativa, já que impediu não apenas um maior realismo cênico, mas como já dito, também um ator negro de se beneficiar de tudo que um papel desses poderia lhe render.

Há ainda situações em que o aparente “blackface” ou caracterização negra se distancia da intenção racista, atuando ao contrário, como um marcador ou afirmador da presença negra, bom exemplo ocorre no carnaval colombiano, com as “negritas puloy” ou “palenqueras”, em que o estilo “nega maluca” se dá tanto sem pintura mas com perucas, ou seja, por mulheres negras de verdade, como através de máscaras, perucas e “collants” por homens e mulheres não negros..

Negritas puloy do carnaval de Barranquilla

Negritas puloy estilizadas do carnaval de Barranquilla

A caracterização negra estereotipada ou exagerada as vezes acaba ocorrendo por mera falta de pessoas negras para fazer um personagem negro, ou mesmo havendo, como forma de obter mais efeito em âmbito cênico mais aberto, ou seja, em espetáculo com platéia maior e mais distante, buscando uma visualização mais marcante, mesmo que exagerada ou fantástica. Como já dito, isso se faz não apenas por pintura como as vezes por máscaras estilizadas, por sinal tradição em várias culturas da África, o que acabou introduzido por herança na nossa cultura popular.

Mascarados divinos da Costa do Marfim

Mascarados, festa popular no Mato Grosso

Mateus e Catirina, versão pernambucana derivada das figuras do boi maranhense

São João, também tem inclusive “whiteface”

Portanto, antes de sair por ai acusando toda caracterização negra de blackface e racista é preciso contextualizar, há as de fato racistas e desnecessárias e há as de contexto cultural e inclusive afirmativas.

BUMBA MEU BOI & BOI BUMBÁ

O boi bumbá, é festejo popular amazonense e derivado do bumba meu boi maranhense, por sinal introduzido no estado do Amazonas por negros vindos de lá do Maranhão, e que aqui ganhou peculiaridades ante o peso cultural indígena e caboclo que o diferenciaram bastante do boi maranhense. É uma festa de muitas representações fantásticas, tem negros, índios e brancos, além de outros elementos da cultura amazônica.

PAI FRANCISCO E CATIRINA

Personagens comuns às festas nordestinas e amazônicas, o casal de negros escravos fugitivos do auto do boi, Pai Francisco e Mãe Catirina, são representados tanto com pintura como máscaras, e em vários estilos, no boi amazonense apenas com pintura.

Boi no Maranhão

Boi no Maranhão

Boi maranhense

No boi bumbá amazonense (Garantido)

No boi bumbá amazonense (Caprichoso)

A forma e intensidade da pintura tem variado no boi bumbá ao longo dos anos, do mais caricato ao menos carregado, cabendo lembrar que no Amazonas o boi é uma festa popular centenária…, no Maranhão mais antiga ainda. Devemos pois, se for o caso de lutar, lutar pela valorização do reconhecimento da presença negra via tais personagens e por uma “caracterização mais respeitosa” não pela sua exclusão.

Aproveito para lembrar uma outra festa amazonense, essa menos conhecida, que se dá em São Paulo de Olivença, região do alto Solimões, a dança do africano .

A história dessa dança está no link acima, importante no entanto é destacar que a sua origem e intenção é de preservação e afirmação de presença negra na região desde tempos idos.

Tudo posto e explicado, voltemos ao motivo real da postagem. Recentemente grupo amazonense viajou com muitas dificuldades para o sudeste a fim de apresentar em atividade cultural o nosso boi bumbá, e eis que uma vez lá, foram impedidos de se apresentar, acusados por neoativistas de “blackface”, situação piorada com a perseguição e linchamento virtual, bem ao estilo neoativista, aos organizadores da incursão amazonense.

Tais “Neos”, óbvios desconhecedores da cultura popular do próprio país e da diáspora, atuam como arrogantes ditadores do “correto”, sem contudo se darem ao trabalho de tentar entender do que realmente se trata algo, partindo precipitadamente de suas concepções rasas e descontextualizadas para o ataque insano. Mais um DESSERVIÇO prestado à causa negra e mais um “tiro no pé”, envergonhando esses “neotreteiros” à nós, velhos ou novos combatentes equilibrados da causa.

Se há desculpas a apresentar não é por parte amazonense… .


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Wakanda, o Brasil, a fala branca e o “blackvoice”

Em fórum especializado em dublagens surgiu a polêmica, ativistas negros questionaram o fato de não haver dubladores negros em um filme com elenco majoritariamente negro.

Na esteira, metaracistas, aquele pessoal que se diz não racista e até “antiracista”, mas se ocupa grandemente em antagonizar as demandas dos movimentos negros e tentar desqualificar e ridicularizar ativistas, atacaram com seus comentários típicos, a partir dos seus lugares de fala, ou seja, fala branca, mas não apenas, uma fala branca específica, que trabalha pelo ocultamento das diversas facetas do racismo e desigualdades advindas, bem como, pela manutenção de seus efeitos.

Seria o caso de perguntar “mas por que, dubladores negros ? , voz tem cor ???”, respondo que em tese não, mas há timbres e características de fala que são peculiares a determinados grupos, mesmo em línguas ou sotaques diferentes, tanto é que vivem sendo estereotipados e caricaturados…, na música normalmente se nota bem.  Ou você nunca ouviu alguém falar em “voz de negra ou de negro” ?, pois é… diria que existe uma “panafricidade vocal”, que excepcionalmente se estende a pessoas brancas (vide Janis Joplin, Amy Winehouse e Joss Stone).

Indo direto  ao ponto, o  que se está questionando é o fato de não haver autointerpretação, no passado o cinema, teatro ou TV  as vezes se valiam de blackface, ou seja, ao invés de utilizar atores negros para interpretar personagens negras (em geral protagonistas), preferiam pintar um branco e por no lugar, o problema disso era duplo, pois além de não ficar realístico, ainda impedia que atores e atrizes negras tivessem oportunidades. Nesse ponto já quase superamos o blackface mas ainda temos um persistente “blackvoice”.
A pergunta é: por qual motivo para  um filme com tantos atores negros não há no Brasil dubladores também negros ?,  falta de negros no mercado brasileiro de dublagem ? ou será algum tipo de exclusão dos eventuais ?

É uma boa reflexão, se tivessemos um filme com maioria de atores brancos e todos os dubladores negros com certeza iria ser motivo de estranhamento, ou não ?


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O blackface do Teló e do Mariano

blackfacedoteloemariano

Os famosos cantores “sertanejos”  Mariano (da dupla com o Munhoz) e Michel Teló acabam de se incorporar ao rol dos antológicos casos do antiracismo imbecil, claro que todo mundo sabe que a “intenção era das melhores” e no sentido oposto ao de racismo (não vamos tocar na possibilidade de isso ter sido uma jogada de reforço de imagem que saiu pela culatra), o que nem todo mundo sabe (e de certo eles também não sabiam) é que para isso escolheram uma prática aparentemente antiracista, porém  para quem discute a questão racial, imediatamente associada com um dos ícones do racismo que é o blackface (prática teatral/circense a partir do XIX em que atores e humoristas brancos se pintavam de preto, para interpretar personagens negros, não raro em tom de galhofa, exagerando traços como lábios, nariz e cabelos), isso seria o equivalente a querer mostrar solidariedade aos judeus mortos no holocausto, colocando uma grande estrela amarela no peito (como as dos tempos dos guetos e campos de concentração nazistas) e postando nas redes sociais, isso acho que nem o Luciano Huck, com sua especialidade em mancadas faria (até por ser de origem judaica…).

blackface-não-tem-graça

Imediatamente após suas postagens nas redes sociais iniciaram as críticas, o que resultou na retirada das postagens e pedidos de desculpas, porém já era tarde, várias publicações condenando a “ideia genial” antiracista dos artistas, levou a uma acirrada discussão nas caixas de comentários, obviamente com a maioria das pessoas “sem entender o que tinha de errado” com as postagens “fofas e antiracistas” ou criticando quem criticou, os clássicos “complexados”, “exagerados”, “chatos” , “psicopatas” , “vitimistas” aparecendo aos borbotões contra quem se manifestou contra o meio-blackface.

O episódio demonstra mais uma vez, que muita gente realmente não se interessa por se informar sobre racismo, acha que não é racista, não tem mentalidade racista… e por tal não deve estudar sobre o tema, quando são atingidos de forma inescapável por algum evento de esclarecimento, acham suficiente, não se aprofundam, não buscam por conta própria informações relacionadas, outros absurdamente acham que  “racismo”  é tocar em questões raciais.

Enfim, é torcer para que esses episódios envolvendo personalidades massivas ganhem alcance e visibilidade, e que estimulando a discussão, cumpram o necessário objetivo de aos poucos fazer o “letramento racial” de quem não sabe que é analfabeto…

Veja também:  Os comedores de banana e o antiracismo imbecil

#antiracismoimbecil