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NOVOS APORTES SOBRE A RELAÇÃO ENTRE IFÁ E O CANDOMBLÉ

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O seguinte texto é de autoria do meu padrinho em IFÁ, o Babalawo Márcio Alexandre Obeate Ifairawo. Fico muito feliz com o texto e principalmente pela sinergia com o que tenho pensado e dito mesmo antes da minha entrada nesse caminho de Ifá.

NOVOS APORTES SOBRE A RELAÇÃO ENTRE IFÁ E O CANDOMBLÉ

Três grandes pilares sustentam o Candomblé: Oralidade, Tradição e Hierarquia. Se separados cada um desses pilares constituem uma força, juntos então são uma potência. E foi exatamente a potência destes pilares que fez o candomblé resistir a mais de 400 anos de ataques, e foi sua resistência que o transformou na principal e mais pujante tradição religiosa de matriz africana do Brasil.

Desde o início o candomblé se constituiu sem uma autoridade ccentral estabelecendo com as casas matrizes a relação de fator de união e determinação de regras e normas à medida em que novas casas surgiam destas casas matrizes.

Em determinado momento de sua história o candomblé prescindiu da figura do Babalawo e coube à mulher o papel central de condução e consolidação do Culto Lesse Orixá no Brasil. Por causa disso, é o candomblé, uma das poucas grandes tradições religiosas mundiais, em que o predomínio e o comando cabe à mulher.

Em fins dos anos de 1970 e 1980, com os intercâmbios universitários, os africanos chegaram, sendo eles yorubás-falantes e conhecedores dos aspectos culturais dos vários cultos aos Orixás, introduziram a tradução das cantigas, os itans e os odus de Ifá, muitos deles se auto-nomeando babalawos, mesmo sendo cristãos ou muçulmanos. Os elementos introduzidos pelos africanos geraram tensões nos pilares ligados à oralidade e à tradição, pois os mais conservadores não aceitaram certas “novidades” enquanto outros aceitavam bem os *novos” elementos como forma de oxigenação que tanto o candomblé precisava.

Já nos anos de 1990, primeiro com Rafael Zamora Ogunda Kete (ibaen), depois com Wilfredo Nelson Erdibre (ibaen), os cubanos trazem os Tratados de Ifa, documentos compilados a partir dos ensinamentos dos primeiros Bavalawos africanos que chegaram à ilha de Cuba aos que os sucederam e a concepção do Ifá de tradição Afro-cubana, em que se determina que o sacerdócio, Babalawo, só poderia ser um homem heterossexual, que não incorporasse com Orixá, abrindo aí uma avenida a ser pavimentada pelos Ogans e atingindo em cheio o tanto os pilares da oralidade, quanto o da hierarquia.

Cabe aqui ressaltar que o modelo sob o qual o candomblé se constituiu deu ao Babalorixá e à Yialorixa a autoridade suprema sobre sua casa e não reconhece, nem nunca reconheceu nenhuma autoridade maior que estes sobre o candomblé.

No entanto, muitas vezes, por má fé ou oportunismo, muitos buscaram Ifá para se revestir de uma suposta autoridade visando resolver disputas internas, ou até mesmo construir uma sobreposição ou liderança sobre outros, dado o desconhecimento que até então grassava no Brasil sobre o Culto de Ifá e sua lógica de funcionamento. São famosos os casos de uns que passam dez dias na África e voltam como babalawos, mas continuam a jogar búzios pois não aprenderam, em dez dias com o africano que lhes vendeu o título nem mesmo a manipular os ikins ou o opele, instrumentos de adivinhação essenciais do Babalawo; ou, ainda, aqueles outros que, iniciados na tradição Afro-cubana como babalawos, voltam às suas casas de origem exigindo reverência até mesmo de seus babás ou iyas e dos Orixás incorporados em seus irmãos de santo. Totais aberrações típicas de quem não conhece Ifá e não sabe nada do papel que deve representar o Babalawo.

No estágio em que Ifá se encontra no Brasil, notadamente a tradição afro-cubana, à qual orgulhosamente pertenço, cabem aqui alguns esclarecimentos em nome da boa convivência entre o Candomblé e Ifá que tanto almejamos.

Antes de tudo é necessário afirmar que o Babalawo não é um super homem. O Babalawo era um homem perdido do qual Orunmila se apiedou e que entra no Igbodu desprovido de tudo e toca a porta de entrada dizendo que é um homem perdido em busca da ajuda de Ifá. Orunmila nos salva dos nossos osogbos e nos dá por missão salvarnos também a humanidade – pois dentro da tradição Yorubá só damos aquilo que recebemos -, daí o dever que temos de propagar Ifá como está dito nos odus Yogbe, Ogbe xxxx, e constituir famílias (povos), Otura xxxx entre tantos outros. Quando nos sentamos à mesa e nos alimentamos à frente dos outros, o fazemos, não porque sejamos especiais, o fazemos porque em nossa missão de salvar a humanidade, devemos comer primeiro para salvar a todos em caso de envenenamento. Nossa autoridade nos é dada por Orunmila e está circunscrita ao Culto de Ifá e, mesmo nele seguimos uma rígida hierarquia, determinada pelo odu Ofun xxxx, onde a ordem parte sempre do mais novo para o mais velho, culminando no Ojubona e no Oluwo Siwaju que é sempre o cabeça de uma família, ou de uma rama, conjunto de famílias que se originam de um mesmo Oluwo Siwaju.

No entanto, Ifá, não dá tempo de santo a ninguém. Cabe ao Babalawo, o bom senso de aplicar Okana xxxx, que diz que na terra onde fores, faça o que vires. Respeitando sempre o espaço sacerdotal e a terra de cada um.

Para nós, da tradição de Ifá Afro-cubana, o Culto Lesse Orixá se constitui como terra diferente da nossa. Se em Cuba, praticamente não ocorreu essa dissociação entre o Culto Lesse Orixá, Santeria ou Lukumi, por outro, há que se considerar sempre que essa dissociação ocorreu no Brasil e cabe ao Babalawo usar sua sabedoria e inteligência (impori awo) para dirimir e nunca para aumentar tensões.

Para finalizar, afirmo que o Babalawo que, como eu, foi confirmado e teve seu santo feito no candomblé, nunca, jamais, em tempo algum, terá primazia sobre seu babá ou sobre sua Iya, devendo sempre manter o respeito e a reverência tão importante e necessária em nossa tradição Yorubá no que tange ao Culto Lesse Orixá.

É nosso desejo caminhar junto com o candomblé e queremos que o candomblé caminhe conosco. Ifá tem muito a acrescentar ao candomblé e ao manejo cotidiano do babá ou da Iya, não nos esquecendo nunca que Ifá não trata de Ori, cabeça, e nem de Orixá, portanto está aí a necessidade tácita de uma parceria para o atendimento àqueles e àquelas que Ifá determina que sigam o caminho do Culto Lesse Orixá.

Desejo sinceramente que este pequeno ensaio sirva de esclarecimento e sane dúvidas de Babalorixás e Iyalorixas ao que se refere às relações entre Ifá e o candomblé.

Mais que isso, desejo que meus novos abures, já iniciados ou por se iniciar como babalawos, assimilem estas informações e busquem, em seus sacerdócios em Ifá construir a cada dia a unidade entre nós, estabelecendo pontes de diálogos em bases respeitosas e construtivas com as autoridades legitimamente constituídas do Culto Lesse Orixá no Brasil que é o Candomblé.

Ashe to iban eshu.

Iboru, Iboya, Ibosheshe!

Babalawo Marcio Alexandre Obeate Ifairawo

Autor: Juarez Silva (Manaus)

Analista de T.I, Prof. Universitário, Tít. de Especialista em Educação a Distância (Univ. Católica de Brasília), Certificação em História e Cultura africana e afrobrasileira (FINOM-MG) e em Direitos Humanos e Mediação de Conflitos (SEEDH- Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República), Mestre em História Social pela UFAM - Universidade Federal do Amazonas, Ex-Conselheiro Estadual de DH; Analista Judiciário do Quadro efetivo do Tribunal de Justiça do Amazonas. Ativista dos Movimentos Negros.

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