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A Semana da Consciência Negra e os Jornalistas

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jornalismo e consciencia-negra

Apesar de existir desde a década de 80 (acanhada e lembrada apenas pela militância negra), há coisa de 10 anos a semana da Consciência Negra é pauta notória em toda a imprensa nacional, ganhou força com a lei 10.639/2003 e a inclusão da data comemorativa do 20 de novembro no calendário oficial e em mais de mil municípios e alguns estados com a adoção de feriado.

A ideia central da semana da Consciência Negra é levar as pessoas em geral a visualizar e tentar compreender a questão afrobrasileira em seus mais diversos recortes, História, Presença Demográfica e Cultural, o preconceito e a discriminação sofridos em suas diversas formas (o racismo) e a consequente desigualdade social de origem racial, mas também as reivindicações, conquistas e avanços dessa parcela considerável da população e nisso o papel da imprensa e em especial dos jornalistas é crucial.

Ocorre que, entra ano e sai ano, a imprensa (sempre aparentemente interessada e solícita em fazer a cobertura e pautas relacionadas) continua incorrendo em erros primários no trato com os conceitos, terminologia, interpretação de dados e até de direcionamento das entrevistas/matérias, ou seja, a impressão que se tem é que essas são matérias sempre entregues a novatos, que sem contato prévio com a temática ou o cuidado de tentar buscar informações preliminares confiáveis que os livrem das “armadilhas” comuns ao tratar do tema, acabam por perpetuar os “cacoetes” e “vícios” que retiram precisão ou enfraquecem o objetivo que é informar corretamente os leitores/espectadores.

Para constar segue uma listinha das armadilhas mais comuns…

1- Utilizar o termo negro como sinônimo de preto…, as categorias oficiais de “Raça/Cor” do IBGE são 5 a saber : BRANCA, PRETA, PARDA, AMARELA, INDÍGENA, ou seja, ninguém se autodeclara NEGRO, mas sim PRETO (ou PARDO), ocorre que a soma dos autodeclarados PRETOS e PARDOS forma a chamada POPULAÇÃO NEGRA, é portanto NEGRO(A) todo integrante dessa população (seja preto ou pardo), é um ERRO CRASSO falar em “NEGROS E PARDOS” uma vez que pardos também são negros… o correto portanto é utilizar “PRETOS e PARDOS”, outro ponto é a insistência no termo “RAÇA”, ele por motivos óbvios é um termo em desuso, uma vez que o conceito de raça biológica caiu e a construção social de raça deve ser desconstruída…, melhor substituir por população ou grupo étnico-racial, apesar disso o termo “RACIAL” permanece válido e não deve ser substituído automaticamente  por  “ÉTNICO” (Raça e Etnia são conceitos distintos).

2- Ao se cometer o erro acima se inicia uma “bola de neve” de má interpretação em especial das estatísticas…, que vai desde de uma redução da representatividade populacional, até o mascaramento do descompasso da desigualdade ao se visualizar os indicadores relacionados…, exemplo prático, a edição de domingo (16 de novembro 2014) do jornal AMAZONAS EM TEMPO, dá praticamente toda a primeira página com  manchete “RACISMO, COMO O AMAZONENSE TRATA A QUESTÃO” em arte com destaque e enorme foto, segue a manchete o que no meio jornalístico é chamado de “LIED” (um pequeno texto que “detalha” um pouco mais a manchete e “adianta” o que esperar do texto principal), em parte desse “LIED”  aparece “NO AMAZONAS, DOS 3,82 MILHÕES DE HABITANTES, APENAS 151 MIL SE IDENTIFICAM COMO NEGROS.”, ocorre que esses 151 mil ao qual se faz referência é na verdade apenas o número de autodeclarados PRETOS (4,3% da população) no último Censo (2010), para se falar em NEGROS teria que somar esse número ao de PARDOS… ( que no caso do Amazonas  se configura aproximadamente 69% da população), ou seja, somando dá coisa de 73%, tecnicamente a população negra do Amazonas seria então de  +- 2,9 milhões…, bem verdade, que no Amazonas por uma peculiaridade, a grande maioria desses autodeclarados pardos são na realidade de origem indígena, não afro (como de praxe na maioria do país), mas não todos… o IBGE ainda não distingue “pardos indígenas” de “pardos afros”, mas é possível por extrapolação imaginar que como em todo o Brasil esse percentual seja em média 5 vezes a autodeclaração preta, ou seja, 20% que somados aos 4,3% de pretos autodeclarados no AM daria uma população Negra (ou afrodescendente para usar termo mais moderno e apropriado) equivalente a 1/4 da população total (igual a de brancos e metade da de origem indígena) .

3-Ainda se tratando de Amazonas, outro problema é a insistência em “reduzir” (e as vezes até negar) essa presença negra e sua relevância…, é comum se ver referências ao AM como o estado “mais indígena do Brasil”,  ou sobre a “grande população indígena” do estado (lembrando que  só é considerado indígena quem possui registro de nascimento indígena da FUNAI, o RANI, não quem meramente tem ancestralidade indígena) mas “ninguém nota” que essa população que  representa  4,84 % da geral do estado é estatisticamente empatada com a de pretos (4,13%)…, não estamos falando nem da população negra (como explicado no item anterior), é preciso portanto que os jornalistas parem de colaborar com essa “invisibilização” ou noção generalizada de irrelevância da população afroamazonense.

4- Ao escrever ou conduzir entrevistas, muitos jornalistas a partir da sua falta de conhecimento, de pressupostos introjetados por uma crença na  falaciosa  “democracia racial” brasileira, preconceitos de que são possuidores mas não percebem, ou ainda no afã de tentar “dourar a pílula”  acabam por ir na contramão do que se espera com a matéria…  ex.  escrevendo “Indiferente ao preconceito, xxxxx segue”, como é que alguém pode ser indiferente a algo que  lhe prejudica diretamente, prejudicou pais, avós, bisavós… e prejudica também sua descendência ????, talvez o termo mais apropriado fosse “apesar de”  ao invés de “indiferente” .

5- No mesmo ponto do item anterior é comum em entrevistas o entrevistador “atalhar” o entrevistado com afirmações de senso comum que obrigariam o entrevistado a dar uma resposta “indelicada” ou fazer uma “correção constrangedora” ao entrevistador, sendo que para evitar isso acaba-se “deixando passar”, o que ao fim e ao cabo repassa uma informação equivocada e aparentemente com o “aval” do entrevistado, o ideal é que o entrevistador pergunte, mas não faça afirmações, nem interpretações que não possam ser confirmadas ou não pelo entrevistado.

6- Os clichês, as matérias vem recheadas deles, as tradicionais fotos de contraste “preto + branco” em “união”, fotos de capoeira para ilustrar matérias que não tratam diretamente do assunto…, ilustrações que remetem a escravidão ou abolição (correntes se quebrando, etc…) frases feitas que não se aplicam ao contexto específico, enfim.

7- O uso equivocado de dados, é preciso verificar a confiabilidade da fonte e sua reconhecida competência para prove-los, bem como verificar com quem está mais familiarizado com o tema antes de publicar.

8- Limitar a questão negra apenas ao “cultural” (folclore, religiosidade, capoeira, música e dança…), a questão é muito mais ampla e envolve aspectos sociológicos, econômicos, históricos, etc… .

9- Exagerar nos destaques negativos, as situações negativas existem, mas devem ser repassadas na sua exata medida e relevância, também não devem ser misturados “alhos com bugalhos”, é comum ver situações e dados sendo confundidos ou associados erroneamente.

10- As “correções” do que foi dito pelo entrevistado, é comum nas matérias escritas ou nas narrações em vídeo, o jornalista substituir os termos ditos pelo entrevistado por outros que ele julga mais apropriados, ocorre que ao fazer tais alterações ele pode mudar totalmente a precisão do que foi dito ou a intenção (já falamos sobre a substituição de “preto” por “negro” por exemplo).

Bom, essas são algumas dicas para que as matérias alcancem o resultado esperado e com maior precisão.

Seria também interessante que os sindicatos locais dos jornalistas seguissem o exemplo do Sindicato do Rio de Janeiro e oferecessem à categoria workshops para que se compreendesse e trabalhasse melhor as temáticas relacionadas à questão negra no Brasil : http://jornalistas.org.br/index.php/sindicato-realiza-debate-sobre-racismo-no-jornalismo-nesta-terca-1811-as-18h/, aliás seria importante que isso fizesse parte do currículo dos cursos de comunicação social…

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Autor: Juarez Silva (Manaus)

Analista de T.I, Prof. Universitário, Tít. de Especialista em Educação a Distância (Univ. Católica de Brasília), Certificação em História e Cultura africana e afrobrasileira (FINOM-MG) e em Direitos Humanos e Mediação de Conflitos (SEEDH- Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República), Mestrando em História pela UFAM - Universidade Federal do Amazonas, Ex-Conselheiro Estadual de DH; Analista Judiciário do Quadro efetivo do Tribunal de Justiça do Amazonas. Ativista do Movimento Negro.

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