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Enfim !, a academia pública…

6 Comentários

Nada mal para um cara oriundo da área de Tecnologia e disputando 29 vagas com cerca de 70 candidatos da própria área de História ou ao menos Humanas/Ciências Sociais... , FELIZ !!!

Após uma revisão na “final mesmo” cai para 19º, nada mal para um cara oriundo da área de Tecnologia e disputando 29 vagas com cerca de 70 candidatos da própria área de História ou ao menos Humanas/Ciências Sociais… , FELIZ !!!

Subtítulo : Da graduação ao curso de mestrado em 27 anos…

Bom, talvez alguém menos ciente (ou seria consciente ?) de algumas problemáticas brasileiras, não entenda o motivo para a divulgação, uma boa dose de felicidade e o gasto de tempo escrevendo um artigo sobre um “mero” acesso a um mestrado…, talvez haja quem diga – “Ah ! é só um mestrado…” e outros ainda mais distantes do valor simbólico disso ainda acrescentem –” e ainda por cima em História…” (reforçando um certo “desdém” que as classes mais abastadas e alguns setores que se consideram “sangue azul” na academia, mal conseguem disfarçar).

Não é segredo para ninguém que o acesso de negros à universidade pública brasileira desde sempre foi mínimo, na graduação uma grande barreira imposta pelas condições prévias e sócio-históricas-familiares que tradicionalmente embarreiravam e embarreiram o negro em sua mobilidade social efetiva (que passa entre outras coisas, também pelo acesso à educação média de qualidade [e superior dos antepassados] ), minam o coeficiente de competitividade em um vestibular macro ou outra forma de processo seletivo contínuo (isso deve começar a mudar com as cotas na graduação)

Na pós graduação (em especial a Stricto Sensu, concentrada fortemente na universidade pública) a coisa também é tradicionalmente e ainda mais complicada, pois vindo em geral do ensino superior privado e noturno (que não privilegia a pesquisa mas sim o mercado profissional) e sem as desejáveis “conexões pessoais e acadêmicas” firmadas ao longo de uma graduação em uma pública, chegam os negros aos processos seletivos como verdadeiros “estranhos no ninho” (principalmente se pretendem fazer câmbio de área em relação à graduação), não que isso não ocorra com não-negros…, mas tendo em vista a temida e subjetiva entrevista (definidora final de todos os processos seletivos e ai não importa muito se existe ação afirmativa no processo, pois nesse ponto ela pode ser subjetivamente anulada…), possuir  “cor não associada” ao perfil de “bom pesquisador”  e um “projeto desinteressante/militante” (leia-se relativo a questões de interesse afro) associado a um perfil acadêmico não considerado “de excelência” (leia-se vindo da própria universidade ou de outra pública) não raro e em geral  é uma combinação “fatal”  e determinante para a “ejeção” do candidato.

No meu caso particular, além do “perfil tradicional” que acompanha a esmagadora maioria dos candidatos negros ao Stricto, há alguns detalhes que ao mesmo tempo que tornam “intrigante” tal acesso somente a esta altura da vida, ajudam a entender o elevado grau de dificuldade para vencer essa verdadeira barreira (e dai o valor aparentemente exagerado dado à conquista).

Idade atual : 50 anos ( média de idade de acesso ao mestrado, brancos 25, negros 35)

Ano da Graduação : 1987  aos 23 anos (Graduação em Tecnologia de Processamento de dados, em uma Universidade Municipal (mensalidade social), com estágio no Centro Técnico Aeroespacial, principal unidade de excelência na pesquisa da área  e de outras áreas tecnológicas relativas) .

Inicio da atividade docente : 1986 (em treinamento profissionalizantes) e em 1993 inicio das atividades como professor em cursos superiores (tendo passado por quase todas as Instituições de Ensino Superior Privado de Manaus + o Instituto Federal de Educação Tecnológica do Amazonas), tendo orientado diversos trabalhos de conclusão de curso e participado de bancas ( ou seja 20 anos sendo “mestre” em cursos superiores, mas não…)

Aceito para mestrado internacional:  em uma universidade norte-americana : 1999, inviabilizado por falta de bolsa,condições, etc…

Experiência docente no exterior:  CONVITE fui lecionar em uma universidade privada africana (Moçambique) em 2004… 

Conclusão da Pós Lato Sensu : 2006 ( mais de 19 anos após a graduação…)

Concursado no Serviço Público :  em 2007 aos 44 anos, iniciei atividades em cobiçado e concorrido cargo público de nível superior (média de idade dos colegas: 27 [ inclusive ex-alunos] )

Reprovado em  acesso à programas de Pós da UFAM:  entre 2002 e 2008 em quatro (tanto na minha área original quanto em outras), nesse ponto “intui” que minha única chance de chegar a um mestrado, seria fora do Brasil ou quando fossem lançadas as pós brasileiras a distância.

Meu Perfil :  Sou ativista social desde 1988 (25 anos de militância), e sou bem mais conhecido em função dela do que pela atuação em minha área de origem (incluindo a docência em T.I.), nesse quarto de século o estudo independente de temáticas das Ciências Sociais, tem me colocado em diversas discussões no âmbito local e nacional, não apenas na questão afrobrasileira, mas também em outras relacionadas aos Direitos Humanos como, questão indígena, gênero, políticas públicas e questões sociais em geral, tendo sido Conselheiro Estadual de Direitos Humanos, a maioria dos cursos livres e de extensão universitária que tenho feito nos últimos 15 anos, vão de áreas tão distintas como Psicopedagogia e Gestão de TI, passando por Direitos Humanos, Administração, Direito Constitucional, História e Cultura afrobrasileira e africana, Educação a Distância,  até Introdução à Antropologia Social; ou seja,  há muito tempo deixei de ser  apenas um “cara de tecnologia”, meus horizontes já deixaram de ser apenas o que acontece ou se escreve no país, leio sem problemas textos em inglês, espanhol…

Sem falsa modéstia, muito menos qualquer “soberba”, graças a minha atuação militante e estudo independente,  ao longo dos anos tenho obtido reconhecimento público, e por tal tenho sido convidado a participar de incontáveis programas de TV, rádio, entrevistas em todo tipo de mídia, palestras e mesas redondas em faculdades e na própria universidade…, tido na visão geral como “expert” em temáticas sociais ( a ponto de muita gente estranhar quando ficavam sabendo da minha formação na área tecnológica),  sem exagero e apesar de nunca ter estudado ou lecionado em uma universidade pública nem de fora nem em Manaus ( lecionei no Instituto Federal mas isso são “outros quinhentos”) conheço e sou conhecido por professores de praticamente todos os PPGs (programas de pós graduação) em Ciências Humanas/Sociais  locais, além de alguns doutores de grande reconhecimento em nível nacional e até internacional; nem lembro o número de vezes que compus mesas-redondas ou co-palestrei em eventos em que eu era o único “estranho no ninho” (nem das Ciências Sociais, nem mestre, nem doutor…, e confesso que isso sempre me causou um certo constrangimento), todavia sempre estava lá, convidado…,  nem por isso me foi oferecido ou busquei “atalhos” para ser inserido em qualquer PPG  que seja… (apesar de ter tentado me inserir várias vezes) .

Sempre li e escrevi bastante ( no entanto, sem perseguir a tal “publicação científica”), uma “googlada”  com meu nome (ou nome de citação) vai retornar dezenas de milhares de referências  (ou ainda o que eu uso normalmente para assinar postagens mais informais na web, “Juarez Silva (Manaus)”, só esse retorna  mais de 22.400 referências… ), fico feliz quando (sem ser mestre ou doutor) encontro textos meus citados em N dissertações de Mestrado em áreas tão distintas quanto Linguística, Ciências Sociais, Educação; em artigos de Doutores em Psicologia…, ou quando vejo artigos reproduzidos em sites e blogs que nem imaginava, as vezes traduzidos para outras línguas… . Mantenho este blog, um site temático e duas comunidades/grupos em redes sociais, além de me relacionar virtualmente e ser “seguido” por gente que reputo muito importante na cena intelectual brasileira, gente que tem muito o que dizer e diz muito bem… .

Concluindo

Talvez para alguém que aos 25 anos de idade já tenha obtido um doutorado… (quiças até pessoas que tenham nascido no ano da minha graduação…), entrado em um “mestrado dos sonhos” em universidade pública, direto da graduação, sem qualquer experiência docente, sem uma longa história de luta e antes de receber razoável reconhecimento social pela sua dedicação e trabalho,  essa conquista (que ainda está bem longe do fim de uma trilha tão relativamente fácil e rápida para uns), não seja “lá essas coisas”…, mas para mim que sei (e agora você também caro leitor ou leitora) o que e quanto tempo tive que “andar” para chegar até aqui, tem um valor pessoal, político e simbólico muito grande, se não é “para festa” é pelo menos para grande satisfação e motivação,  pesquisa histórica (acadêmica), aqui vamos nós! .

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Autor: Juarez Silva (Manaus)

Analista de T.I, Prof. Universitário, Tít. de Especialista em Educação a Distância (Univ. Católica de Brasília), Certificação em História e Cultura africana e afrobrasileira (FINOM-MG) e em Direitos Humanos e Mediação de Conflitos (SEEDH- Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República), Mestrando em História pela UFAM - Universidade Federal do Amazonas, Ex-Conselheiro Estadual de DH; Analista Judiciário do Quadro efetivo do Tribunal de Justiça do Amazonas. Ativista do Movimento Negro.

6 pensamentos sobre “Enfim !, a academia pública…

  1. Parabéns Juarez!!! Parabéns!

  2. Olá Juarez, meus parabéns! A batalha de cada um, né, nós é que sabemos por onde nós andamos… então, acabo me lembrando tb um pouco de como foi minha trajetória, de largar dois cursos começados (História-UFF e Museologia-UNI-RIO) e de ter vindo morar no interior do amazonas, iniciando minha vida de casada e sendo dona de casa por 10 anos da minha vida. Espero poder ainda ter mais contato com você, se assim o destino permitir… gostei da sua pessoa! Aproveitando o dia iluminado de hoje (Eparrei!!!), quero lhe desejar muita força, otimismo, vibrações de felicidade e alegria nessa nova porta que se abriu pra ti. De coração. Abraço fraterno, Débora.

  3. Que alegria vc me dá com esse texto, vc construiu o histórico da maioria dos negros, que como nós busca afirmação social, através da formação, fiquei emocionadissima, pois ao ler me enxerguei nessa leitura.Parabéns esse é um dos reconhecimentos do universo a sua luta e a sua pessoa que é da luta.Eparrey.

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