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Palestras, um mercado “virgem” no Brasil

1 comentário

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Imagino que a essa altura o leitor após ter parado uns segundos para refletir sobre o título, deve estar pensando: “Mercado virgem ????, mas como ?, se já tem tanta gente ganhando dinheiro (e muito) ministrando palestras Brasil afora…, esse cara está louco ou muito desinformado…”, para logo em seguida completar a divagação com ” Pirou de vez…, e que raios tem a ver mercado de palestras com caixa de ovos ???? “

Esclareço caríssim@s leitores, não estou “louco” e nem desinformado; assim como a grande maioria das pessoas razoavelmente antenadas, de há muito já me dei conta que o mercado profissional de palestras (que envolvem diversos objetivos, temas e públicos-alvo) está bem explorado, consolidado e até “rankeado”, já a questão da caixa de ovos que ilustra o post…, irás entender no parágrafo que segue.

Quando falo em “virgindade” do mercado, me refiro a uma situação que por acaso observei em uma pesquisa preliminar por palestrantes profissionais que precisei fazer em alguns sites especializados, e no ranking dos “100 melhores” palestrantes profissionais do Brasil, ocasião em que simplesmente não visualizei uma única pessoa negra sequer…, ou seja, esse é um “terreno virgem” para negros e negras (acho que agora o simbolismo da caixa de ovos começou a fazer sentido…). Aparentemente nem os raríssimos jornalistas negros ou os não raros grandes ex-atletas de projeção nacional conseguiram adentrar (ou serem adentrados) ao já não tão diminuto círculo dos palestrantes profissionais (coisa comum entre jornalistas, colunistas e ex-atletas brancos).

É claro que há muitas pessoas negras que palestram usualmente (eu mesmo sou uma delas), porém “não profissionalmente”, a maioria são militantes ou simpatizantes dos movimentos sociais, e tem como tema principal (mas não único) as relações étnico-raciais, de gênero ou sociais, temas em geral restritos as atividades acadêmicas e quando muito a algum evento tema-relacionado, porém invariavelmente é uma participação não remunerada, o que leva à lógica inferência de que se tais palestrantes não vivem disso (ou ao menos  agregam renda extra ao auferido da atividade profissional principal), são então pessoas que prioritariamente exercem atividades profissionais não conexas e de interesse geral, bem como, vivenciam experiências pessoais também de interesse geral (tal qual os palestrantes profissionais).

Se partirmos do pressuposto que um palestrante deve ser alguém com “algo a dizer”, experiências e conhecimentos que interessam a uma audiência ampla (setorial ou generalizada), além de algum carisma e popularidade advinda da exposição pública adquirida através da mídia, autoria de livros publicados, experiência profissional ou de vida motivadoras (e não necessariamente vinculada à formação acadêmica ou vivência empresarial de alto nível, pois o mercado tem admitido ex-atletas, aventureiros [no bom sentido] ou pessoas sem grande formação formal como o ex-presidente Lula), logo, não é razoável imaginar que “não existam” pessoas negras em tais condições, mas é no mínimo intrigante essa completa “ausência” no mercado profissional brasileiro.

Pode ser que em uma pesquisa muito aprofundada, talvez apareça “uma ou outra” exceção, lembro por exemplo da Ex-Ministra da igualdade racial, Matilde Ribeiro, que após sua saída do ministério, passou algum tempo nos EUA e fazendo algumas palestras profissionais por lá (mas no âmbito acadêmico e lembrando fora do “mercado brasileiro”…), tempos atrás vi programado para Manaus entre os palestrantes de uma jornada jurídica, o Desembargador do TJRJ, Paulo Rangel, jurista altamente titulado (pós-doutor) e autor de pelo menos seis livros na área, o desembargador também é um grande cronista, de humor refinado e possui perfil típico do palestrante carismático, mas também parece restrito ao circuito acadêmico e jurídico/judiciário, situação não diferente do próprio Ministro Joaquim Barbosa do STF (muito requisitado, mas internacionalmente), não sendo a meu ver os exemplos retrocitados, ainda sequer exceções “citáveis” no mercado aberto dos palestrantes profissionais NO BRASIL.

Como última observação, cabe lembrar que na mídia televisiva (e até na escrita/falada), há uma forte “homogeneização” do “padrão visual” dos âncoras, apresentadores e comentaristas, que tenta combinar “estética”, credibilidade e empatia, “solução” que com raríssimas exceções tem conduzido à oportunização de homens e mulheres de diversas idades, feições e estilos, porém generalizadamente de cor branca, (e majoritariamente com sobrenome caracteristicamente estrangeiro) quando muito orientais,
as exceções são tão óbvias que são facilmente nominadas e contadas em menos de duas mãos…, já no mercado dos palestrantes profissionais, essa parece ser uma característica ainda mais arraigadamente instalada, entretanto como todo “terreno virgem” vislumbramos que não resistirá para sempre à sua exploração, afinal, muitas outras fronteiras e bastiões  do elitismo e outros ismos, tem caído recentemente…, logo chega a vez de mais esse.

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Autor: Juarez Silva (Manaus)

Analista de T.I, Prof. Universitário, Tít. de Especialista em Educação a Distância (Univ. Católica de Brasília), Certificação em História e Cultura africana e afrobrasileira (FINOM-MG) e em Direitos Humanos e Mediação de Conflitos (SEEDH- Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República), Mestrando em História pela UFAM - Universidade Federal do Amazonas, Ex-Conselheiro Estadual de DH; Analista Judiciário do Quadro efetivo do Tribunal de Justiça do Amazonas. Ativista do Movimento Negro.

Um pensamento sobre “Palestras, um mercado “virgem” no Brasil

  1. Concordamos em genero,número e raça.E uma pena que a sociedade brasileira ainda não seja capaz de enxergar ou aceitar, nem sei que iinfinitivo cabe melhor nessa afirmação,que a cor é tão somente o involucro que não limita a capacidade intelectual de nenhum ser humano, que a beleza do outro está em como vc a ver…enfim enquanto nos deixarmos cegar pela imagem vendida no passado, nosso presente entra ou está no caus e o futuro é o mais que obscuro.Portanto a luta continua, embora percebamos que as forças estão cansadas , os jovens não encamparam a luta e enveredaram pelo o caminho mais fácil ou seja compraram o discurso colonialista e preferem o branquiamento, para isso o livre arbitrio ajudou com a auto declaração”.Enfim senhor Juarez o senhor foi, como sempre, felicissimo ao abordar este tema.
    Mais uma vez parabéns. Aguardo uma publicação sobre genero feminino.

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