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A queda de Demóstenes, os negros, índios e o Amazonas

3 Comentários

Pode parecer um pouco anacrônico  escrever sobre a cassação do ex-senador ex-democrata Demóstenes Torres, assunto já mais do que veiculado e ocorrido há quase um mês,  mas não é, primeiro porque não tive tempo de escrever nada antes por falta de tempo e oportunidade, depois porque não é a ideia comentar sobre a cassação em si ou os  motivos que levaram à cassação (isso todos já sabem muito bem), mas sim sobre a atuação política do ex-parlamentar  na questão afrobrasileira e também sobre fatos interessantes que ligam sua trajetória ao nosso estado do Amazonas, saindo  assim, um pouco de tudo que já foi dito.

Enquanto parlamentar, o ex-senador (então liderança no partido Democratas, o DEM) se engajou e aliou aos esforços de grupos que representam o pensamento das elites reacionárias e contrárias às Ações Afirmativas em prol das populações afrobrasileira e indígena (vide caso “Raposa Serra do sol”, no vizinho estado de Roraima) e notadamente na questão das cotas universitárias e da aprovação do Estatuto de Igualdade Racial – EIR (do qual foi relator na comissão do Senado), promovendo um “tesouraço” que descaracterizou em muito o projeto original, obrigando os ativistas a promover por mais um bom tempo, lutas para inserir em legislação ordinária, reivindicações históricas que já estavam contempladas diretamente no texto original do EIR.

Não foram poucas as escaramuças diretas  com ativistas dos movimentos negros, como o conhecido episódio do “filha de mula”   ou ainda as declarações proferidas na audiência pública sobre cotas promovida pelo STF antes dos julgamento em que o então senador, que entre outras coisas afirmava que o estupro de negras escravas pelos seus senhores era “muito mais consensual’ , ou ainda ao responsabilizar os próprios africanos pela escravidão e tráfico negreiro  .

Entre seus principais aliados em tal “cruzada” se encontrava o “Movimento Nação-Mestiça”  (surgido e majoritariamente amazonense), a ligação e admiração mútua eram tão grandes (não sei se chegava ao nível de terem rádio-telefones da Nextel para “contatos  mais tranquilos” e frequentes :-)) que consta que o  então senador veio a  Manaus a fim de prestigiar o “I Congresso Mestiço ” , oportunidade em que foi agraciado com o “Troféu Caboclo”,  “honraria” criada pelo citado movimento (que sabidamente não goza de boas relações com os reais e tradicionais movimentos negros e seus ativistas, nem com os movimentos indígenas ou outros movimentos sociais locais) .

Nessa mesma ocasião o então senador aproveitou para em entrevista  na Assembléia Legislativa do Amazonas (onde ocorria o evento) “atacar” a bancada federal do Amazonas, ao dizer ser ” vergonhoso que a bancada amazonense não tenha uma voz opositora no governo para defender os interesses do Estado” , o que gerou uma verdadeira revolta na classe política amazonense com manifestações duras e irritadas de figuras públicas como (O deputado Sinésio Campos (PT), Belarmino Lins, Vicente Lopes e Washington Régis (todos do PMDB), Conceição Sampaio e Marco Antônio Chico Preto (ambos do PP)  e Abdala Fraxe (PTN);  vide  a fala da Senadora Vanessa Grazziotin (PC do B)  “Senador Demóstenes, o gesto de vossa excelência foi muito mais do que deselegante. Foi desrespeitoso aos parlamentares e ao povo amazonense. Temos muitas divergências políticas (…) mas se um dia eu for a Goiás, não vou dizer que sua postura aqui prejudica aquele Estado. Eu nunca vi isso na minha vida política” ( matéria  jornalística  sobre o fato) ,  enfim, tirando para seus “admiradores ideológicos”,  o alijamento do ex-senador da cena política nacional ,  não deixa qualquer  tristeza e  pesar .

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Autor: Juarez Silva (Manaus)

Analista de T.I, Prof. Universitário, Tít. de Especialista em Educação a Distância (Univ. Católica de Brasília), Certificação em História e Cultura africana e afrobrasileira (FINOM-MG) e em Direitos Humanos e Mediação de Conflitos (SEEDH- Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República), Mestrando em História pela UFAM - Universidade Federal do Amazonas, Ex-Conselheiro Estadual de DH; Analista Judiciário do Quadro efetivo do Tribunal de Justiça do Amazonas. Ativista do Movimento Negro.

3 pensamentos sobre “A queda de Demóstenes, os negros, índios e o Amazonas

  1. Hoje em dia virou moda no Brasil.. todo branco racista tenta esconder oseu racismo dizendo que a mãe ou avó eram negras!!. Mas o Demostenes nos deu prova do seu desprezo por negros quando disse que o estupro das nossas ancestrais escravizadas era consensual e quando responsabilizou os próprios africanos pela escravidão e o tráfico negreiro ,e qualquer movimento que o apóie logicamente compartilha das mesmas opiniões e sentimentos. Agora eu entendo porque o movimento pardo-mestiço ,que é ligado ao nação mestiça, se apoderou da palavra pardo pra mentir dizendo que pardo é mestiço, fizeram isso para escapar de ser classificados como negros criando uma identidade irreal baseada em cor.Oficialmente a população negra do Brasil é composta pelos brasileiros de cor preta e parda!! Pardo é só cor ,mas eles tentam convencer o Brasil e o mundo de que pardo é um grupo étnico racial. Eu te pergunto Juarez, alguma providência está sendo tomada para impedir que tenham êxito esses movimentos fake criados para nos desunir? Precisamos nos mobilizar contra isso !

  2. Eu já vi uns videozinhos desse “Nação mestiça” no Youtube, é um mais ridículo e tendencioso do que o outro. Tem um que eles tentam jogar as pessoas contra o Vicentinho porque ele falou a verdade, que quando alguém é chamado de mulato estão dizendo que a pessoa é filho de mula. – Até o racista do Monteiro Lobato usou a palavra mulatinho para ofender os negros quando fez aquele famoso comentário elogiando a Ku Klux Klan: “Um dia se fará justiça ao Ku Klux Klan, tivéssemos uma defesa dessa ordem que mantém o negro no seu lugar, e estaríamos livres da peste da imprensa carioca-mulatinho fazendo o jogo go galego, e sempre demolidor porque a mestiçagem do negro destrói a capacidade construtiva”.

    Em relação ao Demóstenes, indico o artigo O Perfeito Imbecil Politicamente Incorreto.
    http://www.cartacapital.com.br/politica/o-perfeito-imbecil-politicamente-incorreto
    Qualquer semelhança com o Demo será mera coincidência.

  3. É juarez, no seu outro post ‘quase aniversario de uma nova agressão’ eu descobri algumas coisas sobre o nação mestiça .Pra falar a verdade eu já desconfiava que eles eram ligados as classes dominantes, não só por viverem dependurados no saco dos politicos que representam a elite racista desse país (igual Tarzã no cipó ), mas também porque sao contra as ações afirmativas e contra qualquer coisa que beneficie os negros,e repetem o mesmo discurso mentiroso de democracia racial que os ricos e poderosos tentam enfiar goela abaixo do povão

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