Blog do Juarez

Um espaço SELF-MEDIA

Movimentos Negros ou Movimentos Pretos ? : a abrangência X a radicalização

Deixe um comentário

“Degradê” Afrobrasileiro

Antes de iniciar o desenvolvimento do tema em si, é preciso que o leitor tenha consigo alguns conceitos :

1- O termo negro não é sinônimo de preto (pelo menos não quando tratamos da temática étnico-racial),  negro foi o termo utilizado para designar os escravos (inclusive em inglês e da mesma forma que grafamos) no “novo mundo”  a partir do séc. XVI.   Inicialmente era aplicado tanto a indígenas escravizados (negros da terra) quanto aos africanos traficados, passando depois a definir apenas os africanos escravizados e seus descendentes.  Não sendo portanto termo definidor de cor, mas sim de origem,  tal termo também foi associado à  já ultrapassada ideia de diversas raças entre humanos.

2- Do ponto de vista sociológico/antropológico foi e é observado que praticamente em todas as culturas mundiais sempre se aplicou o conceito da hipodescendência, ou seja, os elementos produzidos pela  miscigenação étnica ou “racial” sempre foram automaticamente alocados no grupo de ascendência menos privilegiada socialmente. No caso particular de brancos e negros, os miscigenados (principalmente os óbvios) sempre foram considerados negros (mesmo que alguns insistissem em uma “providencial coluna do meio” que na prática pouca ou nenhuma diferença representou) e como tal compartilham as mazelas do racismo e  indicadores sociais muito próximos entre si e igualmente distantes  da população branca. Portanto, de acordo com tais premissas e também oficialmente através do IBGE, entende-se como POPULAÇÃO NEGRA (descendentes de escravizados africanos)   todos que se auto-declaram como pretos e pardos. Então negro é todo aquele que faz parte da população negra, e não apenas os que parecem africanos (os pretos). Mais recentemente a ONU passou a adotar em sua redação oficial o termo AFRODESCENDENTE  em substituição a NEGRO. O termo retira a carga “racializante” e elimina as confusões entre cor e origem bem como contempla a situação da alta miscigenação na  diáspora africana.

Isso posto e compreendido, permite avançarmos no tema central, os movimentos de resistência e combate ao racismo e as desigualdades sociais e econômicas advindas do processo sócio-histórico baseado no mesmo.

Grupos negros de resistência e ação contra a escravidão e vilipêndio das coisas da cultura trazida pelos diversos povos africanos escravizados e traficados para cá sempre existiram (vide a história dos mocambos e quilombos, dos capoeiras, da religiosidade de matriz africana).  Mais tarde viriam a se juntar (pelo menos parcialmente) a esses insurgentes  naturais, outros grupos majoritariamente não-negros como os abolicionistas. Houve também uma movimentação dos chamados “homens de cor” (em geral miscigenados livres e libertos bem posicionados socialmente) contra o preconceito e a discriminação contra eles ( no entanto sem maiores preocupações com relação aos ainda escravizados…).  O aparecimento do que entendemos hoje por “movimentos negros” começou a se dar após a abolição,  com paradigmas e demandas que foram evoluindo ao longo do tempo .

Iniciou-se com a “guarda negra” que era uma organização paramilitar criada entre a abolição e o final do império para “defender” a Princesa Isabel “a redentora”  e a monarquia, em uma situação um tanto quanto paradoxal…  . Na sequência começaram a surgir os “clubes negros”, cujo paradigma era mais sócio-recreativo, bem como a imprensa negra. Nos anos 30 do séc. XX na esteira dos movimentos influenciados pelas ideologias totalitaristas surgia a FNB – Frente Negra Brasileira, cujo paradigma era baseado na  auto-disciplina, emponderamento,  melhora do conceito do negro na sociedade e participação política (foi proscrita por Vargas em 1937). Na década de 30 também surgia uma movimentação acadêmica (praticamente toda branca) em torno de estudos afrobrasileiros e o início da organização política dos afro-religiosos.

Nos anos 40 ocorreram experiências como o TEN – Teatro Experimental do Negro, criado por Abdias do Nascimento, ou ainda o I Congresso do Negro Brasileiro em 1949/1950. Nos anos 60 e 70 em plena ditadura militar (obviamente com a repressão as atividades políticas não interessantes ao regime)  o que se tinha era um movimento estético, musical e de agrupamento social muito forte influenciado sobretudo pelos movimentos norte-americanos de afirmação. É apenas em 1978 com o início da abertura que surgiram os primeiros movimentos negros  “modernos” .

A partir do centenário da abolição em 1988 houve uma grande disseminação de grupos de “Consciência Negra”, bem como iniciou-se uma forte integração entre as diversas vertentes de resistência e negritude (Cultural, Política & Conscientização e Afro-religiosa).

Movimentos negros,  a abrangência

É portanto a partir desse contexto e premissas, que temos os atuais movimentos negros. Que são grupos de estudo, conscientização e atuação prática, podendo ser entidades formalizadas ou grupos informais. Além disso há os ativistas independentes (também conhecido por “negros em movimento”) que apesar de partilharem a causa e as premissas, não estão vinculados a uma entidade formalizada ou grupo.

Mais recentemente, na esteira da INTERNET, surgiram os ativistas e os grupos virtuais.  A noção da abrangência dos movimentos negros fica mais nítida quando ampliamos o conceito para movimentos de negritude. Isso inclui as vertentes de resistência negra que normalmente não se colocam como “movimento negro”  mas dentro de suas especificidades lutam pela preservação e valorização de elementos da cultura negra e se aliam em mão dupla, sobrepondo e sendo sobrepostos por integrantes dos movimentos negros .

Conscientização & Política                Cultura                      Religiosidade

  • Consciência negra                   Capoeira                  Matriz africana
  • Mulheres negras                      Folclore                    Negritude Cristã  ecumênica
  • Acadêmica                                 Blocos afro              Pastorais de negritude
  • Quilombola                                Hip-Hop                   Movimento negro evangélico
  • Imprensa negra                        Samba
  • Movimentos partidários

Em praticamente todos esses grupos  há o entendimento generalizado que o objetivo principal da causa é a justa integração do negro na sociedade (sócio-econômica, estética e cultural). O foco é o combate às discriminações e a desigualdade motivada por racismo e intolerância.  Entende-se por negro o amplo espectro afrodescendente exposto no início. Via de regra a integração e as alianças com brancos são bem-vindas e se crê  que o racismo e a intolerância são um problema de toda a sociedade e não apenas dos negros.  Sendo assim,  tais grupos (a exeção de parcelas dos movimentos de mulheres que defendem a “endogamia compulsória”, de alguns blocos afros que até coerentemente exigem visível afrodescendência dos integrantes e de alguns   grupos de RAP “de raiz” que tem uma crítica mais ácida), são  menos utópicos, menos radicais e mais pragmáticos.

Nesse sentido, há a  consciência generalizada de que formamos um país multi-racial e multi-cultural.  Em que pese o contexto histórico negativo, a alta miscigenação física e cultural é uma realidade (embora não tenha alterado significativamente os indicadores sociais da população negra, nem a discriminação). Miscigenação essa que hoje ocorre naturalmente, sendo vistas como inviáveis ou desnecessárias, as movimentações massivas no sentindo contrário (repudiada obviamente a apologia à miscigenação como “meta” e ferramenta de branqueamento nacional, ou  o uso meta-racista dado pelos neo-democratas-raciais).

Temas como endogamia (relacionamento exclusivo dentro do mesmo grupo “racial”) são vistos pelos ativistas de movimentos negros como DIREITO, não OBRIGAÇÃO. O afrocentrismo (foco extremado na África antiga como principal contribuidora para a civilização mundial), panafricanismo (a necessidade ou visão de uma natural fraternidade mundial entre os africanos e entre africanos e afrodescendentes), enfrentamentos vigorosos (ao estilo dos “panteras negras”) apesar de considerados, não são assumidos como de “vital importância”  ou prioritários para a causa negra brasileira. O que se busca é basicamente a integração social justa em todos os aspectos  e sem radicalismos.

Movimentos pretos, e a radicalização 

Apesar de geralmente não se identificarem como “movimentos pretos”  e seus   adeptos por vezes estarem “dentro” de movimentos autointitulados negros, os termos preto/preta  são muito recorrentes no discurso dos que apesar de também partilharem da causa geral, que é o combate ao racismo,  o fazem a partir de uma  visão muito menos abrangente e de forma particularmente radicalizada .

Os adeptos de “movimento preto” tem o fenótipo padrão africano como delimitador e a base de suas ideologias e atuações,  reforçam a confusão entre os conceitos de negro e preto, em geral atribuindo a condição de negro apenas aos pretos, abominam a miscigenação (tanto a passada quanto a presente e futura). O tratamento dispensado aos companheiros de luta é “irmão/irmã”, em seus discursos, elementos como a endogamia como obrigação, “família preta”,  “nenhum branco é amigo”,  “povo preto”. Afrocentrismo extremado e panafricanismo se ligam  à  admiração por lideranças internacionais  mais radicais como Malcolm X,  os ” Black Panthers” , Marcus Garvey… . Para os mais ligados ao Reggae Roots, linkado à filosofia/religião Rastafári, são sempre lembrados  o Imperador Hailé Selassié  e Bob Marley (e é interessante destacar mais um paradoxo,  já que Bob Marley era filho de um marinheiro inglês branco e gostava de dizer que “não era preto nem branco”).

Outro ponto recorrente é a aspiração por um “Partido negro” (ou melhor…, preto). Várias foram as tentativas frustradas em se criar um partido assim. Das recentes,a mais notória  é a do PPPomar – Partido Popular Poder Para a Maioria (2001),  iniciativa do Rapper MV Bill  e de Celso Atahyde, que com o amadurecimento, flexibilizaram o discurso, retirando o foco direto da “questão preta” e redirecionando de forma mais abrangente e prática para a questão das favelas e “guetos” negros criando a CUFA-Central Única das Favelas, alcançando espaço na mídia e reconhecimento público.

Nos “movimentos pretos”, há também quem mova campanhas contra a utilização do termo negro (pela sua origem depreciativa) e a favor da sua substituição pelo termo preto (aplicável pelo menos no contexto brasileiro à menos de 10% da população…). “Tiro no pé”, pois desconsidera assim a vantagem estratégica do agrupamento político enquanto negros ou para usar termo mais recente e apropriado, afrodescendentes, formando maioria estatística da população, coisa de 52%.

Do ponto de vista religioso, para tais coletivos “pretos” é visto como preferível a adoção de vias minoritárias extremas e não raro autosegregantes, a partir de paradigmas afrocentristas que remetem as origens hebraicas (Rastafári, Igreja preta, etc…) ou mesmo pela conversão à fé islâmica (opção afirmativa popular entre os afroamericanos na época de Malcolm X e de seus admiradores). Por diversos motivos, a opção pela religiosidade de matriz africana como o Candomblé ou a Umbanda não é em geral considerada interessante, um deles é por não serem vistas como politizantes, aguerridas/revolucionárias, além da questão do sincretismo da umbanda e da grande adesão de pessoas “brancas” (incluindo muitos sacerdotes) .

Nesse contexto, a endogamia, o discurso anti-miscigenação, o de “emponderamento preto” nos moldes mais radicais, o protagonismo exclusivo do “povo preto” na luta (com a declaração de desconfiança generalizada e a não visualização/aceitação de brancos ou miscigenados como aliados de valor), auto-determinação e auto-representação, bem como, o “amor afrocentado”, e a luta contra a “apropriação cultural”  se tornam “bandeiras” prioritárias para os que  enxergam a questão por tal viés.

Ainda na questão da endogamia (inclusive econômica), muitos se apoiam nas práticas norte-americanas como exemplos “desejáveis”, mas esquecem de contextualizar a questão,  a história afroamericana  tem muitas diferenças da afrobrasileira…, lá a miscigenação não foi usada como instrumento de colonização e portanto pouco ocorreu.  O racismo violento e declarado também a estigmatizou para os dois lados. Outro fato é que eles tiveram emancipação e não abolição pura e simples como no Brasil, o que fez com que a evolução sócio-econômica tomasse outro rumo. Finalmente, por lá tiveram por muito tempo um regime oficial de segregação, com o pretenso  “separated but equal” (separados mais iguais), faculdades , igrejas, empresas, bairros “nobres”, etc… completamente negros, lá existem desde o séc. XIX.

Tudo isso resultou em uma endogamia inicialmente forçada e a criação de uma cultura e condições que conduziram a uma “naturalização”  do comportamento,  mesmo assim, não impediu que após o  fim da segregação oficial e o inicio da convivência “igualitária”  entre negros e brancos em todas as camadas sociais, alguma miscigenação e fim de nichos econômicos ocorresse, afinal ela é normal em sociedades multi-raciais (principalmente quando não há restrições oficiais ou sócio-econômicas).

Por tal não é possível simplesmente desejar transpor essa situação e cultura endogâmica norte-americana para o Brasil, há que se relativizar e entender que  as diferenças são plenamente justificáveis.

Não totalmente mas com grande influência no discurso de boa parte das integrantes dos movimentos de mulheres negras (e das “independentes”), surge a questão da endogamia e  “família preta” como bandeira de luta.

É importante frisar que essa demanda e questionamento das ativistas dos movimentos de mulheres negras, é vista como legítima pela maioria dos ativistas dos movimentos negros, se entendida como coisa a ser fomentada e realizável de forma  natural  ou  mesmo como “opção política”  para os que assim desejarem e tiverem as condições favoráveis,  deixa de sê-lo quando colocada como “obrigação” ou “imposição”  que se não seguida ou não absolutamente apoiada, “transforma” os divergentes em “inimigos” , “vendidos”, “não-irmãos” e uma série de outros adjetivos nada positivos.

As reclamações sobre a “solidão” da mulher negra (em especial a preta), a “vilanização” dos homens negros não-exclusivamente-endogâmicos (em especial os ativistas), são via de regra emocionalmente carregadas, baseadas majoritariamente em experiências e mágoas  pessoais ou de observação “empírica” em seu campo de visão limitado, raramente admitindo visões mais amplas, sistematizadas ou relativizadas de toda a questão .

Tais posicionamentos tem causado grandes polêmicas e “fogo amigo” entre as ativistas de pensamento mais radical ( apoiadas pelos alinhados ao “movimento preto”) e  os homens ativistas dos movimentos negros,  que em geral  discordantes da ideia de “endogamia compulsória” .

Conforme o lógico e esperado, o discurso radicalizado e nada diplomático, além de não sensibilizar quem poderia ser conscientizado, provoca reações contrárias, que de maneira geral são extremamente desinteressantes para a causa negra, dando margem para acusações por parte dos “brancos” , principalmente dos  meta-racistas e ne0-democratas-raciais com alto apoio da mídia reacionária,  de “racismo ao contrário”,segregacionismo,”fascismo”, desequilíbrio, “complexo”, etc.  Isso tudo fechando portas de oportunização e diálogo, além das desgastantes escaramuças entre “negros” e  “pretos” que fatalmente acabam descambando para os ataques pessoais entre os defensores das correntes antagônicas.

Principalmente o novo ativista deve pesar bem, quais são os seus objetivos e qual linha vai  majoritariamente adotar, a fim de se tornar produtivo em sua missão de conscientização e busca de resultados efetivos para a verdadeira emancipação da população afrobrasileira,  parcimônia  e equilíbrio podem ser o grande diferencial.

Anúncios

Autor: Juarez Silva (Manaus)

Analista de T.I, Prof. Universitário, Tít. de Especialista em Educação a Distância (Univ. Católica de Brasília), Certificação em História e Cultura africana e afrobrasileira (FINOM-MG) e em Direitos Humanos e Mediação de Conflitos (SEEDH- Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República), Mestrando em História pela UFAM - Universidade Federal do Amazonas, Ex-Conselheiro Estadual de DH; Analista Judiciário do Quadro efetivo do Tribunal de Justiça do Amazonas. Ativista do Movimento Negro.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s