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Prof. José Jorge na Folha de SP: Cotas uma nova consciência acadêmica

6 Comentários

Prof. José Jorge, colega Profa. da UFPA e eu, no encontro SBPC norte em 2006

Prof. José Jorge, Colega Profa. da UFPA e eu, encontro SBPC norte

O texto está tão bom que vai “ipsis líteris”, dispensa comentários extras…

São Paulo, quinta-feira, 17 de setembro de 2009

TENDÊNCIAS/DEBATES

Cotas: uma nova consciência acadêmica

JOSÉ JORGE DE CARVALHO

A África do Sul, ainda nos dias do apartheid, já tinha mais professores universitários negros do que nós temos hoje

ENQUANTO cresce o número de universidades que aprovam autonomamente as cotas, a reação a esse movimento de dimensão nacional pela inclusão de negros e indígenas vai se tornando cada vez mais ideológica, exasperada e descolada da realidade concreta do ensino superior brasileiro.

Em um artigo recente (“O dom de iludir”, “Tendências/Debates”, 9/9), Demétrio Magnoli citou fragmento de um parágrafo de conferência que proferi na Universidade Federal de Goiás em 2001. Mas ele suprimiu a frase seguinte às que citou -justamente o que daria sentido ao meu argumento, que, da forma como foi utilizado, pareceu absurdo.

Sua transcrição truncada fez desaparecer a crítica irônica que eu fazia ao tipo de ação afirmativa de uma faculdade do Estado de Maine, nos EUA. O tema da conferência era acusar a carência, naquele ano de 2001, de políticas de inclusão no ensino superior brasileiro, fossem de corte liberal ou socialista.

Magnoli ocultou dos leitores o que eu disse em seguida: “Quero contrastar isso com o que acontece no Brasil.

Como estamos nós? A Universidade de Brasília tem 1.400 professores e apenas 14 são negros”. É 1% de professores negros na UnB.

E quantos são os docentes negros da USP? Dados recentes indicam que, de 5.434 docentes, os negros não passam de 40. Pelo censo de identificação que fiz em 2005, a porcentagem média de docentes negros no conjunto das seis mais poderosas universidades públicas brasileiras (USP, Unicamp, UFRJ, UFRGS, UFMG, UnB) é 0,6%.

Essa porcentagem pode ser considerada insignificante do ponto de vista estatístico e não deverá mudar muito, pois é crônica e menor que a flutuação probabilística da composição racial dos que entram e saem no interior do contingente de 18 mil docentes dessas instituições.

Para contrastar, a África do Sul, ainda nos dias do apartheid, já tinha mais professores universitários negros do que nós temos hoje.

Se não interviermos nos mecanismos de ingresso, nossas universidades mais importantes poderão atravessar todo o século 21 praticando um apartheid racial na docência praticamente irreversível.

É esta a questão central das cotas no ensino superior: a desigualdade racial existente na graduação, na pós-graduação, na docência e na pesquisa.

Pensar na docência descortina um horizonte para a luta atual pelas cotas na graduação.

Enquanto lutamos para mudar essa realidade, um grupo de acadêmicos e jornalistas brancos, concentrado no eixo Rio-São Paulo, reage contra esse movimento apontando para cenários catastróficos, como se, por causa das cotas, as universidades brasileiras pudessem ser palco de genocídios como o do nazismo e o de Ruanda!

Como não podem negar a necessidade de alguma política de inclusão racial, passam a repetir tediosamente aquilo que todos sabem e do que ninguém discorda: não existem raças no sentido biológico do termo.

E, contrariando inclusive todos os dados oficiais sobre a desigualdade racial produzidos pelo IBGE e pelo Ipea, começam a negar a própria existência de racismo no Brasil.

Fugindo do debate substantivo, os anticotas optam pela desinformação e pelo negacionismo: raça não existe, logo, não há negros no Brasil; se existem por causa das cotas, não há como identificá-los; logo, não pode haver cotas.

Raças não existem, mas os negros existem, sofrem racismo e a maioria deles está excluída do ensino superior. Felizmente, a consciência de que é preciso incluir, ainda que emergencialmente, só vem crescendo -por isso, a presente década pode ser descrita como a década das cotas no ensino superior no Brasil. Começando com três universidades em 2002, em 2009 já são 94 universidades com ações afirmativas, em 68 das quais com recorte étnico-racial.

Vivemos um rico e criativo processo histórico, resultado de grande mobilização nacional de negros, indígenas e brancos, gerando juntos intensos debates, dentro e fora de universidades. Os modelos aprovados são inúmeros, cada um deles tentando refletir realidades regionais e dinâmicas específicas de cada universidade.

Essa nova consciência acadêmica refletiu positivamente no CNPq, que acaba de reservar 600 bolsas de iniciação científica para cotistas. Se o século 20 no Brasil foi o século da desigualdade racial, surge uma nova consciência de que o século 21 será o século da igualdade étnica e racial no ensino superior e na pesquisa.

JOSÉ JORGE DE CARVALHO é professor da UnB (Universidade de Brasília) e coordenador do INCT – Instituto de Inclusão no Ensino Superior e na Pesquisa do CNPq. É autor de “Inclusão Étnica e Racial no Brasil” (Attar Editorial).

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Autor: Juarez Silva (Manaus)

Analista de T.I, Prof. Universitário, Tít. de Especialista em Educação a Distância (Univ. Católica de Brasília), Certificação em História e Cultura africana e afrobrasileira (FINOM-MG) e em Direitos Humanos e Mediação de Conflitos (SEEDH- Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República), Mestrando em História pela UFAM - Universidade Federal do Amazonas, Ex-Conselheiro Estadual de DH; Analista Judiciário do Quadro efetivo do Tribunal de Justiça do Amazonas. Ativista do Movimento Negro.

6 pensamentos sobre “Prof. José Jorge na Folha de SP: Cotas uma nova consciência acadêmica

  1. A verdade sempre foi: as universidades pública sempre agiram prejudicnado o ingresso da rede pública e favorecendo quem paga pré-vestibular. Quem só estudou 12 anos na rede pública, ao abrir a prova vai se senti idiota até, só passa por milagre. Quem fizer três meses de pré-vesitbular vai se sentir um gênio, só não passa por milagre. É isso que os meus estudos provam e quase ninguém desconhece isso, apenas como não serve para fazer politicagem de tudo quanto é tipo, fazem de conta que nada sabem.

  2. A verdade sempre foi: as universidades pública sempre agiram prejudicnado o ingresso da rede pública e favorecendo quem paga pré-vestibular. Quem só estudou 12 anos na rede pública, ao abrir a prova vai se senti idiota até, só passa por milagre. Quem fizer três meses de pré-vesitbular vai se sentir um gênio, só não passa por milagre. É isso que os meus estudos provam e quase ninguém desconhece isso, apenas como não serve para fazer politicagem de tudo quanto é tipo, fazem de conta que nada sabem.

  3. Professor, em minha sincera opiniao o maior problema das cotas em alguns estados pobres como a Bahia é que elas só permitem o ingresso de negros q estudaram em escolas publicas. Isso constitui um grande problema, jah q há escolas particulares na Bahia q n saum de grande qualidade educacional e outras publicas q saum quase como uma universidade (ex: o cefet). Assim, mts negros pobres deixam de ter esta oportunidade pq têm q concorrer c pessoas das escolas particulares de mais alto nível de ensino. Acredito q as cotas deveriam ser para alunos pobres – pq assim abrangeriam grande parte dos negros (especialmente em Salvador, q ha uma maioria de negros favelizados), sem ser injustos com os q estudaram em escolas particulares de ensino deficiente. Grande abraço!

    • Bom Regina, a idéia de qualquer ação afirmativa é equilibrar as coisas e dar mais oportunidade aos tradicionalmente excluidos, toda lei tem critérios que visam benefeciar um coletivo e usa como critério a situação mais comum, no caso é sabido que a maioria das escolas públicas tem alunos pobres, as particulares não…, o segundo ponto é que entre os pobres os negros tem histórico social mais desvantajoso e maior dificuldade de mobilidade, logo, o justo é ter um recorte para pobreza com um sub-recorte para os negros; quanto ao caso dos CEFETS e Escolas militares, esses são exemplos raros de escolas públicas com padrão igual ou melhor que privada, a lei não pode se basear na exceção (ex. escolas privadas piores ou iguais públicas) mas sim na regra… , no caso é: escolas privadas são melhores e preparam melhor que as públicas e negros da escola pública tem menos oportunidades que seus colegas brancos…

      Abraço !

  4. Professor, em minha sincera opiniao o maior problema das cotas em alguns estados pobres como a Bahia é que elas só permitem o ingresso de negros q estudaram em escolas publicas. Isso constitui um grande problema, jah q há escolas particulares na Bahia q n saum de grande qualidade educacional e outras publicas q saum quase como uma universidade (ex: o cefet). Assim, mts negros pobres deixam de ter esta oportunidade pq têm q concorrer c pessoas das escolas particulares de mais alto nível de ensino. Acredito q as cotas deveriam ser para alunos pobres – pq assim abrangeriam grande parte dos negros (especialmente em Salvador, q ha uma maioria de negros favelizados), sem ser injustos com os q estudaram em escolas particulares de ensino deficiente. Grande abraço!

    • Bom Regina, a idéia de qualquer ação afirmativa é equilibrar as coisas e dar mais oportunidade aos tradicionalmente excluidos, toda lei tem critérios que visam benefeciar um coletivo e usa como critério a situação mais comum, no caso é sabido que a maioria das escolas públicas tem alunos pobres, as particulares não…, o segundo ponto é que entre os pobres os negros tem histórico social mais desvantajoso e maior dificuldade de mobilidade, logo, o justo é ter um recorte para pobreza com um sub-recorte para os negros; quanto ao caso dos CEFETS e Escolas militares, esses são exemplos raros de escolas públicas com padrão igual ou melhor que privada, a lei não pode se basear na exceção (ex. escolas privadas piores ou iguais públicas) mas sim na regra… , no caso é: escolas privadas são melhores e preparam melhor que as públicas e negros da escola pública tem menos oportunidades que seus colegas brancos…

      Abraço !

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